Daily Archives: 2009/08/02

Teixeira de Pascoaes: Portugal e a Europa (parte 3)

Teixeira de Pascoaes, A Saudade e o Saudosismo, Assírio & Alvim

Justiça Social: os Lavradores Caseiros
“Os lavradores são a parte mais esquecida do nosso Povo, porque vivem longe do mundo onde se luta e pensa, em perfeita noite medieval, povoada de bruxas e fantasmas e de todas as superstições católicas que os padres, estreitos e broncos, lhe injectam na alma, como se injecta um veneno – nessa alma que, a nu e a limpo, é aquela Alma excepcional, instintivamente naturalista e mística, que criou a Saudade, promessa duma nova Civilização Lusitana.”

Teixeira de Pascoes elege o catolicismo e nos seus efeitos na sociedade portuguesa ao longo dos tempos como o maior singular responsável pela situação de atraso atávico de Portugal. Não que Portugal fosse necessariamente um país “fidelíssimo” a Roma, pois se assim fosse não teria tido tantos dos seus reis excomungados por Roma… Mas existe efetivamente algo na sua própria génese que propicia a um certo tipo muito pernicioso de fanatismo religioso.

“Defendam-se as classes populares que o sangue alma do País; o resto é uma mixórdia europeia sem carácter, sem pátria, um pouco parisiense e romana, um elemento apenas de dissolução e morte.”

As “classes populares” são em Pascoaes a mais pura e plena expressão do espírito de Portugal. É nas gentes do interior rural e do nascente operariado urbano que o poeta encontra vivo o espírito aventureiro, ctónico e naturalista, com uma visão da religiosidade muito pessoal e algo herética, com laivos priscilianistas e de cultos naturalísticos e à deusa-mãe que sempre provocaram urticária em Roma e que levaram a reacções mais ou menos violentas da hierarquia católica que haveriam de produzir os numerosos excessos da Inquisição e dos “domini cani” que a História registou. Oposta a esta verdadeira portugalidade, com quem se identifica, Teixeira de Pascoaes coloca as camadas urbanas, descaracterizadas e rejeitando a sua própria alma, por influência da cultura norte-europeia que embriagadas num processo de “modernização forçada”, ontem como hoje, se afastam do espírito livre e independente que esteve na génese da nacionalidade e que ao rejeitarem, acabam por pôr em risco.

“Como o Portugal de D. João I, o de 1640, o de 1810, o Portugal republicano só pode e deve contar com o Povo. E o Povo rural e agrícola, a quem a terra oferece a sua mão de Noiva fecunda, depois de educado e libertado, será a base indestrutível duma Democracia rústica e campestre, que há de dar a sua flor original e eterna, sob a invocação de Pã e de Jesus.”

Ainda que seja governado por elites que desde a queda da monarquia se identifiquem mais com o exterior do que com os valores da cultura portuguesa, a verdade é que nos momentos realmente críticos, quando Castela ameaça anexar o país, quando a presença filipina se torna tirânica, quando os franceses delapidam o património físico e cultural ou quando o regime pós-salazarento arrasta o país e as colónias para uma guerra anacrónica e eternizante quem se levanta e quebra o putrefacto estado de coisas é o povo. Não são as elites políticas, compostas por pouco mais de 400 famílias, que se alternam no poder, geração após geração que sacodem o jugo estrangeiro. Não são também as elites culturais, provincianas, no sentido em que se limitam a importar e a adaptar modelos estrangeiros, incultas, no sentido em tentam produzir “cultura” desprezando e considerando como pequeno e estúpido o próprio Povo de cuja matriz provêm e cuja Cultura popular deviam respeitar. Estas elites culturais que voam como luminárias em torno das raras migalhas que o Poder lhes vai deitando, gabando-se por “nunca terem trabalhado” na vida, sempre distantes de todos os temas e problemas quotidianos e desprezando qualquer intervenção “não cultural” e política na Vida são alias, mais do que uma classe política incompetente e corrupta responsáveis pelo pantanoso atual estado de coisas.

Ontem, na primeira República de Pascoaes, e hoje, na terceira, será do povo, do seu levantamento certo e seguro, que nascerá a próxima “República Monárquica” portuguesa. Nela, o Povo encontrará novamente o direito de representatividade numa nova camada de lideres, distinta da decadente e egótica intelectualidade atual ou dos grupos de famílias políticas e identificada num rei electivo e popular, bem ao estilo das monarquias electivas suévicas e visigóticas de Agostinho da Silva. Esta nova elite, em comunhão plena com o povo urbano e rural, devotará à sua Educação o papel prioritário que ela deve ter, porque não há verdadeira democracia sem educação e decisão informada por parte dos eleitores, hoje tão enganados por truques eleitorais e por “actores políticos” telegénicos e de discurso previsível e ensaiado por gabinetes de “marketing político”. Esta nova democracia, pilar de uma quarta república será de caracter “rústico e campestre”, porque assente numa descentralização municipalista que devolverá ao interior e ao local, aquilo que foi literalizado e centralizado desde Dom João III, sempre buscando esse cimento fundamental das civilizações que é o espírito religioso hoje negado pelos “tecnocratas” de Bruxelas, e conciliando “Pã” (as raízes pré-romanas e naturalísticas da religião popular portuguesa) e Jesus (os traços filosóficos, redentores e igualitários do primeiro cristianismo).

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Hoax: “Chamo-me Catarina Pinto, tenho um filho com 15 meses chamado Francisco”

Não me mandam muitas coisas destas (infelizmente, parece que já toda a gente sabe que sou um cético), mas enfim, uma certa alma caridosa lá fez o favor de enviar a mensagem que segue mais abaixo:

“Enviem p.f. ao maior nº de pessoas …
Centro Hospitalar Baixo Alentejo, EPE
Hospital José Joaquim Fernandes – Beja
Rua Dr. António Fernando Covas Lima
7800-309 BEJA
‘Chamo-me Catarina Pinto, tenho um filho com 15 meses chamado Francisco.
Desde os primeiros dias de vida tem sido extremamente difícil alimenta-lo, rejeita todo o tipo de alimentação, não por reacção alérgica mas por não querer.
Tem sido sempre acompanhado pelo Hospital Fernando Fonseca onde já lhe fizeram todo o tipo de exames e não conseguem nenhum tipo de diagnostico, já foi alimentado por umas sondas mas nem por isso aumentou de peso.
Com 15 meses pesa apenas 6.900 gramas. Peço que alguém que tenha conhecimento de algum caso igual ou semelhante que me contacte imediatamente para que eu possa saber de que maneira poderei ajudar o
meu filho.
Muitíssimo Obrigada

Ana Cristina Pinto
Tel.: 962439830

Serviço SOS Criança
Instituto de Apoio à Criança”

Desde logo a mensagem cumpria vários requisitos normalmente presentes nas mensagem de “correntes” de “hoaxes” (mitos urbanos): o apelo ao envio a toda a lista de mails, o apelo a um drama humano e até a referencia a um telemóvel e a nomes. Contudo, como em todos os outros casos idênticos que me foram chegando à caixa de correio ao longo dos anos: era falso.

Isso pude certificar quando enviei uma mensagem ao “SOS Criança” do Instituto de Apoio à Criança, uma entidade real e muito empenhada neste tipo de questões, que apenas para imprimir credibilidade ao “hoax” aparecia em rodapé. Esta entidade confirmou cabalmente que se tratava de uma invenção, de mais uma brincadeira de mau gosto, como tantas outras que circulam na Internet:

“A equipa do SOS Criança informa que em relação ao email enviado ao nosso serviço, os dados que recolhemos indicam que é falso.”

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Os cinco mitemas de Portugal segundo Gilbert Durand

Gilbert Durand identifica cinco mitemas essenciais dentro do grupo mítico definido como “Idade de Ouro”:

1. Mitema da “realeza perdida”: elemento fundador e central ao tema da Saudade, que atravessa toda a História e Cultura (no sentido mais lato) e que radica nas origens gregas da civilização europeia, nomeadamente no mito de Cronos, deposto por Júpiter e pela sua descendência e reeditado no mito graálico do “rei doente”. As imagens do “país decadente” regido pelo rei doente do mito medieval está também ligado ao mito alquímico da “árvore doente” que o Salvador, o rei perdido e reencontrado irá resgatar. Especialmente forte em momentos de crise nacional, com sob a ocupação filipina ou em momentos de crise económica e social prolongada, como atualmente, este mito do “rei perdido” está sempre latente na cultura portuguesa de uma forma extremamente energética e potencialmente muito poderosa.

2. Mitema do “rei escondido”: Porque só pode haver retorno à “realeza perdida” do primeiro mitema, se houver um catalisador humano – interpretado aqui na figura de um “rei” – então esse catalisador tem que sobreviver, transcender ao próprio tempo, porque sendo um “rei perdido” tem que ser capaz de transcender os limites do espaço e do tempo, vivendo na transcendência imanente sem-tempo e circular do tempo mítico de Eliade. Ora este mitema pressupõe uma intervenção no tempo real e imediato, algo que é incompatível com o tempo mítico onde existe o “rei escondido”, uma contradição que o mitema resolve introduzindo o conceito de “lugar atópico e atemporal”, um sítio do Mundo onde o tempo não passa ou percorre um caminho diverso daquele que corre no resto do mundo e um local utópico (no sentido etimológico do termo). Este local é a cova da montanha onde se esconde Frederico II ou a Avalon de Artur ou as Ilhas Afortunadas onde espera Dom Sebastião o momento do retorno.

3. O mitema dos “reinos de Luz”: os locais utópicos onde se conservam estes “reis escondidos” aguardando o momento do seu reingresso no mundo são cidades perfeitas, ideias, de “luz”, porque “cidades divinas”, onde Deus caminha lado a lado com o Homem, prefigurando os tempos pós-apocalípticos. Esta figuração é aquela que perseguiram os portugueses de Quinhentos nas ilhas míticas do Atlântico, como na Ilha das Sete Cidades e na demanda do reino do Preste João. Só após o regresso do “rei perdido” é que estes locais atópicos se poderiam religar ao mundo e tempo concretos, restabelecendo um laço quebrado no passado por um “pecado original”, por exemplo o Orgulho sebastiânico ou a cupidez esclavagista da Expansão portuguesa, que levou a uma caminhada no Limbo histórico – onde hoje estamos – aguardando o regresso do rei e a fusão desse local mítico com a realidade concreta em que roda o Mundo.

4. O mitema do “Regresso”: não pode haver Idade do Ouro, sem Regresso a ela. Não pode haver retorno do “rei escondido”, sem Regresso. Imbuído no seio do pensamento mítico está a noção de regresso. O Tempo Mítico é circular e o fechamento deste circuito tem que ser cumprido pelo Regresso. Momento atómico, porque único e indivisível, e que explode após momentos especiais do curso da História, em momentos de grandes crises históricas. O próprio conceito de “regresso” é anti-histórico e decorre portanto no tempo mítico a que o Homem tem que regressar para satisfazer o seu Destino na Terra. Entende-se que o momento do regresso é executado pelo catalisador humano que é o “rei perdido” conjuntamente com um objeto simultaneamente físico e espiritual, o Graal, o objeto ou vaso capaz de curar as feridas do rei doente (figuração do estado decadente da nação) e de resgatar o tempo perdido, fazendo regressar o Rei e a Idade de Ouro.

5. Mitema da “pergunta oculta”: essencial ao mito do Santo Graal é a pergunta que o herói do mito arturiano deve fazer para que consiga transmutar alquimicamente a doença em que vegeta o reino e salvar o rei. Essa é, neste contexto dos cinco mitemas fundadores da portugalidade, a transmutação de uma realidade deturpada e incompleta porque “de círculo aberto” em que vivemos e que urge fechar para encerrar o ciclo mítico e cumprir o destino fraterno e universalista de Portugal. O círculo foi quebrado, nos idos de Quinhentos pela importação de conceitos alienígenas como o Mercantilismo, o Esclavagismo, a Intolerância religiosa e o Maquiavelismo e o centralismo político. Foram estes factores exógenos, introduzidos na ideia de Portugal por “estrangeirados” que romperam o círculo português. A sua reparação só pode ser cumprida pela instauração do Quinto Império, pela realização do sebastianismo e pelo retorno do “rei perdido” e da reinstauração da “Idade de Ouro”.

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Lima de Freitas: “Portugal como reino independente é filho espiritual de S. Bernardo, confundindo-se a primeira parte da nossa História com a da Ordem do Templo”

“Portugal como reino independente é filho espiritual de S. Bernardo, confundindo-se a primeira parte da nossa História com a da Ordem do Templo.
A segunda parte, que começa com D. Dinis, é a História do mito do Quinto Império, enquanto a História dos Descobrimentos é, em boa medida, a história da Demanda do Preste João; nos tempos recentes, a História da nossa Restauração é a História do reavivar do mito sebástico e do mito do Quinto Império, como a prova a obra do Padre António Vieira na “Historia do Futuro”.
Lima de Freitas; “Porto do Graal”; Ésquilo

Portugal confundir-se-ía assim com os propósitos que levaram Bernardo de Claraval a criar a Ordem do Templo. E assim, os destinos, caminhos e objetivos de Portugal e da Ordem do Templo confundir-se-iam. Portugal seria uma criação para a Ordem do Templo, um “reino templário”, um conceito bem compatível com a defesa insistente feita em Portugal contra o mandato papal que exigia a extinção da Ordem. O projeto templário confundia-se com o projeto português e o grande motor da portugalidade que foi o processo dos Descobrimentos e da Expansão portuguesa. O mito do “Quinto Império” que hoje ainda sobrevive com tanta energia na cultura lusófona é uma persistência desse perdido projeto templário, que se tentou concretizar em Portugal e na sua Expansão e que ainda verá a luz do dia, é essa a nossa convicção, assim como um dos temas do MIL: Movimento Internacional Lusófono: Um novo tipo de organização social e política universalista, fraterna e verdadeira humana.

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