Galiza: Resposta a Casimiro Ceivães

“1. Deixemos de parte a identificação dos povos: não interessa agora se eram celtas, ou Calaicos, ou ligues, ou iguais a povos velhos da Irlanda. Antes de os romanos chegarem, havia de um lado e de outro do Minho – do rio Minho que hoje separa Portugal de Espanha – povos da mesma cultura, provavelmente da mesma origem. Nesses tempos não se faziam mapas nem fronteiras traçadas a lápis: o rio Minho é fácil de atravessar de barco, não é largo nem corta desfiladeiros de pedra como o Douro. A paisagem começa lentamente a mudar, descendo para o Sul, por alturas do rio Lima – talvez por isso, foi a esse e não ao Minho que a tradição diz que as legiões chamaram fronteira: Lethes, rio do esquecimento.”

– sem dúvida. Antes da chegada dos romanos, havia uma absoluta continuidade entre as duas margens do Minho. Sinal disso mesmo é a formação da província romana da Gallaecia, agrupando a Galiza atual (mais a “Galiza Exterior”, anexada às Asturias desde o século XVIII) e os territórios a norte do Douro. Roma agrupava sempre sob uma província territórios com suficiente coerência e homogeneidade cultura e linguista, não traçava fronteiras a esquadro (como os colonialistas europeus em África no século XIX) e se formou a Gallaecia foi porque apesar da sua diversidade, era homogénea o bastante para tal aos olhos dos invasores de Roma.

“2. Romanos chegaram, romanos partiram: no seu lugar povos bárbaros chegaram, Visigodos com a capital em terras hoje de França (Toledo foi só mais tarde), suevos a ocupar não se sabe bem que parte do Noroeste. Talvez a capital fosse Braga. Não sabemos grande coisa sobre os suevos: as crónicas que nos chegaram são visigodas só. Mais importante do que tudo o resto foi talvez a diferença religiosa. Um dia os suevos foram conquistados, o seu reino fez-se memória vaga, e nessa altura faltavam pouco mais de cem anos para que o Império de Toledo, onde se sentavam os herdeiros dos saqueadores de Roma-a-eterna, se desmoronasse por sua vez. Mas notem uma coisa importante: os Visigodos estavam em contacto permanente com os reis merovíngeos dos francos, os reis lombardos de Itália, o império Romano que subsistia em Constantinopla e dominava o Mediterrâneo e mesmo a costa Sul da Península. O Noroeste continuava a ser o que sempre foi: uma terra aonde os príncipes não sabiam ir.”

– brilhante exposição, Casimiro. Ao nível dos teus melhores textos ou mesmo superior ao teu melhor. Acrescento apenas que Bizâncio chegou mesmo a ocupar o atual Algarve e que essa posição periférica da Galiza a poupou à passagem avassaladora de muitas tribos bárbaras (como os Vândalos…). A periferia atraiu um dos povos germânicos menos agressivos e violentos: os suevos que por cá se estabeleceram em relativa boa relação com os povos latinizados da região.

3. Os exércitos muçulmanos – que eram isso mesmo, ao contrário dos Visigodos: um exército e não um povo em marcha – não passaram duravelmente além do Douro. Devem ter ocupado as cidades, e talvez as tenham arrasado; devem ter posto em fuga os chefes tradicionais ou forçado uma vassalagem insegura. Mas não arabizaram, como agora se diz, coisa nenhuma. Não me venham falar depressa demais da influência arábica na língua portuguesa, vou dar só um exemplo: Lisboa está, ainda, atulhada de azinhagas, ao menos na toponímia; uma azinhaga é um caminho estreito ladeado por sebes e arbustos e pequenos muros; e palavra mais portuguesa não há. Mas eu tenho uma bisavó que nasceu em Braga, na quingosta da Bruxas que já nem sequer existe, e quingosta é como nós chamávamos ao que no sul se diz azinhaga (chamávamos, porque depois vieram uns senhores de que já falei há uns dias, que sabem falar e escrever correctamente, e que decretaram a forma congosta). Há excepções, claro: a palavra aldeia vem do árabe, e estende-se até à Galiza. Mas o que importa é que a norte do Douro não houve sequer, propriamente, uma Reconquista: os exércitos norteafricanos e árabes aguentaram-se pouco mais de um século, perderam umas batalhas importantes na região mais central de Leão e Castela, e abandonaram o Noroeste. Em 711 desembarcaram em Gibraltar: em 874, a região do Porto foi pacificamente reocupada pelos condes cristãos, certamente pelos bisnetos dos seus antigos senhores. Comparem isto com os quinhentos anos de domínio do Algarve, os que oitocentos anos de domínio de Granada e Córdoba. Para comparar com o Porto, Coimbra passou definitivamente ao domínio cristão apenas em 1064, e quando D. Afonso Henriques nasceu, cinquenta anos depois, ainda era terra moçárabe. E obviamente não fazia parte de Portugal.”

– é verdade. O domínio islâmico em Portugal ainda hoje me espanta pela pouca presença que tem hoje na nossa língua e cultura. Uma ocupação contínua de quase 400 anos em mais de metade do território nacional, e recuando a “apenas” (historicamente falando) oitocentos anos atrás (o que nas “estruturas lentas” da História não é assim tanto) devíamos ter hoje bem mais sinais do Islão entre nós, além destas raras palavras que citas e de alguns escassos vestígios arqueológicos… A razão para estas raridades talvez se encontre no facto de que a maioria da população das cidades muçulmanas era… Moçarabe, isto é, cristã e pré-islâmica, ou seja, “pagani” cristianizados e usando o latim ou o dito “moçárabe”. Por isso é que um dos feitos dos cruzados ao ocuparem Lisboa foi botarem janela abaixo não o mufti local, mas o bispo e, por isso, e que nas cidades libertadas do Sul, os cristãos se espantavam ao encontrar vinhas nos campos… Havia nestas cidades muçulmanas, muitos mouros (norte-africanos), ligados à administração e ao comércio, e os militares eram compostos em grande medida por migrantes sírios e árabes, mas o grosso da população era pré-islâmica e de confissão cristã ou judaica. E isto explica bem a escassez de vestígios que bem observas.

“4. Não tenho tempo aqui para me deter na fascinante questão da origem de Portugal (para outra vez será). Notem só que o chamado condado portucalense era uma zona pequena, que provavelmente não ultrapassava o rio Lima para Norte, e a sul ficava pela ribeira de Antuã (agora conhecida por haver uma estação de serviço na auto-estrada: tristes tempos), uns vinte quilómetros a sul do Douro. Não abrangia o douro vinhateiro nem Trás-os-Montes nem Viseu nem a actual região de Aveiro. Era uma unidade dentro de uma unidade maior dentro de uma unidade maior, porque assim era a Idade Média: assim saibamos um dia reconstruir a Europa: às vezes dependia do rei da Galiza, outras vezes do rei de Leão, mas isso eram questões de fidelidade pessoal, a vassalagem, e questão de saber se na zona do Norte cristão havia um rei, ou dois, ou três: não afectava em nada o viver dos povos, que era igual e, digamos assim, livre.”

– a origem de Portugal é efetivamente uma questão fascinante (pelos seus aspectos singulares e pela perenidade de uma das mais antigas e constantes nações da Europa), e concordo contigo no ponto em que (infiro) afirmas que as ligações genéticas entre o Condado Portucalenses são… Muito exageradas (como diria Mark Twain!). Se devemos buscar uma origem, então esta reside de facto na Galiza, ou melhor na Gallaecia romana, que depois pela via da cisão de um barão ambicioso (Afonso Henriques) se estenderia para sul, ocupando o vazio deixado pelo caos e divisão (crónica…) dos muçulmanos e quebrando a ligação umbilical com a Galiza, não porque houvesse uma descontinuidade, mas porque tal era necessário para afirmar a sua diferença perante a Galiza.

“5. Ainda antes da independência de Portugal, ou melhor, da proclamação de Afonso Henriques como rei, o seu pai foi feito pelo rei de Leão e de Castela dominante no antigo condado de Coimbra, que nada tinha que ver com Portugal dos portucalenses; Afonso Henriques, por várias razões, fez de Coimbra o novo centro de poder (até aí, Guimarães e principalmente Viseu). E deu-se então o primeiro milagre de Portugal: o condado de Coimbra não ficou subordinado a Portugal, mas tornou-se parte integrante dele. Desapareceu o Portugal galego e nasceu o Portugal universal. Devagarinho, como são sempre os primeiros passos: mas depois o mesmo sucedeu a Santarém e Lisboa, e depois ao resto do que agora para nós é um só país.”

É impossível não estar de acordo. Sem Coimbra, não haveria o Portugal de hoje, já que esse condado se viria a assumir como centro geográfico e estratégico de um território que abandona (quase) definitivamente as suas aspirações de reunião ao norte, à matricial Galiza, e optava decididamente por ver estender para sul, para a raia muçulmana, um novo país, abandonando o “velho” e o cadilho fundacional.

“6. O Minho, tão igual à Galiza em tanta coisa, ficou um pouco para trás: os seus nobres acompanharam a corte, e seguiram para Coimbra e depois para Lisboa, ou ficaram, e lentamente empobreceram. Ficou uma terra de pequena propriedade, sem grandes senhores feudais, unida pelos costumes, por um certo cristianismo pagão e pelo poder eclesiástico dos arcebispos de Braga; o Camilo Castelo Branco ainda conheceu esse Minho, ainda o descreve nos seus romances. Ao contrário da zona alentejana da fronteira, despovoada e eriçada de castelos, o Minho viveu os tempos de paz atravessando o rio: nada mais simples do que os sessenta anos de domínio espanhol, de 1580 a 1640: a reacção de minhotos e galegos foi… casar. Em Viana, em Valença, em Monção, todas as famílias que tivessem algum poder social cruzaram sangues e terras (isso não impediu Monção de sofrer um cerco heróico em 1649, e de fazer a bandeira portuguesa resistir até ao fim; foi obrigado a render-se, e só voltou a Portugal com a paz de 1668).”

– sem dúvida que há muito mais unindo o Minho à Galiza do que ao “Portugal do Sul”. O temperamento, o clima e até os preciosismos linguísticos. Essa aliás é a tese daqueles que advogam a formação de uma federação-união entre o Norte de Portugal e a Galiza. É certo que poderia ter bases para avançar, especialmente tendo em conta o clássico descontentamento do Norte (justo) para com Lisboa. Mas a divisão é a solução para os problemas de Portugal? Tal união serviria que interesses? Seria uma tal entidade política economicamente viável, e sobretudo, teria a identidade nacional suficiente distinta dos seus vizinhos para poder sobreviver?

Resposta a:

http://mil-hafre.blogspot.com/2009/12/minho-portugal-e-galiza.html

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Categories: Galiza, Lusofonia, Movimento Internacional Lusófono | 1 Comentário

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One thought on “Galiza: Resposta a Casimiro Ceivães

  1. Visto que neste blog há amor pelas terras de Portugal, aproveito para sugerir uma visita à Memória Portuguesa. Trata-se de uma Enciclopédia on-line, escrita em colaboração pelos leitores. O site usa o conceito Wiki, que permite a qualquer pessoa criar ou editar artigos existentes, melhorando a informação neles contida. Além disso, é possível introduzir comentários em cada artigo, promovendo assim o debate entre os utilizadores.

    www. memoriaportuguesa .com

    Enriqueça o artigo sobre a sua terra natal ou a dos seus pais e avós!

    Será dada especial relevância às memórias dos cidadãos, para que sejam preservadas tradições antigas, recordações de infância, ofícios, cantares, folclore e outras manifestações culturais.

    Para podermos enriquecer os artigos de cada povoação com a informação correcta, nada melhor do que recorrer às autarquias ou a movimentos de cidadãos que se esforçam por promover as suas respectivas regiões. Estamos a solicitar a utilização de texto dos sites das Câmaras, Juntas de Freguesia e sites e blogs particulares, colocando a devida referência à fonte de origem.

    Assim, solicitamos a divulgação desta iniciativa junto dos familiares, amigos e conterrâneos da vossa localidade. Será que poderiam incluir um link para a enciclopédia no vosso site ou blog?

    Ficaremos a aguardar a vossa visita!

    Cumprimentos,

    Wikinet
    www. memoriaportuguesa .com

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