3. Parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”

Página 47
“então, o povo português achou que digno de imperar no Espírito Santo (quer dizer, de ser o Rei, a figura principal do império futuro, da idade futura do mundo), era a criança. Com a sua imaginação, a sua alegria, a sua capacidade de perguntar, todas essas coisas.”

Nestas frases Agostinho desenha aquela visão que tem da sociedade do futuro: uma sociedade assente na imaginação, na alegria e numa constante e permanente capacidade para tudo questionar e de eternamente buscar as razões das coisas. Em vez de “fazer”, de contabilizar as toneladas de aço ou o número de barris de petróleo fabricados ou exportados, as sociedades do futuro devem orientar-se para o mais livre e pleno exercício da imaginação de que o Homem pode ser capaz. Em vez de imensas hostes de fabricadores-consumidores que vegetam vidas inteiras em autênticas colmeias e com cada vez menos direitos e tempo para si próprios, Agostinho antevê nestas sociedades do futuro, prefiguradas pelas celebrações do “Império do Espírito Santo” um novo tipo de recentramento, mais humanista e livre do que qualquer sociedade do passado ou do presente.

Estas novas sociedades, fruto de uma visão joaquimita e providencialista do Futuro que busca muita da sua inspiração em António Vieira, são sociedades orientadas para a produção de bens culturais e não para a produção de bens, materiais e serviços, como o são aquelas que hoje conhecemos. O professor não despreza contudo os bens materiais, pelo menos não aqueles que são essenciais à satisfação das mais básicas necessidades humanas. Bastas vezes, alude à necessidade imperativa de primeiro nutrir o corpo, vestir o nu e descansar a alma, para que, só depois, possa o Homem dar espaço ao desenvolvimento do seu poder criativo, entorpecido ou esquecido se o corpo passa fome e produtivo na sua máxima capacidade se está, pelo contrário, satisfeito.

A criatividade e a imaginação humanas, os dois pontos centrais desta visão agostiniana da sociedade dos tempos vindouros, são aplicadas não somente no campo da produção cultural, mas também nos domínios da investigação científica, da engenharia, da concepção de novos modelos de organização e de pensamento. A criatividade, a inventividade e o poder de improviso, essencial num mundo onde tudo muda tão depressa, são assim também aplicadas a todas as áreas do conhecimento e do trabalho humano. Em vez de fazer assim, “porque sempre se fez assim”, Agostinho preferia sociedades que questionassem internamente todos os seus processos, na satisfação de um eterno ciclo de melhoria contínua, aumento sempre a eficácia dos processos produtivos, pela sua mecanização e automatismo crescentes e libertando assim cada vez mais os homens das tarefas repetitivas e desumanizantes que estes cumprem nas fábricas e campos do mundo desde os alvores da História.

“o ideal do povo português é que, um dia, nós possamos comer sem ser obrigados a apresentar a cedulazinha que garante que nos trabalhamos.”

No tipo de sociedade e economia que o Professor antevê não poderá jamais haver “trabalho” para todos. Pelo menos não o conceito de “trabalho” sob o conceito que atualmente temos dele e que é bem compatível com a origem latina (“tripalium” – instrumento de tortura) do mesmo… Numa economia onde o essencial das tarefas produtivas serão entregues a robots, a complexos e autónomos sistemas de informação e a processos cada vez mais automatizados. Neste futuro, a maioria dos Homens estarão livres para outras tarefas mais humanas e criativas. É assim impossível que todos recolham uma remuneração de fábricas e de serviços que – no essencial – serão automáticos. Um outro tipo de organização social, menos fundada sobre o “dinheiro” e sobre o “trabalho físico e manual” terá assim que ser encontrada… Agostinho da Silva advoga em vários dos seus textos a possibilidade de “sociedades livres”, sem a satisfação do desejo egótico pela “propriedade privada” que marca o aspecto essencial das sociedades pós-modernas da atualidade. Não defende a “propriedade coletiva” que tão maus e nefastos frutos deu nas experiências comunistas e “socialistas” do século XX. Pelo contrário, prefere o conceito de “propriedade comunal” da Idade Média portuguesa ou o de “não propriedade”. Numa sociedade em que “nossas” seriam apenas as coisas que nos eram imediatamente mais próximas, como a roupa e uma habitação, tudo o mais seria gratuito e a ficção do dinheiro e da eterna e fátua necessidade deste seria desfeita. Se precisássemos de transporte, tomá-lo-ía-mos. Se precisássemos de um livro, busca-lo-ía-mos numa biblioteca ou livraria (tornada neste modelo, numa espécie de biblioteca de bairro), se precisássemos de alimentos, ou os buscávamos na nossa horta, plantada com gosto e prazer, ou a procurávamos no mercado automatizado ou provido apenas daqueles vendedores que retirassem prazer do contato humano e da atividade mercantil característica do festivo “espírito de feira” da nossa medievalidade.

“e o que é a Ilha dos Amores? É o império do Espírito Santo entre os homens. É não perder nenhuma das características de ser homem e ganhar todas as que se atribuem a Deus. Porque os homens ali, como se vê pelo seu comportamento com as ninfas, são plenamente homens, comem e bebem no banquete, mas depois estão fora do Tempo e fora do Espaço, como está Deus.”

Essa é a grande diferença desta sociedade do futuro, antevista aqui a partir do sonho camoniano da “Ilha dos Amores”: uma sociedade que realiza as capacidades potenciais do Homem e que acende a fagulha divina que arde na sua alma. Esta visão é diametralmente oposta às sociedades atuais onde essa centelha do divino, criadora como aquela manifestada pelos deus demiurgos do passado, se manifesta de forma sempre reprimida e intensamente desumanizante. Os Homens (marinheiros em Camões, porque são estes aqueles que viajam para o Futuro) cumprem assim a sua potência divina, e isto porque realizam nesta nova sociedade, regida não pelo império da Pimenta ou pelo ferro dos canhões, mas pela transcendência do Amor e pela alquimia dos corpos, a sua divina potência e assim de Homens se transformam em Deuses: livres, plenos e criadores.

Anúncios
Categories: Economia, Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia, Sociedade | Etiquetas: | 3 comentários

Navegação de artigos

3 thoughts on “3. Parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”

  1. Fenix

    concordo.

  2. Fenix

    O Sere humano é algo maior que o simples momento.È uma fonte de criatividade que não é esplurada na sua total capacidade.È sonho que nos transforma em super homens.Não no momento mas na internidade.Mas para abrir a porta temos de fazer o queremos,de ser livres do momento para assim voarmos dar asas ao nosso pensamento.É tão simples ser livre não ter muros nem fronteiras respeitar o nosso proximo como alguem igual mesmo que seija diferente.É tão simples voar e passar oceanos e ir ao encontro do sonhos de livredade não metaforica mas real.

  3. e desde que o Homem se “domesticou” abandonando a vida de caçador-recolector que a Sociedade e a Educação (que torna o Homem mais compatível à primeira) tudo têm feito para reduzir essa criatividade.
    Qualquer novo sistema de organização tem que contemplar novas formas de incentivar e potenciar o imenso poder criativo do Homem e este foi sempre um ponto central da vertente política e pedagógica do pensamento agostiniano.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Create a free website or blog at WordPress.com.

Eleitores de Portugal (Associação Cívica)

Associação dedicada à divulgação e promoção da participação eleitoral e política dos cidadãos

Vizinhos em Lisboa

A Vizinhos em Lisboa tem em vista a representação e defesa dos interesses dos moradores residentes nas áreas, freguesias, bairros do concelho de Lisboa nas áreas de planeamento, urbanismo, valorização do património edificado, mobilidade, equipamentos, bem-estar, educação, defesa do património, ambiente e qualidade de vida.

Vizinhos do Areeiro

Núcleo do Areeiro da associação Vizinhos em Lisboa: Movimento de Vizinhos de causas locais e cidadania activa

Vizinhos do Bairro de São Miguel

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos

TRAVÃO ao Alojamento Local

O Alojamento Local, o Uniplaces e a Gentrificação de Lisboa e Porto estão a destruir as cidades

Não aos Serviços de Valor Acrescentado nas Facturas de Comunicações !

Movimento informal de cidadãos contra os abusos dos SVA em facturas de operadores de comunicações

Vizinhos de Alvalade

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos de Alvalade

anExplica

aprender e aprendendo

Subscrição Pública

Plataforma independente de participação cívica

Rede Vida

Just another WordPress.com weblog

Vizinhos do Areeiro

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos do Areeiro

MDP: Movimento pela Democratização dos Partidos Políticos

Movimento apartidário e transpartidário de reforma da democracia interna nos partidos políticos portugueses

Operadores Marítimo-Turísticos de Cascais

Actividade dos Operadores Marítimo Turísticos de Cascais

MaisLisboa

Núcleo MaisDemocracia.org na Área Metropolitana de Lisboa

THE UNIVERSAL LANGUAGE UNITES AND CREATES EQUALITY

A new world with universal laws to own and to govern all with a universal language, a common civilsation and e-democratic culture.

looking beyond borders

foreign policy and global economy

O Futuro é a Liberdade

Discussões sobre Software Livre e Sociedade

%d bloggers like this: