A China, o Tibete e o PCP: um chorrilho de contradições e asneiras

(http://pwp.netcabo.pt/corujeira/25%20de%20Abril/1975_Pela_defesa_das_liberdades_vota_PCP_Henrique_Matos)

Continuam desaparecidos mais de 1200 tibetanos, depois das várias prisões arbitrárias e ocorridos a coberto da calada da noite um pouco por todo o Tibete ocupado. A maioria destes tibetanos estão desaparecidos desde os tumultos de março e a sua ausência é um factor determinante no clima de medo que se sente ainda hoje, em Lhasa, havendo rumores de que alguns dos desaparecidos teriam sido executados e que praticamente todos teriam sido torturados. Essa informações constam de um relatório da ONG “International Campaign for Tibet” e baseia-se em publicações proibidas na China e no relato de várias testemunhas locais sendo que algumas delas descrevem técnicas de tortura como “espancamentos, joelhos e cotovelos partidos, eletrocussões e cravamento de bambu sobre as unhas”.

A “International Campaign for Tibet” estima que tenham morrido mais de 200 pessoas no decurso das 130 manifestações ocorridas desde março de 2008, sobretudo na região de Lhasa.

Em Portugal, temos um grupo político que se move em favor da ocupação chinesa do Tibete. Este procura manter um apoio o mais discreto possível, limitando ao máximo as aparições públicas de apoio, pelo natural embaraço que a “causa universalista” causa nos seus próprio militantes e pela impopularidade geral da defesa de um dos regimes mais autocráticos e opressivos do mundo: o da China comunista. Empurrado pela cega aderência ao regime chinês, apenas porque o partido único que a rege ainda inclui a palavra sacro-ssanta “comunista”, os dirigentes do PCP, vão acriticamente em apoio da tirania de Pequim, e defendem o regime de uma forma automática e sempre em “baixo perfil”, para minimizarem os impactos no seu eleitorado de tal defesa… Empurrados pelos Media por vezes têm que emitir declarações públicas de apoio. Como as três que passaremos a comentar, mais abaixo.

Tibete: Declaração de voto do PCP na AR
Senhor Presidente,

Senhores Deputados,

O voto apresentado sobre acontecimentos no Tibete, traz considerações das quais discordamos, assentando em pressupostos que, reproduzindo mensagens difundidas internacionalmente (incluindo imagens de acontecimentos de fora da China apresentadas como tendo aí ocorrido), não correspondem com rigor à realidade.

Não está em causa a manifestação de pesar do PCP em relação às vítimas, o seu desejo de que os conflitos tenham uma resolução rápida e pacífica, bem como os seus princípios de defesa da democracia e dos direitos humanos.

O que está em causa de forma cada vez mais clara, é estar em curso uma grande operação contra os Jogos Olímpicos de Pequim, real mola por detrás de uma escalada de provocação e de muitas das falsas indignações a que vamos assistindo na cena política internacional.

É curioso aliás que continue a falar-se do Tibete como território ocupado pela China quando nem as potências que instigam e apoiam movimentos de orientação separatista que estão na origem das acções violentas, de que até o Dalai-Lama já se demarcou, põem em causa a integridade do território da República Popular da China, incluindo o Tibete como Região Autónoma.

Isso vem aliás acompanhado em geral de uma sistemática deturpação dos acontecimentos históricos. Seria preciso lembrar, para reintroduzir algum rigor, que desde o século XIII que o Tibete está unido, com diversos graus de autonomia à China, e que no início do século XX a região foi invadida pela Grã-Bretanha a partir da Índia. Seria até preciso lembrar que, à época da revolução popular chinesa, em 1949, vigorava no Tibete um regime feudal onde a maioria da população era constituída por servos e escravos, com uma forte concentração da terra e dos meios de subsistência, ou que o actual Dalai-Lama, antes de se assumir como dirigente do chamado governo no exílio, integrou ele próprio a 1ª Assembleia Nacional Popular da China que elaborou a constituição chinesa.

Neste processo invocam-se e inventam-se argumentos para justificar actuais e futuras linhas de confronto e de afronta ao direito internacional com origem nos mesmos de sempre, aqueles que já há cinco anos não se coibiram de também inventar a existência de armas de destruição em massa, como suporte de uma guerra que destruiu o Iraque e impôs incontáveis sacrifícios ao seu povo.

É por isso que assume especial importância neste caso o respeito pelo direito internacional, tantas vezes violado para dar lugar a acções de ingerência directa ou indirecta procurando impor interesses estratégicos e económicos.

É por tudo isto que não votamos o voto apresentado.

Disse.”

http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=31646&Itemid=120

as imagens de acontecimentos de fora da China apresentadas como tendo aí ocorrido), não correspondem com rigor à realidade”

O deputado comunista refere-se aqui às prisões dos manifestantes que junto à embaixada chinesa em Catmandu. Estas foram da direta responsabilidade da polícia anti-motim nepalesa e não das forças militares ou policiais chinesas. Mas se foram tão violentas (depois dos nepaleses terem assistido impávidos e serenos a manifestações que não os afectavam diretamente) foram-no apenas uma semana depois destas manifestações terem começado e porque resultatam de pressões diretas de Pequim, para que o Nepal lhes pusesse cobro! Isso surgiu em vários media!

“Não está em causa a manifestação de pesar do PCP em relação às vítimas”

Se não está, parece. E em política, o que parece é. É que o discurso público do PCP quanto a este tema da ocupação do Tibete alinha constantemente pelas posições públicas do regime de Pequim, e nunca pelas posições das pessoas que fora e dentro do Tibete se manifestam a favor da maior autonomia do território (recordemo-nos que a posição oficial do governo tibetano no exílio é favorável apenas à autonomia, não à independência!)

conflitos tenham uma resolução rápida e pacífica, bem como os seus princípios de defesa da democracia e dos direitos humanos”

A ocupação do Tibete pela China leva já mais de 50 anos. Isto é uma resolução rápida? Ainda não há muito tempo estas imagens foram tornadas públicas. Mostram menores desarmados a serem abatidos e cumprindo o único “crime” de estarem a tentar sair do Tibete ocupado. Estas imagens são apenas a ponta do iceberg porque é certo que é frequente que as tropas de fronteira disparem sobre pessoas que tentam deixar o Tibete a caminho do Nepal, mas nem sempre (como desta vez) estava perto uma câmara de video para filmar o assassinato. Esta é a “resolução pacífica” e respeitadora dos “direitos humanos” que o último partido comunista estalinista da Europa advoga?

estar em curso uma grande operação contra os Jogos Olímpicos de Pequim”

era possível ao PCP ecoar de forma mais literal o discurso diplomático da autocracia chinesa? Toda a contestação no Tibete está a ser manipulada a partir do exterior apenas com o soez objetivo de prejudicar o resultado de marketing que a China espera recolher da realização triunfal dos Jogos Olímpicos, dessa repetição plena dos Jogos de Berlim, que em 1936 consagraram internacionalmente o prestígio internacional do regime nazi. Os tibetanos não protestam contra o fluxo contínuo e esmagador de migrantes Han que são hoje já a maioria da população tibetana (60%), nem contra a cega ou torpe aplicação da política de “filho único”, nem contra as esterilizações forçadas, nem contra a repressão política e religiosa, nem contra a destruição do rico património cultural e religioso tibetano, transformando em relíquia turística e esvaziada tanto quanto o possível. Não os tibetanos protestam apenas para prejudicar os Jogos Olímpicos de Pequim. Essa é apenas a “cruel” intenção dos tibetanos. Esta é pelo menos a visão dos dirigentes do PCP. E, por coincidência, também as dos dirigentes do PC chinês. Mundo pequeno, este…

“É curioso aliás que continue a falar-se do Tibete como território ocupado pela China quando nem as potências que instigam e apoiam movimentos de orientação separatista que estão na origem das acções violentas, de que até o Dalai-Lama já se demarcou, põem em causa a integridade do território da República Popular da China, incluindo o Tibete como Região Autónoma.”

É também curioso quanto a obsessão pelo seguidismo ideológico pode deturpar até o pensamento dos mais inteligentes dos Homens… O Tibete é ocupado militarmente, como demonstram aliás cabalmente as forças militares e paramilitares que Pequim transferiu para o território em 2008 para abafar a revolta e que sendo responsáveis pelos mortos e pelos desaparecimentos, continuam ainda hoje nos mesmos números no Tibete. E que “potencias que instigam”, são estas? São os EUA ou a França? A Índia ou o Japão? Que alusão envergonhada é esta? Se o PCP tem provas de que esta revolta teve o “telecomando” estrangeiro porque não referiu explicitamente a sua fonte? Tão lestos (corretamente) a apontar os pecadilhos dos EUA no Iraque e na Sérvia, porque são tímidos os dirigentes do PCP na elucidação destas fontes? Será que é porque estas… não existem?

O Dalai Lama não se demarcou da “orientação separatista”… Ele sempre se demarcou dela e defende desde à muito a simples autonomia, que Pequim se recusa a ceder apenas para manter no Tibete um jugo apertado, uma exploração profunda das suas riquezas minerais e uma constante colonização…

Seria preciso lembrar, para reintroduzir algum rigor, que desde o século XIII que o Tibete está unido, com diversos graus de autonomia à China, e que no início do século XX a região foi invadida pela Grã-Bretanha a partir da Índia”

E daí? Durante a sua existência, houve várias ocasiões em que o Tibete foi completamente independente, ao contrário do que sugere o texto enganador do PCP tendo sido o mais recente entre 1912 e 1950, o ano da invasão chinesa. Mas mesmo que isso fosse verdade, o que alteraria na justeza da causa da luta tibetana? Portugal, ele próprio, também esteve submetido a potencias estrangeiras durante uma parte significativa da sua História. Isso significa porventura que o PCP defende a sua incorporação na Espanha (como Saramago, o comunista português mundiamente mais conhecido), no Marrocos ou na República francesa pós-napoleónica?

Seria até preciso lembrar que, à época da revolução popular chinesa, em 1949, vigorava no Tibete um regime feudal onde a maioria da população era constituída por servos e escravos, com uma forte concentração da terra e dos meios de subsistência, ou que o actual Dalai-Lama, antes de se assumir como dirigente do chamado governo no exílio, integrou ele próprio a 1ª Assembleia Nacional Popular da China que elaborou a constituição chinesa.”

Correto. O mesmo se verificava na China – que o PCP tanto defende – até à vitória de Mao Tse Tung na guerra civil chinesa, em 1949. E o mesmo se passa agora, com a reduzida quantidade e qualidade de direitos cívicos, laborais, humanos e políticos de que gozam os chineses comuns no seu próprio país… e em defesa destes ainda ninguém ouviu o PCP pronunciar-se…

O Dalai Lama integou a Assembleia, sim, antes da revolta popular de 1959 contra a ocupação chinesa e a destruição sistemática de mosteiros budistas. Perante tal repressão violenta e o agudizar da ocupação chinesa, teve que retirar-se para manter viva a chama da autonomia. Se foi iludido, sob a promessa de respeito da autonomia cultural e religiosa, quando esta se revelou completamente falsa, optou pela única solução válida: o exílio.

Neste processo invocam-se e inventam-se argumentos para justificar actuais e futuras linhas de confronto e de afronta ao direito internacional com origem nos mesmos de sempre, aqueles que já há cinco anos não se coibiram de também inventar a existência de armas de destruição em massa, como suporte de uma guerra que destruiu o Iraque e impôs incontáveis sacrifícios ao seu povo.”

Mas que “mesmos de sempre são estes”? Os EUA? É a CIA que anda a inflamar os jovens tibetanos desde 1959? Sejamos sinceros… Quantos agentes da CIA acham que a China deixa operar no Tibete? E que relação há entre as armas de destruição massiça que não existiam no Iraque e uma invasão mal-fundamentada e pior planeada e os acontecimentos no Tibete? Não é compara o incomparável? Não é procurar desempenhar um sacríficio demasiado grande à lógica e ao bom senso de quem ouve este discurso? Se não foram os insurgentes tibetanos que plantaram armas falsas de destruição em massa no Iraque então o que faz aqui, em jeito de conclusão, este parágrafo extemporâneo e inoportuno?

Em suma, a posição de apoio do PCP a um dos regimes que na atualidade tem piores pergaminhos do domínio das liberdades individuais e de expressão não pode ser esquecida… Assim como a forma absoluta como este partido se alinha ao lado dos ocupantes do Tibete, daqueles que destroem o seu povo, a sua cultura e a sua religião, colonizando o território com vagas sucessivas e constantes de colonos Han. Se o PCP pretende manter alguma credibilidade no seu discurso nacional de defesa dos direitos dos trabalhadores e dos oprimidos, então deve procurar manter esse discurso consistente e defender as mesmas posições no quadro internacional, não deixando que os interesses de outro partido comunista estrangeiro (o Chinês) sejam mais importantes do que esses princípios.

E esta mudança de política não é apenas da responsabilidade da gerontocracia que rege o PCP: é de todos os militantes a que esta posição pública não pode senão humilhar.

Fontes:

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1368338 http://eutibet.typepad.com/tibet_interg

roup_blog/2008/06/press-conferenc.html

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Categories: China, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | Etiquetas: , | Deixe um comentário

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