Cavaco Silva: Sobre a sua ausência (enquanto Presidente da República) nas cerimónia fúnebres de José Saramago

Como escrevia a 21 de junho Daniel Oliveira: “Ao faltar ao funeral de José Saramago, o Presidente da República mostrou que põe o cidadão Aníbal e o político Cavaco acima do cargo que ocupa. Mostrou ser demasiado pequeno para representar o País.”

Não há dúvidas que os dois cidadãos, José Saramago e Cavaco Silva nunca foram amigos. Não há também dúvidas de que nunca se moveram pelas mesmas áreas políticas ou mentais. De resto, à sofisticação mental de Saramago correspondeu sempre um certo primarismo grunho de Cavaco, numa contraposição entre “progressismo comunista” (SIC) e “rigor salazarento” (SIC) que nunca poderia ter aproximado estes dois personagens.

Não nos esqueçamos, de resto, que a principal razão que levou Saramago a buscar sair do país, foi precisamente o apoio público e pessoal prestado pelo então Primeiro Ministro Cavaco Silva a um dos mais obscuros secretários de Estado de sempre, um tal de Sousa Lara. Saramago, abandonou Portugal, amargurado e passou desde então a residir em Espanha (Lanzarote) e adoptar atitudes cada vez mais pró-Espanholas e iberistas, indo inclusivamente ao ponto de se recusar a falar português na Galiza (onde seriam entendido na perfeição) e a optar falar aí… inglês, para grande espanto dos representantes da intelectualidade galega nessa visita, em 2009.

Perante tal situação de antagonismo Cavaco Silva sairia sempre perdedor se tivesse “o azar” de Saramago vir a falecer durante a sua Presidência. Vindo às cerimónias poderia ser acusado (justamente) de hipocrisia, já que foi ele, no essencial, o responsável pelo exílio voluntário do escritos e único prémio nobel da literatura português. Não vindo, seria acusado de falta de sentido de Estado e de respeito por uma das figuras mais gradas e mundialmente conhecidas de Portugal.

Enredado num dilema criado pela sua própria boçalidade e incapacidade intelectual, Cavaco sabia (ou sabia, porque lhe diziam os seus assessores) que de uma forma ou de outra sairia perdedor, e que só lhe restava esperar que Saramago viesse a falecer tão longe das eleições de janeiro quanto o possível, de forma a atenuar na mente dos portugueses a sua desastrada e indigna conduta enquanto Chefe de Estado. Teve sorte, Cavaco… José Saramago veio a falecer em Junho, em pleno Mundial de Futebol, e num mundo onde as notícias são tão rápidas e o ciclo noticioso tão instável, a notícia da sua ausência das cerimónias fúnebres do maior e mais reconhecido escritor português da atualidade será rapidamente esquecida.

Mas Cavaco Silva é mais do que um ex-Primeiro Ministro (receba ou não essa reforma, algo que ainda se está para ver…). Cavaco Silva é hoje muito mais do que o antigo Primeiro Ministro. O povo português elegeu-o (à primeira volta!) como supremo magistrado da Nação, como Presidente da República e nessa função, Cavaco torna-se responsável já não pelo seu partido nem pela sua memória ou passados pessoais, mas pela figura do Estado que passa a representar. Não teve contudo, o atual Presidente, essa hombridade, essa capacidade de Perdão, nem sequer o sentido de Estado suficientes para deixar para trás essas querelas, deixar bem claro (como Rajoy, em Espanha) que estavam todas ultrapassadas, agora que Saramago tinha partido e que respeitava (pelo menos) o Homem de Letras e o insigne Lusófono. Cavaco não demonstrou (de novo), neste episódio ter a estatura intelectual e moral que se exige para a função de Presidente da República e concedeu argumentos adicionais a todos aqueles que defendem que Portugal merece melhor representação do que aquela oferecida por um Homem que acumula reformas com ordenados num país à beira da Bancarrota, que promulga Decretos em que não acredita por argumentos “economicistas”, que usa viagens de Estado para fazer “turismo na Capadócia” e que agora, é incapaz de assumir a dignidade da função em que o povo o investiu e de suspender férias para prestar a derradeira homenagem ao português atualmente mais reconhecido e admirado por todo o mundo.

Fonte:
http://aeiou.expresso.pt/o-anibal-o-cavaco-e-o-presidente=f589290

Categories: Livros, Política Nacional, Portugal | Etiquetas: | 5 comentários

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5 thoughts on “Cavaco Silva: Sobre a sua ausência (enquanto Presidente da República) nas cerimónia fúnebres de José Saramago

  1. Luiz Ely Silveira

    Todo o comunista, todo o amigo de ditadoretes, que se vai, por mais intelectual que seja e por mais próximo de nós esteja, não fará falta nos dias de hoje em mundo que caminha para a plenitude democrática.

    • Otus scops

      sim claro, concordo.
      gostaria de completar a lista com os anti-comunistas (que só tem dois partidos e um sistema eleitoral de fazer inveja!):
      – Henry Kissinger, o amigo do assassino em série Pinochet e demais administrações norte-americanas que o legitimaram.
      – Stroessner, junta militar Argentina, regime militar Brasileiro (sem rosto principal) todos eles orquestrados pelo Kissinger (outra vez?)
      – Baby Doc e Papa Doc, infinidade de Républicas das Bananas pela América Latina
      – Irão (Reza Pahlevi), Filipinas (Marcos), Indonésia (Suharto), etc…

      fico por aqui.

  2. Rui Montenegro

    Graças a Deus que tive a oportunidade de me ausentar durante um mês deste “pardieiro” pejado de imcompetentes que infelizmente é o meu Pais!
    Pelos vistos por cá tudo na mesma!
    Mais uma “atoarda” do nosso ilustre Presidente… Fantástico, o homem tem-se revelado uma perfeita nulidade.
    Agora é a minha vez de dizer:
    Esta não é a altura oportuna de comentar! Até porque tal atitude não merece comentários a não ser : desprezivel!!!

  3. Otus scops

    sinceramente prefiro que ele não tivesse ido, seria um escusado exercício de hipocrisia que iria manchar a emocional e sentida homenagem que o povo e os verdadeiros amantes da escrita, do livre pensamento e da libertação dos povos fizeram ao titã da escrita, José de Sousa Saramago.
    ao que sei o Cavaco enviou representantes oficiais e chega.
    não esqueçamos que foi no governo de Cavaco que o tal acto de censura sucedeu. “Há sempre um zarolho ou um esperto que nos governa. – J.Saramago”
    é dar importância a mais.
    é apenas a morte de uma pessoa especial.
    acham que Saramago o queria lá???

    caro CP afinal quem teve “capacidade de Perdão” foi Saramago, depois de tudo o que lhe fizeram, ainda assim quis repousar para sempre no seu País. uma lição para todos que duvidavam do seu patriotismo. “Para que serve o arrependimento, se isso não muda nada do que se passou? O melhor arrependimento é, simplesmente, mudar. J.Saramago”

    e obrigado FAP e demais Forças Armadas pelas honras fúnebres prestadas.

  4. ainda acredito que devia ter ido: numa presença muito discreta e muito de “Estado”, p.ex. sem declarações, mas presente. Assim como tudo correu deu a entender que não perdoará ao morto (de facto, Cavaco é que devia ser perdoado) e isso cai mal em qualquer um… a sua sorte é que o tuga tem memória RAM curta (tipo 64 Kb) e neste momento já se esqueceu disso tudo…

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