Carta a Agostinho da Silva

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Amândio Silva
MEU CARO AGOSTINHO

Agora já me sinto à vontade por o tratar de forma coloquial, depois de termos viajado juntos por tanto Brasil e me ter apresentado a tantos amigos, discípulos, admiradores, muitos deles que o não esqueceram durante toda a vida, tão forte e decisiva foi a marca que deixou no rumo de cada um[1].
Depois dessa viagem e das seguintes, quando me disse que eu já as podia fazer sozinho por ter aprendido a rota, cada vez mais me interrogo por quê me aconselhou a que a sede da Fundação Luso-Brasileira fosse em Lisboa “porque foi aqui que tudo começou e aqui tudo vai convergir”[2].
Temo, professor, que o seu amor por Portugal e a sua esperança de que pudesse retomar “a visão ideal e prática e religiosa e mística que tiveram os portugueses de Dinis e de Isabel” tivessem permitido a ilusão de um protagonismo que, apesar de tudo, embora com rumo diferente do seu “de amor e de serviço no culto do Espírito Santo”, estará muito mais ao alcance do Brasil do que deste rincão lusitano.
E lembro o que o seu escudeiro Roberto Pinho[3] escreveu sobre si: “Poucos brasileiros amaram e entenderam o seu povo como ele amou e entendeu. Sua esperança e confiança no destino do Brasil não tinha limites. Nunca existiu uma conjuntura histórica, pior que fosse, que abalasse sua certeza de que o povo brasileiro tomará consciência dos seus valores culturais e espirituais, construirá uma sociedade justa e dará uma grande contribuição humana ao mundo”.
Eu penso que temos muito mais a esperar do Brasil do que de Portugal e, passados estes últimos anos, se olharmos alguns passos – nunca esqueço o seu conselho “passo a passo, linha a linha…” – vendo exemplos como o acordo ortográfico e a relevância, embora ainda pequena, da CPLP, a comunidade que nos avisou ser indispensável criar quase meio século atrás, temos de reconhecer que os avanços alcançados se devem em boa parte ao empurrão do Brasil, também por interesses próprios, mas que se refletem no conjunto.
Creio que Aparecido[4] se encontrou consigo há pouco tempo e devem ter conversado muito sobre os tempos de Brasília onde ele marcava os seus encontros com Jânio e o convenceu da importância de uma política de relações internacionais do Brasil que desse um indispensável relevo à África de língua portuguesa e ao continente africano no seu todo.
Aparecido sempre foi de grande coerência com “a importância da força da destinação” que tinha aprendido com Agostinho e por isso seu extraordinário trabalho para a criação da CPLP, cujo fundamento filosófico e político considerou pertencer ao mestre Agostinho da Silva, que definiu como “o grande formulador de um tempo novo na lusofonia”.
Cá entre nós, bem perto de sua casa na Abarracamento de Peniche e do seu jardim do Principe Real, a malta da sua Associação[5] teve uma boa ideia, a da criação do MIL: Movimento Internacional Lusófono, muito influenciado por toda a sua mensagem de abrangência universal. Tem um ano de vida e já anda por seus próprios pés. Ainda não conseguimos – eu tambem sou da malta – a participação de companheiros dos outros países da nossa língua no nível que se pretende, mas já vamos chegando perto dos mil.
Gostou da “Nova Águia”[6]? Pois o Paulo, o Renato e a Celeste[7] lá se foram inspirar no grupo que integrou com Pascoaes, Cortesão, Pessoa, para também voar, pensando Portugal e a língua portuguesa onde ela se fale nesse mundo fora.
Meu caro Agostinho, sem miserabilismo, que não cabe nas suas regras, “vai-se fazendo o que se pode!”. E sempre que é preciso, o que não se pode, mas deve. E cá estamos depois da Pátria e do Vieira, a lembrar que continua como capitão da nossa nau, mesmo que das tormentas, para mais uma vez o invocar a nos dar força para não desistir e sabermos olhar, como convidava os seus alunos nos descampados de Brasília.
Quem aprendeu a olhar foi o meu filho João Afonso, radicado na sua tão conhecida Baía, reikiano e também ogan de Mãe Lúcia do Terreiro de São Jorge, de Salvador, tal como o mestre foi de Olga do Alaketo[8]. Ele sente de verdade sua mensagem humanística e se transformou em mais um elo de minha profunda ligação a si, meu caro Agostinho.
Em 2006 andámos comemorando o seu nascimento. A Associação fez um trabalho notável e falou-se de Agostinho em todo este país e em boa parte da Europa. Também, embora menos, na África que tão bem entendeu e soube levar ao Brasil. Brasil que também o lembrou, em várias cidades onde plantou semente[9].
No fim do ano, quando vi o seu filho Pedro[10] ao leme do barco que nos passeou em Barca d’Alva com um sorriso de vitória por ter conseguido realizar esse desejo de muitos anos, chamei Santiago[11] para lhe mostrar a cena e ficámos conversando sobre como suas andanças pelo mundo tinham esse espírito do poeta marinheiro, com algum gosto de que de repente ficasse à deriva, na corrente desconhecida, com uma curiosidade danada de onde aportaria, não cogitando nunca de naufragar.

[1] Viagem realizada já depois da morte de Agostinho da Silva, aquando da criação dos grupos de pesquisa do seu espólio no Brasil, nos Estados da Baía, Brasilia, Paraíba, Santa Catarina e São Paulo. Foi como se tivesse acompanhado o mestre, conhecendo-o cada vez mais nas conversas com os múltiplos interlocutores (1997).
[2] Conselho que recebi de Agostinho da Silva, quando me entregou um texto para a brochura de apresentação da Fundação Luso-Brasileira (1993).
[3] Antropólogo. Trabalhou e conviveu com Agostinho da Silva ao longo de dez anos, na Baía e em Brasília. Foi a relação mestre-discípulo mais forte na vida de Agostinho.
[4] Embaixador José Aparecido de Oliveira, recentemente falecido. Grande admirador de Agostinho desde o tempo em que foi Secretário da Presidencia da República, no Governo de Jânio Quadros (1961). Como Ministro da Cultura do Governo Sarney (1987) e Embaixador do Brasil em Portugal(1994) foi elemento preponderante no processo que culminou na fundação da CPLP (1996).
[5] Associação Agostinho da Silva, fundada em 1995, com sede na Rua do Jasmim, 11, Lisboa, bem perto do Príncipe Real, no edifício da Junta de Freguesia das Mercês.
[6] Revista lançada em 2008, retomando nos tempos atuais o espírito da velha “A Águia”, criada em 1910, de que foram expoentes Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Fernando Pessoa e o próprio Agostinho da Silva.
[7] Paulo Borges, Renato Epifânio e Celeste Natário, os diretores da “Nova Águia”.
[8] Mãe de Santo de grande conceito na Baía, que considerava Agostinho um homem merecedor de sua confiança, digno de ser recebido com respeito no candomblé.
[9] Centenas de eventos organizados com participação da Associação Agostinho da Silva, em Portugal, resto da Europa, África e Brasil, marcaram com muito brilho as comemorações do Centenário de seu nascimento: programa completo em AA.VV., Agostinho da Silva, Pensador do Mundo a Haver, organização e introdução de Renato Epifânio, prefácio de Paulo Borges, Lisboa, Zéfiro, 2007, pp. 505-519.
[10] Pedro Agostinho. Antropólogo. Professor laureado da Universidade Federal da Baía. Grande defensor das causas indígenas. Filho primogénito de Agostinho da Silva.
[11] José Santiago Naud. Professor da Universidade de Brasília. Importante estudioso da obra de Agostinho e de sua ação no Brasil como “extensão atlântica de Fernando Pessoa”.

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