“Nas Nuvens”, com George Clooney: Crónicas de um Despedidor

Este é um filme independente norte-americano que nos trás um testemunho – infelizmente – muito agudo da triste realidade que afeta muitos de nós que é o Desemprego… O filme é também uma história de amor, mas de um amor frustado que o é porque o personagem é aquilo que é, precisamente por ser um despedidor.

1. Psicopata

As pessoas que fazem este tipo de trabalho – eufenistica e cobardemente – intitulado de “outplacement” têm que pertencer a um tipo diferente de pessoa. É impossível ganhar a vida fazendo um trabalho que consiste basicamente em destruir a vida de pessoas que não conhecemos sem ter que ser um tipo especial de pessoa. Por muitas auto-desculpas que consigamos arquitetar, é preciso ser um tipo de psicopata, ser senhor de uma incapacidade de sentir a dor e o sofrimento dos outros. Porque é isso que um despedidor é: alguém que deixa atrás de si uma onde de morte e destruição. Alguém que sabe que cria nas pessoas “o maior trauma possível, comparável apenas à morte de um familiar” (palavras do filme) e que consegue “dormir à noite” (palavras do filme) não pode ser uma pessoa normal, sociável, amada e amante, capaz de criar laços sociais e afetivos duradouros e capazes de sobreviver à teia dos interesses e das alianças de curto prazo. Esse é o quadro psicológico de um despedidor e dos psicopatas…

2. O mito do Outplacement

Em época de recessão global, onde as taxas de desemprego disparam em todos os países até valores inéditos e semelhantes apenas aqueles que existiam em 1929, na época da “Grande Depressão” as empresas que assumem a tarefa suja de despedir os “colaboradores” (o novo manbo-jambo corporativo para “trabalhadores”) florescem, desenvolvem e emanam o seu aroma fétido com redobrada intensidade. “Nas Nuvens” alude também à felicidade destas empresas perante a infelicidade alheia, já que quantas mais pessoas tiverem a sua vida destruída, mas elas aumentam a sua faturação e mais “clientes” (os “patrões cobardes” do filme) angariam.

3. O mito da Mudança pela Mudança

Uma das frases feitas mais repetidas no filme, Clooney, é precisamente “que todos os imperadores e todos os grandes homens do passado, estiveram na mesma situação em que se encontra agora”. Obviamente, é uma falácia… Alexandre Magno e Júlio César nunca foram despedidos por um empregador. Aliás, os chefes militares e políticos não são propriamente “despedidos”, pelo que a comparação é demagógica. E “mudar por mudar” é uma parvoíce. Não se muda algo que funciona bem, apenas porque se deve “mudar”… Isso poderá convir aos “gestores mercenários” que pululam de empresa em empresa de dois anos, porque deixam sempre para terceiros a correção das mudanças-pela-mudança erradas que deixaram atrás de si, mas não convêm às próprias empresas e à sociedade.

4. As frases feitas, o fluxograma e as palavras proibidas

Todo o filme está recheado de palavras-feitas… É o caso de “despedir”, por exemplo, que faz parte da lista de palavras que os “despedidores” profissionais estão absolutamente proibidos de utilizar. Essa e tantas outras como “mudança”, “reengenharia” são usadas e abusados nestes meios.

5. Conclusão

“Nas Nuvens” é mais do que um filme. É uma reportagem-documentário sobre um fenómeno global que é do despedimento feito de forma industrial, desumanizada e geralmente recaindo sobre os “colaboradores” (eufenismo pós-moderno para “trabalhadores”) com mais de 40 anos, que à luz dos dogmas idiotas dos “gurus de gestão” são hoje universais. O modelo do “despedidor profissional” desempenhado com grande profundidade e excelência interpretativa por Clooney não é diretamente aplicável em Portugal, sendo único somente aos EUA, mas existem no nosso país vários escritórios de advogados com pessoal especializado nos mesmos rituais de destruição de vida e que carregam em si, as mesmas contradições do personagem. Existem também empresas de outplacement, cumprindo o mesmo tipo de missões cosméticas e inúteis que pouco mais fazem do que consumir recursos e tempo preciosos a empregados e empregadores e que prosperam indecentemente no presente clima de emprego.

“Nas Nuvens” é um filme de reflexão. Vale muito mais por aquilo que planta nas nossas cabeças, do que pela excelência da sua mensagem, pela consistência das suas personagens ou pela resolução da sua trama interna. É um filme único e possível apenas de ser produzido pelo cinema independente norte-americano e numa época tão estranhamente desumana como aquela em que vivemos… A ver, decididamente.

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Categories: Cinema, Economia, Política Nacional, Portugal, Sociedade, Sociedade Portuguesa | 3 comentários

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3 thoughts on ““Nas Nuvens”, com George Clooney: Crónicas de um Despedidor

  1. E você… sim você, já descarregou o seu picpoc?

  2. Lusitan

    Eu pelo que percebi durante o filme, pareceu-me que alguns dos “despedidos” do filme não eram actores, mas pessoas que realmente passaram por esse drama e que relataram no filme a sua experiência. O que torna o filme ainda mais dramático.

    A verdade é que para se conseguir fazer o tipo de trabalho que o Clooney faz neste filme se tem de pegar na alma, colocá-la numa mochila de viagem e de seguida incendiar a mochila. É o grande problema da maioria dos patrões do séc. XXI… (principalmente na América)… saiem das universidades de topo directamente para cargos altos nas empresas sem nunca ter de começar de baixo e habituam-se a ver os trabalhadores como números e não como pessoas, pelo que na altura de aumentar os lucros (ou de reduzir as despesas) “reduzir o número de colaboradores” é mais fácil que resolver realmente qualquer tipo de problema na empresa.

    Escolher pessoas com mais de quarenta com larga experiência na empresa (simplesmente pela idade) para despedir também é um erro que não só é estúpido como também é prejudicial para a empresa. (E digo isto sem ainda ter chegado aos 30!!! :D) Por um lado perde-se muito know how acumulado que não se consegue transmitir a um estagiário num par de anos, logo aí perde-se uma vantagem competitiva sobre empresas concorrentes do sector. Por outro a ausência deste tipo de pessoas com um conhecimento profundo da empresa leva a que após a sua saída a empresa perca produtividade uma vez que as coisas demoram mais tempo a aparecer feitas e porque o conhecimento da casa acelera os processos.
    E por fim, o despedido tendo um profundo conhecimento da empresa, pode levar esse conhecimento para uma empresa rival, ou como em alguns casos de sucesso, criar uma empresa própria concorrente no sector.

    Agora também há o acomodamento que acontece quando se pensa que se arranjou um emprego para a vida… Mas isso é um problema de motivação que pode e deve ser resolvido pelo departamento de recursos humanos de uma empresa, sendo que o despedimento deve ser a última opção (uma vez que há pessoas que são verdadeiramente obtusas e que como tal estão para lá da salvação)!

  3. sim, muitos “atores” são de facto pessoas reais, casos concretos, é patente…
    Por aqui também se encontram muitos gestores de topo com menos de 40 anos. Obviamente são umas bestas, insensíveis, arrogantes e convencidos de que são mega-génios. São os piores e juntamente com o seu oposto (a sua Nemesi), os patrões ao velho estilo – tradicionais e retrógados – têm arrastado este país a estado em que estamos…
    A questão dos empregados de 40 anos é crucial: a moda de gestão hoje diz para os despedir a todos e isso que os gestores de RH aprendem nos seminários onde vão. Aplicam depois a receita cegamente, sem recearem destruirem as empresas a prazo porque “a prazo estamos todos mortos” e porque eles vivem a dois anos, prazo em que se ufanam a mudar de emprego, sem se importarem com a situação de longo prazo que deixam atrás, nessas empresas em que despediram o núcleo duro e o substituiram por hordas de estagiários e temporários mal pagos e desmotivados…

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