Avatar: Uma breve análise crítica do filme de James Cameron

O último filme de James Cameron, o muito badalado “Avatar” levanta uma série de questões interessantes… em termos cinematográficos pode não ser (de longe) o melhor filme de sempre, especialmente devido ao seu argumento fracamente construído e pouco original. Mas em termos de espetáculo e entretenimento puro (a especialidade Cameron, sejamos claros) é um filme absolutamente notável e plenamente merecedor de comentários.

1. A ação do filme passa-se em 2154 num planeta selva chamado “Pandora” que será um satélite de um gigante gasoso no sistema de Alfa de Centauro, a 4,4 anos-luz da Terra. Enfim, 4,4 ou 4,2… Já que Alfa é um sistema triplo, com duas estrelas Alfa de Centauro A e Alfa de Centauro B rodando em torno de um centro gravitacional comum o que faz com que nesta rotação as estrelas possam estar mais próximo de nós, a 4,2 anos-luz. Uma qualquer viagem humana a Alfa tentaria chegar no momento de maior aproximação, exatamente como se faz hoje com as missões que se enviam a Marte e não quando o afastamento é maior, a 4,4 anos. Aqui encontramos pois o primeiro erro astronómico em “Pandora”.

2. Pandora é um satélite muito húmido, e logo, próximo da sua estrela. Não há muito tempo atrás, e como Pandora orbita um gigante gasoso, esperava-se que todos os Sistemas Planetários tivessem uma distribuição idêntica à do Sistema Solar, mas desde então foram detetados dezenas de planetas gigantes em órbitas muito próximas da sua estrela, pelo que em termos estritamente astronómicos um satélite como Pandora parece plausível. Mas os planetas gigantes parecem ter uma propensão a serem grandes emissores de radiação e serem geradores de grandes ondas gravitacionais que provocam terremotos frequentes e de grande amplitude nas suas luas. Isso mesmo é observável em Saturno e em Júpiter e tais perturbações (muito mais intensas que na Terra) podem prejudicar o lento e gradual desenvolvimento da vida até ao nível em que esta nos é apresentada no filme de James Cameron.

3. A razão da presença dos humanos em Pandora é um mineral “unobtanium” (ou seja, “impossível-de-obter”) que tem propriedades de super-condução à temperatura ambiente, uma espécie de graal da Física que revolucionaria a tecnologia, de facto… No filme, esta super-condução afeta os engenhos que o Homem coloca em Pandora, mas as ligações wireless que ligam as personagens aos seus “avatares” resistem a esses intensos campos magnéticos e tal não é muito provável…

4. Os corpos artificiais que dão nome ao filme, os “avatares” têm no filme, ADN humano e da raça nativa, os Na’vi. Ou seja, são híbridos humano-alienígena. Ora isso, em termo de biologia não parece possível, pelo menos à luz do conhecimento atual… Existem mais semelhanças genéticas entre um ser humano e uma bactéria do que entre um Homem e qualquer alienígena que possa existir, pelo que dificilmente poderia existir a necessária compatibilidade ou semelhança genética para criar um qualquer tipo de híbrido.

5. O gigantismo parece ser a nota dominante em Pandora, com dragões voadores gigantes, árvores altíssimas e os Na’vi, muito mais altos do que qualquer ser humano. Esse traço é compatível com a revelação – feita a dado ponto no filme – de que a gravidade em Pandora é mais baixa do que a da Terra.

6. Os Na’vi são demasiado humanos… Apesar da sua pele azul e de outras excentricidades no seu rosto, são muito semelhantes a um ser humano para uma criatura que se desenvolveu de forma independente no satélite em Alfa de Centauro.

7. A maioria do armamento utilizado pelos terrestres em Pandora é demasiado ao nível da nossa tecnologia atual: helicópteros, aviões convertíveis tipo Osprey e armas, tudo poderá estar ao serviço, na Terra, daqui a menos de 20 anos e seria de esperar que uma civilização do século XXII fosse mais diferente do que a nossa… Caramba, se têm tecnologia para realizarem viagens interestelares, porque é que a tecnologia de Defesa se mantêm no século XXI?

Fontes:
http://defensetech.org/2009/12/21/defense-tech-in-avatar/
http://www.space.com/entertainment/091221-avatar-science.html http://nasawatch.com/archives/2009/12/how-will-we-tra.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Alfa_Centauri
http://en.wikipedia.org/wiki/Extrasolar_planet#Systems
http://www.avatarmovie.com/

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Categories: Ciência e Tecnologia, Filmes, SpaceNewsPt | Etiquetas: | 14 comentários

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14 thoughts on “Avatar: Uma breve análise crítica do filme de James Cameron

  1. Lusitan

    Porque é um filme? 😀

  2. Este filme nao me despertou o minimo interesse francamente. Uma mistura selvagem de X-Men com sci-fi e CGI a tentar rivalizar com o “2012” resulta numa tentativa demasiado forcada de se querer ser o mais visto dos últimos tempos. A saga do “Alien” esse sim é um graal comparado com este “push” de massas. Nessa época o Cameroon tinha de facto criatividade e génio.

  3. Lusitan

    Este filme é uma experiência da nova tecnologia 3D. Visto em 2D não tem nada de cativante para aqueles que não são apaixonados pela astronomia e pelas novas tecnologias.

  4. correto. a história é banal e medíocre.
    e pelos vistos Cameron deixou passar erros (injustificáveis com tal orçamento…)
    admito que serão até erros conscientes, fruto do desejo de sacrificar o realismo e a ciência em nome do espetáculo, mas por isso é que o filme é isso mesmo:
    um exercício (espetacular) de 3D.

  5. Odete

    Adorei ver o filme. Os efeitos são notáveis, embora concorde com a história do filme não ser extraordinária, mas foi um bom entretenimento (tal como julgo que um filme deve ser, na minha muito modesta opinião).
    🙂

  6. é isso. um filme pode ser muita coisa, mas sobretudo deve ser isso: entretenimento…
    não lhe fazia era nenhum mal uma quedazinha para o realismo…,

  7. Lusitan

    Em relação a isso não concordo muito num filme de ficção científica… Em filmes históricos como o Troy ou o Gladiator aí sim é que deviam ter mais cuidado com os detalhes!

  8. “fruto do desejo de sacrificar o realismo e a ciência em nome do espetáculo”

    lembra-te que um filme de Sci-fi não tem que respeitar o realismo ou a ciência ( actual ). A ciência actual ( por muito que custe aos senhores dos dogmas ) não passa de mais um patamar e deverá ser bastante diferente no futuro. O realismo é uma faca de dois gumes, pois o ambiente é… irreal, mas possível. Digo possível porque pela lei das probabilidades, até o mais improvável pode ser possível.

    “Existem mais semelhanças genéticas entre um ser humano e uma bactéria do que entre um Homem e qualquer alienígena”

    E baseias-te em?… E se os “sacerdotes fossem astronautas”…

  9. Filmes como 2010 e Solaris (russo) provam que os dois aspectos são inteiramente conciliáveis, Sá!
    Baseio-me no DNA… Há sequências inteiras idênticas entre uma bactéria e um Homem.
    Quanto aos ETs… Podem ter um DNA ou usar uma outra codificação completamente diferente. Não sabemos…

  10. Nem eu disse que são inconciliáveis! Mas também podem não ser.
    Começando pelo 2010, estás a falar de um filme cuja projecção temporal era reduzida. Era suposto ser agora… Mas houve o tal “empastelamento” que levou aos foguetões à la Flash Gordon… O filme não podia escapar muito ao conhecimento da época e às expectativas da época porque pretendia retratar um futuro próximo.

    O que eu estou a dizer é que não podes fazer um filme passado em 2610, por exemplo, e exigir que essa realidade respeite as teorias da ciência actual. A ciência actual não passa de um rol de teorias que reflectem o nosso conhecimento e desconhecimento actual e que serão, na grande maioria, rebatidas e substituidas por outras no futuro.

    Quanto aos ET’s é esse “não sabemos” que também não permite assumir uma critíca relativamente a haverem traços comuns por esse universo fora… No melhor das hipóteses, podemos dizer que é improvável…

  11. “O Vaticano criticou o filme mais falado do ano e disse que a forma como fala da natureza, através de doutrinas modernas, promovem o culto da natureza como substituto da religião.

    O Osservatore Romano e a Rádio Vaticano, deu grande cobertura a James Cameron quanto a bilheteiras e óculos 3D. Mas critica quando chama o filme de superficial, apesar dos seus efeitos inovadores.

    Osservatore disse que o filme «fica cheio de um espiritualismo ligado ao culto da natureza». Por outro lado, a rádio afirmou que é “inteligente para que a ecologia se torne a religião do milénio”.

    Eles afirmam que mesmo que estas sejam apenas opiniões, este filme retrata algo novo, quando fala da natureza como uma divindade. No dia Mundial da Paz, foi feito o apelo em equívocos que possam haver, entre comparar o Homem com outros seres vivos.

    Ocasionalmente o jornal do Vaticano faz estes comentários a coisas pop, como foi o exemplo de “Os Simpsons” e “U2”. O mais recente foi no livro de “O código de Da Vinci”.

    O “Avatar” será lançado esta sexta-feira em Itália. Um país que apoia a tecnologia utilizada, mas não está muito a favor do argumento, o Vaticano.”

    Bem, só por esta acho que já vale a pena ir ver o filme. Se os moços do Vaticano ficaram com medo é porque é bom e eles geralmente só fazem este tipo de comentário a coisas que lhes podem causar mossa no negócio. É estupido que o “culto da natureza” lhes cause asco, porque ao fim ao cabo, esse culto devia ser uma pedra basilar do Catolicismo, até porque basta levantar uma pedra para encontrar algo divino. Deus é tudo, certo? Logo, a natureza é uma divindade e a divindade é a natureza. Mas os moços falam é da religião, o tal negócio. Enfim, os vendilhões logo se agitaram por causa deste Avatar. O filme só pode ser bom!

  12. o filme é um fenómeno social. perante tal, seria dificil a uma organização tão global como a Igreja católica não expressar uma posição pública pelo mesmo…
    quanto à aversão católica pelos cultos naturalísticos… é um tique que lhe vem da época das perseguições aos cultos romanos, do período pós-Juliano.

  13. MJMF

    Achei o filme bem interessante! Além de entreter e do espetáculo característico de James Cameron, não sei se foi a intenção, mas para mim o filme passou uma mensagem sobre uma grande discussão atual da humanidade – a sustentabilidade do planeta. Já que a luta em Pandora é pela defesa da arvore “Mãe” que para aqueles seres representa a vida. Além disso o filme não deixa de trabalhar o aspecto mitológico e a diferença cultural e, ainda a importância de respeitamos a tudo e a todos, apesar das extremas diferenças de concepções.

    • riquepqd

      Ele disse que se inspirou em povos nativos da amazônia, inclusive, após o filme, ele esteve algumas vezes no Brasil para protestar contra a construção de uma hiper-hidrelétrica, que segundo ele vai prejudicar a vida de milhares de índios.

      Mas parece que não deu muito certo (ainda bem), a construção da hidrelétrica continua continua.

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