Contradições?

Recentemente, numa boa conversa com um amigo do MIL tive oportunidade para abordar uma questao que aos olhos de alguns pode aparentar ser uma contradição no meu pensamento: a defesa das Economias Locais e a da integração entre empresas dos países lusófonos, especialmente entre grandes empresas (como a GALP e a Petrobras ou a TAP e a TAM).

Existe assim uma contradição entre esta defesa do “Small is Beautiful” e defesa da aproximação destas empresas lusófonas? Não. Defendo com grande ardor a aproximação – a todos os níveis – dos países lusófonos e como bem recordava o professor Mendo Pereira no último debate do MIL a economia é a infraestrutura das sociedades modernas. Como defender assim a aproximação dos países lusófonos sem defender igualmente a aproximação das empresas lusófonas? Não o fazer é que seria contraditório…

Por outro lado, defender a aproximação de grandes empresas lusófonas é contraditório com a defesa de Economias Locais e do “Small is Beautiful”? Sem dúvida, mas apenas numa leitura mais imediatista… as teses do mentor principal do meu pensamento económico é – já se sabe – o professor E. F. Schumacher e este começou a sua carreira como economista ao estudar as ineficiências de uma grande empresa (a siderurgia nacional britânica) e propondo a sua divisão em pequenas empresas, mais eficientes, menos propensas a gerarem desperdícios e – sobretudo – socialmente muito mais úteis. Assim, se por um nível defendo a aproximação a todos os níveis (fusão, compra, parcerias, etc) das empresas lusófonas como forma destas ganharem escala bastante para resistirem às ofensivas de grandes empresas multinacionais, controladas pelos grupos e fundos opacos, apátridas e imorais que hoje dominam a economia global, defendo também formas de neoproteccionismo que defendam a Comunidade Lusófona contra este Capitalismo Global selvagem e imoral. Uma vez repostas as defesas proteccionistas, estas empresas lusófonas poderiam servir de alavancar para reforçar a “alma lusófona” comum que defendemos e serem divididas de forma racional e ponderada nas unidades de exploração menores que recomenda o princípio “Small is Beautiful”.

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Categories: Brasil, E. F. Schumacher Society, Economia, Movimento Internacional Lusófono, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | 12 comentários

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12 thoughts on “Contradições?

  1. Fenix

    Eu também defendo economias locais e neoprotecionismo e pequeno é belo.Podemos ter varias dimensões economicas locais podemos ter pequenas empresas aldeias,vilas e cidades no seu conjunto formam uma economia de um pais mais descentralizado e justo e mais economico. Mas não veijo a contradição de haver também empresas entre paises lusofunos também eles outra dimenção economia local e multicontinental os caso dos transportes aerios por exemplo pode ser descentralizado entre os varios paises e sua capitais depois passando para outra dimenção economica local.Ou seija as capitais de cada pais serve de “zona franca” e de intercambios cultural e de negocios multicontinentais.

  2. Odin

    A economia é um aspecto demasiado importante para levar adiante o ideal da UL. Agora, se for para a UL provocar desemprego ou desvalorização de mão de obra nos países membros, vai falhar com certeza. A globalização é um fenômeno irreversível. O que pode acontecer é que a forma como ela tem sido feita seja revista, não seja mais plenamente neoliberal. É viável que muitas empresas sejam de capital multinacional lusófono, mas não é necessário que sejam todas. A GALP e a Petrobrás é um bom exemplo de fusão que beneficiaria a lusofonia, permitindo também a participação de acionistas dos Palops e do Timor, empresas como canais de Televisão, por exemplo, sejam criadas emissoras novas simultaneamente nos países, ou integrar a Rede Globo e a SIC, por exemplo. É claro que necessitamos de empresas que atuem no mercado mundial, senão seremos subjugados pelo capital internacional apátrida sempre. Por outro lado, empresas pequenas espalhadas pelos países lusófonos, devem ser protegidas da concorrência estrangeira pelos governos, até que se tornem ao menos médias empresas. Pequenos empresários devem receber isenção tributária em troca de gerarem postos de trabalho, formação de cooperativas para que todos os funcionários sejam acionistas, sejam donos de fato das cooperativas, proteger a comunidade do desemprego e da falta de dinheiro. É possível a aproximação de países lusófonos sem a aproximação de empresas lusófonas? Pode até ser possível, mas não vai haver estímulo, vontade, vai ser algo mais fraco ainda que a CPLP atual, uma aproximação vazia, com desânimo. Não há nacionalismo e patriotismo que sobreviva com pobreza, com carência. Os cidadãos dos países lusófonos vão apoiar a união lusófona se virem nela uma oportunidade para prosperar, que todos os cidadãos possam tirar benefícios, como a UE foi vista e desejada. Num mundo onde o capitalismo é dogma, unir países apenas porque falam Português não faz sentido para a maioria. Tem que haver benefícios práticos para grande maioria das pessoas falantes do Português pelo mundo. Então, não há contradições se analisarem a fundo.

    • Fenix

      Economias Locais: a visão de E. F. Schumacher
      Posted by Clavis Prophetarum em 2009/05/18

      Quando em 1955, o economista E.F.Shumacher viajou até à Birmânia como consultor económico não sabia que estava prestes a produzir uma das suas mais importantes obras; “Economia Budista”. Nessa obra sublinhava a importância do “bom trabalho” no desenvolvimento económico e – especialmente – que “a produção de recursos locais para satisfazer necessidades locais era a forma mais racional de vida económica”.

      Depois da sua viagem à Birmânia, Schumacher faria muitas outras viagens por outros países do Terceiro Mundo procurando-os convencer a desenvolverem economias auto-suficientes, advogando que estas deviam ser erguidas em torno daquilo que chamaria de “tecnologia intermédia”, uma classificação que agrupava tecnologias amigáveis, acessíveis e ecológicas.

      Para Schumacher, a produção local é a melhor forma de conhecer a história ecológica e humana por detrás da manufactura de cada produto industrial ou agrícola. Só assim terá o consumidor verdadeiras hipóteses de saber que tipo de matérias-primas, de que forma foram extraídas ou produzidas, como foram processados os subprodutos ou desperdícios da sua produção e, sobretudo, que tipo de recursos laborais e de que forma de condições foram aquelas que estiveram na base da sua produção. Esta Localização da produção é o oposto exato das Deslocalizações de produção para países do Extremo Oriente que afastam dos consumidores a produção e que permitem as condições laborais e ambientais barbaras que se praticam em países como a China e o Vietname e que estando na base dos baixos custos de produção, não seriam possíveis se os consumidores desses mesmos produtos tivessem que conviver com as consequências ecológicas e ambientais dessa produção, nem se tivessem conhecimento direto – por amigos ou familiares – das condições laborais e humanas que a produção desses bens implica.

      Adicionalmente, se a produção é Local, os produtos não precisam de ser transportados a longas distâncias consumindo combustíveis fósseis, poluindo a atmosfera e aumentando as emissões de CO2. Adicionalmente, uma região que utilize a sua força laboral na produção do essencial dos bens que consome está também mais blindada contra as oscilações da economia mundial e contra crises económicas globais como aquela que galopa hoje descontroladamente pelo mundo.

      Enquanto cidadãos, o economista alemão acreditava na possibilidade de cada consumidor assumir uma atitude moral nos seus padrões de consumo. O ato de consumir não se esgota assim na mera satisfação de uma necessidade – real ou forjada pela publicidade – mas numa escolha criteriosa que responsabiliza social e ecologicamente todos os agentes económicos. Por isso, o modelo de Economia Local, implica um elevado nível de consciência cívica e de informação.

      Cada comunidade local deve procurar bastar-se nos produtos mais básicos como alimentos, vestuário e energia e depender de importações apenas complementarmente e em produções mais especializadas. Por regra, toda a produção que implica volume físico dilatado deve ser local, e todo o bem ou equipamento que exige um elevado nível técnico ou um alto grau de especialização, pode ser produzido localmente, e exportados os seus excedentes. Uma comunidade que se consiga organizar localmente, serve de exemplo para as vizinhas e deixa propagar o seu exemplo contaminante pela região onde se insere. Importa assim fundar uma primeira comunidade seguindo estes moldes, não instaurar o modelo súbita e genericamente em toda uma região ou país, de forma segura e consistente, num único local ou município e depois deixar florescer esse exemplo.

      Qualquer sistema económico depende do diálogo harmónico de três factores: terra, trabalho e capital. Por terra, entenda-se além do território, também os recursos naturais que a produção exige, como as matérias-primas, a energia e o espaço físico necessário para a cultura agrícola ou para a instalação da fabrica ou do armazém. O Trabalho é o esforço necessário para fazer a matéria-prima mudar de estado e forma, tornando-se no bem ou serviço consumido. Por fim, o Capital consiste na capacidade organizativa dos dois recursos anteriores: Terra e Trabalho, na energia polarizadora desses recursos e na disponibilidade mobilizadora de ambos. Só o Capital poderá organizar a produção e possibilitar a distribuição dos bens produzidos, sendo assim um aspecto sempre importante de qualquer atividade económica. Compreender esta arquitectura trilateral é essencial para desenvolver Economias Locais prosperas e estáveis.

      O elemento primário desta trilogia é a Terra. Sendo primário a uma Economia Local, este elemento deveria ser realmente propriedade de alguém? A terra deve pertencer à comunidade que nela habita, não a um indivíduo em particular, porque só assim poderá realmente participar no desenvolvimento da Economia Local. Não quer isto dizer que somos contra a propriedade privada. Quer dizer que somos contra a propriedade privada da terra e que defendemos neste contexto o conceito de “não propriedade” ou “propriedade comunal” como a que ainda subsiste nalgumas aldeias portuguesas e que era comum nos “bailios” medievais portugueses. O modelo é hoje usado nos EUA sob a forma das “Community Land Trusts” que a E.F.Shumacher Society tem promovido e apoiado.

      Nos EUA, as “Community Land Trusts” são empresas não lucrativas com um quadro de diretores democraticamente eleito. As suas terras resultam de ofertas e aquisição e são alvo de um plano de desenvolvimento que se rege pelas necessidades de consumo locais. Os edifícios construídos sobre essas terras comunais são propriedade privada, mas não o solo sobre o qual foram construídos e se forem vendidos, o seu valor deve ser oferecido à “terra comunitária” (Land Trust) ao valor dispendido apenas na sua construção. O proprietário pode assim conservar o produto do trabalho aplicado sobre a terra, mas não a própria terra, que permanece sempre nas mãos da comunidade.

      Nos Estados Unidos há perto de 150 “terras comunitárias”. Sobrevivendo em relativa prosperidade, pela sua escassa área, estas parcelas de solo comum ainda não lograram cumprir a totalidade das suas promessas e dependem ainda da sua expansão e do apoio devoto de muitos entusiastas.

      O Capital é o segundo elemento determinante da trilogia económica schumacheriana. O economista admite ao Capital o papel de simples ferramente de obtenção de crédito e de facilitar trocas numa comunidade. Oferecendo o controlo da emissão de moeda a uma coligação de Bancos (o modelo do FED, nos EUA) ou a um Banco Central, mais ou menos governamentalizado (Europa), estamos a criar um sistema onde o grandes emprestadores são favorecidos em relação aos pequenos e a favorecer a concentração bancária excessiva que esteve na raiz do quase colapso do sistema financeiro na presente recessão mundial: concentrar a Banca, pela via das fusões e aquisições sucessivas, criando um pequeno número de mega-bancos, é introduzir um imenso factor único de falha no sistema, porque quanto maior fôr a escala mais difícil será a um governo salvar o banco da falência e maior será o impacto do seu colapso na Economia real. A centralização bancária favorece também a centralização e a aparição de monopólios noutros sectores da economia, já que os grandes bancos preferem emprestar a grandes empresas, de escala semelhante à deles e assim tornam-se inimigos das pequenas e médias empresas e sobretudo, das empresas que apenas têm uma escala e um mercado local, já que favorecem as de vocação exportadora e globalizadas, ou seja, aquelas que pela sua essência, lhes são semelhantes.

      Um dos cernes da proposta económica shumacheriana é precisamente o combate a esta concentração e a este monopólio do Capital. Democratizando o Capital pelo estabelecimento de moedas locais, opostas e complementares a moedas nacionais e favorecendo o estabelecimento de bancos de pequena dimensão que as emitam e financiem o consumo e a produção locais.

      Nestes três factores de produção falta abortar o mais importante: o Trabalho. Sem a dignificação do trabalhador, com horários e retribuições humanas e razoáveis será impossível assegurar uma economia local minimamente estável.

      Nas novas Economias Locais antecipadas por Schumacher, os bens consumidos na região, serão essencialmente produzidos na mesma região, sempre seguindo formas de produção sustentadas, na perspectiva ecológica, social e respeitando os valores e identidades culturais locais. Esta combinação só pode ser alcançada através da injecção de doses massivas de inovação e criatividade no tecido económico local e recorrendo invariavelmente a tecnologias intermédias, de pequena escala física e de capital e capazes de serem implementadas recorrendo apenas aos recursos energéticos locais. Quando os trabalhadores têm acesso a baixo custo à terra e dispõe de Capital a juros baixos podem criar os seus negócios e empresas locais, de pequena e média escala. Esta aproximação entre a propriedade e a produção significa que a riqueza produzida será distribuída de uma forma muito mais equitativa. Neste esquema o papel do consumidor não pode ser passivo ou acrítico, escolhendo apenas o produto que é mais barato, mas aquele que é mais “económico” agindo como um consumidor que escolhe segundo a sua própria consciência cívica e ecológica. E é nosso dever moral apoiar as empresas locais, em que a propriedade seja dos seus próprios trabalhadores em regime comunal (terra e edifícios) ou cooperativo, porque esta é a forma que melhor garante uma distribuição equitativa dos rendimentos do trabalho.

      A construção de economias locais sustentáveis é crucial para a sobrevivência do Homem sobre a Terra. Só elas podem oferecer o tipo de pegada ecológica que protege o clima (pela sua escala), o património ecológico local e as especificidades culturais locais.

      No livro “As Cidades e a Riqueza das Nações”, Jane Jacobs defende que a melhor estratégia para o desenvolvimento económico é apostar industrias capazes de produzir produtos que são atualmente são importados, e transformar matérias primas produzidas localmente, através do Trabalho local. Estas industrias locais são exatamente o oposto das atuais fabricas das multinacionais que abrem e fecham de um dia para o outro, deslocando-se pelo mundo fora ao sabor dos custos de mão-de-obra mais baixos. Inversamente, as empresas locais são mais resistentes aos caprichos da Globalização e estabelecem fortes ancoras locais de desenvolvimento, emprego e progresso.

      Uma economia local verdadeiramente autónoma exige a fundação de novas organizações que a possam apoiar. Estas organizações não podem ser governamentais, têm que brotar da comunidade e alimentarem-se da sua dinâmica e do seu voluntarismo. Falamos de associações de consumidores e produtores, cooperando umas com as outras, as primeiras promovendo a partilha de informação sobre um consumo moderado, ético e local, as segundas agregando produtores e recolhendo benefícios da gestão em escala, organizando a produção e partilhando a distribuição e o armazenamento. Estas organizações terão apenas escala local, mas poderão formar confederações nacionais para efeitos de contacto, partilha de “boas práticas” e para manutenção de trocas que possam completar especificidades e necessidades locais. Estas entidades – privadas, porque detidas por indivíduos – trabalharão na comunidade e para a comunidade, respeitando o solo, a terra e usufruindo dos recursos naturais e energéticos de forma sustentável.

      A construção deste novo edifício não será fácil nem rápida. Obriga a uma alteração radical dos nossos comportamentos e implica uma modificação profunda dos nossos padrões de consumo: consumir menos e melhor, no sentido em que cada escolha de consumo deve respeitar critérios éticos e deixar de consumir tantos bens materiais e mais bens culturais. Os Homens devem renegar o papel de consumidores passivos onde os neoliberais os querem encaixar e passar a ser co-produtores e criadores de riqueza material e de conteúdos culturais. A instauração de Moedas Locais, de quintas comunitárias, de fundos de capital comunitários, de micro-empresas detidas pelos próprios empregados e de alianças entre empresas locais, todos estes instrumentos poderão ser usados, rua a rua, de grupo de amigos para grupo de amigos, de cidade em cidade, gradual mas seguramente até alcançar todo o país.

  3. Fenix

    Em Defesa das Moedas e das Economias Locais contra os malefícios da Globalização
    Posted by Clavis Prophetarum em 2009/04/12

    As economias mais sustentáveis – do ponto de vista e ambiental – serão sempre aquelas onde os bens consumidos numa dada região são também aqueles que são produzidos na mesma região, por trabalhadores que residem nas suas imediações. O economista alemão E. F. Schumacher designou este sistema económico como uma “economia da permanência”. O economista apresentaria os seus modelos alternativos de economia ao mundo pela primeira vez em 1974, no seu livro “O Pequeno é Belo, a Economia como se as pessoas importassem”.

    Uma das ferramentas mais importantes para propiciar ao surgimento de Economias Locais sólidas e sustentáveis são as Moedas Locais.

    Na atual economia globalizada, as moedas nacionais (como o dólar norte-americano) ou transnacionais (como o Euro europeu) têm contribuído para a concentração da riqueza e para o aprofundamento do fosso entre ricos e pobres, para a destruição das comunidades locais pela aniquilação do comercio local e toda a atividade industrial e agrícola que é deslocalizada. Esse interior, cada vez mais desertificado e onde os municípios se constituem inevitavelmente como o primeiro empregador é, nos países ditos “desenvolvidos”, a maior vítima da globalização. Nos países ditos do “terceiro mundo”, é o ambiente, a ecologia e a biodiversidade que sofrem com as culturas intensivas de plantação, com a exploração desregrada das matérias-primas e com condições de trabalho sub-humanas. As Moedas Locais permitirão respeitar as identidades regionais, quer económicas, quer culturais, de uma forma que não sucede com as moedas nacionais (que tudo subjugam em favor dos interesses do Centro) ou transnacionais (que tudo subordinam em favor dos jogos de interesses de uma burocracia pseudo-federal). As Moedas Locais permitem definir uma zona regional de comércio, abrangida pela vigência da Moeda Local e defendida das voracidades e dos “dumpings” laborais, ecológicos e ambientais que caracterizam a Globalização. As pequenas e médias empresas locais não têm a escala para resistir a estes “dumpings” múltiplos patrocinados por gigantescas multinacionais globais, detentoras de recursos quase ilimitados e capazes de destruir, por anexação, todos os negócios locais num verbo que nos EUA já mereceu a invenção do verbo “Walmartização” e que em Portugal se exprime pela voraz multiplicação dos Hipermercados e pelos seus efeitos eucalípticos no pequeno comércio. O uso de Moedas Locais no comércio local funciona como uma membrana protectora porque as grandes empresas globais, de capitais e de propriedade externa à região da vigência da Moeda, ainda que a possam adoptar terão que a cambiar (com os custos e perda de recursos decorrente) antes de exportar a riqueza localmente recolhida.

    Uma das experiências modernas com Moedas Locais foi realizada na década de setenta, em Exeter, no New Hampshire (EUA). A experiência foi conduzida por Robert Swann e Ralph Borsodi, da E.F.Schumacher Society. Mais tarde, outras moedas foram ensaiadas, como os Deli Dollars, as Berkshire Farm Preserve Nortes e as BerkShares, estando a última ainda em vigência.

    História das Moedas Locais

    No século dezanove muitos bancos comerciais emitiam a sua própria moeda. Estas geralmente emissões serviam para financiar um empréstimo “produtivo”, isto é, um que servisse para um investimento em maquinas, equipamentos ou em terrenos que permitisse a prazo aumentar a qualidade ou a quantidade da produção. Foi só em 1913 que as moedas locais foram substituídas pelo dinheiro federal emitido por uma coligação de Bancos privados dos Estados Unidos que hoje assume o papel de “banco central”, sem que nunca verdadeiramente o tenha sido…

    A moeda local “The Constant” foi emitida pela primeira vez em 1972 e circulou até 1973 em Exeter, no New Hampshire, circulando entre organizações não-lucrativas. Em 1991, em Ithaca, Nova Iorque, outra experiência foi conduzida com uma moeda local para comércio de bens e serviços locais. Cada nota desta moeda continha unidades de “hora-trabalho”. As “Horas” eram emitidas aos proprietários de pequenos negócios que as queriam utilizar para realizarem trocas de bens e serviços. O conceito era de que as “Horas” seriam sustentadas pela produtividade daqueles a quem emitidas, mantendo assim um valor mesmo apesar de todas as flutuações dos dólares federais.

    A moeda local “Horas” haveria de se propagar por mais cinquenta comunidades nos EUA e no Canadá. Em algumas, a Moeda Local continua ainda hoje em atividade e hoje está novamente em expansão com um programa de “seguros de saúde local” e com uma “União Alternativa de Crédito”.

    Mas é, contudo, inegável que a “Horas”, sem ser um fracasso rotundo, também não foi um sucesso… Desde logo, porque os grupos comunitários que apoiaram a aparição da dita nestes cinquenta locais não puderam reservar a ela os recursos necessários para a suportar.

    No Reino Unido, o advogado Edgar Cahn concebeu um programa a que chamou de “Dólares do Tempo”. Os “Dólares do Tempo” mediam a quantidade de horas em que cada vizinho fazia pequenos serviços a outros vizinhos. Todos os tipos de serviços eram passíveis de merecerem “dólares do tempo” em troca dos seus serviços comunitários. Esta Moeda Local – porque era disso que se tratava – não era usada para trocas comerciais como sucedeu com a maioria das Moedas Locais, mas a experiência revelou-se muito útil para reforçar os laços comunitários e valores humanos como a reciprocidade e o espírito de entre-ajuda. Hoje em dia, há várias moedas locais idênticas ativas nos EUA e no Reino Unido.

    O programa “LETS (Local Economic Trading Systems)” teve a sua génese no começo da década de oitenta, no Canadá, em Vancouver e consistia num sistema para-bancário de crédito e débito. Quem quisesse adquirir bens ou serviços disponíveis através do programa LETS contactavam por telefone o coordenador local do programa e pediam-lhe para debitar na sua conta LETS o valor do bem ou serviço adquirido (avaliado na moeda nacional) e este era imediatamente creditado na conta LETS no fornecedor. Este e outros programas idênticos são provavelmente as Moedas Locais mais populares do mundo, mas a sua integração com os sistemas fiscais nacionais não tem sido sempre a mais suave.

    Em 1989 surgiu uma outra Moeda Local quando proprietário de uma loja no Massachusetts, de nome “The Deli”, viu recusado um empréstimo num Banco e emitiu uma moeda sua intitulada “Deli Dollars”. Os clientes da loja compravam oito dólares que, posteriormente, trocavam por sopa ou uma sandes.

    Em 1991, um grupo de dezassete comerciantes em Great Barrington começou a emitir outra moeda local, as BerkShares. Durante algum tempo, os clientes dessas lojas locais por cada dez dólares gastos nessas lojas, receberam um BerkShare. Esses BerkShares podiam depois ser usados nas lojas aderentes, mas apenas durante três dias, criando um ambiente de “festa” e comemoração na rua principal da cidade. Variantes deste modelo, foram ensaiados e em Toronto e em Vancouver, sempre começando por conversões de dinheiro corrente para uma moeda local em curso apenas em lojas locais.

    Outra interessante experiência de “moedas locais”, teve lugar na circunspecta Suíça, em 1934, com a muito bem sucedida “WIR”, um sistema de trocas entre empresas e que não incluía acesso a consumidores finais. Os bens trocados entre empresas eram avaliados em WIR e havia descontos que favoreciam a adopção da Moeda em favor da moeda nacional, o Franco Suíço. Era possível emitir créditos em WIR e a moeda teve na época uma função muito importante na estabilização da economia.

    Fontes:

  4. Fenix

    « Mais alguns excertos…Quids S15: Como se chama este homem? »Réplica a Gaitero sobre as Economias Locais e o Futuro da Lusofonia
    Posted by Clavis Prophetarum em 2009/02/20

    (Logotipo da E. F. Schumacher Society in http://www.schumachersociety.org)

    Este pequeno artigo é uma réplica aqui deixada pelo nosso comentador habitual Gaitero a propósito da atual recessão mundial no passado dia 6 de fevereiro.

    “O sistema capitalista já nasceu com problemas graves e já nasceu fardado a acabar.”

    O Capitalismo Liberal é contudo o mais resiliente, porque flexível e adaptável sistema económico jamais concebido pelo Homem. Levado à classe de dogma religioso, o sistema de organização económica designado por “capitalismo” expõe as suas contradições e incapacidades. Capaz de gerar riqueza, não toma em consideração as consequências desta geração no meio ambiente, nem as condições de vida que impõe aos seus produtores. O Capitalismo não é pois um sistema capaz de auto-regulação (como querem os neoliberais), mas tem de a receber do exterior, dos Estados (cuja redução de Poder e amplitude, defendem os neoliberais) e sobretudo das Democracias e dos seus legítimos e eleitos representantes.

    “Estamos passando por uma crise das maiores já enfrentadas, tudo graças ao sistema capitalista em sua totalidade, o ser humano não existe única e exclusivamente para o consumismo, não devemos mais pensar desta forma, não podemos mais aceitar a atual conjuntura.”

    É aquilo a que Agostinho da Silva intitulava de “cidadão produtor-consumidor”. Uma versão diminuída e acefalamente “limpa” por intermédio de doses massivas de publicidade e de controlo dos meios de comunicação. No atual desregrado sistema capitalista, como dizes, o ser humano é apenas um “recurso humano”, dispensável, redutível à desumana condição de robot, ou, na melhor das hipóteses, de consumidor acrítico e desprovido de critérios morais ou ecológicos na selecção dos bens ou serviços a consumir.

    “É preciso, é necessário que se faça que se desenvolva um novo modelo econômico-social, o sistema capitalista significa nada mais que ”tudo na mão de poucos e nada na mão de muitos ”. Este sistema deu espaço para a Burguesia tomar o poder do mundo, os bancos hoje são os verdadeiros governos, muitos seres humanos estão morrendo de fome, morrendo de doenças graves, muitos seres humanos não tem educação, não tem direito a uma vida digna, isto não esta certo.”

    A distribuição de riqueza sempre foi o grande problema do Capitalismo. A América do sul é neste contexto um excelente (e simultaneamente, péssimo) exemplo: as políticas neoliberais do FMI foram aplicadas cegamente em muitos países a partir da década de oitenta e a Colômbia é neste contexto provavelmente o melhor exemplo: o aumento dos índices macro-económicos não foi acompanhado pela melhoria dos rendimentos das camadas mais pobres nem pela redução da distancia entre classes sociais. O liberalismo, a forma atual que assume o Capitalismo, produziu riqueza, mas não a soube repartir. Os anos do grande Boom da Globalização de finais da década de oitenta e 2007 são bom sinal disso mesmo: em países como a China e o Vietname houve muitos novos ricos e uma melhoria sensível do nível de vida do geral da população, mas os mais ricos, os empresários e os funcionários do Partido, ganharam incomparavelmente mais do que os operários e, especialmente, que os agricultores e os habitantes das zonas rurais.

    “Não estou aqui dizendo para que se volte o socialismo.
    Mas que se crie um novo modelo um modelo com base no comunismo, que mantenha a comunhão a sociedade acima de tudo, um novo modelo que tenha por base o ser humano, um modelo que permita a todos direito a água, luz, saneamento básico, saúde, segurança e principalmente educação.”

    A palavra “Comunismo” está hoje ferida de morte. Tive a sorte de poder visitar a Checoslováquia dois meses apenas depois do colapso do regime comunista e garanto que na época ninguém, mas ninguém mesmo queria falar de comunismo… O exemplo da aplicação “na Terra” da utopia de Marx, na versão gizada por Lenine e Estaline na década de vinte e trinta, haveria de revelar-se profundamente ferida de irrealidade e de dar origem a algumas das maiores vagas repressivas e tiranias mais cruéis da História.

    O falhanço do comunismo, ou melhor dizendo do “sovietismo”, porque é disso que verdadeiramente se tratava, reduziu muito do apelo pela Esquerda, em todo o mundo. A queda do Muro de Berlim arrastou atrás de si, muitos partidos comunistas ou “adoçicou-os” tornando-os mais ou menos “social-democratas”. Esse processo curiosamente não se registou em Portugal, onde o PCP, se manteve fiel à sua “linha dura”. Mas o fim desse “Comunismo” não vedou o futuro a outras alternativas a este Capitalismo neoliberal cujas fragilidades a grave crise económica atual expôs de forma absolutamente gritante. Se as promessa do “Comércio Livre”, de desregulação do sector financeiro nada mais fizeram do que entregar a um grupo muito restrito de especuladores e de Executivos parcelas crescentes de abastança enquanto que a parte do Trabalho era cada vez menor, então é porque estamos num sistema político-económico onde a concentração empresarial corresponde à concentração da riqueza. Onde fusões sucessivas e deslocalizações sistemáticas esvaziam o Ocidente e os países que mais direitos humanos e laborais tinham, e que ameaçam todas as formas de protecção social duramente conquistadas. É preciso acabar com a doentia primazia do sector financeiro sobre o produtivo. Enquanto que um investimento na especulação imobiliária ou bolsista for mais seguro e rentável do que o mesmo investimento num sector produtivo, então estamos no reino do Capital e não do Homem.

    “É preciso unir os povos do nosso planeta, unir a nação Lusófona, por exemplo, seria o começo, e criar programas de identidade, nacionalismo, educação e transferência de riquezas, tornarem o povo igualmente rico, igualmente inteligente.
    Acabar com a PIG (Partido da Imprensa golpista), acabar com os governos corruptos, tornar a sociedade mais digna, mais harmoniosa.”

    Os povos lusófonos têm um papel especial ainda por cumprir na História… Não é por acaso que mesmo nos mais duros anos da ditadura militar nunca o Brasil se lançou em qualquer aventura militar externa. Portugal foi o único império colonial que deixou o seu rei como imperador da colónia emancipada e o único que durante alguns anos deu à colónia o estatuto de capital. Nenhuma outra potência colonial recrutou tantas forças indígenas na sua Guerra Colonial e em nenhuma outra guerra de indulgência, os soldados coloniais, no dia seguinte à assinatura dos acordos de paz, se entregavam a apaixonados jogos de futebol com aqueles que horas antes os atacavam com morteiros e rajadas de Kalashnikov.

    A missão que poderá caber a uma união dos povos lusófonos, que poderá ser prefaciada por uma união política Cabo Verde-Portugal, Portugal-Brasil ou Portugal-São Tomé e Príncipe, sendo depois seguida pelas demais nações lusófonas, poderá ser essa: a de anunciar novas formas de organização dos homens e das economias: mais humanas, essencialmente locais e justas, ecologicamente sustentáveis e que privilegiem o Homem e não o Capital, os interesses financeiros e os indicadores macro-económicos.

    “E tudo deve começar pelo sistema econômico, tudo deve começar com um aumento dos lucros dos funcionários, com a redução da jornada de trabalho, com o aumento da escolaridade, com a criação de projetos, de programas, que envolvam a comunidade, que permitam ao povo que vive dentro de seu bairro tirar um dia da semana para realizar ações educativas. Seja arrumar uma praça, seja limpar um rio, ou reflorestar um parque, um terreno, para fazer brotar em cada ser humano um sentimento de comunhão, de união hoje praticamente instinto.”

    A Economia, a organização do Trabalho e a sua sustentação ecológica serão sem duvida os pontos mais importantes da ação política nos próximos anos. A redistribuição da riqueza, a devolução aos trabalhadores dos rendimentos que têm vindo a perder desde a década de oitenta assim como o regresso a padrões de vida familiar saudáveis é, de facto, imperativa. É impossível continuar a ver as empresas a encontrarem formas mais ou menos subtis de levarem os seus funcionários a cumprirem jornadas de trabalho diárias de dez e doze horas, a trazerem consigo equipamentos portáteis (laptops com 3G, blackberries, telemóveis de serviço, etc) nas ferias, nas baixas por doença, nos fins-de-semana e noites e esperar que ao fim de anos destes abusos as pessoas continuem a manter os mesmos níveis de produtividade.

    Eu não consigo acreditar que o ser humano tenha se tornado fantoche de grandes empresas, que tenha se tornado simplesmente um consumista louco, sem intelectual, sem instinto de discernimento, eu não acredito que nos tornamos monstros prestes a destruir nosso Planeta, prestes a acabar com o próprio povo, prestes a se auto-exterminar. Concordo contigo, quando afirmas que é preciso encontrar formas de ligar as pessoas à comunidade, inserindo-as em associações que se dediquem à melhoria do bairro, da aldeia, enfim, da comunidade local. Todos temos que ter uma intervenção cívica nas nossas comunidades, não deixando esgotar a nossa intervenção política em conversas de café ou em estéreis debates, mas levando-a até às nossas comunidades locais, participando da economia local, consumindo com critérios éticos, ecológicos e favorecendo sempre os produtos produzidos ou transformados por organizações locais. De permeio a tudo, terá que haver um sistema educativo que promova o mérito, a exigência, e, sobretudo, a criatividade em desfavor do ensino escolástico ou demasiado dependente de memorizações massivas. Esta será uma educação popular, no sentido em que respeitará a alma popular e não tecnicismos estéreis tidos como fins em si, quando não passam de meios para alcançar objetivos. Esta “educação popular” respeitará a visão pedagógica de Agostinho da Silva, com uma programação de matérias muito essencial, focada no ensino dos três pilares: matemática, português e artes, deixando todo o demais espaço lectivo para seminários práticos e criativos que respondam à vocação e inclinações de cada um, cobrindo toda as disciplinas do entendimento humano.

    Esta é a visão do futuro e do papel nele que julgo ter a Lusofonia, entendida aqui como o cumprimento do verdadeiro destino de Portugal, malbaratado aquando da imposição do “capitalismo de Estado” e da transmutação perversa e megalómana dos Descobrimentos em Expansão imperialista e do decaimento da atividade exploratória do mundo em atividade exploradora.

    • Odin

      Não discordo. Mas tal como ocorreu com o feudalismo, por exemplo, o capitalismo vai chegar ao fim naturalmente, e não pela imposição de uma revolta armada para forçar a mudança. Foi tentado e fracassou. O consumismo desenfreado é o principal excesso do capitalismo a ser combatido. Consumir, gastar sem parar, é um comportamento irracional. Ao consumir, as pessoas precisam ter responsabilidade, juízo. Não falo de “religião”, falo de espiritualidade, é totalmente diferente uma da outra. É o que falta na grande maioria das pessoas. Por isso que elas não conseguem ser felizes. E um equívoco grande, esperam que terceiros as façam felizes, sendo que sua felicidade depende muito mais delas mesmas. Mas o novo modelo não pode ser imposto pela força/violência. A ex-União Soviética, a China, a Coréia do Norte, Cuba… são exemplos do que foi tentar acabar com o capitalismo através da violência. Tem que começar de baixo pra cima, e seguir naturalmente. Então, deveríamos deixar o capitalismo seguir o seu curso até morrer, apenas contendo os excessos que danificam a sociedade e a natureza.

      Não devemos seguir os passos do “Império de Ferro” (interpretado como as potências anglo-saxônicas pelos que interpretam que os lusófonos são o Quinto Império, no livro “História Secreta do Brasil: O Millenium e o Homem Universal” de Cláudia Bernhardt de Souza Pacheco), o militarismo, a agressividade contra outras nações, nem se aventurar a fazer cruzadas ou jihad pra impôr o novo sistema. E essa transformação pode levar um longo tempo, como levou a passagem do sistema greco-romano para o feudalismo, e do feudalismo para o capitalismo. Vai levar gerações.

      >“Eu não consigo acreditar que o ser humano tenha se tornado fantoche de grandes empresas, que tenha se tornado simplesmente um consumista louco, sem intelectual, sem instinto de discernimento, eu não acredito que nos tornamos monstros prestes a destruir nosso Planeta, prestes a acabar com o próprio povo, prestes a se auto-exterminar.”
      R: Pode acreditar sim. Não está dormindo e tendo um pesadelo. Tudo é real. Está acontecendo mesmo. 😦

      E, se querem que seja realidade o Quinto Império benevolente, insistam em entrar pela passagem estreita, não vão pela passagem larga, que leva à perdição.

      Exponham ao público, criem um Partido Político em cada um dos países lusófonos, e tentem pela Democracia, através do voto popular, ascender ao poder nos países lusófonos. É necessário que o povo, que os eleitores estejam de acordo. Então, muita paciência. Lembrem-se do exemplo do Gandhi ao libertar a Índia do Império Britânico, na paciênca, na persistência, e dando exemplo através do comportamento, conseguiu apoio popular, e não atirou em nenhum britânico. Persistência não é necessariamente imposição, vão até onde os povos permitirem.

  5. Fenix

    A Solução para a Recessão Mundial passa por uma mudança de paradigma: Localização em lugar de Globalização
    Posted by Clavis Prophetarum em 2009/02/05

    A presente recessão mundial está para durar. Não é uma simples descida conjuntural resultante de uma inexistente subida dos preços da energia ou dos combustíveis nem sequer de problemas graves no sector financeiro que reduzem a liquidez de Capital na economia. Pelo contrário, a situação atual tem uma raiz estrutural e como tal, não será sanada rapidamente.

    A depressão atual radica nos problemas daquele modelo de Desenvolvimento económico que os economistas do “pensamento único” Neoliberal e globalista nos venderam como única solução e que durante quase vinte anos pareceu funcionar bem, trazendo prosperidade aos países fornecedores de matérias-primas e de produtos manufacturados e mantendo elevados padrões de vida nos países consumidores, algures no Ocidente. Mas algo estava literalmente “quebrado” no sistema: ainda que fosse possível ir transferindo discreta mas paulatinamente todas as indústrias para o Oriente durante algum tempo, este ermamento industrial haveria de se sentir, mais cedo ou mais tarde, nos países que assim iam evaporando a sua tessitura industrial. É que com as fabricas que partiam, partiam também milhões de empregos e com eles milhões de consumidores. No Oriente, a economia ía crescendo à custa de mão-de-obra abundante e barata, no Ocidente, o consumo ía sendo sustentado por níveis de vida mantidos artificialmente altos por elevados níveis de endividamento. Um dia este recurso sistemático ao crédito iria tornar-se impossível alto para continuar a crescer e as primeiras a sentir esta reversão de fluxo seriam precisamente as empresas do sector financeiro. E foi isso precisamente que aconteceu, em meados de 2008…

    O problema maior reside portanto num sistema de Globalização que depende de enormes transferencias de bens e equipamentos de um canto para o outro do mundo. Depois de séculos em que o comercio internacional foi considerado acessório e complementar, a partir da década de 90, este tornou-se essencial em quase todo o tipo de produtos. Colheres, facas, cereais, brinquedos, computadores, etc, tudo é fabricado algures no exterior e nada é fabricado localmente. Esse é o paradigma que tem que desaparecer. E enquanto assim não fôr, esta recessão não irá parar de se agravar até criar convulsões sociais e níveis de criminalidade insustentáveis e destrutivas para qualquer sociedade no mundo. No oriente, haverá revoltas sociais porque as fabricas deixaram de fabricar para a exportação ao nível anterior, no ocidente, no ocidente porque os níveis de desemprego serão insustentáveis. Os Bancos que emprestaram desregradamente têm que falir e dar lugar a novas formas de gestão de Capital mais responsáveis e mais locais. Os empregos e as empresas devem refocar-se nos mercados locais, os padrões de endividamento devem reduzir-se dramaticamente, não pela falência dos endividados (empresas ou famílias), mas pela falência dos Bancos que emprestaram sem critério ou razoabilidade. Toda a economia deve abandonar esta obsessão pelo “Global” e reorientar-se para o “Local”, porque ao fim e ao cabo è “localmente” que estão as pessoas, os seus empregos e as suas necessidades! Todos devemos parar de consumir compulsivamente e os economistas e gestores devem esquecer esta obsessão doentia por taxas de crescimento exponenciais e ecologicamente insustentáveis. Esqueçamos aquilo que não podemos ter e concentremo-nos no consumo de bens culturais e na sua produção, já que estes garantem níveis de satisfação muito maiores e mais duradouros do que a última televisão de plasma ou uma viagem à Tailândia. Reformemos uma classe política que se apressou a socorrer os banqueiros que contribuíram generosamente para as suas campanhas eleitorais, mas que deixou metade dos desempregados sem qualquer protecção social. Mudemos o mundo, hoje. Ou iremos acabar com ele. Agora.

    • Odin

      >“A Solução para a Recessão Mundial passa por uma mudança de paradigma: Localização em lugar de Globalização.”
      R: Amigos* (peço licença pra chamá-los assim), a União de Nações Lusófonas não seria uma forma alternativa de globalização?

      >“Toda a economia deve abandonar esta obsessão pelo “Global” e reorientar-se para o “Local”, porque ao fim e ao cabo è “localmente” que estão as pessoas, os seus empregos e as suas necessidades! Todos devemos parar de consumir compulsivamente e os economistas e gestores devem esquecer esta obsessão doentia por taxas de crescimento exponenciais e ecologicamente insustentáveis. Esqueçamos aquilo que não podemos ter e concentremo-nos no consumo de bens culturais e na sua produção, já que estes garantem níveis de satisfação muito maiores e mais duradouros do que a última televisão de plasma ou uma viagem à Tailândia. Reformemos uma classe política que se apressou a socorrer os banqueiros que contribuíram generosamente para as suas campanhas eleitorais, mas que deixou metade dos desempregados sem qualquer protecção social. Mudemos o mundo, hoje. Ou iremos acabar com ele. “
      R: Vou pensar a respeito disso. Mas acho que a globalização não será derrotada por protecionismos locais, é muito forte. Vou refletir sobre essa proposta de economia local.

  6. Fenix

    « Quids S15: O que é isto?O Paquistão confirma a aquisição de 36 aviões chineses J-10 »Resposta a M4jor sobre o Neoproteccionismo e as Economias Locais
    Posted by Clavis Prophetarum em 2009/01/23

    (http://www.suschool.org.uk)
    “O artigo, apesar de muito incompleto, está satisfatório, mas há alguns aspectos que não encaixam, alguns mesmo de contradição.”

    -> Um artigo, aqui, nunca pode ser muito longo… Raramente ultrapasso uma página de texto, já que os artigos que violam essa regra raramente são lidos até ao fim pelos cibernautas. Por isso, é resumido, necessariamente e a favor da sua legibilidade…

    “Sublinho dois ou três:

    “Os mesmos economistas que tão rotundamente falharam em antever esta crise e na fanática defesa da retirada do Estado do seu papel de regulador… Os mesmos que diziam que os mercados funcionavam melhor quando o Estado os deixava em roda livre”

    Isto é uma contradição. Acho que o Sr calvis queira dizer e referir-se aos economistas que defendem que o estado seja apenas regulador e não intervencionista. Deixar a roda livre, ou por outras palavras os mercados regularem-se por si só, aniquilando o dispensável e defendendo a livre concorrência e concentração ( inevitável) de capitais, só seria possível com os que “esses” economistas defendem, i.é, o estado regulador não interventivo, directamente, e apenas fiscalizador. Eles não defendem a retirada do Estado em regular e fiscalizar (fanática defesa da retirada do Estado do seu papel de regulador…) mas sim a não intervenção deste directa, criando e desvirtuando por exemplo a livra concorrência, como é o caso por ex da Televisão e receitas de publicidade ( Só é possível à RTP sobreviver e retirar receitas de públicos aos privados, porque apresenta sempre prejuízo e ” nós” é que pagamos; Caso contrário n sobreviveria, também com tanta incompetência, ou para dar prejuízo tinha de fazer para o que foi criada: serviço público), dentre outros.”

    -> Refiro.me aqueles economistas que conseguiram fazer introduzir como “pensamento único” que a qualquer regulação é sempre prejudicial ao são andamento das economias. Tempos houve (2007) em que não havia telejornal em que não aparecia alguma dessas eminências pardas proclamando as virtudes da desregulação e como o Estado e os serviços sociais asfixiavam o bom andamento das economias. Esses senhores idolatravam Milton Friedman e a sua escolha de Hong Kong como o “paraíso económico sobre-a-Terra” porque aqui o Estado mínimo (a Minarquia) era o modelo ideal de organização das sociedades. Estes senhores são os mesmos que agora culpam o excesso de desregulação (que curiosamente recua até Clinton, um presidente mais admirado do que merece) e que defendem as intervenções com dinheiros públicos para salvar o moribundo sector financeiro.

    -> A roda livre só existia de forma absoluta nos mercados de derivados e em aplicações financeiras muito obscuras. No resto, sempre houve alguma regulação. O que não havia era vontade política e capacidade operativa por parte dos Governos e dos Bancos Centrais para regular, tamanha era a força e energia dos defensores da desregulação. Neste aspecto, veja-se por exemplo o caso do Banco de Vítor Constâncio: porque demorou tantos meses a analisar indícios fortes de dolo e má conduta do BPN e do BCP? Aqui a falta de vontade (ideológica) juntou-se à crassa incompetência (de Constâncio e da sua equipa mais próxima).

    “A Segunda grande contradição do Sr clavis é a questão geral do proteccionismo. Ao aplicármos, o Sr clavis contradiz-se nas questões, por exemplo da agricultura de África. Se ficaríamos protegidos da entrada de produtos chineses, afundaríamos dezenas de economias africanas. No continente Americano surgira tb em relação à América do Sul e por aí fora. Há, de facto alguma veracidade no caos teórico.

    A única solução, a meu ver e tb do Sr Clavis, é o consumo interno de produtos nacionais. Será impossível consumir-se 100%, ou mesmo 50%, mas ao tapar a cabeça destapa-se os pés. É impossível uma solução satisfatória para todos deste assunto, porque ele é dinheiro e dinheiro nunca foi unânime nem justo.”
    -> Nesta questão admito que não tenho uma posição muito habitual. Sou adepto de uma forma nova de neoproteccionismo simultaneamente ética e local. Ética porque não reconheço “comércio livre” nos mecanismos artificiosos que a China (por exemplo) utiliza para potenciar as suas exportações, como subsídios diretos à exportação, dumping remuneratório e extensas cargas horárias, para além de uma escassa cobertura legal para os direitos laborais dos trabalhadores chineses. O mesmo estendo para a União Europeia que subsidia os seus produtos agrícolas e prefere exportar “de graça” os seus excedentes agrícolas para África, aniquilando assim as débeis agriculturas africanas. De um lado, deve impôr-se aos países que exportam o mesmo tipo de coberturas laborais, humanas e ecológicas do que os países para onde exportam. Do outro, os subsídios à produção devem ser limitados a sectores estratégicos e vitais de forma a não afogar as capacidades locais de produção autónoma. Em suma, exportar sim, mas éticamente. Em sempre de forma coadjuvada e sucedânea, mantendo sempre o grosso da produção das necessidades locais, nas economias locais e regionais. Consumir localmente, aqui que é produzido localmente, e complementar estas lacunas com exportações éticas, essa é a minha visão, a qual, aliás, não é nada original (ver AQUI). Obviamente que isso implicaria um recentramento dos padrões de consumo e das expectativas de vida que só poderia (para ser sustentável) vir de dentro dos indíviduos, das “revoluções interiores” de Agostinho e não impostas a partir de fora, por Lei ou por ditadura. O consumo, ele próprio, teria que mudar. De mera expressão de vida, para suplemento acessório para renovadas formas de vida onde a Criação, a Cultura e a vida interior assumiriam um papel que nestas sociedades consumistas e egocêntricas da atualidade já não têm lugar.

  7. Fenix

    Eu fiz copy para aqui de alguns textos antigos do clavis e da E. F. Schumacher Society para entenderem melhor o conceito de economias locais.E tb porque eu acho tão belos os textos que era um atentado a eles eu tentar explicar com um texto meu. E tenhão a mente aberta a eles pois muita coisa tem que mudar para realidade das economias locais ir para frente e começado por cada um de nòs.

  8. sim, tenho que regressar a esses textos e temas, brevemente, ainda que a E.F.Schumacher Society esteja atualmente um tanto em hivernação, os textos do economista são hoje mais atuais do que nunca!

  9. Viriato Hermenico

    Se querem que os países de língua oficial portuguesa tenham uma maior proximidade, algumas empresas grandes devem se unir sim. E um tratado de livre-comércio, um banco similar ao BID ou ao BNDES. Uma política de ajuda mútua entre os países da CPLP. O Brasil tem que investir em duas vertentes. A América Latina e Caribe, e a CPLP. Não para ser mais um império capitalista explorador, mas para dar impulso ao Quinto Império sonhado pelo Agostinho da Silva. Porém, a economia pesa muito.

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