5. Agostinho da Silva, Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I: “Portugal é, de todos os cantos da Península, o único que tem verdadeiramente génio político, talvez, de todas as gentes que falam latim pelo mundo, o único real herdeiro do povo romano”

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“Portugal é, de todos os cantos da Península, o único que tem verdadeiramente génio político, talvez, de todas as gentes que falam latim pelo mundo, o único real herdeiro do povo romano.”

De facto, em nenhum outra província, alem da Ibéria houve uma adesão mais profunda e completa à cultura romana. Vários imperadores tinham alias raízes hispânicas e a Hispânia foi das derradeiras províncias a tombarem sob as inclementes espadas germânicas. Foi esta matriz romana que sobreviveu algures dentro da alma dos portugueses de quinhentos e que hoje subsiste numa esquecida centelha presente ainda hoje no coração dos povos da lusofonia. Não que os portugueses tenham a obsessão pelo detalhe, o fascínio pelo aspecto utilitário das coisas e o instinto organizacional dos romanos… Preferimos o esboço de planos grandiosos e enfastiamo-nos com os detalhes e as minúcias organizativas que levavam os romanos ao nirvana… O português é o génio do improviso e da criatividade, e nisso está a léguas do sentimento romano. Mas tem como ele o gosto pelos grandes – e aparentemente impossíveis – projetos. Duarte Pacheco defendendo Diu contra centenas de milhares de naires é o herdeiro do legionário que erguia a sua lança curta contra as hostes ululantes de alanos… Como o romano, também o português despreza o pensamento abstrato, especulativo e estérilmente “filosófico” do grego e hoje, do anglosaxónico ou germânico. Como o romano, o português fala ainda hoje uma variante próxima do… Latim. E é bem conhecida a importância que uma língua tem na formação das matrizes culturais das civilizações.

“Só que, por fatalidade, e logo desde o começo, faltou a Portugal, para uma plena ação, a companhia e a integração de seu complemento natural para os lados do Norte. A ação de Portugal no Brasil não teria sido o que foi, apesar de toda a actuação do minhoto nas Gerais, garantindo um Brasil interior, ou do transmontano sobre o Prata, garantindo afinal a fronteira de Oeste, se não tivesse havido o bandeirantismo dos seus alentejanos e, indiretamente, as suas guarnições algarvias para o sul; a gente mais ou menos mourisca para o sul do Tejo, a gente já de falar crioulo, os que vinham do deserto e de seu gosto aventureiro e livre, serviram de complemento aos de Entre-Minho-e-Tejo, verdadeira base de Portugal, o Portugal da gente que finca o pé na terra e obriga a terra a dar tudo o que tem, metal ou seiva, ou isso mesmo, base a conto de lança (sic). Mas para o norte, a Galiza não estava.”

Este aspeto feminino de Portugal, ou melhor dizendo, da Portugaliza, a entidade composta e completa que reúne a terna e feminina Galiza com o duro e sonhador Portugal é a primeira das prioridades a cumprir se alguma vez se formar algum protótipo de “União Lusófona”.  A União lusófona poderá efetivamente começar de varias formas:
1. Pela união entre Cabo Verde e/ou São Tome e Príncipe e Portugal
2. Pela união entre Portugal e o Brasil, como sonhava Agostinho durante os seus tempos de exílio no Brasil
3. Pela união entre Portugal e a Galiza
4. Pela união – simultânea – de todos os países da CPLP

Entre estas quatro possibilidades aquela que porventura seria mais fácil, assim houve a visão estratégica que rareia na classe política contemporânea, seria a primeira. Se esta possibilidade fosse referendada pelos povos cabo-verdiano, sãotomense e português, temos a certeza que em todos estes países a votação favorável à constituição de uma federação ou confederação comum seria arrasadora. Não há aqui as energias negativas, nem os recalcamentos históricos ou os anticorpos de mentalidade que são ainda comuns nos países africanos lusófonos em cujos territórios se travaram as batalhas da Guerra Colonial. São também países que desde há muito enviam os seus melhores filhos para Portugal, em busca de uma vida melhor, e estão aqui geralmente bem integrados e entrelaçados com famílias e gentes portuguesas. Não receamos uma corrente migratória avassaladora, como porventura temerão alguns… Simplesmente, o mercado laboral acaba sempre por se autoregular, e só existem vagas migratórias consistentes quando há emprego nos locais de destino. Se este não houver em Portugal esses “temidos” emigrantes não virão, se houver, então que venham porque precisamos deles, especialmente devido aos nossos crónicos problemas demográficos…

A tese da união entre Portugal e o Brasil tem a sedução natural aos grandes projetos e compreende-se bem o fascínio de Agostinho pela mesma… O Brasil é hoje o berço maior da língua portuguesa, uma potência económica emergente, uma autentica “superpotência” regional mercê da sua forca militar, económica e demográfica, e de todos os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) é aquele que pela sua independência em hidrocarbonetos, pelo bioalcóol e sobretudo pela natureza alimentar das suas exportações, será o que melhor resistira à atual recessão mundial. Compreende-se bem assim as vantagens que um país como Portugal pode obter pela unificação com um gigante continental como o Brasil. Num dos seus escritos, Agostinho chega mesmo a defender a simples integração de Portugal na federação brasileira, mantendo a sede em Brasília ou mudando esta para Nova Lisboa (Huambo), já que na época Angola era ainda uma província ultramarina portuguesa.

A quarta possibilidade é a união política entre Portugal e a Galiza. Existe hoje um pequeno, mas muito ativo grupo de galegos reintegracionistas e existe uma familiariedade do sentir e da fala que comove e arrepia quando encontramos uma fala galega… Erupte então uma amarga sensação de perda, de incompletitude, como se tivéssemos perdido algo, quando Afonso Henriques pelas frias razoes da estratégia diplomática e militar optou por deixar a Galiza entregue ao império de Leão e marchar para sul, para as desunidas taifas muçulmanas. Em termos de desenvolvimento social, económico e cultural, Portugal e a Galiza são sem duvida os membros mais semelhantes da lusofonia, e essas semelhanças facilitariam tal aproximação… Mas há ainda Espanha e diminuído, mas nítido, “império de Madrid”… Nunca a Espanha, toleraria uma saída da Galiza a caminho de Portugal, especialmente porque recearia que depois esse movimento de desagregação se repetisse na Catalunha, em Olivença e no Pais Basco. Mas Madrid não será sempre Madrid. A Europa quer reduzir o poder e as funções dos Estados, e quando o lograr fazer em Espanha… Talvez tenha chegado o momento de unir essas duas metades que a Historia separou: Portugal e a Galiza.

A quinta tese é aquela que se nos afigura mais improvável… Dificilmente assistiremos à união espontânea dos atuais membros da CPLP. É nossa convicção que tal aproximação começará sempre por via de um exemplo, de uma antecipação que demonstre aos demais e mais hesitantes países a possibilidade e as vantagens desse sonho. E esta oportunidade há de surgir… No por vir, o momento em que as profecias se cumprirão e Portugal se fará Portugal, deixando fisicamente de o ser e diluindo-se no seio de uma União lusófona para a qual foi fadado desde o princípio dos tempos.

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Categories: Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia | Etiquetas: | 3 comentários

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3 thoughts on “5. Agostinho da Silva, Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I: “Portugal é, de todos os cantos da Península, o único que tem verdadeiramente génio político, talvez, de todas as gentes que falam latim pelo mundo, o único real herdeiro do povo romano”

  1. Odin Borson

    Eu acho que, quanto ao gostar de dominar e impor língua e cultura, os que mais se parecem com os antigos romanos são os castelhanos.
    Eu também acho que o primeiro grande passo para a união lusófona é Portugal saber “conquistar o coração da Galiza e de Olivença”, me expressando poeticamente. Caso a Galiza se desprenda da Espanha, Portugal não deve deixar de aproveitar a oportunidade. Para chegar ao “casamento”, deve tentar começar um “namoro”, e provar que ama do fundo do coração e não vai decepcionar a rapariga*(Galiza). Deve recorrer a ONU, aos tribunais internacionais reivindicando Olivença.

  2. sem dúvida. Castela-Madrid não descansará enquanto não impuser a toda a “Espanha” (que para eles, abarca Portugal) a sua língua e o seu modelo de cultura exclusor e exclusivista.
    Olivença está perdida no contexto atual… Espanha jamais honrará os seus compromissos internacionais e a população local é hoje maioritamente composta por migrantes andaluzes. Já me sentiria contente se o ensino do português fosse tomado como obrigatório nos concelhos oliventinos, depois, com a desagregação (inevitável) de Espanha logo se veria…
    recorrer à ONU nestas condições não teria grande efeito, receio bem… a menos que fosse usado como “moeda de troca” para garantias de defesa e promoção da língua na Galiza e em Olivença, mas: Espanha não honra os seus Tratados (ver Olivença e o caso dos transvases dos rios), logo, essa opção ONU não seria viável…

  3. Riquepqd

    A inclusão do Brasil nos próximos anos como membro permanente no conselho de segurança da ONU parece inevitável, e com Portugal federado ao Brasil, haveria grande pressão luso-brasileira pelo cumprimento do tratado e a devolução de Olivença à Portugal.

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