Economias Locais: a visão de E. F. Schumacher

Quando em 1955, o economista E.F.Shumacher viajou até à Birmânia como consultor económico não sabia que estava prestes a produzir uma das suas mais importantes obras; “Economia Budista”. Nessa obra sublinhava a importância do “bom trabalho” no desenvolvimento económico e – especialmente – que “a produção de recursos locais para satisfazer necessidades locais era a forma mais racional de vida económica”.

Depois da sua viagem à Birmânia, Schumacher faria muitas outras viagens por outros países do Terceiro Mundo procurando-os convencer a desenvolverem economias auto-suficientes, advogando que estas deviam ser erguidas em torno daquilo que chamaria de “tecnologia intermédia”, uma classificação que agrupava tecnologias amigáveis, acessíveis e ecológicas.

Para Schumacher, a produção local é a melhor forma de conhecer a história ecológica e humana por detrás da manufactura de cada produto industrial ou agrícola. Só assim terá o consumidor verdadeiras hipóteses de saber que tipo de matérias-primas, de que forma foram extraídas ou produzidas, como foram processados os subprodutos ou desperdícios da sua produção e, sobretudo, que tipo de recursos laborais e de que forma de condições foram aquelas que estiveram na base da sua produção. Esta Localização da produção é o oposto exato das Deslocalizações de produção para países do Extremo Oriente que afastam dos consumidores a produção e que permitem as condições laborais e ambientais barbaras que se praticam em países como a China e o Vietname e que estando na base dos baixos custos de produção, não seriam possíveis se os consumidores desses mesmos produtos tivessem que conviver com as consequências ecológicas e ambientais dessa produção, nem se tivessem conhecimento direto – por amigos ou familiares – das condições laborais e humanas que a produção desses bens implica.

Adicionalmente, se a produção é Local, os produtos não precisam de ser transportados a longas distâncias consumindo combustíveis fósseis, poluindo a atmosfera e aumentando as emissões de CO2. Adicionalmente, uma região que utilize a sua força laboral na produção do essencial dos bens que consome está também mais blindada contra as oscilações da economia mundial e contra crises económicas globais como aquela que galopa hoje descontroladamente pelo mundo.

Enquanto cidadãos, o economista alemão acreditava na possibilidade de cada consumidor assumir uma atitude moral nos seus padrões de consumo. O ato de consumir não se esgota assim na mera satisfação de uma necessidade – real ou forjada pela publicidade – mas numa escolha criteriosa que responsabiliza social e ecologicamente todos os agentes económicos. Por isso, o modelo de Economia Local, implica um elevado nível de consciência cívica e de informação.

Cada comunidade local deve procurar bastar-se nos produtos mais básicos como alimentos, vestuário e energia e depender de importações apenas complementarmente e em produções mais especializadas. Por regra, toda a produção que implica volume físico dilatado deve ser local, e todo o bem ou equipamento que exige um elevado nível técnico ou um alto grau de especialização, pode ser produzido localmente, e exportados os seus excedentes. Uma comunidade que se consiga organizar localmente, serve de exemplo para as vizinhas e deixa propagar o seu exemplo contaminante pela região onde se insere. Importa assim fundar uma primeira comunidade seguindo estes moldes, não instaurar o modelo súbita e genericamente em toda uma região ou país, de forma segura e consistente, num único local ou município e depois deixar florescer esse exemplo.

Qualquer sistema económico depende do diálogo harmónico de três factores: terra, trabalho e capital. Por terra, entenda-se além do território, também os recursos naturais que a produção exige, como as matérias-primas, a energia e o espaço físico necessário para a cultura agrícola ou para a instalação da fabrica ou do armazém. O Trabalho é o esforço necessário para fazer a matéria-prima mudar de estado e forma, tornando-se no bem ou serviço consumido. Por fim, o Capital consiste na capacidade organizativa dos dois recursos anteriores: Terra e Trabalho, na energia polarizadora desses recursos e na disponibilidade mobilizadora de ambos. Só o Capital poderá organizar a produção e possibilitar a distribuição dos bens produzidos, sendo assim um aspecto sempre importante de qualquer atividade económica. Compreender esta arquitectura trilateral é essencial para desenvolver Economias Locais prosperas e estáveis.

O elemento primário desta trilogia é a Terra. Sendo primário a uma Economia Local, este elemento deveria ser realmente propriedade de alguém? A terra deve pertencer à comunidade que nela habita, não a um indivíduo em particular, porque só assim poderá realmente participar no desenvolvimento da Economia Local. Não quer isto dizer que somos contra a propriedade privada. Quer dizer que somos contra a propriedade privada da terra e que defendemos neste contexto o conceito de “não propriedade” ou “propriedade comunal” como a que ainda subsiste nalgumas aldeias portuguesas e que era comum nos “bailios” medievais portugueses. O modelo é hoje usado nos EUA sob a forma das “Community Land Trusts” que a E.F.Shumacher Society tem promovido e apoiado.

Nos EUA, as “Community Land Trusts” são empresas não lucrativas com um quadro de diretores democraticamente eleito. As suas terras resultam de ofertas e aquisição e são alvo de um plano de desenvolvimento que se rege pelas necessidades de consumo locais. Os edifícios construídos sobre essas terras comunais são propriedade privada, mas não o solo sobre o qual foram construídos e se forem vendidos, o seu valor deve ser oferecido à “terra comunitária” (Land Trust) ao valor dispendido apenas na sua construção. O proprietário pode assim conservar o produto do trabalho aplicado sobre a terra, mas não a própria terra, que permanece sempre nas mãos da comunidade.

Nos Estados Unidos há perto de 150 “terras comunitárias”. Sobrevivendo em relativa prosperidade, pela sua escassa área, estas parcelas de solo comum ainda não lograram cumprir a totalidade das suas promessas e dependem ainda da sua expansão e do apoio devoto de muitos entusiastas.

O Capital é o segundo elemento determinante da trilogia económica schumacheriana. O economista admite ao Capital o papel de simples ferramente de obtenção de crédito e de facilitar trocas numa comunidade. Oferecendo o controlo da emissão de moeda a uma coligação de Bancos (o modelo do FED, nos EUA) ou a um Banco Central, mais ou menos governamentalizado (Europa), estamos a criar um sistema onde o grandes emprestadores são favorecidos em relação aos pequenos e a favorecer a concentração bancária excessiva que esteve na raiz do quase colapso do sistema financeiro na presente recessão mundial: concentrar a Banca, pela via das fusões e aquisições sucessivas, criando um pequeno número de mega-bancos, é introduzir um imenso factor único de falha no sistema, porque quanto maior fôr a escala mais difícil será a um governo salvar o banco da falência e maior será o impacto do seu colapso na Economia real. A centralização bancária favorece também a centralização e a aparição de monopólios noutros sectores da economia, já que os grandes bancos preferem emprestar a grandes empresas, de escala semelhante à deles e assim tornam-se inimigos das pequenas e médias empresas e sobretudo, das empresas que apenas têm uma escala e um mercado local, já que favorecem as de vocação exportadora e globalizadas, ou seja, aquelas que pela sua essência, lhes são semelhantes.

Um dos cernes da proposta económica shumacheriana é precisamente o combate a esta concentração e a este monopólio do Capital. Democratizando o Capital pelo estabelecimento de moedas locais, opostas e complementares a moedas nacionais e favorecendo o estabelecimento de bancos de pequena dimensão que as emitam e financiem o consumo e a produção locais.

Nestes três factores de produção falta abortar o mais importante: o Trabalho. Sem a dignificação do trabalhador, com horários e retribuições humanas e razoáveis será impossível assegurar uma economia local minimamente estável.

Nas novas Economias Locais antecipadas por Schumacher, os bens consumidos na região, serão essencialmente produzidos na mesma região, sempre seguindo formas de produção sustentadas, na perspectiva ecológica, social e respeitando os valores e identidades culturais locais. Esta combinação só pode ser alcançada através da injecção de doses massivas de inovação e criatividade no tecido económico local e recorrendo invariavelmente a tecnologias intermédias, de pequena escala física e de capital e capazes de serem implementadas recorrendo apenas aos recursos energéticos locais. Quando os trabalhadores têm acesso a baixo custo à terra e dispõe de Capital a juros baixos podem criar os seus negócios e empresas locais, de pequena e média escala. Esta aproximação entre a propriedade e a produção significa que a riqueza produzida será distribuída de uma forma muito mais equitativa. Neste esquema o papel do consumidor não pode ser passivo ou acrítico, escolhendo apenas o produto que é mais barato, mas aquele que é mais “económico” agindo como um consumidor que escolhe segundo a sua própria consciência cívica e ecológica. E é nosso dever moral apoiar as empresas locais, em que a propriedade seja dos seus próprios trabalhadores em regime comunal (terra e edifícios) ou cooperativo, porque esta é a forma que melhor garante uma distribuição equitativa dos rendimentos do trabalho.

A construção de economias locais sustentáveis é crucial para a sobrevivência do Homem sobre a Terra. Só elas podem oferecer o tipo de pegada ecológica que protege o clima (pela sua escala), o património ecológico local e as especificidades culturais locais.

No livro “As Cidades e a Riqueza das Nações”, Jane Jacobs defende que a melhor estratégia para o desenvolvimento económico é apostar industrias capazes de produzir produtos que são atualmente são importados, e transformar matérias primas produzidas localmente, através do Trabalho local. Estas industrias locais são exatamente o oposto das atuais fabricas das multinacionais que abrem e fecham de um dia para o outro, deslocando-se pelo mundo fora ao sabor dos custos de mão-de-obra mais baixos. Inversamente, as empresas locais são mais resistentes aos caprichos da Globalização e estabelecem fortes ancoras locais de desenvolvimento, emprego e progresso.

Uma economia local verdadeiramente autónoma exige a fundação de novas organizações que a possam apoiar. Estas organizações não podem ser governamentais, têm que brotar da comunidade e alimentarem-se da sua dinâmica e do seu voluntarismo. Falamos de associações de consumidores e produtores, cooperando umas com as outras, as primeiras promovendo a partilha de informação sobre um consumo moderado, ético e local, as segundas agregando produtores e recolhendo benefícios da gestão em escala, organizando a produção e partilhando a distribuição e o armazenamento. Estas organizações terão apenas escala local, mas poderão formar confederações nacionais para efeitos de contacto, partilha de “boas práticas” e para manutenção de trocas que possam completar especificidades e necessidades locais. Estas entidades – privadas, porque detidas por indivíduos – trabalharão na comunidade e para a comunidade, respeitando o solo, a terra e usufruindo dos recursos naturais e energéticos de forma sustentável.

A construção deste novo edifício não será fácil nem rápida. Obriga a uma alteração radical dos nossos comportamentos e implica uma modificação profunda dos nossos padrões de consumo: consumir menos e melhor, no sentido em que cada escolha de consumo deve respeitar critérios éticos e deixar de consumir tantos bens materiais e mais bens culturais. Os Homens devem renegar o papel de consumidores passivos onde os neoliberais os querem encaixar e passar a ser co-produtores e criadores de riqueza material e de conteúdos culturais. A instauração de Moedas Locais, de quintas comunitárias, de fundos de capital comunitários, de micro-empresas detidas pelos próprios empregados e de alianças entre empresas locais, todos estes instrumentos poderão ser usados, rua a rua, de grupo de amigos para grupo de amigos, de cidade em cidade, gradual mas seguramente até alcançar todo o país.

Fontes:

http://www.smallisbeautiful.org/local_currencies/2004_conference_report.html
http://www.smallisbeautiful.org/
http://en.wikipedia.org/wiki/E._F._Schumacher
http://www.sustainablelivingsystems.org/Building%20a%20Local%20Economy-%20adapt%20fr%20S.%20Witt.doc
Local Currencies in the Twenty-First Century:
Understanding Money, Building Local Economies, Renewing Community;  Susan Witt and Christopher Lindstrom of the E. F. Schumacher Society

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Categories: E. F. Schumacher Society, Economia, Movimento Internacional Lusófono | Etiquetas: | 4 comentários

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4 thoughts on “Economias Locais: a visão de E. F. Schumacher

  1. nehalem

    Ando apreensiva com este tipo de cenário: http://en.fondsk.ru/article.php?id=2070

  2. E como não:
    “Against this background, the idea to introduce a common world currency as a cornerstone of the ‘new world order’ was put forward. The real masterminds of this long-standing project are as yet in the shadow”

    “The “countries that will not accept the global prospects,” says Popov, “must be expelled from the world community.” ”

    “he establishment of a totalitarian police order and the elimination of national states is being suggested as an open program of action, and what both the liberals”

    “In the meantime, the crisis is being exacerbated, and analysts are predicting an era of mass-scale unemployment”

    !!!

  3. Fenix

    Afavor das economias locais

  4. sempre.
    esta causa (alternativa à Globalização Neoliberal) nunca será esquecida por estas quintanas bandas…

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