6. Parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”: O Trabalho

In Negotium

Página 59

“o século em que seja possível, feito rapidamente, em parte mínima do dia, o trabalho material que houver a realizar, entregarmo-nos depois todos à divina ocupação de refletir e discutir, de passar em revista as doutrinas dos sábios e os interesses da cidade, de inventar, destruir e recompor o mundo dos sentidos e o mais puro universo das ideias. A fadiga que esmaga um corpo depois de oito ou dez horas em frente de um volante ou de um dia inteiro na faina do campo é um crime contra o Jeová que nos criou à sua imagem, um sacrilégio contra a partícula de fogo eterno que palpita por favor dos deuses em cada um de nós. O trabalho não é virtude, nem honra, antes veria nele necessidade e condenação; é, como se sabe, consequência do pecado original. A reconquista do Éden comportaria para o homem a libertação do trabalho, lavá-lo-ia dessa mancha de animal doméstico sob o jugo, havia de o restituir ao que é o seu essencial carácter: o ser pensante.”

Regressa aqui o Professor Agostinho a um dos seus pontos favoritos: a parcela que o Trabalho desumanizante (porque repetitivo e mecânico) deve ocupar na nossa vida deve ser severamente reduzida até à sua expressão mais mínima. Tendo em consideração os atuais níveis de  mecanização e automatização, como se compreende que o único ajustamento de que as sociedades atuais sejam capazes de realizar sejam o aumento do Desemprego e a criação de camadas demográficas inteiras onde o desemprego é crónico, como o é atualmente entre as mulheres com mais de 40 anos. Ainda em meados de 2007, altos responsáveis da Reserva Federal dos EUA alegavam que um dos maiores “problemas” da sua economia era a existência da uma taxa de desemprego de 5 por cento “demasiado baixa” para favorecer a competitividade internacional das exportações dos EUA… O sistema atual incomoda-se com o conceito do pleno emprego, julga-o economicamente ineficiente e procura sob todo os meios manter taxas de desemprego elevadas, acima dos 8 por cento, de forma a manter os salários contidos e as reivindicações laborais e sociais dos trabalhadores num patamar mínimo. É este sistema desumano e cruel que tem que ser abolido.

Ainda que os liberais acreditem apenas no curto prazo e no aforismo segundo o qual “a prazo estaremos todos mortos”, é difícil acreditar num sistema económico cuja saúde depende da exclusão de um número crescente de seres humanos (os desempregados crónicos) e de uma constante erosão dos níveis de rendimento e da distribuição da riqueza. Um tal sistema não se pode sustentar a prazo já que destrói lentamente, mas de forma decisiva a capacidade aquisitiva de um número crescente de agentes, os consumidores… e sem consumidores não há economia.

Importa pois mudar radicalmente a forma de organizar a produção, as organizações e o trabalho humano para que num futuro mais ou menos próximo todos possam ter acesso aquilo de que precisam, de forma digna e em níveis mínimos de subsistência, isto sem instaurarmos sociedades de “subsídio-dependentes” nem hordas de excluídos desesperados e dispostos a tudo para sobreviver. Estamos absolutamente convictos de que a imaginação humana, devidamente empregue nesta demanda será capaz de encontrar variadas e eficazes soluções para este problema da mecanização e do consequente desemprego…

A redução demográfica será sem dúvida um ponto essencial para implementar um tal grau de alteração social… Como absorver tal redução da massa laboral sem reduzir a demografia? Outra forma seria a de reduzir drasticamente a duração das jornadas de trabalho. Não faz sentido manter jornadas de trabalho de sete ou oito horas, se a mecanização e a automatização satisfaz a maior parte do trabalho repetitivo e mecânico, ou seja, a parte desumana do Trabalho, em metade desse tempo. Outra solução poderia ainda ser tornar cada trabalhador num acionista minoritário da sua organização, recebendo uma parcela do lucro e colaborando na sua gestão. Mas de todas as alternativas, aquela que seria porventura a mais interessante teria que passar pelo reforço da inovação e da criatividade organizacional… E isso requer tempo para pensar, um clima corporativo propício ao desenvolvimento e acolhimento da mudança e das novas ideias e intrinsecamente adverso ao conservadorismo estagnante, à piramidização dos organogramas e fluxos de poder e ao papel da Autoridade sobre o da Autonomia e responsabilização de cada um pelo bem coletivo e pela prosperidade da organização onde exerce a sua atividade profissional.

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