Adaptação livre do artigo “Democratizando a Finança” de Hazel Henderson

Este texto é uma adaptação livre a partir do artigo “Democratizando a Finança”, publicado pela “E. F. Schumacher Society e escrito por Hazel Henderson.

O colapso financeiro originado por Wall Street e pela lógica suicidária do “demasiado grande para falir” está a contribuir para a erupção de uma série de iniciativas locais para descentralizar e democratizar o sector financeiro.

Entretanto, ao nível global, os países do G-20 afirmam a sua intenção em democratizar as estruturas internas do FMI e do Banco Mundial e o próprio facto deste decisão surgir no seio de uma reunião do G-20 e não do G-7 indica que estamos perante um mundo diferente.. Agora, as decisões já não são tomadas no seio de um grupo restrito de países ricos e “ocidentais”, mas como o produto de uma decisão de países tão diversos como a Argentina, a Austrália, o lusófono Brasil, o Canadá, a China, a França, a Alemanha, a Índia, a Indonésia, a Itália, o Japão, o México, a Rússia, a Arábia Saudita, a África do Sul, a Coreia do Sul, a Turquia, o Reino Unido e os Estados Unidos e… A União Europeia. A lista causa alguma estranheza. Desde logo, pela presença da UE, onde o “cherne” aparece num estranho destaque já que o poder efetivo da Comissão é praticamente zero (como aliás, admitiu Barroso, quando reconheceu não ter meios para intervir na atual crise económica) e não sendo eleito, a não ser por uma pandilha de líderes germânicos por ser dócil e servil para com os seus interesses não merece estar ali presente. Há países como a eternamente falida Argentina, o Canadá e a Turquia que não merecem estar aqui. A Argentina porque não tem peso económico nem demográfico, o Canadá, porque não tem peso demográfico e a Turquia porque não tem peso económico, nem diplomático, já que é olhada com justificadas suspeitas por quase todos os seus vizinhos e ocupa militarmente um país soberano (Chipre) e reprime as suas próprias populações curdas. E que dizer da presença da Arábia Saudita? Um dos países menos democráticos, corruptos e menos respeitador dos direitos humanos no mundo?… E não bastando que faz a imperialista China (que ocupa colonialmente o Tibete) num fórum onde a qualidade dos regimes representados devia ser exemplar? Mas pior que as presenças são as ausências… Alguns grandes (demográfica e economicamente) países africanos estão ausentes. Onde estão a Nigéria, a Argélia, Angola e o Egipto? E o mundo islâmico? Porque está tão incompletamente representado? Onde estão o Paquistão e o Irão?

Embora tenha havido um tom otimista saído diretamente das decisões desta reunião, e Gordon Brown tenha proclamado que “o mundo estava a reagir à crise não com palavras, mas com um plano detalhado e calendarizado”, a verdade é que tudo ainda persiste no domínio estrito do palavreado… As injeções de capitais públicos para cofres de Bancos zombie continuam e os Estados continuam a insistir na aplicação cega do dogma que os impede de participarem na gestão da Banca intervencionada (permitindo o pagamentos de bónus generosos e injustificados), os “Edge Funds” continuam em roda solta, os Paraísos Fiscais navegando em plena impunidade, os sectores financeiros em desregulação quase total, etc, etc, etc. O ambiente para criar e aplicar novas leis que democratizassem o sistema financeiro está mais propício do que nunca e o tempo urge, não sendo agora mais o tempo para ocas palavras (como as de Obama e Brown), mas para acções concretas e duras que imponham novas regras ao sector financeiro e travem a Globalização impondo (sim!) mecanismos de contenção à autentica depredação industrial que a China tem estendido a todo o mundo.

Felizmente, que a sociedade civil ainda existe (nos países onde esta é livre) e começam a surgir novos ou renovados impulsos de renovação… Varias alternativas criativas surgem aqui e acolá, como indica Hazel Henderson:

1. Organizações de pesquisa local como a Freecycle.com ou a Craiglist que agrupam ofertas comerciais locais, potenciando consumo local a partir de bens e serviços produzidos localmente e não no estrangeiro por trabalho semi-escravo ou subremunerado.

2. Há varias Moedas Locais a surgirem e outras a aumentarem a sua circulação no mesmo momento em que os Bancos Centrais revelam a incompetência dos seus administradores (Vítor Constâncio) ou a sua incapacidade operativa e que os grandes Bancos (Citigroup, Bank of America, Royal Bank of Scotland, etc) vegetam, Moedas Locais como a WIR suíça, a Palmas brasileira ou a BerkShares dos EUA prosperam tendo a última emitido o equivalente a dois milhões de dólares em apenas dois anos e sendo aceite por cada vez mais Bancos e empresas no Estado do Massachusetts. Outras Moedas Locais desenvolvem-se e surgem em países tão diversos como o Reino Unido, o Canadá, a Austrália ou a Argentina.

2. Redes de “empréstimos pessoais” e de microfinanciamento conhecem hoje um desenvolvimento ímpar no mundo: “Womens World Banking”, Grameen Bank no Bangladesh, a FINCA e a ACCION, na América do Sul, e variantes cibernéticas como a Microplace ou a Kiva (com quem colaboramos pessoalmente), a Prosper.com norte-americana e a Zopa.com alemã expandem a sua acção e melhoram a vida de um numero crescente de pessoas que os triliões de “ajudas” governamentais aos banqueiros insistem em esquecer.

3. Associações de pequenos Bancos com empresas locais, nos EUA, na forma original de “uniões de crédito” colaboram na recuperação de um tecido empresarial por décadas de desregulação, de empreendedorismo financeiro descabeçado e por uma desindustrialização profunda e quase total. A par destas “uniões de crédito”, organizações de “capital de risco filantrópicas” como a “Rudolf Steiner Foundation” e a Acumen, investem em empresas com utilidade sociais mas reduzidos lucros. Encontramos outros exemplos de organizações de fins semelhantes na “The Business Alliance for Local Living Economics”, na “New Voice of Business”, na “Green America”, na “Social Enterprise Alliance”, no” Fourth Sector Network” e no “Business-NGO Working Group”, organizações em atividade nos Estados Unidos e cuja profusão e intensa atividade reflectem bem o dinamismo, a capacidade de renovação interna da sociedade norte-americana e o prematuro discurso daqueles que dão o “século americano” como terminado…

4. O “Banco do Tempo” é neste contexto uma das propostas mais interessantes. Oriundo a partir de um conceito de Edgar Cahn, nos Estados Unidos, o modelo está agora ativo em diversos países do mundo, como o Japão, vários países europeus e nos EUA. Estes “Bancos do Tempo” estão a ajudar pessoas e empresas locais a ligarem-se, a partilharem informação, recursos e serviços. Cada participante do “Banco do Tempo”, quando precisa de um recurso, artigo ou serviço, contacta primeiro o seu “Banco do Tempo” e este identificará alguém que possa ajudar, seja uma refeição, várias, serviços de babby-sitting, vigilância, partilha de bens ou serviços.
Sistemas idênticos, como os de partilha de automóveis usados em empresas como a ZipCar, nos EUA, e outras semelhantes, no Canadá e em vários países europeus fazem aumentar a partilha de bens, usando as facilidades hoje disponíveis via SMS ou com Blackberrys.

5. Uma empresa privada chinesa, intitulada “Circle Pleasure” comercializa cartões de consumo pré-pagos estabeleceu uma parceria com o motor de busca Qifang de forma a estabelecer um sistema bancário pessoa-a-pessoa, sendo assim a primeira instituição a receber uma licença bancária do Banco central de Pequim, o que reflete a confiança que o projeto merece do sempre desconfiado de inovações, governo comunista…

6. Na Índia e no Bangladesh, surgiram recentemente as “senhoras do telefone”, tratam-se de mulheres que vivem nestes países e que alugam os seus telemóveis a outros aldeões, agricultores e pescadores consultam os preços dos artigos que produzem nos mercados vizinhos e assim vendê-los pelo melhor preço, nos locais onde lhes pagariam preços mais elevados.

7. Na Florida (EUA), agricultores engenhosos estão a descobrir novas formas de curtocircuitar os Bancos gananciosos e mal geridos que estiveram na direta razão da presente recessão mundial… Usando programas locais de rádio, os agricultores divulgam que têm alfaias agrícolas (como tratores) disponíveis em certos dias e horas e que os cedem em troca de outras alfaias, fertilizantes, produtos agrícolas ou sementes. Também na Florida, têm-se multiplicado os mercados agrícolas onde os agricultores vendem diretamente aos consumidores e contratos de produção com consumidores locais a quem entregam os seus produtos, nas quantidades combinadas, sem recorrerem a intermediários.

Todos estes exemplos ilustram formas de as pessoas e empresas locais conseguirem sacudir a manápula opressora que os grandes Bancos procuram lançar sobre as economias, cativando um sector excessivo da riqueza produzida. Em vez da primazia doentia ao setor terciário, estas soluções permitem que os sectores primários e secundários se libertem desta opressão… Assim, os financeiros serão obrigados a reduzir os seus bónus faraónicos, a reduzir os seus lucros crescentes e imorais e a moderar as suas especulações casínicas nas Bolsas. A multiplicação destas alternativas também permitiria reduzir o desequilibrado peso que o sector financeiro tem na economia de países como os EUA ou o Reino Unido, onde representam mais de 25% do PIB…

A perda de prestígio do sector financeiro no Ocidente pode ser também importante para tornar a despertar o interesse da juventude por formações superiores menos ligadas a esses sectores e mais a sectores mais tecnológicos e culturais, que estavam a conhecer um acentuado declínio em inscrições em cursos superiores nos últimos anos, tamanhos eram os rendimentos que se obtinham em empregos nesses sectores mais especulativos. A turbulência nos mercados financeiros relativiza também o valor do dinheiro, que foi tão valorizado (de forma tão fátua e superficial, vê-se agora) no passado recente, em desfavor de critérios mais duradouros e saudáveis para as pessoas e para o planeta.

Fontes:
www.ethicalmarkets.com
www.smallisbeautiful.org
www.youtube.com/efsssociety
www.calvert-henderson.com

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Categories: E. F. Schumacher Society, Ecologia, Economia, Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia, Sociedade | Deixe um comentário

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