Texto para o terceiro número da NOVA ÁGUIA…

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António Braz Teixeira
BREVE NOTA SOBRE AGOSTINHO DA SILVA E A “ESCOLA DE SÃO PAULO”

Quanto, em 1944, Agostinho da Silva decide deixar Portugal e transferir-se para o Brasil, a sua concepção do mundo e o seu pensamento filosófico e religioso vão ser confrontados com uma realidade indesmentivelmente nova, que irá ampliar o seu horizonte espiritual e revelar-lhe a verdadeira dimensão da história e do destino de Portugal, o significado do culto popular do Espírito Santo, o sentido metafísico e escatológico da ideia de Quinto Império e o valor profético da obra de António Vieira e de Fernando Pessoa.
Depois de ter vivido em Buenos Aires e Montevideu e ter trabalhado no Rio de Janeiro e em Brasília, o pensador português, ou já luso-brasileiro, transferiu-se para São Paulo, no preciso momento em que acabava de ser criado o Instituto Brasileiro de Filosofia, que seria a directa origem da “Escola de São Paulo”.
Porque pensava que o movimento literário e artístico desencadeado pela Semana de Arte Moderna de 1922 havia esquecido a filosofia e que o ensino nas universidades brasileiras não promovia, adequadamente, o pensamento criador, livre e independente, e ignorava ou menosprezava o passado da meditação filosófica nacional, de Silvestre Pinheiro Ferreira e Gonçalves de Magalhães a Tobias Barreto e Farias de Brito, Miguel Reale, Vicente Ferreira da Silva, Heraldo Barbuy, acompanhados por outros intelectuais mais jovens, como Luís Washington Vita, Renato Cirell Czerna e Gilberto de Mello Kujawski, em 1949, decidiu criar, em São Paulo, uma nova instituição cultural, o Instituto Brasileiro de Filosofia, cuja vocação e projecto eram o de favorecer a reflexão filosófica livre, a partir da concreta situação espiritual do Brasil e o estudo do seu esquecido passado filosófico.
Devido, sobretudo, à acção de Reale e Vicente, nos anos imediatos à sua criação, o Instituto depressa se tornou o centro informal de uma verdadeira e fecunda Escola Filosófica, onde, aos fundadores, vieram juntar-se o filósofo das ciências e da estética Milton Vargas, o jovem discípulo de Vicente Adolpho Crippa, seduzido pelo problema do mito e suas relações com a cultura, João de Scantimburgo, pensador tomista como o belga Leonardo Van Acker, os portugueses Agostinho da Silva e Eudoro de Sousa, o jurisfilósofo italiano Luigi Bagolini e, alguns anos depois, um pensador checo, Vilém Flusser.
A obra e o pensamento de Agostinho da Silva, no período do seu contacto mais intenso com os outros membros da “Escola de São Paulo”, revela uma maior proximidade com a direcção filosófica de Vicente e Dora Ferreira da Silva e Eudoro de Sousa do que com a de Reale e os seus mais próximos discípulos, Renato Czerna e Luís W. Vita.
A participação do filósofo português no momento fundador da “Escola” paulista coincide com o interesse cada vez maior que vai atribuir ao Brasil como um novo Portugal em via de realizar um destino cuja plena realização fora suspensa ou interrompida no final do século XVI, após o desastre de Alcácer-Quibir, destino e missão ecuménicos teorizados na vierina História do Futuro e poeticamente expressa na Mensagem pessoana.
Se Agostinho pensa diversos temas e problemas fundamentais da “Escola”, como o sentido fundador do mito, o significado cósmico do barroco luso-brasileiro, o valor libertador da técnica para o homem, a importância da noção de cultura como expressão mais profunda da alma dos povos, se, como Vicente, Czerna, Barbuy e Kujawski, acolhe um conceito de razão em radical e fecundo diálogo com o sentimento, a intuição e a imaginação e outras formas de irracional ou não-racional de que depende e se nutre em seu processo, se, como a maioria dos pensadores agrupados em torno do Instituto Brasileiro de Filosofia, compreende o espírito como liberdade criadora, é, contudo, o futuro da cultura e da civilização de língua portuguesa e o papel do Brasil e de Portugal que vão constituir o centro das suas preocupações, intelectuais e existenciais, como o revelam, de modo muito expressivo, os livros Reflexão à margem da literatura portuguesa (1957) e Um Fernando Pessoa (1959) ou os ensaios Considerando o V Império (1960), Ecúmena (1964), Quinze Princípios Portugueses (1965), Esboço de uma Teoria do Brasil (1966) ou Algumas Considerações sobre o Culto Popular do Espírito Santo (1967), escritos em Santa Catarina e no Brasil, após ter deixado São Paulo, em companhia do seu grande amigo Eudoro de Sousa.
Todos estes ensaios, bem como os reunidos em As Aproximações (1960) e Só Ajustamentos (1962), constituem a plena realização das virtualidades do pensamento do filósofo luso-brasileiro e assinalaram a viragem definitiva da sua metafísica religiosa, a mais de um título próxima ou convergente com certos aspectos fundamentais da filosofia religiosa russa do século XX, em especial com Chestov, Berdiaev e Bulgakov.
Se se afigura que Vicente Ferreira da Silva, pelo seu neo-paganismo (em muitos aspectos próximo do de Fernando Pessoa), pelo seu politeísmo e pelas suas ideias teológicas de que a Natureza é sagrada e nela os deuses ainda habitam, é o mais brasileiro dos filósofos brasileiros, como, cada um à sua maneira, Mário de Andrade e Guimarães Rosa são os mais brasileiros dos ramancistas do Brasil e Jorge de Lima o mais brasileiro dos seus poetas, Agostinho da Silva é o mais luso-brasileiro dos filósofos de língua portuguesa do século XX, aquele que coube compreender e dizer o mais profundo sentido da história espiritual de Portugal e do Brasil, de uma história que, como a de Vieira, mais do que uma história morta do passado, é uma história profética do futuro, uma história das possibilidades imprevisíveis da liberdade do homem, a única capaz de tornar possível a Idade e o Reino do Espírito Santo, Reino de que Agostinho da Silva se quis um precursor, um construtor e um profeta, e no qual não haverá pobres nem prisões e em que todos, com o seu Imperador-Menino, terão a livre e lêda inocência dos poetas e dos santos.

Categories: Agostinho da Silva | Deixe um comentário

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