Recessão e Salvamento: Alguns números e a (des)proporção portuguesa

Uma das lições que os governos aprenderam da grande crise financeira de 1929, foi que as economias não podem ser deixadas entregues a si mesmas, no estrito cumprimento dos dogmas neo-liberais de não-intervenção. Por isso, a reação padrão à presente recessão foi a de injetar triliões de dólares na economia real. Desde 2008, os governos e as grandes instituições financeiras, como o BCE e o FMI, colocaram mais de 9.3 biliões de euros. Esta espantosa quantia equivale ao PIB anual da maior economia do mundo, os EUA e dá uma boa medida da escala da intervenção salvífica que foi necessário fazer para evitar uma recessão tão duradoura como a de 1929, que de facto, só terminaria perto do começo da Segunda Grande Guerra, em 1938.

A estes 9,3 biliões de euros há ainda que acrescentar a evaporação de valor de muitos produtos financeiros e – sobretudo, já que a primeira foi sobretudo uma queda virtual – o abrandamento do comércio mundial em mais de 37 biliões de euros.

O epicentro da crise de 2008 foram os EUA, e nestes, o seu descabelado e selváticamente desregulado setor financeiro. Por isso, é compreensível que seja também o país onde o Governo injetou mais dinheiro na economia, 4 biliões de euros no total, ou quase metade das intervenções governamentais de todo o mundo. Após os EUA, foi a China a realizar a segunda maior intervenção, com uns notáveis 2 triliões de euros. A Europa, foi muito mais contida e limitou-se quase inteiramente em apoiar diretamente o seu setor financeiro, o que explica aliás porque é que é ainda aqui que a recuperação é mais tímida ou – simplesmente – ainda não aconteceu: caso de Portugal, Grécia ou Irlanda, por exemplo.

Portugal foi dos países ditos “desenvolvidos” um dos que menos se aplicou no salvamento da sua economia, já que apenas aplicou 3,6 mil milhões de euros no setor financeiro e um valor ainda menor (nesta escala de valores) na economia real, de 2 mil milhões de euros, ou seja, 3,3% do PIB. Metade dos 6,4% gregos, um terço dos 10,5% espanhóis e muito menos que os notáveis 48% irlandeses. Assim se explica a fraca recuperação da economia portuguesa – quando comparada com a que já se verifica noutros países europeus – pela timidez da resposta governamental, sempre motivada por um patético receio de uma “zanga” dos patrões do norte da Europa. Estúpida, já que acabaríamos por levar com um défice orçamental superior ao que estes nos ditam, mas que ao contrário de outros países europeus, não se deveu a injeções salvífica na Economia mas “apenas” ao enfraquecimento na cobrança de impostos resultante do abrandamento da Economia.

Fonte:
http://aeiou.expresso.pt/crise-mundial-ja-custou-46-bilioes-de-euros=f568122

Categories: Economia, Política Nacional, Portugal | 1 Comentário

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One thought on “Recessão e Salvamento: Alguns números e a (des)proporção portuguesa

  1. Rui Montenegro

    Portugal é uma Nação que não aprende! E não é apenas de agora. É histórico , talvez até genético .José Régio ,apenas com 28 anos de idade já escrevia o seguinte:

    Surge Janeiro frio e pardecento.
    Descem da serra os lobos ao povoado
    Assentam-se os fantoches em São Bento
    E o decreto da fome é publicado

    Edita-se a novela do orçamento:
    Cresce a miséria ao povo amordaçado
    Mas os biltres do novo parlamento
    Usufruem seis contos de ordenado

    E enquanto à fome o povo se estiola.
    Certo santo pupilo de Loyola
    Mistura de judeu e vilão
    Também faz o santo sacrificio
    De trinta contos só! por seu oficio
    Receber ,a bem dele e da nação

    Repleto de actualidade! Afinal o que mudou desde o Estado Novo?

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