Butão: Uma variante diferente de desenvolvimento

O professor Jeffrey Sachs é um conselheiro das Nações Unidas e um dos mais reputados Professores de Economia do mundo, com cátedra na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

O economista publicou recentemente uma fascinante narrativa da sua viagem ao reino budista do Butão produzindo uma série de ensinamentos que podem ser aplicados em qualquer outra economia.

A dura realidade geográfica do Butão criou uma população de resistentes agricultores e pastores, habituados a vencerem um clima agreste e inclemente. A estrutura cultural que permitiu o desenvolvimento da forma especial de criar uma estrutura económica tão resiliente como a butanesa é o budismo.

Tradicionalmente, o principal traço distintivo da economia butanesa é a sua autosuficiência, mas isso começou a mudar quando o país teve a sorte de poder contar com uma sucessão de monarcas que encetaram um conjunto consistente e ambicioso de programas de modernização que se estenderam das estradas, à energia, passando pela Saúde e Educação. Em simultâneo abriam-se laços comerciais com a Índia e a incorporar níveis crescentes de democracia naquela que era em finais do século XX uma das monarquias mais absolutistas do mundo.

O Butão não foi o único país da região a modernizar-se. Mas fê-lo de uma forma única ao deixar que este processo de transformação interna fosse liderada pela forma budista de estar e encarar o mundo. Com efeito, o Butão procurou compatibilizar a modernização da sua economia com a Cultura do seu país e com o bem-estar da sua população.

O primeiro factor que diferencia o Butão é o enfoque nao no deformado PIB (Produto Interno Bruto) mas no crescimento do produto nacional de felicidade (GNH, em inglês). O GNH, contudo, é aplicado de uma forma não absoluta, mas flexível e decorrente de um processo ativo e deliberativo interno.

Os critérios do GNH adotados no Butão são compostos por um agregado que resulta da composição de uma série de necessidades básicas, como Saúde, redução da mortalidade materno-infantil, melhoria do sistema educativo e das infraestruturas de água, saneamento e distribuição de energia elétrica. Este enfoque no GNH permite produzir uma imagem económica mais realista de um país onde o PIB é baixo e as exportações, limitadas.

O Butão procura também desenvolver a sua economia sem colocar em causa a sustentabilidade ambiental, havendo um grande empenho em preservar as grandes florestas deste país asiático, salvaguardando este património natural e a sua grande biodiversidade.

O desenvolvimento butanês busca também preservar a cultura especial deste país budista, procurando formas de encontrar a estabilidade psicológica num ambiente de rápidas transformações e sem cair nos destrutivos (em termos pessoais e ambientais) padrões de hiper-consumo que caraterizam a economia ocidental. O hiper-consumo tem várias consequências muito nefastas para o indivíduo, como elevados níveis de agressividade e solidão que provocam desequilíbrios emocionais profundos que geram – em ondas – níveis de desordem social crescentes. Tal viragem para o indivíduo e desvio do primado da comunidade sobre o Eu tem sido provocado por máquinas bem oleadas e de escala global de marketing e publicidade. Não haveria hiper-consumismo (nem as suas consequências) sem Publicidade de massas.

É contra este hiper-consumismo que carateriza o papel do cidadão-consumidor no Capitalismo moderno que o Butão tenta encontrar um modelo alternativo: conciliando o bem-estar essencial disponibilizado pela tecnologia moderna e pela plena satisfação das necessidades básicas com uma economia desenvolvida. Para esta satisfação são necessárias – pelo menos numa primeira fase – divisas estrangeiras prara pagar importações dos bens necessários à satisfação dessas necessidades básicas e, felizmente, estas estão disponíveis graças à exportação de energia hidroeléctrica para uma Índia cada vez mais carente desta. Com estas divisas, o governo butanês está a modernizar os sistemas públicos de Saúde e Educação e a construir as infra-estruturas que nunca existiram neste país.

Mas o maior ensinamento do Butão é o seu objetivo de conciliar o Budismo – o eixo central da sua Cultura – com Desenvolvimento: neste inédito trabalho de conciliação a felicidade surge não através da obtenção de uma quantidade máxima de bens mas pela reflexão interior e pela satisfação das necessidades primarias. Um exemplo em que há que refletir.

Fontes:
http:/www.project-syndicate.org
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=442181

Categories: Economia, Política Internacional | Etiquetas: | 8 comentários

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8 thoughts on “Butão: Uma variante diferente de desenvolvimento

  1. Juca

    Lembro q um dos primeiros artigos q li na internet, assim q comprei meu primeiro PC em 2001, era um artigo do site NoMínimo alertando para a entrada da TV via satélite no Butão e o crescimento da violência e do consumo de drogas. É impressionante a força destrutiva da cultura ocidental do consumismo. Excelente post.

  2. LuisM

    Jeffrey Sachs esteve na primeira onda de assalto do movimento neoliberal logo após a queda do muro. Aplicou as desastrosas terapias de choque em países que sofriam mudanças abruptas como foi o caso do México e da Bolívia e aplaudiu o que fora feito em termos económicos no Chile do infame Pinochet bem como foi partidário do tatcherismo.

    No caso da transição russa dos anos Ieltsin, as más línguas diziam que era ele que mandava por fax as reformas que Yegor Gaidar devia implementar.

    Tudo isto vem descrito na sua obra “O fim da pobreza”.

    No entanto, Sachs é também um homem bom e que efectivamente pensava que aquilo em que acreditava era a fórmula correcta, e com o passar dos anos e face aos desastrosos resultados das políticas ultraliberais, Sachs veio mudando de opinião tendo até escrito um texto recentemente onde atacava Hayek que para muitos é o “pai” do movimento neoliberal.

    Com o caso corrente do Butão, a moral da história é que os desígnios políticos têm de ter princípios e valores acima da economia e quando apenas fica a economia a mandar, tudo acaba por seguir os mandamentos da ganância, egoísmo e lucro rápido e fácil.

  3. Odin

    >Jeffrey Sachs pode até ter sido neoliberal, mas caso tenha se arrependido, não deve ser eternamente acusado. Errar é humano. O problema é que, no ano de 2010, depois de tudo, economístas e políticos insistirem em defender o neoliberalismo.

    “A dura realidade geográfica do Butão criou uma população de resistentes agricultores e pastores, habituados a vencerem um clima agreste e inclemente.”
    > Sim. Tenho percebido, ao pesquisar sobre a história dos povos, que povos que vivem em terras
    com escassez de recursos têm a tendênca de se desenvolverem mais que os que têm farturas de recursos. Exemplos modernos de povos que mostraram progresso: japoneses, judeus, alguns povos europeus. Exemplo moderno de povo onde a fartura desestimula o povo correr atrás, querer produzir: O meu país, o Brasil.

    A estrutura cultural que permitiu o desenvolvimento da forma especial de criar uma estrutura económica tão resiliente como a butanesa é o budismo.”
    >Não carrego bandeira de religião alguma, apesar do meu nick “Odin”. Mas gosto de estudar as religiões. O Budismo é uma das que eu mais estimo e respeito. Não quero julgar e nem entrar em discussão com quem os faz, mas só não aplaudo adoração à estátuas, imagens e, ao celibato obrigatório. Mas os ensinamentos de Sidarta Gautama, o Shakyamuni, são elevados até se comparados com os princípios dos dias atuais. Não quero impor nada a ninguém, mas interpreto como uma das causas do sofrimento das pessoas, principalmente no Ocidente, é a falta de espiritualidade. Religiosidade não é espiritualidade, são coisas distintas. O que é religiosidade, ter religião?
    Religosidade é pode ser definida como crença em Deus ou nos deuses a serem adorados, geralmente expressada em conduta e ritual quase sempre envolvendo um código de moral.
    O religioso é aquele que frequenta a igreja ou outro tipo de templo, como um clube social com outros que acreditam nas mesmas coisas, segue regras às vezes sem saber o porquê, às vezes o faz por costume familiar. É uma experiência humana condicionada a dogmas, ritos, códigos morais, um comportamento voltado mesmo para o exterior, de aparência. O religioso dificilmente consegue evitar de acusar aos outros, principalmente os de fora de sua religião.
    O verdadeiro espiritualizado é aquele que tem o foco em coisas espirituais e no mundo espiritual sem ignorar irracionalmente as coisas terrenas e materiais. Espiritualidade é algo individual, não necessariamente ligado a instituição religiosa. O espiritualizado tem um código moral e ético, mas não tem mania de moralismo. Tem consciência que as outras pessoas não são sua propriedade e não fica vigiando para ver se os outros erram para poder acusar. Procura ajudar aos outros, mas sabe a hora certa de deixar os outros em paz. Sabe que é insensatez querer se controlar os outros, não se julga dono da verdade e da razão, sabe que está sujeito a cometer erros como toda a gente, e que erros são uma oportunidade para aprender, para melhorar como pessoa. Mas por outro lado, não deixa de afirmar o que realmente pensa, quando vê uma coisa que considera errada, não chama tal coisa de certa, mas sem ódio, ira, revolta contra quem comete os erros. Não é hipócrita só porque é tolerante. E não segue o sistema como cordeirinho, antes, é formador de opinião sim. O espiritualizado quer crescer como pessoa, e ajudar aos outros que queiram crescer também. O religioso desprovido de espiritualidade quer derrubar, diminuir e impedir o crescimento dos outros. Quer ser reconhecido como superior, como alguém melhor do que os outros, quer ser o centro das atenções. É pseudomoralista. O que a humanidade necessita, é de espiritualidade.

  4. Gostaria mt q o BRASIL, pudesse adotar esse índice de desenvolvimento , por ser o mesmo + humanos, e bem menos espoliador, valorizando td os recursos da natureza. Mt bom, Sds.

  5. Fenix

    Com a brisa do vento nessa alta montamha que fica acima das nuvens o PIB voo para dar lugar ao que realmente faz sentido para a pessoas a sua Felicidade e Felecidade de todos de “butão”e bruta.Com a sua paisagem tão bruta e agreste não podia ser diferente.Pois se no paraiso ele vvivem em Felicidade para que o inferno do PIB.

  6. Exatamente. Há outras formas de desenvolvimento bem diferentes daquelas que os estafados senhores do “pensamento único” nos querem vender.
    Abramos os olhos e escutemos tudo o que anda por aí… e aprendamos…
    com toda a humildade do mundo.

  7. LuisM

    Um excelente artigo merecedor de ser lido e bastante revelador do (grande) carácter de Jeffrey Sachs:

    http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=447965

    • Otus scops

      “A lição que podemos tirar da situação dos Estados Unidos é que o crescimento económico não é garantia de bem-estar social e de estabilidade política. A sociedade norte-americana está a tornar-se cada vez mais dura, onde os mais ricos compram a sua participação no poder político e os mais pobres são abandonados à sua sorte. Nas suas vidas privadas, os norte-americanos tornaram-se dependentes do consumismo, o que lhes rouba tempo, poupanças, atenção e propensão para participar em actos de compaixão colectiva.

      O mundo deve ter cuidado. A não ser que acabemos com as horríveis tendências do dinheiro na política e do consumismo desenfreado, corremos o risco de alcançar a produtividade económica à custa da nossa humanidade.”

      deveras preocupante…

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