Teixeira de Pascoaes: Sobre a Saudade – parte 7

“Foi a Saudade, transfigurada em Acção e Vitoria no corpo de Afonso Henriques, que riscou na Ibéria as fronteiras de Portugal. Foi a Saudade o zéfiro do Remoto que enfunou as velas das nossas Naus descobridoras. Foi ela que venceu em Aljubarrota. Foi ela que cantou as estrofes d’os Lusíadas. Foi ela que dobrou o Cabo das Tormentas; e, fitando na noite tempestuosa, o vulto do Adamastor, o converteu num fragoroso promontório. Foi ela que criou, nos seus dias de luto, a misteriosa figura do Encoberto. Foi ela que despedaçou as nossas grilhetas em 1640, e, com um relâmpago dos seus olhos, fulminou o leão castelhano. Foi ainda ela que animou a alma popular no dia 5 de outubro… Essa ultima esperança que não devemos deixar morrer!”

Portugal é um país extraordinário. E não o dizemos em resultado da aplicação acéfala de qualquer nacionalismo bacoco ou anacrónico mas constatando a espantosa e única realidade da nossa própria existência onde as energia centrípetas de Castela e Madrid conseguiram tudo conformar ao seu império. Portugal, foi o único que logrou sobreviver a este Buraco Negro político centrado na meseta ibérica, e essa idiossincrasia nacional não é fácil de explicar. Foi este milagre que levou à presença de uma corrente subterrânea mas constante de providencialismo e messianismo ao longo da nossa Historia, que não pode ser explicado apenas pela presença no nosso sangue de 20% de ascendência judaica ou através da absorção da cultura judaica pela mão dos Cristãos-Novos.

“É absolutamente preciso que a esperança que nos deu o dia 5 de outubro, não morra; e para isso, é absolutamente preciso que a nossa República seja uma República Portuguesa e não uma República afrancesada, como o Constitucionalismo. E porque a monarquia constitucional não soube ser portuguesa, é que ela caiu sem nada legar a Portugal, a não ser os seus vícios e os seus crimes.”

Como apontaram justa e com grande acuidade Miguel Real e António Telmo, a grande disfunção da atual forma de “organização estatal” assumida pela Republica resulta do expurgo quase total do papel que a religião e a espiritualidade podem e devem cumprir nas formas de organização das sociedades. A época histórica em que essa sintonia entre Estado e Religião foi maior corresponde à Idade Média portuguesa, sobretudo sob Dom Dinis, o monarca que construiu o país que os seus sucessores saberiam lançar na gigantesca e incrível gesta universalista dos Descobrimentos, malbarantando depois este capital de desenvolvimento ao deixarem-se seduzir pelo ultracatolicismo e pelos princípios centralistas de Maquiavel, já sob o reinado de Dom Manuel e de Dom João III.

Ora a infusão do republicanismo positivista francês (a perniciosa influência de “Paris”) bastas vezes citada por Pascoaes e a – anterior e antecessora – influência britânica da monarquia constitucional tinham esse ponto em comum: o de encontrarem na influencia da religião católica a razão para a “decadência dos povos peninsulares” que haveria de levar Antero de Quental ao suicídio. Mas quer republicanos, quer liberais confundiam a influencia imperialista da Roma (Igreja Católica) de Pascoaes com a influencia da religião e espiritualidade. Sem duvida que podemos localizar na Inquisição, com a sua perseguição fanática e cega aos banqueiros judeus, na sua perseguição a todos os livres pensadores, cientistas e filósofos mais ou menos heréticos uma boa parte da quota de responsabilidade pelo pouco apreço pela inovação e pela ciência que ainda hoje se regista em Portugal. Mas essa influencia negativa à criatividade (sempre pelo medo da diferença, que poderia chamar a atenção perigosa das autoridades inquisitoriais) radica muito mais na visão extremada do catolicismo pós-Trento do que na de um Cristianismo tolerante e popular que se manteve vivo até hoje nos ritos do Culto do Espírito Santo nos Açores e no Brasil e que mais espiritualista do que estatista ou sistémico animava a alma portuguesa que florescendo na nossa Baixa Idade Media e Renascimento formaria um país que é ainda hoje a nação mais antiga da Europa.

A época em que a espiritualidade da religião popular portuguesa melhor coexistiu com as estruturas e órgãos do Estado foi – já o dissemos – a Idade Media. Nela, os concelhos concentravam localmente o essencial das competências do Estado, formando uma malha administrativa que muito se assemelhava à “federação de municípios livres” de Agostinho da Silva. Em Portugal nunca houve verdadeiro feudalismo, pelo menos não sob os modelos francês ou inglês, já que a nobreza nunca deteve aqui, entre nós, a mesma influencia junto dos monarcas, que sempre a souberam enquadrar e domesticar… Sem o peso dominante desse ramo indoeuropeu das sociedades (Clero-Nobreza-Terceiro Estado), a burguesia municipal pôde, com a aliança e cumplicidade dos monarcas forjar um regime de autonomia e liberdade republicana que poderia servir de modelo ainda hoje, quando a questão da “Regionalização” torna a ficar atual…

A República de 1910 não confiava no mundo rural. Via nele (justamente) simpatias pela monarquia que acabara de derrubar nas grandes cidades e reconhecia aqui uma influencia católica que receava… Por isso, destruiu as virtudes da autonomia municipalista que herdara da monarquia e enveredou por uma viva caminhada anticlerical que cedo descambaria para uma deriva anti-religiosa e anti-espiritualista. Extirpando a alma religiosa da portugalidade, a República daria origem a um nadomorto que os movimentos ultracatólicos haveriam de aproveitar a seu favor, lançando as bases para uma reacção extremada que traria cinquenta anos de obscurantismo salazarista.

“O Constitucionalismo nunca se casou com a Nacionalidade Portuguesa, porque foi sempre estrangeiro. Toda a obra que um povo realizar, fora do seu espírito, não vinga, é estéril e condenada a uma morte próxima.”

É a ligação entre corpo nacional e espirito português que se quebrou na monarquia constitucional e que Teixeira de Pascoaes também não tardou em reconhecer na perniciosa ascendência das ideias republicanas francesas entre os republicanos portugueses. Aquilo que a Republica fez, procurou o filósofo de Amarante reatar, buscando numa re-ligação telúrica e naturalística reencontrar o fio de ariadne da espiritualidade portuguesa. A repelida alma portuguesa seria reencontrada na recuperação do ponto central do pensamento pascoaliano: a Saudade.

Desprovido do edifício religioso fornecido durante séculos pelo catolicismo e expurgado (a bem ou a mal) pelo anticlericalismo republicano, Pascoaes assumia que só repondo uma alma religiosa em Portugal poderia o país sair deste torpor suicidário onde vegetava desde a perda do rei nas areias de Alcácer Quibir e via na Saudade o corpo essencial desta espiritualidade perdida. Esse sentimento teorizado Dom Duarte no “Leal Conselheiro” de insatisfação perante a realidade quotidiana, essa energia anímica que empurrava os oestriminios a comerciar com as ilhas britânicas em busca do cobre procurado no extremo ocidente por fenícios e cartagineses e que potenciada pelos célticos e pelos colonos semitas no sul da Península serviria de matriz fundadora do aventureirismo luso.

Será numa versão atualizada deste sentimento religioso popular, telúrico, naturalístico, assente no espirito positivo e motivador da Saúde que hoje é também necessário fazer alicerçar a saída de Portugal para fora deste torpor com cheiro de morte onde os “senhores louros da Europa do norte” de Agostinho da Silva nos encastraram. Sejamos claros: é necessário reinventar a religião portuguesa se queremos que Portugal saia desta caminhada autodestrutiva: uma religião que cumpra o papel de re-ligar o homem com o meio natural, com os pequenos deusas e ninfas das fontes e dos perros do período pré-romano e celtizante, transportado quase intacto até ao são e tolerante politeísmo romano. Essa intemporalidade característica do tempo mítico – completamente distinto do tempo anti-circular do Positivismo – é a essência que se pode antever na busca eterna pelo “Prestes João”, pelo “Caminho das Índias”, pela “Ilha das Sete Cidades”, pela “Ilha dos Amores, por enfim, todas as quimeras extra-mundo que os portugueses sempre buscaram ao longo da Historia, quer conscientemente, embarcando nas naus e caravelas, quer inconscientemente partindo para as feitorias e colónias de África, Brasil e Índia e, mais tarde, partindo na aventura da emigração.

É como se os portugueses tivessem uma consciência inconsciente da impossibilidade da sua existência como país independente e incapazes de suportar a fragilidade económica a que a pobreza dos seus chãos e minas os votou buscassem na Transcendência um refugio para esta existência terreal. Esta fuga para a Transcendência é o movimento para a Saudade que atravessa todas as formas de expressão culturais em Portugal, a começar pela mais perene e influente matriz cultural da História portuguesa que é o Sebastianismo, ele próprio expressão máxima da incapacidade lusa para viver no mundo concreto e da sua recusa pela aceitação de um facto tão material e concreto como a perda de um rei. Se a nem a morte real consegue penetrar a densa malha do sentimento popular é porque essa malha assenta na estrutura mental herdade dos cónios, turdulos e lusitanos. Essa negação – quase doentia – da realidade é a expressão da Saudade e o facto deste Sebastianismo ter conseguido devolver algo que parecia impossível – dada a força do adversário – significa que a Saudade é uma energia positiva, capaz de feitos impossíveis a sistema de pensamento mais práticos, utilitários e “lógicos”, como aqueles que encontramos nos países do norte da Europa que hoje regem a Europa de forma mais ou menos imperial.

“Mas antes de tudo, é preciso que Portugal seja governado por homens representativos da sua Raça, e não por bacharéis desnacionalizados, tendo apenas no cérebro vagas teorias jurídico-sociais, importadas do Estrangeiro, bebidas à pressa na Universidade de Coimbra, esse terrível foco desnacionalizador, por cruel ironia, situado no meio da mais estranha paisagem quinhentista, onde a Sombra de Camões e a Sombra de Bernardim perpassam à luz do luar…”
(…)
“É preciso que as nossas leis não sejam confusas cópias de leis estrangeiras, mas que sejam feitas dentro do carácter português e da época, formando um todo harmónico e orgânico, com uma alma e um corpo, em vez duma jurídica salada exótica…”

De novo, os problemas da Primeira República estão por resolver e persistem ainda hoje… Ontem, como hoje, se existem ainda graves lacunas na boa governança da “coisa pública” portuguesa, esta deve-se à inexistência de uma elite política digna desse nome. A reduzida clique de “líderes políticos” que se alterna no Poder, quer sob o destrutivo “rotativismo” da Primeira Republica, quer sob o atual regime. É esta a elite que Portugal teve o azar providencial de ter e que é a primeira responsável pelo atávico estado de atraso do país. Não podemos contudo deixar de reconhecer que esta elite não é exógena, nem hoje nem na época de Teixeira de Pascoaes: ela brota diretamente da terra nacional e daquele “Povo” que ora despreza (a sua vertente mais “direitista”) ora idolatra de forma paternalista (na sua vertente mais “esquerdista”). Se esta elite enferma de defeitos de fabricação e ação, tal mais não se deve do que à permissão de transfusão do espirito centralista e castradoramente católico, solar e estritamente “masculino” do catolicismo (a “Roma” pascoaliana) e das correntes reativas do Positivismo norteeuropeu do Liberalismo republicano da Primeira República e da União Europeia da atualidade. Um e outro violam o sentimento português e ao serem adoptados tão convictamente pelas elites culturais e políticas acentuam o divórcio entre Povo e a asfixiada “alma portuguesa” de Paulo Loução e as elites que insistem em governar o país como se este fosse apenas mais um “país europeu”.

Obviamente, Portugal pelas sua tripla matriz atlante, céltica e semito-judaica não é um país europeu “normal”, não se entendermos por normalidade aqueles conceitos que a elite reinante desde Dom Dinis aculturou como seus: os de uma religião centralista, formal e externa, os de uma governança centralizada, utilitarista e areligiosa (se não mesmo ferozmente antireligiosa). Por isso não é difícil de antever um mal disfarçado sentimento de frustração nas elites políticas e culturais por este “abestalhamento” do Povo, que arrastam penosamente atrás de si, procurando afanosamente e insessatemente “civilizar” e “europeizar”. A frustração deprime os políticos sinceros e leva-os a acreditar que Portugal é um pântano ingovernável e leva-os a transpor esse sentimento a toda a sociedade, contribuindo assim para um sentimento depressivo que habita aquilo que resta da alma portuguesa…

“A primeira cousa a fazer, é dar às Crianças, nas escolas, o conhecimento mais completo da alma da sua Raça, para que elas a comunguem e adquiram a perdida energia moral. É preciso que a escola, antes de tudo, crie portugueses autênticos. E assim, a reforma da instrução primaria deveria ser feita nesse sentido.”

Como Agostinho da Silva, Teixeira de Pascoaes aponta aqui aquele que é efetivamente o grande travão do nosso desenvolvimento pessoal e enquanto comunidade: a Educação. O poeta de Amarante não detalha, contudo, de uma forma tão aturda como Agostinho o seu plano educativo. Noutros textos, divide este esforço em três áreas distintas: escolas primárias, escolas profissionais e universidades, estando todos estes escalões sob controlo do movimento da “Renascença Portuguesa”, mas além deste objetivo algo vago de “criar portugueses autênticos” e de uma busca por uma recuperação da alma portuguesa das grilhetas que Paris (Europa) e Roma (Igreja católica) lhe deitaram, não vemos mais detalhe… Ainda que em si mesmo, o imperativo de reencontrar a perdida e oprimida alma portuguesa seja amplamente suficiente, naturalmente… Ainda que Pascoaes nunca se tenha alargado muito sobre esta “educação portuguesa”, noutros pontos exprimiu o seu desejo de que esta contivesse um forte enfoque técnico e cientifico, para além de uma tónica principal sobre a literatura e a capacidade e conhecimentos sobre a língua, a sua escrita e até uma forma revivida de religiosidade, contendo esse híbrido único da “religião popular portuguesa”

“A segunda importantíssima reforma seria a da nossa Igreja. Impõe-se a fundação da Igreja Lusitana.”

Se será pela Educação que se recuperará o essencial da adormecida alma portuguesa, esta recuperação só será duradoura se for acompanhada de uma renovação da participação espiritual que a religião ocupa na vida anímica do povo… É imperativo que este cruzamento único que se registou aqui, neste extremo ocidental da Europa, entre a matriz semita e israelita (que contribui, não o esqueçamos, para 20% do genoma português), a matriz celta (naturalística e ctónica, tão flagrante na religiosidade popular pré-romana) e a matriz cristã (neoplatónica e pelágica, logo pessoalista e direta e não mediada nem centralista como aquela versão de cristianismo que Roma nos impôs). É esta versão tríplice, simultaneamente revolucionaria e tradicionalista da religiosidade e espiritualidade que serviria de alicerça à fundação de uma “Igreja Lusitana”, completamente independente de Roma e da hierarquia católica e fiel para com a religiosidade popular que, assim, poderia reemergir e preencher o esvaziado aspecto espiritualista da forma lusa de viver a vida, e que o Positivismo “utilitarista” e “tecnocrático” da atual União Europeia é apenas a forma de despersonalização mais recente que se exerceu sobre Portugal.

Categories: Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia, Portugal, Sociedade Portuguesa | Etiquetas: | Deixe um comentário

Navegação de artigos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

Eleitores de Portugal (Associação Cívica)

Associação dedicada à divulgação e promoção da participação eleitoral e política dos cidadãos

Vizinhos em Lisboa

A Vizinhos em Lisboa tem em vista a representação e defesa dos interesses dos moradores residentes nas áreas, freguesias, bairros do concelho de Lisboa nas áreas de planeamento, urbanismo, valorização do património edificado, mobilidade, equipamentos, bem-estar, educação, defesa do património, ambiente e qualidade de vida.

Vizinhos do Areeiro

Núcleo do Areeiro da associação Vizinhos em Lisboa: Movimento de Vizinhos de causas locais e cidadania activa

Vizinhos do Bairro de São Miguel

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos

TRAVÃO ao Alojamento Local

O Alojamento Local, o Uniplaces e a Gentrificação de Lisboa e Porto estão a destruir as cidades

Não aos Serviços de Valor Acrescentado nas Facturas de Comunicações !

Movimento informal de cidadãos contra os abusos dos SVA em facturas de operadores de comunicações

Vizinhos de Alvalade

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos de Alvalade

anExplica

aprender e aprendendo

Subscrição Pública

Plataforma independente de participação cívica

Rede Vida

Just another WordPress.com weblog

Vizinhos do Areeiro

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos do Areeiro

MDP: Movimento pela Democratização dos Partidos Políticos

Movimento apartidário e transpartidário de reforma da democracia interna nos partidos políticos portugueses

Operadores Marítimo-Turísticos de Cascais

Actividade dos Operadores Marítimo Turísticos de Cascais

MaisLisboa

Núcleo MaisDemocracia.org na Área Metropolitana de Lisboa

THE UNIVERSAL LANGUAGE UNITES AND CREATES EQUALITY

A new world with universal laws to own and to govern all with a universal language, a common civilsation and e-democratic culture.

looking beyond borders

foreign policy and global economy

%d bloggers like this: