Daily Archives: 2009/08/05

Teixeira de Pascoaes: “Ao Povo Português, A “Renascença Lusitana” – Parte 6

“A Renascença Lusitana é uma associação de indivíduos cheios de esperança e fé na nossa raça, na sua originalidade profunda, no seu poder criador duma nova civilização. Esta fé e esta esperança não resultam de uma ilusão patriótica, mas do conhecimento verdadeiro da alma lusitana, a qual devido a influências estrangeiras de natureza política, artística, literária e sobretudo religiosa, se tem adulterado nos últimos séculos da nossa História perdendo o seu carácter, a sua fisionomia original e, portanto, as suas forças criadoras e progressivas.”

O termo “raça”, utilizado neste ponto por Pascoaes, é hoje em dia anacrónica e conotada de forma diversa daquela de que se revestia na sua época. Mas se “raça” não vale pelo mesmo valor do princípio do século XX, o conceito básico que liga o termo à “portugalidade”, isto é, ao conceito abstrato de ser e sentir-se como “português”, permanece atual. Sobretudo a sua crença de que havia algo de especial e único em Portugal, uma potência para a geração de uma nova civilização, um protótipo de organização social e política, mais livre, local, justa e humana, do que qualquer outra que tenha já surgido na história humana. Teixeira de Pascoaes acreditava que essa promessa não se tinha cumprido e que Portugal caminhava hoje perdido pelas brumas da História, sem rumo nem tino aparente, devido à contaminação desse espírito livre – herdeiro de Viriato – pelas ideias exógenas do norte da Europa (a “Paris” de Pascoaes) que haveriam de abafar a energia criadora e libertária dos portugueses da fundação da Nacionalidade e do primeiro período dos Descobrimentos.

“O fim da Renascença Lusitana é combater as influências contrárias ao nosso carácter étnico, inimigas da nossa autonomia espiritual e provocar, por todos os meios de que se serve a inteligência humana, o aparecimento de novas forças morais orientadoras e educadoras do povo, que sejam essencialmente lusitanas, para que a alma desta bela Raça ressurja com as qualidades que lhe pertencem por nascimento, as quais, na Idade Média, lhe revelaram os segredos dos mares, de novas constelações e novas terras, e, de futuro, lhe deverão desvendar os mistérios dessa nova vida social mais bela, mais justa e mais perfeita.”

Como a Renascença Lusitana de Pascoaes, também o MIL: Movimento Internacional Lusófono deve bate-se de todas as formas e recorrendo a todos os meios que pareçam oportunos ou adequados a idêntico combate. Como a Renascença, devemos procurar expurgar as negativas e castradoras influências de Bruxelas (a nova “Paris” de Pascoaes) e reencontrar nas energias anímicas do povo a força para superar esta tirania das ideias e dos números mascarada de “processo de integração europeia” com que os senhores do norte da Europa nos querem absorver e tornar em epi-colónia periférica turística… Será pela supressão dessa tirania “suave” porque quase invisível e opressora, porque generalizada que Portugal poderá libertar esse jugo redutor e assumir a sua verdadeira identidade.

“Logo que a alma portuguesa se encontre a si própria, reaverá as antigas energias e realizará a sua civilização.”

Porque o apogeu de Portugal enquanto país sucedeu quanto éramos mais autónomos, do ponto de vista cultural e económico, sob o reinado de Dom Dinis, com a sua perfeita descentralização municipalista (depois destruída pela voraz onda normalizadora dos forais manuelinos), até ao reinado de Dom João III. Aqui se forjaram o essencial das realizações técnicas e cientificas que haveriam de sustentar o primeiro império colonial da História e o mais duradouro de todos eles, terminado apenas pela insana teimosia de um regime anacrónico em perpetuar estruturas administrativas coloniais muito para além daquilo que seria razoável.

“Temos, portanto, em vista: dar ao povo uma educação lusitana e não estrangeira; uma arte e uma literatura, que sejam lusitanas, e uma religião no seu sentido mais elevado e filosófico, que seja também lusitana.”

Sem dúvida que a orientação meramente escolástica e eclesiástica que caracterizou a educação em Portugal nos séculos XVII e XVIII marcou decisivamente a decadência de Portugal nos séculos vindouros, até aos dias de hoje. Enquanto que na Europa se começava a instalar o pensamento científico desenvolvido a partir do método experimental de Roger Bacon e Galileo Galilei, em Portugal o essencial da produção literária versava temas religiosos ou revivalistas quanto aos feitos do passado ou (na melhor das hipóteses) recuperando narrativas de viagens dos séculos XVI e XVII. Por isso, o regressa à “educação lusitana” sugerido neste passo por Pascoaes, não poderia ser o regresso a esta forma de “deseducar”, tanto mais porque o poeta era um republicano e a Republica se firmara em grande medida contra a influencia esmagadora e nefasta da Igreja na sociedade portuguesa.

A “educação lusitana” de Teixeira de Pascoaes era aquela educação eminentemente pratica e experimental que no final da nossa Idade Media haveria de construir o edifício cientifico e técnico que instauraria as bases astronómicas, navais, militares e tecnológicas que dariam a Portugal a superioridade absoluta em todos estes domínios nos  mares do mundo durante quase um século e que assegurariam a sobrevivência do país durante a maior parte da sua existência… É que se nas palavras de Eduardo Lourenço, Portugal foi sempre um país que “tinha um Império”, dependendo deste para a sua mais essencial sobrevivência até muito recentemente, se o manteve foi precisamente devido a essa superioridade cientifica… Anulada pela adopção fanatizada da Reforma ultracatólica de Trento e pelo erro babilónico que foi o de tentar sob todas as formas e alem do historicamente razoável conservar um império anacrónico, esquecendo que se ele justificou a sua sobrevivência, procurar conservá-lo poderia ter ditado o seu próprio fim.

“Com efeito, quem surpreender a alma portuguesa, nas suas manifestações sentimentais mais íntimas e delicadas, vê que existe nela, embora sob uma forma difusa e caótica, a matéria duma nova religião, tomando-se a palavra religião como querendo significar a ansiedade poética das almas para a perfeição moral, para a beleza eterna, para o mistério da vida… Ora a alma portuguesa sente esta ansiedade duma maneira própria e original, o que se nota facilmente analisando os cantos populares, as lendas, a linguagem do povo, a obra de alguns poetas e artistas e sobretudo, a suprema criação sentimental da Raça – a Saudade!”

O significado pascoaliano para a “religião da Saudade” é claro: uma eterna procura pela perfeição moral. E esta perfeição seria atemporal, porque correndo no cíclico e eterno tempo mítico de Mircea Eliade e das civilizações pagas (pré-romanas) que o poeta buscava na sua visão naturalista dos penhos e dos cerros, no seu exílio voluntário de Amarante. Esta religião da Saudade – cujas manifestações subterrâneas Teixeira de Pascoaes reconhecia na cultura popular portuguesa teria que ser o eixo da necessária recuperação de Portugal do limbo onde a Republica a deixara. Mesmo Zola reconhecera que a jovem republica portuguesa fizera em dez anos  que levara aos republicanos franceses a cumprir. Nessa pressa de realizar as reformas que a Geração de 70 antevira (justamente) como necessárias e ainda no longo rescaldo da humilhação nacional que fora o Ultimato britânico, a Republica procurara reformar, “europeizar” o país. Frequentemente mais areligiosos do que ateus ou anticlericais os primeiros republicanos, tentaram corroer os alicerces da sociedade portuguesa da época, atacando as estruturas religiosas. No processo, antagonizaram as populações rurais (profundamente católicas e tradicionalistas) criando uma clivagem que o regime do Estado Novo saberia utilizar em proveito próprio.

Desprovido de qualquer esteio profundo, como aquele que a religião oferece, a Republica cavara a prazo o seu fúnebre destino. Incapaz de republicanizar o mundo rural, aliena-o e culpa-o do atraso atávico do país. Encontra nos boçais a responsabilidade pelo atraso cientifico, tecnológico e cultural que a bruta comparação com as grandes capitais europeias torna evidente. Desprezando a maioria do território nacional, cria as bases para o presente ermamento e subdesenvolvimento do interior, considerado a partir de então como a canga metálica que urge decantar para tornar o país capaz de ombrear com os “grandes” do norte da Europa. Forçando e tentando acelerar esse processo centraliza e suprime as liberdades e autonomias municipais que desde Dom Manuel não haviam parado de diminuir, mas que na monarquia ainda eram muito significativas.

Retirando a religião católica do centro da cultura português, a Republica cravara um espeto mortal no corpo de Portugal, extraindo a sua alma e não tentando substituí-la por mais nenhuma outra, porque o Positivismo e a Maçonaria não poderiam jamais ter a adesão popular que o seu padrão de sofisticado intelectual exigia.

“Sim, na alma lusitana há a névoa duma nova religião; e por isso, o catolicismo, importado de Roma, jamais se tornou português, como se tornou espanhol, por exemplo. Todavia, em virtude da insistência com que tem sido cultivado em Portugal, concorreu para desnaturar o nosso carácter; é necessário, portanto, combatê-lo, como a todos os inimigos invasores, ou sejam de casta pedagógica, artística, literária, religiosa ou filosófica.”

Pascoaes encontra na importação, nunca devidamente aclimatada para as especificidades da alma portuguesa, uma das raízes para aquilo a que Antero de Quental designava de “a decadência de Portugal”. Este catolicismo romano, tomara o lugar da religiosidade popular, oprimira-a e forçara-a a mergulhar em subterrâneos de onde nunca mais tornará a sair. E é nesta desnaturação do espirito religioso produzida em Portugal pela repressão da religiosidade popular e pela imposição imperial de um modelo religioso exógeno que se produzira o drama de um povo a quem removeram a alma sem instalar nesse lugar que se produzira esta longa, acentuada e falsamente aparente decadência de Portugal que urgia tanto na nossa como na sua época, ultrapassar reencontrando os valores perdidos e olvidados da portugalidade, contra a civilização importada de Paris (Europa) e a religião importada de Roma (o Catolicismo).

“Esta luta, assim como a obra reconstrutiva da Renascença Lusitana será feita, além doutros meios, por meio de conferências, livros e duma revista de literatura, filosofia ciência, crítica social, etc, que se intitulará A Águia e será o órgão da sociedade.”

Obra que hoje é assumida pela moderna encarnação da Águia que tem a designação de Nova Águia… A Renascença Portuguesa reencarnou – já o dissemos – no Movimento Internacional Lusófono. As conferencia já o MIL as organiza tendo tido a primeira como tema “O Futuro da CPLP”, os livros têm sido regularmente publicados pela Zéfiro na colecção “Nova Águia”. O papel e a missão da Renascença de Teixeira de Pascoaes continua assim, bem vivo e perene… Assim como Portugal e as problemáticas que deram origem a estes dois movimentos, infelizmente.

“Diremos, de passagem que consideramos como os grandes factores do nosso renascimento, a Higiene e a Arte.
Por aquela atingiremos a harmonia física e, por esta a harmonia espiritual.
A Ginástica encerra tanta virtude como a Arte Poética.”

O poeta amarantino esclarece aqui, neste parágrafo, os dois pontos que considera essenciais para o desenvolvimento de Portugal: um foco nas vertentes educativas e governativas da Saúde e da Arte. Pela primeira, se produzirá um povo saudável, capaz de focar a sua atenção e energia nos problemas intelectuais e materiais do Desenvolvimento e a plenitude do génio criativo que caracteriza o português, soterrado por séculos de Inquisições e Santos Ofícios, pelo poder opressivo de um estado paternalista que não aprecia as liberdades dos seus cidadãos.

“A guerra ao álcool, ao tabaco, à alimentação carnívora, por exemplo, é uma guerra santa e confunde-se com a glorificação da Beleza moral, com a apoteose dos sentimentos e das ideias mais puras e transcendentes.”

A Teixeira de Pascoaes repugna o álcool porque este reduz a capacidade criativa e a inteligência do indivíduo que se deixa vencer pela tentação da sedução dos vapores alcoólicos, e o tabaco é outro prazer imediatista que, a prazo, produz a morte e o sofrimento… Se esse vício persiste, persiste apenas pelos rendimentos imorais que dá a ganhar a tantos “empresários da dor e da doença. Quanto à “alimentação carnívora”, esse é um tema particularmente atual… Em termos económicos a eficiência económica de alimentar animais a pastagens representa um enorme desperdício se compararmos as calorias ingeridas por esses animais e a obtidas por nós quando ingerimos a sua carne. Em termos éticos, a operação também não é adequada, já que os animais de criação intensiva passam vidas em condições atrozes, em espaços exíguos, sendo separados muito jovens das suas mães e sendo mortos e transportados em condições que não procuram minimizar o seu sofrimento. O Humanismo (que não se pode apenas aplicar aos sujeitos humanos) não pode coexistir com este tratamento dos animais, por isso alem de nos ser simpática esta defesa do vegetarianismo de Pascoaes, também a assumimos como nossa (pelo menos tendencialmente) na nossa visão pessoal do futuro de Portugal.

Categories: Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia, Política Nacional, Portugal | Etiquetas: | Deixe um comentário

Quando as legendas SRT deixam de mostrar caracteres portugueses no VLC para Ubuntu


(http://www.ubuntu.com)

Se de repente (quer dizer… depois de um upgrade qualquer) o VLC Player deixar de conseguir ler como deve ser as legendas em formato .SRT, ou seja, se estas se começarem a portar de modo estranho, nomeadamente se todas as frases contendo carateres portugueses desaparecerem e se apenas aquelas sem os ditos forem mostradas no filme, isso poderá ser porque se abrir a janela de terminal do VLC, abrindo-a, encontra a mensagem:

“Try manually setting a character-encoding before you open the file.
[00000395] subsdec decoder error: failed to convert subtitle encoding”

Uma solução “à bruta” passa abrir o ficheiro .srt das legendas e zás. Fazer um Find-Replace a todos os caracteres acentuados, substituindo por exemplo ç por c.
Outras formas mais elegantes passam por instalar, via Synaptic o “recode” e no Terminal digitar:
recode iso-8859-15..utf-8 nomedofcheirodalegenda
o que mudará o formato da legenda do utf-8 para o iso-88591 que suporta os carateres da língua camoniana…
Este método, contudo, não é o meu favorito… Pessoalmente, uso o comando de Terminal:
iconv -f iso-8859-1 -t utf-8 legenda.original.srt > legenda.originalutf.srt
que faz um novo srt, no formato utf-8, que supora já perfeitamente os carateres da língua portuguesa.

O problema resulta do facto do Ubuntu trabalhar no formato UTF-8 e a maioria das legendas SRT estarem no formato ISO-8859-1

Fontes:
http://www.ubuntu.com/
http://wiki.ubuntu-br.org
https://lists.ubuntu.com/mailman/listinfo/ubuntu-br

Categories: Informática | Etiquetas: | 1 Comentário

Create a free website or blog at WordPress.com.

Eleitores de Portugal (Associação Cívica)

Associação dedicada à divulgação e promoção da participação eleitoral e política dos cidadãos

Vizinhos em Lisboa

A Vizinhos em Lisboa tem em vista a representação e defesa dos interesses dos moradores residentes nas áreas, freguesias, bairros do concelho de Lisboa nas áreas de planeamento, urbanismo, valorização do património edificado, mobilidade, equipamentos, bem-estar, educação, defesa do património, ambiente e qualidade de vida.

Vizinhos do Areeiro

Núcleo do Areeiro da associação Vizinhos em Lisboa: Movimento de Vizinhos de causas locais e cidadania activa

Vizinhos do Bairro de São Miguel

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos

TRAVÃO ao Alojamento Local

O Alojamento Local, o Uniplaces e a Gentrificação de Lisboa e Porto estão a destruir as cidades

Não aos Serviços de Valor Acrescentado nas Facturas de Comunicações !

Movimento informal de cidadãos contra os abusos dos SVA em facturas de operadores de comunicações

Vizinhos de Alvalade

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos de Alvalade

anExplica

aprender e aprendendo

Subscrição Pública

Plataforma independente de participação cívica

Rede Vida

Just another WordPress.com weblog

Vizinhos do Areeiro

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos do Areeiro

MDP: Movimento pela Democratização dos Partidos Políticos

Movimento apartidário e transpartidário de reforma da democracia interna nos partidos políticos portugueses

Operadores Marítimo-Turísticos de Cascais

Actividade dos Operadores Marítimo Turísticos de Cascais

MaisLisboa

Núcleo MaisDemocracia.org na Área Metropolitana de Lisboa

THE UNIVERSAL LANGUAGE UNITES AND CREATES EQUALITY

A new world with universal laws to own and to govern all with a universal language, a common civilsation and e-democratic culture.

looking beyond borders

foreign policy and global economy

O Futuro é a Liberdade

Discussões sobre Software Livre e Sociedade