Teixeira de Pascoaes (Parte 8): O Espírito Lusitano ou o Saudosismo

Estátua do poeta, em Amarante

Estátua do poeta, em Amarante

“O Povo português criou a Saudade, porque é a única síntese perfeita do sangue ariano e do semita.
No povo espanhol domina o sangue semita que o tornou ferozmente espiritualista, violento e dramático. No povo italiano domina o sangue ária que o tornou exclusivamente pagão. Veja-se a avidez com que os seus Artistas se abraçaram à arte greco-romana, quando os primeiros investigadores a descobriram. Os próprios Pontífices sentiram a voz do seu sangue dominar e vencer a palavra de Cristo. O casamento que, na Itália, de alguma forma, se deu do Cristianismo adquirido com o Paganismo nato, foi um casamento celebrado a frio, apenas exterior, sem haver tido o verdadeiro amor como causa.
Mas o povo português, criando a Saudade, que é o Desejo e a Dor, que é Vénus e Maria, o Espírito semita e o Corpo ária, viveu a própria Renascença, a qual encontrou portanto, na alma da nossa Raça, a sua expressão vivente e espontânea, a sua força viva que, posa, de novo, em movimento, criará uma nova Civilização. O espírito lusitano abrirá na História uma nova Era.”

É nesta mistura única de cruzamentos e influencias que se encontra precisamente a especial característica da portugalidade: a sua competência para estabelecer pontes entre civilizações e correntes de diálogo entre diferentes religiões e culturas. Ao contrário das crenças norte-européias que dão a mestiçagem como inferior aos paradigmas da pureza racial e cultural, a cultura portuguesa, brotando ela própria do cruzamento de civilizações assume como natural e até benéfica essa mestiçagem.
Quando Teixeira de Pascoaes escreve “O Povo português criou a Saudade, porque é a única síntese perfeita do sangue ariano e do semita”, assume aqui a dúplice matriz que está na origem daquilo a que noutros textos seus identifica como “raça portuguesa”: de um lado a origem indo-europeia que se instalou no ocidente da Península a norte, na Galiza dos gallaeci, na Lusitânia central dos Lusitana e, mais a sul com os celtici que faziam fronteira com os algarvios cónios. Do outro, sobretudo a sul, entre cónios e na costa ocidental, em feitorias fenícias dispersas (Almada, costa algarvia) e depois num afluxo constante, mas sempre ligeiro, durante as presenças cartaginesas, romanas e muçulmanas judeus de várias diásporas oriundos da Palestina ou de outros locais (como o norte de África). Quando Eduardo Lourenço identifica como características fundamentais do povo português o “conservadorismo na ordem dos costumes, autoritária na ordem dos costumes, autoritária no plano da justiça, dogmática na ordem das ideias, intolerante em matéria de crença”. Este conservadorismo e autoritarismo brotam do solo semita da nossa matriz genética mas estes traços não esgotam aquilo que é o português… A estes há que somar o impulso para a descoberta e aventura que os celtas espalharam até ao extremo ocidental ibérico e irlandês e que serviria mais tarde para impulsionar os descobridores até ao Japão e a Ceilão.
E no passo em que Pascoaes fala de “No povo espanhol domina o sangue semita que o tornou ferozmente espiritualista, violento e dramático” encontramos o tipo de visão e presença que ainda hoje é patente em Espanha, não somente na forma apaixonada e absorvente de viver a religião que observamos na devoção popular da “Semana Santa”, encarada com alguma indiferença em Portugal e na própria importação de Espanha da Inquisição e dos seus radicais e cruéis excessos que em Portugal nunca foram tão radicalmente seguidos.

E o poeta amarantino identifica também que “no povo italiano domina o sangue Ária que o tornou exclusivamente pagão”, ou seja, o impulso para o reconhecimento de uma multiplicidade poderes divinos, caprichosos e de curso dificilmente compreensível que explica boa parte da ingovernabilidade italiana e até a juventude de Itália enquanto país, nascida apenas no século XIX quando Portugal tinha já quase novecentos anos de História.

“Sim: a Saudade é a Renascença vivida pela alma de um Povo e não criada pelo artifício das Artes Plásticas, como aconteceu na Itália. A Saudade é espírito lusitano na sua super-vida, no seu aspecto religioso. Ela contêm em si, em vista do exposto, uma nova Religião. Se descende, como demonstramos, de duas religiões (Paganismo e Cristianismo), a Saudade é, sem dúvida, uma nova Religião.”

Se existe cerne na visão política para o futuro de Portugal é este: a arreigada convicção de que é preciso fundar uma nova (re-novada) religião ou – atualizando os termos – uma recuperada visão espiritualista do termo. Esta visão espiritual do mundo, começada a demolir pelo afluxo da influência católica romana e depois, a partir de 1822, com o advento do Constitucionalismo, e posteriormente com o anticlericalismo radical dos Republicanos, terá que ser recuperada se Portugal se quer encontrar a si mesmo e à sua alma perdida.

O processo de recuperação do lodo anímico e depressivo e depressor em que está imerso desde a época do Constitucionalismo só pode ser feito com o tipo e a escala de energias motivacionais e propulsoras de que as religiões são capazes. Assim como foram os Lusíadas que mantiveram viva (pela “Saudade” dos tempos e das glórias que cantavam), também será pela formação de uma verdadeira “igreja lusitana”: tolerante, porque bebendo essa influencia no puro cristianismo, a primeira religião universal anti-étnica e universalista, mas também naturalística e ctónica, na tradição da matriz celta que Dalila Pereira da Costa corretamente reconheceu em “A Nau e o Graal”. Essa religião nova, terá com objeto de adoração a devoção pelo Espirito Santo, como método o Culto do mesmo, ainda hoje bem vivo no Brasil e nos Açores e como vertente intelectual (porque a tem que haver, na sua fundadora) o pensamento sebastianista de Pessoa, Vieira, Agostinho e, claro, do próprio Teixeira de Pascoaes e da Renascença Portuguesa, agora reinterpretada e reatualizada na forma do MIL: Movimento Internacional Lusófono.

“Nós somos, na verdade, o único Povo que pode dizer que na sua língua existe uma palavra intraduzível nos outros idiomas, a qual encerra todo o sentido da sua alma colectiva. A alma lusitana concentrou-se numa só palavra, e nela existe e vive, como na pequena gota de orvalho a imagem do sol imenso. O único povo que sente a Saudade é o povo português, incluindo, talvez o galego, porque a Galiza é um bocado de Portugal sob as patas do leão de Castela. A Galiza é a nossa Alsácia!”

A Saudade é a constatação da temporalidade da existência humana. Não é portanto um exclusivo da portugalidade ou da Lusofonia e existem efetivamente vários termos equivalentes em outras línguas europeias. Mas o termo, em português, tem um significado diferente. Consagra a constante insatisfação do português para com o normal fluir do tempo, expondo a sobrevivência do pensamento mítico bem vivo e atual no seio da cultura e da mundovisão portuguesa atual.

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