Os cinco mitemas de Portugal segundo Gilbert Durand

Gilbert Durand identifica cinco mitemas essenciais dentro do grupo mítico definido como “Idade de Ouro”:

1. Mitema da “realeza perdida”: elemento fundador e central ao tema da Saudade, que atravessa toda a História e Cultura (no sentido mais lato) e que radica nas origens gregas da civilização europeia, nomeadamente no mito de Cronos, deposto por Júpiter e pela sua descendência e reeditado no mito graálico do “rei doente”. As imagens do “país decadente” regido pelo rei doente do mito medieval está também ligado ao mito alquímico da “árvore doente” que o Salvador, o rei perdido e reencontrado irá resgatar. Especialmente forte em momentos de crise nacional, com sob a ocupação filipina ou em momentos de crise económica e social prolongada, como atualmente, este mito do “rei perdido” está sempre latente na cultura portuguesa de uma forma extremamente energética e potencialmente muito poderosa.

2. Mitema do “rei escondido”: Porque só pode haver retorno à “realeza perdida” do primeiro mitema, se houver um catalisador humano – interpretado aqui na figura de um “rei” – então esse catalisador tem que sobreviver, transcender ao próprio tempo, porque sendo um “rei perdido” tem que ser capaz de transcender os limites do espaço e do tempo, vivendo na transcendência imanente sem-tempo e circular do tempo mítico de Eliade. Ora este mitema pressupõe uma intervenção no tempo real e imediato, algo que é incompatível com o tempo mítico onde existe o “rei escondido”, uma contradição que o mitema resolve introduzindo o conceito de “lugar atópico e atemporal”, um sítio do Mundo onde o tempo não passa ou percorre um caminho diverso daquele que corre no resto do mundo e um local utópico (no sentido etimológico do termo). Este local é a cova da montanha onde se esconde Frederico II ou a Avalon de Artur ou as Ilhas Afortunadas onde espera Dom Sebastião o momento do retorno.

3. O mitema dos “reinos de Luz”: os locais utópicos onde se conservam estes “reis escondidos” aguardando o momento do seu reingresso no mundo são cidades perfeitas, ideias, de “luz”, porque “cidades divinas”, onde Deus caminha lado a lado com o Homem, prefigurando os tempos pós-apocalípticos. Esta figuração é aquela que perseguiram os portugueses de Quinhentos nas ilhas míticas do Atlântico, como na Ilha das Sete Cidades e na demanda do reino do Preste João. Só após o regresso do “rei perdido” é que estes locais atópicos se poderiam religar ao mundo e tempo concretos, restabelecendo um laço quebrado no passado por um “pecado original”, por exemplo o Orgulho sebastiânico ou a cupidez esclavagista da Expansão portuguesa, que levou a uma caminhada no Limbo histórico – onde hoje estamos – aguardando o regresso do rei e a fusão desse local mítico com a realidade concreta em que roda o Mundo.

4. O mitema do “Regresso”: não pode haver Idade do Ouro, sem Regresso a ela. Não pode haver retorno do “rei escondido”, sem Regresso. Imbuído no seio do pensamento mítico está a noção de regresso. O Tempo Mítico é circular e o fechamento deste circuito tem que ser cumprido pelo Regresso. Momento atómico, porque único e indivisível, e que explode após momentos especiais do curso da História, em momentos de grandes crises históricas. O próprio conceito de “regresso” é anti-histórico e decorre portanto no tempo mítico a que o Homem tem que regressar para satisfazer o seu Destino na Terra. Entende-se que o momento do regresso é executado pelo catalisador humano que é o “rei perdido” conjuntamente com um objeto simultaneamente físico e espiritual, o Graal, o objeto ou vaso capaz de curar as feridas do rei doente (figuração do estado decadente da nação) e de resgatar o tempo perdido, fazendo regressar o Rei e a Idade de Ouro.

5. Mitema da “pergunta oculta”: essencial ao mito do Santo Graal é a pergunta que o herói do mito arturiano deve fazer para que consiga transmutar alquimicamente a doença em que vegeta o reino e salvar o rei. Essa é, neste contexto dos cinco mitemas fundadores da portugalidade, a transmutação de uma realidade deturpada e incompleta porque “de círculo aberto” em que vivemos e que urge fechar para encerrar o ciclo mítico e cumprir o destino fraterno e universalista de Portugal. O círculo foi quebrado, nos idos de Quinhentos pela importação de conceitos alienígenas como o Mercantilismo, o Esclavagismo, a Intolerância religiosa e o Maquiavelismo e o centralismo político. Foram estes factores exógenos, introduzidos na ideia de Portugal por “estrangeirados” que romperam o círculo português. A sua reparação só pode ser cumprida pela instauração do Quinto Império, pela realização do sebastianismo e pelo retorno do “rei perdido” e da reinstauração da “Idade de Ouro”.

Categories: História, Mitos e Mistérios, Movimento Internacional Lusófono, Portugal | Deixe um comentário

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