Eduardo Abranches de Soveral e a ‘filosofia portuguesa’

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(resumo da comunição a apresentar no Colóquio de Homenagem a Eduardo Abranches de Soveral, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2 e 3 Março)

Num seu ensaio, intitulado “Pensamento luso-brasileiro”, escreveu Eduardo Abranches de Soveral o seguinte:
“(…) a história da filosofia portuguesa é, em meu entender, a história dos pensadores que equacionaram, desenvolveram e (ou) sistematicamente pretenderam solucionar filosofemas nascidos da tradição nacional, ou nela inscritos pelas suas consequências. E assim, em termos práticos de metodologia da história das ideias, convirá: a) partir do estudo dos autores e das obras sem preconceitos críticos ou interpretativos; b) integrá-los no respectivo contexto histórico e sociológico, marcando a sua originalidade e fecundidade; c) analisar-lhes, respectivamente, a exigência e a estrutura gnosiológica para aquilatar da sua qualidade filosófica; d) elaborar, por último, largos quadros sintéticos onde os vários autores e as suas obras mutuamente se situem, e seja possível conhecer a fisionomia peculiar do pensamento filosófico nacional.
Só isso permitirá que a inteligência portuguesa tome nítida consciência da sua identidade, e possa participar, na plenitude das suas potencialidades, na génese da nova teologia, do novo humanismo, da nova cosmovisão, da nova cultura, enfim, que a era tecnológica urgentemente exige.”

Eis uma excelente síntese da tarefa que cabe a todos nós – cultores da “filosofia portuguesa” – cumprir. E da tarefa que, ao longo da sua fecunda vida, o próprio Eduardo Abranches de Soveral exemplarmente cumpriu.
Ao lermos os seus múltiplos ensaios, emerge, desde logo, o seu perfil genuinamente filosófico. Ao invés de todos aqueles que, na esteira de Marx, procuram, precipitadamente, transformar o Mundo e o Homem, antes de o procurar compreender, Eduardo Abranches de Soveral procura sobretudo antes compreender – e daí, com efeito, o seu perfil genuinamente filosófico.
Não que essa compreensão o leve depois, enfim, a uma paralisia. Se, ao compreendermos o Mundo e o Homem, percebemos que o Homem e o Mundo não serão substancialmente transformáveis, nem por isso o Mundo e o Homem deixam de ter uma margem de progressão. Uma larga margem.
Daí que essa compreensão filosófica leve, coerente e consequentemente, a uma praxis. Não a uma praxis ingenuamente revolucionária, que vise transformar o que não é transformável, mas uma praxis lucidamente reformista – que reforme, que melhore, o que pode e deve ser melhorável.
Não por acaso, um dos filósofos que Eduardo Abranches de Soveral mais valorizou foi Agostinho da Silva. Não por acaso porque Agostinho da Silva foi, precisamente, um dos filósofos portugueses que mais correspondeu ao seu repto: “[que] a inteligência portuguesa tome nítida consciência da sua identidade, e possa participar, na plenitude das suas potencialidades, na génese da nova teologia, do novo humanismo, da nova cosmovisão, da nova cultura, enfim, que a era tecnológica urgentemente exige”.

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