Em Defesa das Moedas e das Economias Locais contra os malefícios da Globalização

As economias mais sustentáveis – do ponto de vista e ambiental – serão sempre aquelas onde os bens consumidos numa dada região são também aqueles que são produzidos na mesma região, por trabalhadores que residem nas suas imediações. O economista alemão E. F. Schumacher designou este sistema económico como uma “economia da permanência”. O economista apresentaria os seus modelos alternativos de economia ao mundo pela primeira vez em 1974, no seu livro “O Pequeno é Belo, a Economia como se as pessoas importassem”.

Uma das ferramentas mais importantes para propiciar ao surgimento de Economias Locais sólidas e sustentáveis são as Moedas Locais.

Na atual economia globalizada, as moedas nacionais (como o dólar norte-americano) ou transnacionais (como o Euro europeu) têm contribuído para a concentração da riqueza e para o aprofundamento do fosso entre ricos e pobres, para a destruição das comunidades locais pela aniquilação do comercio local e toda a atividade industrial e agrícola que é deslocalizada. Esse interior, cada vez mais desertificado e onde os municípios se constituem inevitavelmente como o primeiro empregador é, nos países ditos “desenvolvidos”, a maior vítima da globalização. Nos países ditos do “terceiro mundo”, é o ambiente, a ecologia e a biodiversidade que sofrem com as culturas intensivas de plantação, com a exploração desregrada das matérias-primas e com condições de trabalho sub-humanas. As Moedas Locais permitirão respeitar as identidades regionais, quer económicas, quer culturais, de uma forma que não sucede com as moedas nacionais (que tudo subjugam em favor dos interesses do Centro) ou transnacionais (que tudo subordinam em favor dos jogos de interesses de uma burocracia pseudo-federal). As Moedas Locais permitem definir uma zona regional de comércio, abrangida pela vigência da Moeda Local e defendida das voracidades e dos “dumpings” laborais, ecológicos e ambientais que caracterizam a Globalização. As pequenas e médias empresas locais não têm a escala para resistir a estes “dumpings” múltiplos patrocinados por gigantescas multinacionais globais, detentoras de recursos quase ilimitados e capazes de destruir, por anexação, todos os negócios locais num verbo que nos EUA já mereceu a invenção do verbo “Walmartização” e que em Portugal se exprime pela voraz multiplicação dos Hipermercados e pelos seus efeitos eucalípticos no pequeno comércio. O uso de Moedas Locais no comércio local funciona como uma membrana protectora porque as grandes empresas globais, de capitais e de propriedade externa à região da vigência da Moeda, ainda que a possam adoptar terão que a cambiar (com os custos e perda de recursos decorrente) antes de exportar a riqueza localmente recolhida.

Uma das experiências modernas com Moedas Locais foi realizada na década de setenta, em Exeter, no New Hampshire (EUA). A experiência foi conduzida por Robert Swann e Ralph Borsodi, da E.F.Schumacher Society. Mais tarde, outras moedas foram ensaiadas, como os Deli Dollars, as Berkshire Farm Preserve Nortes e as BerkShares, estando a última ainda em vigência.

História das Moedas Locais

No século dezanove muitos bancos comerciais emitiam a sua própria moeda. Estas geralmente emissões serviam para financiar um empréstimo “produtivo”, isto é, um que servisse para um investimento em maquinas, equipamentos ou em terrenos que permitisse a prazo aumentar a qualidade ou a quantidade da produção. Foi só em 1913 que as moedas locais foram substituídas pelo dinheiro federal emitido por uma coligação de Bancos privados dos Estados Unidos que hoje assume o papel de “banco central”, sem que nunca verdadeiramente o tenha sido…

A moeda local “The Constant” foi emitida pela primeira vez em 1972 e circulou até 1973 em Exeter, no New Hampshire, circulando entre organizações não-lucrativas. Em 1991, em Ithaca, Nova Iorque, outra experiência foi conduzida com uma moeda local para comércio de bens e serviços locais. Cada nota desta moeda continha unidades de “hora-trabalho”. As “Horas” eram emitidas aos proprietários de pequenos negócios que as queriam utilizar para realizarem trocas de bens e serviços. O conceito era de que as “Horas” seriam sustentadas pela produtividade daqueles a quem emitidas, mantendo assim um valor mesmo apesar de todas as flutuações dos dólares federais.

A moeda local “Horas” haveria de se propagar por mais cinquenta comunidades nos EUA e no Canadá. Em algumas, a Moeda Local continua ainda hoje em atividade e hoje está novamente em expansão com um programa de “seguros de saúde local” e com uma “União Alternativa de Crédito”.

Mas é, contudo, inegável que a “Horas”, sem ser um fracasso rotundo, também não foi um sucesso… Desde logo, porque os grupos comunitários que apoiaram a aparição da dita nestes cinquenta locais não puderam reservar a ela os recursos necessários para a suportar.

No Reino Unido, o advogado Edgar Cahn concebeu um programa a que chamou de “Dólares do Tempo”. Os “Dólares do Tempo” mediam a quantidade de horas em que cada vizinho fazia pequenos serviços a outros vizinhos. Todos os tipos de serviços eram passíveis de merecerem “dólares do tempo” em troca dos seus serviços comunitários. Esta Moeda Local – porque era disso que se tratava – não era usada para trocas comerciais como sucedeu com a maioria das Moedas Locais, mas a experiência revelou-se muito útil para reforçar os laços comunitários e valores humanos como a reciprocidade e o espírito de entre-ajuda. Hoje em dia, há várias moedas locais idênticas ativas nos EUA e no Reino Unido.

O programa “LETS (Local Economic Trading Systems)” teve a sua génese no começo da década de oitenta, no Canadá, em Vancouver e consistia num sistema para-bancário de crédito e débito. Quem quisesse adquirir bens ou serviços disponíveis através do programa LETS contactavam por telefone o coordenador local do programa e pediam-lhe para debitar na sua conta LETS o valor do bem ou serviço adquirido (avaliado na moeda nacional) e este era imediatamente creditado na conta LETS no fornecedor. Este e outros programas idênticos são provavelmente as Moedas Locais mais populares do mundo, mas a sua integração com os sistemas fiscais nacionais não tem sido sempre a mais suave.

Em 1989 surgiu uma outra Moeda Local quando proprietário de uma loja no Massachusetts, de nome “The Deli”, viu recusado um empréstimo num Banco e emitiu uma moeda sua intitulada “Deli Dollars”. Os clientes da loja compravam oito dólares que, posteriormente, trocavam por sopa ou uma sandes.

Em 1991, um grupo de dezassete comerciantes em Great Barrington começou a emitir outra moeda local, as BerkShares. Durante algum tempo, os clientes dessas lojas locais por cada dez dólares gastos nessas lojas, receberam um BerkShare. Esses BerkShares podiam depois ser usados nas lojas aderentes, mas apenas durante três dias, criando um ambiente de “festa” e comemoração na rua principal da cidade. Variantes deste modelo, foram ensaiados e em Toronto e em Vancouver, sempre começando por conversões de dinheiro corrente para uma moeda local em curso apenas em lojas locais.

Outra interessante experiência de “moedas locais”, teve lugar na circunspecta Suíça, em 1934, com a muito bem sucedida “WIR”, um sistema de trocas entre empresas e que não incluía acesso a consumidores finais. Os bens trocados entre empresas eram avaliados em WIR e havia descontos que favoreciam a adopção da Moeda em favor da moeda nacional, o Franco Suíço. Era possível emitir créditos em WIR e a moeda teve na época uma função muito importante na estabilização da economia.

Fontes:

http://www.smallisbeautiful.org/local_currencies/2004_conference_report.html

http://www.smallisbeautiful.org/

http://en.wikipedia.org/wiki/E._F._Schumacher

http://www.sustainablelivingsystems.org

Local Currencies in the Twenty-First Century:

Understanding Money, Building Local Economies, Renewing Communit; Susan Witt and Christopher Lindstrom of the E. F. Schumacher Society

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Categories: E. F. Schumacher Society, Ecologia, Economia, Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia | 3 comentários

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3 thoughts on “Em Defesa das Moedas e das Economias Locais contra os malefícios da Globalização

  1. O BRASIL e a China propuseram uma nova moeda em detrimento ao dólar iank, …um golpe mortal em suas aspirações como potência hegêmonica, digo +, é com certeza o seu ocaso se isso acontecer planetáriamente.Mt bom….

  2. ana luiza

    Praquê liga a coisas sem interese. É bobeire esse negócio !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  3. bobeira? simples… basta não ler e passar à frente.

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