Sobre o “mito urbano” (hoax): Da “Ilha Flutuante de Lixo” no Pacífico

(A "Indigo Island": uma verdadeira "ilha de lixo", ao largo do México in http://farm3.static.flickr.com)

Tenho recebido várias instâncias de uma certa mensagem de correio eletrónico mencionando a existência de uma “ilha de lixo flutuante no Pacífico”. Tendo a história alguns ingredientes de um “hoax” (mito urbano) fiz a minha pequena investigação…

Em primeiro lugar, intrigou-me o facto de se falar tanto de uma “ilha flutuante” e de não haver fotografias (necessariamente impressionantes) da dita. A primeira constatação que obtive foi de que não se tratava exatamente de uma “ilha”. Não existe tal coisa. O lixo flutuante que de facto anda pelo Pacífico norte não está aglomerado numa massa única, em forma de ilha. Na verdade, esta massa flutuante de lixo é atravessada constantemente por navios mercantes que não se apercebem sequer da sua existência, tamanha é a dispersão deste lixo e a pequena dimensão individual dos fragmentos. Na verdade, essa é a grande dificuldade em resolver este problema: tudo seria mais fácil se houve mesmo uma “ilha flutuante”, só que não há tal: há apenas lixo, muito lixo mesmo, mas muitíssimo disperso. A maioria destes fragmentos mede pouco mais do que alguns centímetros e para ser recolhido seria preciso usar arrastões que percorressem extensas regiões do Oceano Pacífico durante meses e meses, redes que inevitavelmente iriam cobrar a sua factura na fauna recolhida nas redes, pelo que a operação de limpeza poderia acabar por revelar-se mais danosa do que prejudicial.

Em suma, não se trata de um “Hoax” simples. Como vimos, a “Ilha de Lixo” não existe, mas como o plástico é fotodegradável, isto é, a sua exposição à luz solar vai quebrando os objectos de plástico em pequenos fragmentos, cada vez menores, mas nunca o fazendo desaparecer na totalidade, os oceanos do planeta terão cada vez mais pequenas partículas flutuantes de plástico, sendo ingeridos pela fauna marítima, entrando assim nos ecosistemas e até, na dieta humana. Esta “sopa de plástico”, difusa e líquida está de facto concentrada na região referida pelo mito, como ilustra esta infografia do jornal http://www.independent.co.uk

Estas regiões não hoje em dia especialmente povoadas de fauna marítima, pelo que não tem havido grande impacto ecológico, nem sequer na exploração piscícola dessa região do Pacífico Norte, contudo, nada garante que com as alterações nas correntes marítimas provocadas pelo degelo massivo da camada “permanente” de gelo do Ártico que agora se verifica essa “sopa plástica” não se irá deslocar mais para sul, até água mais densamente povoadas por peixes e seres humanos. Recolher a “sopa”, com arrastões seria uma operação financeiramente imensamente onerosa e como referimos implicaria o seu custo ecológico. Podemos simplesmente esperar pelo efeito da luz solar, durante cerca de quinhentos anos e esperar que esta estimativa dos especialistas leve a fragmentação do plástico até unidades tão pequenas que se tornam inócuas. De qualquer forma, a raiz do problema é transversal e passa pelo consumo excessivo de plástico nas sociedades modernas. Estes padrões de consumo têm simplesmente que diminuir. Temos todos que ser mais conscienciosos na utilização de sacos e objetos descartáveis de plástico, reutilizá-los sempre que possível (p.ex. nos supermercados) e preferir sacos de papel a sacos de plástico, já que os custos de reciclar os primeiros são muito inferior à reciclagem dos segundos (de facto, apenas cerca de 2% dos sacos de plástico fabricados são de facto alvo de posterior reciclagem).

Mensagem original em inglês deste “hoax”:

It floats. It’s twice the size of Texas. And it contains some 3.5 million tonnes of plastic.

Welcome to the Great Pacific Garbage Patch. Floating somewhere between San Franciso and Hawaii, the Garbage Patch is fed by everyday plastic refuse, wind, and ocean currents that trap the debris. It has been growing tenfold every decade since the 1950s.

Said Oceanographer Marcus Eriksen:

“With the winds blowing in and the currents in the gyre going circular, it’s the perfect environment for trapping. There’s nothing we can do about it now, except do no more harm.”

And by ‘no more harm’ he means ’stop throwing out so much plastic, stupid’. Scientists estimate that the garbage patch will cost billions to clean up.

Here’s a thought: why clean it up at all? Let’s colonize the sucker. All I need is two ships, 150 stout colonists of virtue true, and some sundry tools and livestock. We will make Garbage Island our home. True, it is a hard (in both a tactile and experiential sense) land. A cruel land. But, by jove, it will be our land.

And fear not, reallanders. Continue to throw away your plastic bags and water bottles. We of Garbage Island will happily accept your trash. Every little piece of plastic means another chunk of farmland, another piece of our floating, garbagey empire.

Versão portuguesa do “hoax”, intitulada “Um Oceano de Plástico”

*FIXE ESTA IDEIA:*
*ANTES DE RECICLAR, REDUZA!*

Durabilidade, estabilidade e resistência a desintegração. As propriedades que fazem do plástico um dos produtos com maiores aplicações e utilidades ao consumidor final, também o tornam um dos maiores vilões ambientais. São produzidos anualmente cerca de 100 milhões de toneladas de plástico e cerca de 10% deste total acabam nos oceanos, sendo que 80% desta fração vem de terra firme.

No oceano pacífico há uma enorme camada flutuante de plástico, que já é considerada a maior concentração de lixo do mundo, com cerca de 1000 km de extensão, vai da costa da Califórnia, atravessa o Havaí e chega a meio caminho do Japão e atinge uma profundidade de mais ou menos 10 metros . Acredita-se que haja neste vórtex de lixo cerca de 100 milhões de toneladas de plásticos de todos os tipos. Pedaços de redes, garrafas, tampas, bolas , bonecas, patos de borracha, tênis, isqueiros, sacolas plásticas, caiaques, malas e todo exemplar possível de ser feito com plástico. Segundo seus descobridores, a mancha de lixo, ou sopa plástica tem quase duas vezes o tamanho dos Estados Unidos.

O oceanógrafo Curtis Ebbesmeyer, que pesquisa esta mancha há 15 anos compara este vórtex a uma entidade viva, um grande animal se movimentando livremente pelo pacifico. E quando passa perto do continente, você tem praias cobertas de lixo plástico de ponta a ponta.

A bolha plástica atualmente está em duas grandes áreas ligadas por uma parte estreita. Referem-se a elas como bolha oriental e bolha ocidental. Um marinheiro que navegou pela área no final dos anos 90 disse que ficou atordoado com a visão do oceano de lixo plástico a sua frente. ‘Como foi possível fazermos isso?’ – ‘Naveguei por mais de uma semana sobre todo esse lixo’. Pesquisadores alertam para o fato de que toda peça plástica que foi manufaturada desde que descobrimos este material, e que não foram recicladas, ainda estão em algum lugar. E ainda há o problema das partículas decompostas deste plástico. Segundo dados de Curtis Ebbesmeyer, em algumas áreas do oceano pacifico podem se encontrar uma concentração de polímeros de até seis vezes mais do que o fitoplâncton, base da cadeia alimentar marinha.

Segundo PNUMA, o programa das nações unidas para o meio ambiente, este plástico é responsável pela morte de mais de um milhão de aves marinha todos os anos. Sem contar toda a outra fauna que vive nesta área, como tartarugas marinhas, tubarões, e centenas de espécies de peixes.

E para piorar essa sopa plástica pode funcionar como uma esponja, que concentraria todo tipo de poluentes persistentes, ou seja, qualquer animal
que se alimentar nestas regiões estará ingerindo altos índices de venenos, que podem ser introduzidos, através da pesca, na cadeia alimentar humana, fechando-se o ciclo, na mais pura verdade de que o que fazemos à terra retorna à nós, seres humanos.

Ironicamente, houve mesmo uma verdadeira “ilha de lixo”… Construída pelo norte-americano Richie Sowa em 1998 a partir de perto de 300 mil garrafas de plástico fez a sua ilha privada de lixo, e lhe chamou “Spiral Island” ao largo de Puerto Ventura, no México. Infelizmente a ilha foi desfeita pouco tempo depois por um furacão, mas ficou como prova da viabilidade de tal exótica construção:

Existe um outro mito urbano (hoax), este sem ponta de fundamento algum, que alude à suposta existência de… um recife de preservativos flutuantes no Pacífico. Este mito corre a Internet desde 1996 e referia-se um recife flutuante de preservativos usados (claro!) que flutuariam no Pacífico Sul, entre o Tahiti e a Antártida, formando uma massa uniforme de quase 20 quilómetros e perto de 20 metros de espessura. Este mito parece ter sido o protótipo do mito da “ilha de lixo” que surgiu em 2004, mas situada no Pacífico norte, reforçado pela existência real e documentada desta “sopa de lixo” no Pacífico Norte.

Fontes:

http://weeklydrop.com/plastic_island/
http://www.cnn.com/2003/TECH/science/05/26/coolsc.oceansecrets/index.html
http://www.snopes.com/risque/penile/reef.asp
http://ecoble.com/2007/11/18/250000-bottles-amazing-recycled-mexican-island-paradise/
http://www.independent.co.uk/environment/the-worlds-rubbish-dump-a-garbage-tip-that-stretches-from-hawaii-to-japan-778016.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Spiral_Island

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Categories: Ecologia, Hoaxes e Mitos Urbanos | Deixe um comentário

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