Sobre a (desconvocada) greve dos super e hipermercados e da redução atual de direitos laborais

Aquilo que esteve na base da recente convocatória de greve (entretanto desmarcada) por parte dos trabalhadores das grandes superfícies merece reflexão. A intenção das empresas de distribuição era passar as semanas de trabalho flexível das atuais 50 horas para 60 horas. Este aumento de dez horas significava que cada trabalhador poderia ter que trabalhar mais quatro horas além das oito diárias atuais, cumulando assim em cada dia um total de 12 horas! E a entidade patronal poderia notificar o seu “colaborador” de tal adição apenas no dia anterior! Perante a ameaça de grave, as empresas de distribuição recuaram e vieram negar tais propósitos, mas fica a certeza de que esta história está longe de ter terminado…

As empresas de distribuição não têm propriamente fama de pagarem acima da média, mas agora além de maus ordenados (numa das raras indústrias muito lucrativas de Portugal) querem consagrar ainda mais a má imagem pública que já têm ao instaurar jornadas de trabalho medievais. Todas as empresas têm uma responsabilidade social para com a sociedade onde estão inseridas e não podem agir como se esta não existisse. Uma empresa que impõe dias de trabalho com 12 horas de duração é uma empresa anti-família e antagonista das mesmas crianças que com Leopoldinas e quejandas criaturas quer cativar e afirma “adorar”. Por um lado, cria condições para dissuadir qualquer jovem casal seu funcionário de ter filhos e dificulta a um grau extremo a vida daqueles que já os têm: como resolver o “problema” de ir buscar os filhos ao infantário ou à escola se a empresa nos avisa apenas na véspera?

Mas não nos iludamos: se estas pessoas têm que trabalhar nestas condições – e assim será muito brevemente, já que esta “guerra das 12 horas” ainda não terminou – tal deve-se ao nosso comodismo, enquanto consumidores. Os supermercados apenas estão abertos ao fim-de-semana (destruindo milhares de lojas locais) porque nós os frequentamos e quando estes seres humanos (com filhos) forem forçados a estas jornadas de trabalho desumanas será por nossa primeira culpa: porque frequentámos essas grandes superfícies nesses horários.

Fonte:
Jornal Sol de 18 de dezembro de 2009

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Categories: Portugal, Sociedade Portuguesa | 6 comentários

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6 thoughts on “Sobre a (desconvocada) greve dos super e hipermercados e da redução atual de direitos laborais

  1. Paulo39

    Mas… E se esse aumento de horas de trabalho viesse causar a contratação de mais trabalhadores para se dividirem as 12 horas de trabalho diárias por 2 trabalhadores (6 horas cada um)?
    Aí já era uma boa iniciativa, não? Porque permitiria empregar muita gente, mesmo que houvesse um ligeiro recuo nos salários dos que já estão empregados.
    Se calhar era essa a ideia…

  2. era pois…
    mas não me parece que essa fosse a ideia…
    que era a de aumentar o número de caixas abertas em momentos de grande afluxo de clientes, sem pagar horas extraordinárias e em prejuízo da vida familiar dos empregados.
    maximizar o lucro, por cima de tudo o resto, em suma!

  3. Fenix

    Os super e hiper por este pais fora foi o maior roubo a dinheiros europeus que eu já vi.GANHARAM MILHÔES os donos do super e hiper e monopllizaram todo comercio de retaho. Agora que dá um pouco menos cortão sempre nos mesmo TENHAM VERGONHA.

  4. e arruinaram milhares de peques negócios!
    não esquecer!

  5. Fenix

    Por falta tb de organização pois os pequenos comerciates podião ter se organizado em grande sociedades de compras e assim competido com os preços baixos.A grula tentou mas foi mal gerida.

  6. de certo… mas não o fizeram… falta de visão e capacidade organizativa.

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