Daily Archives: 2009/05/12

5. Parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”: O Sistema de Educação e o Trabalho

O Sistema de Educação e o Trabalho em “Sanderson of Oundle”

Página 75

“E quererá também que toda a oficina passe a ser uma escola (…) que se não esmaguem as faculdades superiores do operário sob o peso e a monotonia de tarefas sem interesse e sem vida; que se faça a clara distinção entre o homem e a máquina; que, finalmente, se ajude o trabalhador a encontrar na sua ocupação, em todas as ideias que a cercam e a condicionam ou que ela própria provoca, o Bem Supremo da sua vida e da vida dos outros.”

A vertente prática do ensino da escola, a necessidade imperativa de transferir para a “oficina” (entendida aqui como o local onde se realiza o trabalho físico e material) a essência de um processo de aprendizagem, é um dos cernes fundamentais da visão agostiniana do sistema de educação. Em lugar de longos e densos programas curriculares, observamos aqui uma vontade de simplificar e de transferir da academia e das salas de aula para os locais de trabalho, para estágios práticos, para opções de estudo que dependem em primeiro lugar do particular interesse ou vocação dos alunos e bem menos de teóricas e abstractas visões pedagógicas.

Mas não são somente os alunos que devem partir para as “oficinas”… São também os trabalhadores das “oficinas” que devem partir para as escolas. Melhor ainda, são as escolas que devem entrar nas oficinas. Se os planos curriculares formais devem ser reduzidos à sua expressão para básica e fundamental, contemplando apenas o ensino da matemática, das artes e da língua portuguesa, num quadro que o Professor arquitectou num outro seu texto, então, todas as demais vertentes teóricas e práticas do conhecimento humano serão propagadas nos locais de trabalho, nas empresas, nas organizações públicas, nas associações sem fins lucrativos, nos diversos órgãos de soberania e do Estado. Estes estágios práticos farão com que existam cruzamentos de experiências nestas “oficinas”, mutuamente frutuosos onde todos aprenderão com a multiplicação de experiência e saberes.

A segunda parte desta citação de Agostinho alude a outro dos pontos centrais da sua visão da sociedade futura: a supressão do trabalho repetitivo, mecânico e intrínsecamente desumano no Homem. Se a natureza soube encontrar para o Homem um cérebro, capaz de perguntar pela natureza das coisas e descobrir os processos que regem as suas relações, então o Homem tem o dever de o utilizar. É este cérebro, esta fonte de infinitas potencias criativas que não pode ser empregue de forma a reduzir a condição humana à de escravo, de simples, passivo e obediente executante de ações físicas repetitivas, que não requerem e que até coexistem mal com o pensamento, o raciocínio e a criatividade. Qualquer forma de Trabalho que implique a monotomia da sua ação, a repetição infinita de tarefas, divididas em minúsculas parcelas até um ponto de fragmentação tal que o operário perca a visão de conjunto daquilo que está de facto a produzir deve ser suprimida. Estas tarefas serão sempre mais eficazmente executadas pelas máquinas e hoje, a tecnologia cibernética e informática já consegue efetivamente fabricar engenhos capazes de satisfazer este tipo de necessidades das fábricas e dos escritórios. Libertos destas tarefas, os Homens poderão dedicar-se a tarefas mais úteis, produtivas e criativas. Não alude aqui Agostinho a uma criatividade especulativa pura já que acreditava “nunca ter havido filosofia portuguesa, com excepção de Espinosa”, sem contudo a excluir explicitamente. Nesta passagem do texto agostiniano há – acreditamos nós – uma referência a um tipo de criatividade e engenho de pensamento prático “todas as ideias que o cercam” e que se é exercido no âmbito concreto e prático que rodeia o ambiente laboral onde o Homem se movimenta. Se o trabalho for consistente com a vocação e o interesse pessoal do trabalhador. Se este se sentir identificado e realizado no seu local de trabalho e se neste existirem condições para que exista um clima propício para a criatividade esta acabará por natural florescer e de fazer desenvolver os seus frutos, aumentando a eficácia e encontrando novos processos mais produtivos que aumentem a saúde económica das suas organizações, produzindo simultaneamente trabalhadores motivados e seres humanos realizados.

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Susan Boyle: O Hoax do “Britain’s Got Talent”?

Um dos maiores fenómenos da atualidade, pelo menos na Internet e na televisão é a revelação de uma cantora lírica escocesa de nome “Susan Boyle”. Os seus vídeos no Youtube contam-se já entre os mais vistos de sempre:

Contando, todos,  já mais de 130 milhões de Views!

Tamanho estrondoso por parte de alguém com tão improvável aspecto causa surpresa e… faz suspeitar que esta história tenha mais “cabelo” do que parece à primeira vista. E uma rápida investigação pela Internet reforça essa convicção. Mas antes, eis uma pequena introdução a este “hoax” (Mito): Susan Boyle teria sido revelada num dos mais populares programas de televisão britânicos, de nome “Britain’s Got Talent“. Em 2007, o programa já tinha alcançado um sucesso extraordinário na Internet através da performance de Paul Potts, outro improvável vencedor, como Susan Boyle… Esta alegada virgem de 47 anos terá conquistado o júri e audiência do concurso através do indiscutivelmente extraordinário desempenho que se pode avaliar no parágrafo anterior. Tudo parecia normal, até que o jornal NY Times publicou um artigo onde apresentava suspeitas de que Susan Boyle não passasse de uma criação de Simon Cowell , o antigo produtor das Spice Girls, que efetivamente parece ter um forte móbil financeiro nesta história, estando agora a assinar um contrato de exclusividade com Cowell.

A escocesa conquistou o juri e audiência em estúdio logo que começou a cantar o tema “I Dreamed a Dream“, extraído do conhecido musical Les Miserables. O seu desempenho foi comentado pelos juízes do programa como sendo “extraordinário” (Simon Cowell) e como “estarrecedor” (Piers Morgan), acrescentando ainda ser Susan Boyle “a maior surpresa dos últimos três anos”.

Na entrevista realizada frente aos jurados do programa, Susan Boyle terá confessado “nunca ter sido beijada”. E de facto, esta escocesa, viveu com a mãe até esta falecer em 2007 e com um gato de nome Pebbles.

Indícios que “o sucesso de Susan Boyle no Britain’s Got Talent” é um mito:

0. Antes do mais, temos que referir que “Britain’s Got Talent” não é um documentário, factual, imparcial e desinteressado. É um programa de entretenimento, gravado em diferido, cuidadosamente coreografado e realizado de uma forma muito profissional. Espontaneidade, surpresas, inesperados, são palavras que não são compatíveis com o quadro anteriormente traçado.

1. Seguindo quase fielmente a mesma matriz de sucesso de Paul Potts, o que é de per si desde logo suspeito… Ambos visualmente discretos, com peso a mais, ocupados em profissões cinzentas (Paul) ou desempregados (Susan Boyle), tendo em conta o sucesso comercial que Paul Potts representou para o programa, em 2007, nada mais natural que a produção do programa procurasse reeditar o sucesso de 2007 em 2009. Esta tentativa (bem sucedida) de reedição do fenómeno Potts torna-se evidente, logo na expressão de um dos juízes do desempenho que Boyle, Piers Morgan que comentando-a refere ser a cantora “a maior surpresa dos últimos três anos”. Ora 2009 – 3 = 2007… O ano em que Paulo Potts foi revelado. Porque tinha Morgan esta data em tão clara memória? Não ouvir mais nenhuma revelação durante estes três anos?

2. Quando Susan Boyle sobe ao palco, com sapatos rasos e o seu vestido domingueiro, a populaça acolhe-a com um riso sarcástico. A mesma atitude é exteriorizada pelo juiz Simon Cowell. Quando confessa que deseja vir a ser uma cantora lírica, o ruído aumenta de intensidade. No total o ambiente é de autêntico linchamento e produz na audiência televisiva um imediato sentimento de empatia e identificação com a vítima de tal tratamento de polé, que a orienta cuidadosamente para uma posição em que fica receptiva ao desempenho de Susan Boyle. De facto, tudo se assemelha a um circo romano, com a populaça clamando pelo sacrifício dos cristãos aos leões e com o “imperador” Powell pronto a apontar o dedo para o solo (historicamente, de facto, a palma da mão). Trata-se de uma evidente coreografia objetivando a dilatação do desempenho de Boyle.

3. Outra alusão a um mito cristão é utilizada pelos produtores do programa quando recorrem à exaltação do poder absoluto de Powell contra a insignificância indumentária e visual de Boyle. O Grande (Golias) enfrenta o Pequeno (David) e a vitória bíblica final deste produz o reforço do fenómeno de identificação forjado no parágrafo anterior, pelo acolhimento arrogante da plateia e do próprio júri.

4. Sejamos, contudo, bem claros: Susan Boyle enquanto cantora lírica não é um hoax. Não é um mito ou uma simples construção artificiosa à laia dos Milli Vanilli mas uma excelente cantora, com um reconhecimento merecido. Mas o seu comportamento em palco parece demasiado adequado para potenciar a imagem de “cordeiro no circo” para ser realmente espontâneo e sincero. Como acreditar que Cowell desconhecia em absoluto o seu talento antes de a ver no palco? Não fazem despistagem e audições antes dos concorrentes cantarem pela primeira vez? Porque é que Boyle escolheu precisamente um tema tão adequado ao tipo de personagem (real ou não) que assumiu em palco “sonhei um sonho”, cantado na ópera por um desempregado, como Susan Boyle, uma “ocupação” que aparece em rodapé enquanto ela canta? Não parece sobre-coreografado?

5. Uma das regras para a admissão de um concorrente ao Britain’s Got Talent é nunca ter gravado um disco comercial. Ora o jornal escocês “Daily Record” descobriu que Susan Boyle tinha gravado um tema num CD na década de 90 intitulado “Cry Me a River”. Ainda que tivesse sido um CD para uma organização de caridade e tivessem sido apenas produzidas mil cópias, estas foram vendidas, pelo que – tecnicamente – foi mesmo uma gravação comercial. Anos antes, Susan Boyle era captada por uma câmara, num concurso em 1984: http://www.youtube.com/watch?v=uxES80FbRmM, outra indicação que ela não começou a cantar, propriamente na véspera desta audição no Britain’s Got Talent.

6. O aspecto descuidado de Susan Boyle não seria… demasiado descuidado? Os maquilhadores nos bastidores não a teriam preparado antes de aparecer em palco, se tivessem mesmo recebido instruções para o fazer??? E se assim foi, então a sua apresentação “descuidada” em palco, não seria antes pelo contrário, muito cuidada e objetivando a criação de um efeito muito preciso junto da audiência televisiva?

Motivações para este embuste/hoax:
1. Audiências, Audiências, Audiências…
2. Dinheiro (de facto, a primeira motivação): O grande ator nesta orquestração foi o júri Simon Cowell, precisamente gestor da BMG britânica e que negociou com ela um contrato de gravação de um album e de um filme…

Fontes:
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,susan-boyle-e-criacao-de-produtor-das-spice-girls–diz-jornal,358165,0.htm
http://www.nypost.com/seven/04182009/postopinion/opedcolumnists/fairytale_ending_165066.htm http://en.wikipedia.org/wiki/Britain’s_Got_Talent

http://www.cnn.com/2009/SHOWBIZ/TV/04/15/talent.show/index.html

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Vantagens da “Rede Elétrica Inteligente” que Obama quer instalar nos EUA

Uma das mais interessantes primeiras medidas legislativas da Administração Obama foi uma Lei incluindo diversos incentivos por formas “limpas” de energia. Entre estas encontravam-se a modernização de edifícios públicos, tornando-os energeticamente mais eficientes; medidas de incentivo a obras em residências privadas tornando-as mais eficientes no consumo de água e em termos ambientais e projetos de recuperação de zonas ambientalmente degradadas. Entre estas medidas estavam também um orçamento de 11 biliões de dólares para criar uma “rede elétrica inteligente” que permitiria ajudar os consumidores a reduzirem o seu consumo, encorajando-os a gastarem menos energia nas horas de maior consumo. Uma tal rede poderia suprir uma quantidade imensa de energia, que somente um investimento pesado no nuclear, em centenas de milhar de aerogeradores, barragens, etc. Poderia compensar.

No geral, a rede elétrica norte-americana é das mais obsoletas do mundo desenvolvido, consequência de décadas de privatização selvagem e de desinvestimento em manutenção e renovação da rede. A situação é particularmente grave na Califórnia, onde os “Apagões” eram até à pouco tempo, regra quase diária.

Outras verbas do plano energético são também interessantes, como os 10 biliões para recondicionar e modernizar habitações particulares de forma a reduzir a factura energética. Outros 8 biliões para reduzir o consumo de energia em edifícios federais e militares e 7 biliões para que os governos estaduais invistam de forma semelhante.

Todos estes investimentos irão criar empregos a curto prazo e a médio prazo reduzir a dependência energética dos EUA e reduzir os problemas de segurança e de invasões cibernéticas que a China e a Rússia têm conduzido contra a rede elétrica dos EUA, conforme abordámos AQUI.

Fonte:
http://redgreenandblue.org/2009/02/05/economic-stimulus-package-will-obama-push-for-a-smart-grid/

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Quids S16: Que satélite é este?

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1. Todos os quids valem um ponto.

2. Os Quids são lançados pela manhã. Entre as 6:00 e as 10:00 (Hora de Lisboa)

3. As pistas só serão dadas à hora de almoço (12:30-14:30). Contudo, nesse período do dia seguinte podem ser dadas várias pistas, desde que pedidas por um (qualquer) dos participantes.

4. Só há quids entre 2ª e 6ª (incluindo feriados). Salvo imprevisto…

5. Os Quids terminam quando um concorrente chegar aos 30 pontos.

6. É vivamente desencorajado o uso de vários nicknames para o mesmo concorrente, já que desvirtua o espírito do jogo. Lembrem-se que o IP tudo revela…

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Lost S05E13: “Some Like It Hoth”: Comentários

Miles não é... a Evangeline Lilly em http://season-premiere.com

Miles não é... a Evangeline Lilly em http://season-premiere.com

1. Neste episódio centrado num dos novos personagens da série, Miles, passamos a conhecer melhor a sua biografia, e nomeadamente a sua primeira experiência de contato com os mortos e mais tarde encontramos o jovem Miles reencontrando a mãe que estava seriamente doente e questionando-a sobre a identidade do seu pai… Algo a que voltaremos mais adiante. O titulo do episódio decorre do filme “The Empire Strikes Back” da série Star Wars onde precisamente aparece um planeta com esse nome: Hoth.

2. Depois de recrutado por Naomi para o grupo de Widmore e para a expedição do Kahana, Miles é raptado por um grupo de homens que o tentam persuadir a não ir para a Ilha e que a um dado momento lhe perguntam: “O que está na sombra da estátua?”… A mesma pergunta antes colocada por Ilana a Frank Lapidus como senha de reconhecimento para aquilo que julgo ser um grupo de dissidentes da Dharma Initiative, no mundo exterior, mas que agora parece ser antes os Outros de Benjamin Linus, já que pouco antes de o soltarem lhe dizem que “está a jogar pela equipa errada” e quando este pergunta a que equipa pertencem, respondem-lhe “à equipa que vai vencer”. Como este confronto “entre equipas” na Ilha ocorreu entre os Outros e o grupo do Kahana (de Widmore) eis então percebida a “equipa” a que pertence Ilana: os Outros. E explica-se assim também porque é que ela não sendo uma agente da autoridade deteve Sayid e porque o fez: porque recebeu ordens de Ben para o fazer e para o devolver à Ilha, já que Sayid não revelar querer fazê-lo de livre vontade.

3. Quando Horace “convida” Miles a levar um “pacote” a Radzinsky diz-lhe que foi admitido ao “Círculo de Confiança”, o que significa que entre a Dharma Initiative nem todos sabem o mesmo… Um certo grupo – aparentemente o que reúne na casa de Horace e de onde Sawyer faz parte tem acesso total a toda a informação e locais que motivam a presença da organização na Ilha: nomeadamente os seus verdadeiros objetivos que ainda que tenham sido já revelados no jogo na série televisiva ainda permanecem por aclarar…

4. Quando o “pacote” revela ser um corpo, Miles exerce as suas capacidades únicas para ler os últimos pensamentos na mente do falecido e fica a perceber que este morreu de uma forma muito inusitada: um dente obturado que atravessou o cérebro, causando assim a sua morte. Tendo em conta que os trabalhos em que a Dharma está envolvida na Estação Orquídea se prendem com aquele extremo magnetismo que num episódio anterior desta temporada Pierre Chang já referira ser “extremamente perigoso”, não é difícil compreender o que levou à morte este membro do “círculo de confiança”: o magnetismo extremo que resulta diretamente do mecanismo controlado pela roda e que nós desde à algum tempo acreditamos serem dois microburacos negros, magnéticos e rodando um em torno do outro, gerando assim as deslocações no Espaço e no Tempo que foram o corpo central da narrativa desta 5ª Temporada de “Lost”

5. A lição que Jack limpa do quadro da sala de aulas da Dharma era sobre… Hieróglifos egípcios. Um dos temas mais recorrentes no enredo da Ilha e algo que seria manifestamente do mais alto interesse para constar do programa de ensino na Dharma, já que existem tantos testemunhos de uma variante dessa escrita em antigas ruínas dispersas pela Ilha. A inscrição que Jack apaga diz apenas “a escrita das palavras de Deus”.

6. A construção da Estacão Cisne está a ser camuflada pela Dharma. Aparentemente porque está bem no interior do território dos Outros, definido enquanto tal pelas débeis tréguas entre a Dharma e os Outros.

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3. Parágrafos agostinianos de pensamento político em “Ir à Índia sem abandonar Portugal”

Página 47
“então, o povo português achou que digno de imperar no Espírito Santo (quer dizer, de ser o Rei, a figura principal do império futuro, da idade futura do mundo), era a criança. Com a sua imaginação, a sua alegria, a sua capacidade de perguntar, todas essas coisas.”

Nestas frases Agostinho desenha aquela visão que tem da sociedade do futuro: uma sociedade assente na imaginação, na alegria e numa constante e permanente capacidade para tudo questionar e de eternamente buscar as razões das coisas. Em vez de “fazer”, de contabilizar as toneladas de aço ou o número de barris de petróleo fabricados ou exportados, as sociedades do futuro devem orientar-se para o mais livre e pleno exercício da imaginação de que o Homem pode ser capaz. Em vez de imensas hostes de fabricadores-consumidores que vegetam vidas inteiras em autênticas colmeias e com cada vez menos direitos e tempo para si próprios, Agostinho antevê nestas sociedades do futuro, prefiguradas pelas celebrações do “Império do Espírito Santo” um novo tipo de recentramento, mais humanista e livre do que qualquer sociedade do passado ou do presente.

Estas novas sociedades, fruto de uma visão joaquimita e providencialista do Futuro que busca muita da sua inspiração em António Vieira, são sociedades orientadas para a produção de bens culturais e não para a produção de bens, materiais e serviços, como o são aquelas que hoje conhecemos. O professor não despreza contudo os bens materiais, pelo menos não aqueles que são essenciais à satisfação das mais básicas necessidades humanas. Bastas vezes, alude à necessidade imperativa de primeiro nutrir o corpo, vestir o nu e descansar a alma, para que, só depois, possa o Homem dar espaço ao desenvolvimento do seu poder criativo, entorpecido ou esquecido se o corpo passa fome e produtivo na sua máxima capacidade se está, pelo contrário, satisfeito.

A criatividade e a imaginação humanas, os dois pontos centrais desta visão agostiniana da sociedade dos tempos vindouros, são aplicadas não somente no campo da produção cultural, mas também nos domínios da investigação científica, da engenharia, da concepção de novos modelos de organização e de pensamento. A criatividade, a inventividade e o poder de improviso, essencial num mundo onde tudo muda tão depressa, são assim também aplicadas a todas as áreas do conhecimento e do trabalho humano. Em vez de fazer assim, “porque sempre se fez assim”, Agostinho preferia sociedades que questionassem internamente todos os seus processos, na satisfação de um eterno ciclo de melhoria contínua, aumento sempre a eficácia dos processos produtivos, pela sua mecanização e automatismo crescentes e libertando assim cada vez mais os homens das tarefas repetitivas e desumanizantes que estes cumprem nas fábricas e campos do mundo desde os alvores da História.

“o ideal do povo português é que, um dia, nós possamos comer sem ser obrigados a apresentar a cedulazinha que garante que nos trabalhamos.”

No tipo de sociedade e economia que o Professor antevê não poderá jamais haver “trabalho” para todos. Pelo menos não o conceito de “trabalho” sob o conceito que atualmente temos dele e que é bem compatível com a origem latina (“tripalium” – instrumento de tortura) do mesmo… Numa economia onde o essencial das tarefas produtivas serão entregues a robots, a complexos e autónomos sistemas de informação e a processos cada vez mais automatizados. Neste futuro, a maioria dos Homens estarão livres para outras tarefas mais humanas e criativas. É assim impossível que todos recolham uma remuneração de fábricas e de serviços que – no essencial – serão automáticos. Um outro tipo de organização social, menos fundada sobre o “dinheiro” e sobre o “trabalho físico e manual” terá assim que ser encontrada… Agostinho da Silva advoga em vários dos seus textos a possibilidade de “sociedades livres”, sem a satisfação do desejo egótico pela “propriedade privada” que marca o aspecto essencial das sociedades pós-modernas da atualidade. Não defende a “propriedade coletiva” que tão maus e nefastos frutos deu nas experiências comunistas e “socialistas” do século XX. Pelo contrário, prefere o conceito de “propriedade comunal” da Idade Média portuguesa ou o de “não propriedade”. Numa sociedade em que “nossas” seriam apenas as coisas que nos eram imediatamente mais próximas, como a roupa e uma habitação, tudo o mais seria gratuito e a ficção do dinheiro e da eterna e fátua necessidade deste seria desfeita. Se precisássemos de transporte, tomá-lo-ía-mos. Se precisássemos de um livro, busca-lo-ía-mos numa biblioteca ou livraria (tornada neste modelo, numa espécie de biblioteca de bairro), se precisássemos de alimentos, ou os buscávamos na nossa horta, plantada com gosto e prazer, ou a procurávamos no mercado automatizado ou provido apenas daqueles vendedores que retirassem prazer do contato humano e da atividade mercantil característica do festivo “espírito de feira” da nossa medievalidade.

“e o que é a Ilha dos Amores? É o império do Espírito Santo entre os homens. É não perder nenhuma das características de ser homem e ganhar todas as que se atribuem a Deus. Porque os homens ali, como se vê pelo seu comportamento com as ninfas, são plenamente homens, comem e bebem no banquete, mas depois estão fora do Tempo e fora do Espaço, como está Deus.”

Essa é a grande diferença desta sociedade do futuro, antevista aqui a partir do sonho camoniano da “Ilha dos Amores”: uma sociedade que realiza as capacidades potenciais do Homem e que acende a fagulha divina que arde na sua alma. Esta visão é diametralmente oposta às sociedades atuais onde essa centelha do divino, criadora como aquela manifestada pelos deus demiurgos do passado, se manifesta de forma sempre reprimida e intensamente desumanizante. Os Homens (marinheiros em Camões, porque são estes aqueles que viajam para o Futuro) cumprem assim a sua potência divina, e isto porque realizam nesta nova sociedade, regida não pelo império da Pimenta ou pelo ferro dos canhões, mas pela transcendência do Amor e pela alquimia dos corpos, a sua divina potência e assim de Homens se transformam em Deuses: livres, plenos e criadores.

Categories: Economia, Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia, Sociedade | Etiquetas: | 3 comentários

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