A Opção Nuclear na Europa

“A Rússia cortou o abastecimento de gás, este Inverno, e milhões de europeus, da Eslováquia até à Bulgária, tiritaram de frio. O braço-de-ferro comercial entre Moscovo e a Ucrânia, no passado mês de janeiro, evidenciou que as carências do modelo energético de muitos países europeus.”

Pelo segundo ano consecutivo, a Rússia – no decurso de um longo conflito com a Ucrânia – cortou o gás à Europa. O ato continuado reflecte a falta de fiabilidade russa como parceiro económico europeu e expõe as vantagens usufruídas pelos países do sul da Europa que recebem o seu gás da – paradoxalmente – mais fiável Argélia. A Rússia acusa a Ucrânia de desviar para si o gás que devia deixar transitar para a Europa, e a Ucrânia, acusa a Rússia de cortar simplesmente o gás. De uma forma ou de outra, é certo que a Europa tem que repensar a sua estratégia de dependência do gás russo.

“A Suécia foi o último país a renovar a sua confiança nos reatores (nucleares). Um referendo realizado há três décadas fixou 2010 como ano de encerramento de todas as centrais. Mas o Governo de centro-direita decidiu (em fevereiro) manter as suas dez centrais em funcionamento e dotá-las de novos reatores. Segundo uma sondagem publicada pelo jornal “Dagens Nyheter”, dois terços dos suecos apoiam esta iniciativa.”

A Suécia reavaliou o seu abandono do nuclear mais por impacto do aumento dos custos da energia por fontes de combustíveis sólidos do que por causa do gás russo. Em época de receios generalizados pelas consequências catastróficas do Aquecimento Global, a opção nuclear está a ser reavaliada em praticamente todo o mundo e até aqueles países que tinham optado pelo abandono do nuclear – como a Suécia e a Espanha – estão por de novo tudo sobre a mesa.

“Mas não é só a Suécia. A França, campeã nuclear da Europa, com cerca de 80% da eletricidade gerada através da temida energia, construiu um reator de nova geração. A Finlândia também. E o Reino Unido convidou diversas empresas, no ano passado, a construir novos reatores em centrais já em funcionamento.”

E este é efetivamente o rumo um pouco por toda a Europa. Não advogamos o seguidismo acéfalo adoptado pelos nossos políticos do “Bloco Central” que tudo fazem apenas “porque já se faz em vários países europeus”, mas acreditamos que perante o problema energético todas as opções devem ser reavaliadas.

“A última sondagem da União Europeia sobre a atitude dos cidadãos relativamente à energia, publicada em julho de 2008, registava um empate técnico entre favoráveis e contrários ao nuclear.(…) A preocupação com a mudança climática faz com que muitos se inclinem para uma energia que, pelo menos durante o processo de produção, não emite dióxido de carbono. “Os riscos nucleares (acidentes, problemas com o armazenamento dos resíduos no futuro) são apenas hipotéticos.”

A decisão de construir ou não uma central nuclear é mais técnica e cientifica do que política ou popular. A opção tem que se fundamentar em critérios de segurança e eficácia energética e menos em popularidade ou na fátua e geralmente mal informada “opinião pública”. Os riscos de um acidente nuclear são tremendos (como demonstraram Tree Mille Island, nos EUA, ou Chernobyl, na União Soviética), e o problema da armazenagem a longo prazo dos resíduos nucleares ainda está essencialmente por resolver. É certo que os reatores de Terceira Geração, como aqueles que hoje se constroem em França resolvem parte dos problemas dos resíduos e levam a segurança do sistema a um novo patamar, em que o acidente de graves consequências se torna praticamente impossível. Mas “praticamente” não é impossível… Se se construírem um número suficientemente grande destes reatores, se estes operarem por tempo suficiente, então, mesmo essa remota possibilidade de acidente deixa de o ser.

Sejamos claros: os riscos de um acidente nuclear numa central de última geração são muitíssimo baixos. O problema dos resíduos ainda permanece, mas estas centrais produzem muito menos do que as centrais atuais. Mas construí-las é ainda um pesadelo financeiro… E enfermam da mesma lógica centralista dos “grandes projetos” que marcaram os últimos decénios da industrialização. Em vez destas “megacentrais” devíamos apostar numa rede de pequenas e médias centrais, dispersas pelo território, para reduzir os custos de distribuição e as perdas daqui decorrentes, aumentando a flexibilidade e resiliência do sistema à falha de uma única “central faraónica”. Esta rede de pequenas centrais, hídricas, solares, eólicas, de maré, de biomassa pode até ser complementada por aqueles micro-reatores nucleares autónomos e sem manutenção que empresas como a Toshiba estão hoje a ultimar. Mas dependermos de grandes centrais nucleares… Isso já me parece mais perigoso, a todos os níveis.

Em suma: nuclear, sim. Mas pequeno e pouco…

Fonte:
Courrier Internacional, abril de 2009

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Categories: Ciência e Tecnologia, Política Internacional | Etiquetas: | 8 comentários

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8 thoughts on “A Opção Nuclear na Europa

  1. pedronunesnomundo

    mais uma vez a minha posição é próxima da tua

    se não devemos cegar-nos deslumbrados com nada, na energia não deve ser diferente
    nem armarmo-nos em novos-ricos nem ficarmos fechados no mosteiro dos “ecologistas-de-trazer-por-casa”

    (…e neste caso: esta é uma das fotos mais bonitas que por aqui vi nos últimos tempos – tirando algumas outras em Quids 😆 )

  2. Bokaido

    Bom dia.
    Caro Clavis, esse lema de “mais mas mais pequeno” até pode ser associado a uma boa ideia mas, será que em termos de construção e manutenção não terá ainda mais problemas? E a distribuição de pequenas centrais pelo país não trará vantagens para as regiões contempladas. Vejamos o caso das dezenas de barragens espalhadas pelo território que, ao contrário do que a EDP não desiste de apregoar, não trazem dividendos nenhuns para as populações.

  3. pedro:
    é isso. nisto, como em muitos pontos, defendo uma dispersão por pequenas soluções, do que grandes projetos, muitos caros, concentradores de riscos e capital e potencialmente (à escala) perigosos. Daí a defesa dos minireatores, descartáveis, automáticos e sem manutenção que faço aqui e noutros artigos.
    A foto é do Google. acho que de um reator nos EUA, mas não sei bem…

    Bokaido:
    O maior risco destes minireatores é que sejam roubados por grupos terroristas que os abram e usam os materiais físseis como matéria para “bombas sujas”, radioativas (mas sem explosão, claro).
    Acho que são uma solução de transição, até às centrais de fusão que se aproximam (estarei muito atento a noticias de fusão fria, onde têm ocorrido desenvolvimentos interessantes, assim como na fusão a laser).

  4. Pegasus

    Tenho por mim que toda forma de produção de energia inteligente deve ser plenamente utilizavel, e a nuclear não pode ser descartada, a pesquisa de mini-reatores pode ter mais beneficios que problemas, por isso, meu apoio.

  5. o fantasma de Cheronyl há pesar ainda sobre a opção nuclear, por muito tempo e o facto de haver ainda reatores dessa mesma geração ativos, no mundo, também.
    mas a opção existe e devemos ao clima ter que a ponderar.

  6. nehalem

    É a pior opção quando há tantas outras disponíveis: http://www.youtube.com/watch?v=Md76P4jVYhE

  7. nehalem

    «Nucleares com avarias

    * As centrais nucleares estão a atravessar uma vaga de azares. As centrais de Forsmark e de Oskarshamn, na Suécia, registaram avarias provocadas por fissuras em reactor. A central de Angra 2, no Rio de Janeiro, sofreu um derrame de material radioactivo. Não houve impacto para o ambiente, para os trabalhadores da central e para o público em geral, informou a Eletronuclear. Quatro centrais nucleares espanholas (Ascó II, Ebro, Vandellós II e Almaraz II) estão desligadas da rede após registo de avarias diversas provocadas por deterioração de equipamentos. Para não falar da pipa de massa investida em investigação que ainda não conseguiu solução para os lixos nucleares.»
    http://ondas3.blogs.sapo.pt/tag/nuclear

  8. sim, já sabia desses problemas com as espanholas (mas desconhecia os das restantes)
    em Espanha o debate está mesmo muito aceso: o que fazer: encerrá-las já ou manter e construir novas (de preferência junto à nossa fronteira, claro!)

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