O crescimento explosivo e contínuo da economia chinesa tem um reverso

O crescimento explosivo e contínuo da economia chinesa tem um reverso. Um bom exemplo são as fábricas que a Dell mantêm na China e onde turnos de dez horas são regra, trabalhando quase sempre de pé a troco de aproximadamente 107 euros. Recentemente, uma empresa chinesa chamada Foxconn que fabrica para a Apple, Nokia, Genius e outras multinacionais foi notícia internacional pelas piores razões: doze dos seus trabalhadores tinham cometido suicídio em resultado de péssimas condições de trabalho e de crescentes e inumanas pressões de “produtividade”. em todas as fábricas da Honda, os trabalhadores fizeram greve protestando contra os turnos de 12 horas e os ordenados de apenas 179 euros.

Um pouco por toda a China, os trabalhadores começam a tomar consciência dos seus direitos e a despertar de uma passividade que permitiu toda a espécie de abusos por parte do seu patronato e das corporações multinacionais.

A China contudo tem um grande problema para resolver: a desigualdade na distribuicao de rendimentos. A nova camada social de 100 milhões de pessoas que é inédita na China e que tem padrões de consumo semelhantes a qualquer outra classe média ocidental é muito invejada pelos restantes 1300 milhões e a próspera e florescente elite de milionários ainda mais… e não está fora de equação que estas greves e ondas de suicídios e de ataques tresloucados a escolas possam criar uma onda imparável que ameace a prazo a própria sobrevivencia da unidade da China e do regime comunista.

Durante quanto mais tempo irá permitir esta classe numerosa de trabalhadores fabris tratada como escravos pela elite corporativa antes de revoltar contra ela e o governo que tolera a manutenção desta situacao? Quanto mais tempo serão permitidos turnos de trabalho de 10 horas seguidas em que não se pode falar com o colega do lado, se dorme em beliches num barracão ao lado da fábrica e há apenas autorização para ir à casa de banho de 2 em 2 horas? São estas as condições laborais da Foxconn que emprega quase um milhao de chineses e fabrica produtos para a Genius, Apple e Microsoft, entre muitas outras multinacionais norte-americanas.

Noutras empresas – onde têm ocorrido vagas de greves – como é o caso das fábricas da Honda na China a administração ofereceu aumentos de 24% para acabar com elas, sinal de que a época de trabalhadores doceis e subremunerados está a acabar… se este movimento se instalar, então é de esperar que as empresas multinacionais (entre as quais se contam agora algumas chinesas) busquem em África os países de mao-de-obra barata que na China já não conseguem recrutar… isso a prazo pode significar duas coisas: o aumento do preço de muitos bens manufaturados (nesta fase de transição para África) e o incremento do PIB de muitos países africanos…

A China atravessa contudo um outro problema que tem toda a potencialidade para ser ainda mais grave: a explosão da Bolha do Imobiliário. A construção delirante registada em inúmeras cidades do sul da China produziu um incremento perigoso do valor das habitações. O governo de Pequim reconheceu finalmente a gravidade do problema (recordemo-nos que foi a destinação da bolha especulativa imobiliária do subprime que esteve na origem da presente recessão global) e lançou uma série de medidas para a combater como o aumento de impostos sobre o imobiliário. O problema é tão sério que um tal de Li Daokui, membro do governo de Pequim declarou ao Finantial Times que “O problema do mercado imobiliário na China é agora muito mais fundamental e muito maior do que o problema do mercado imobiliário nos EUA e no Reino Unido antes da crise financeira”,

Uma China em fase de transição para uma economia de consumidores e com trabalhadores que começam a despertar para os seus direitos conseguirá manter a sua unidade nacional e a autoridade do Estado se tiver que enfrentar simultaneamente uma crise financeira e um declínio abrupto do crescimento como aquele que o estouro da bolha imobiliária especulativa criou em 2008 na Europa e nos EUA? É altamente duvidoso…

Fonte:
http://economia.publico.pt/Noticia/china-a-fabrica-do-mundo-tambem-quer-ter-carro-e-casa-propria_1440718

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Categories: China, Economia | 5 comentários

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5 thoughts on “O crescimento explosivo e contínuo da economia chinesa tem um reverso

  1. Se 100 milhões consome e o resto bate palmas,estão caminhando p o inferno social…é mt preocupante, a situação interna da china , tem q dividir melhor a renda. O Haiti passou a existir em decorrência do levante dos + necessitados , a maioria, e eles tem armas nucleares…espero estar mt enganado, isso é mt bom.

  2. LuisM

    Vamos todos torcer para que a China caia…antes de nos tornarem a todos em chineses!

  3. não é preciso que caia… basta que se torne democrática para que os seus povos corrijam todos os desvios ambientais, laborais e em direitos humanos e que o Tibete e o Xinjiang se tornem independentes.
    É por isso que devemos torcer: pela democratização da China. O resto virá por arrasto.

  4. Pegasus

    Oh clavis…

    O pais simbolo da liberdade e democracia é os EUA e veja como estão e como ajem com o mundo, toda mundança pode trazer resultados inesperados e os chineses começam a experimentar os seus.

    Sinceramente, não sei muito o que esperar do mundo nos proximos tempos, é fazer minha parte da melhor forma possivel e esperar, afinal, no ultimo caso , sempre teremos Deus pra recorrer, só espero que essa humildade não demore demais para quem rege o mundo.

  5. o que esperar?…. assim que a crise financeira amainar, conta com um bombardeamento às instalações nucleares do Irão… conta com isto!

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