Da atualidade do pensamento de António vieira (cinco axiomas)

O Padre António Vieira deixou-nos alguns dos axiomas mais ricos e profundos de sempre. A partir da compilação dos mesmos organizada por José Eduardo Franco em (Padre António Vieira, Grandes Pensamentos) selecionamos alguns axiomas de entre aqueles que nos parecem mais atuais e plenos de ensinamentos e sabedoria para os problemas que Portugal e o mundo enfrentam na atualidade.

As ações de cada um são a sua essência.
Sermões, i, 212

Vieira referia-se aqui ao divórcio infelizmente tão comum na sua época, como na nossa, entre discurso e ação… Não deixa de haver alguma ironia – talvez não reconhecida pelo jesuíta – pelo facto de tal frase ter sido escrita num sermão e por um dos mais brilhantes oradores da sua época, por isso quando Vieira proferia tal frase, sabia por experiência e uso próprio, aquilo que dizia. E verdade que o jesuíta fora muito mais do que um orador, sendo bem conhecida a sua atividade missionária no Brasil e as sua missões diplomáticas e de espionagem na Europa. Nesta frase criticava aqueles que não seguiam o seu exemplo e que se deixavam ficar pelas estéreis palavras e não as passavam a ação.

A expressão do jesuíta e ainda hoje muito atual…. Não faltam aqueles que em cafés, nas suas habitações e em todo o lugar onde se reunam duas pessoas, opinam sobre tudo e todos. A Internet e neste contexto um caldo de cultura especialmente fértil para que o verbo se multiplique e reproduza em blogues e fóruns de discussão, um verbo multiplicante que sendo virtual, raramente transfere a sua ação para o mundo real e concreto. Na altura das eleições, os portugueses escapulem-se para as praias e recusam cumprir a derradeira e ínfima margem de ação que lhes deixa a democracia parlamentar.

De discursos estará cheio o inferno, e ainda mais cheio estarão as antecâmaras da política. Existe na sociedade portuguesa uma ânsia por políticos fazedores, e uma muito sensível ansiedade por quem renegue o pântano verbal de debates estéreis, de negociações infindáveis quem caracterizaram o consulado Guterres. Esta ansiedade explica a popularidade de Cavaco Silva, tido na época como um tecnocrata e, logo, como um fazedor e, eleito como presidente da republica com o mesmo discurso tecnocrático e operadora que o esvaziamento presente das funções do presidente impossibilitam cumprir e que foi provavelmente um dos maiores logros eleitorais da democracia portuguesa.

Precisamos hoje, tanto ou mais do que na perigosa época em que vivia Vieira, de uma elite política em que a população se consiga rever e que sendo eleita por números realmente significativos dos eleitores possa efetivamente transpor e efetivar as suas aspirações. Uma nova camada governante que saiba aproximar e revivificar a democracia, aproximando-a das populações, descentralizando profundamente e expandindo a amplitude de toda a governança democrática. E para isso precisamos menos de belas e ocas palavras, que se esquecem ou se remetem para o caixote dos “objetivos” e de acoes efetivas e concretas que refundem a portugalidade e possam criar os laços esquecidos entre os povos da Lusofonia que permitam realizar a verdadeira missão de Portugal no mundo: a União Lusófona, o “Quinto Império” sonhado por António Vieira na sua “História do Futuro”.

“As ações generosas, e não os pais ilustres, são as que fazem fidalgos”
Sermões, I, 213

As origens remotas do estatuto de “nobreza” radicam na velha divisão tripartida das sociedades indo-europeias entre guerreiros, mercadores e produtores. A nobreza recolhia os seus panos purpuras de um prestigio passado, consolidado pelos feitos de armas do passado recente e do presente. A nobreza portuguesa continua a existir, acolhida entre as paginas de revistas sociais e uma socialite decadente, mas social e economicamente já não tem qualquer relevância. Esta nobreza de antanho foi substituída nas arenas mediáticas por uma leve camada de novos ricos, alguns dos quais “bem casados”, com descendentes desta “nobreza antiga”, que se espalham por todas posições de liderança nos meios académicos, culturais, empresariais e políticos. Estimamos que um numero não muito superior a 400 famílias distribua assim entre si o Poder efetivo em Portugal. Os seus filhos – sempre com nomes sonantes e repetidos ate a exaustão – são os galvão telo, os bustorff, os cadilhe, os soares, os sousa tavares, etc. que encontramos em todo o lado, vivendo essencialmente do nome dos seus pais e ocupando o lugar que caberia por direito de mérito a outros provenientes de cataduras menos sonantes.

“As coisas não começam do principio como se cuida, senão do fim. O fim porque as empreendemos, começamos e prosseguimos, esse é o seu primeiro principio, por isso ainda que sejam indiferentes, o fim, segundo é bom ou mau, as faz boas ou más.”
Sermões, IX, 269

Em todas as ações ou pensamentos importa sumamente, o destino que lhe queremos dar. Ainda que o provérbio popular ensine que “de boas intenções está o Inferno cheio”, de facto, é na intenção motriz dos atos humanos que esta a essência do valor dos mesmos. Se provocamos a dor ou o sofrimento em alguém de forma involuntária, isso não tem o mesmo significado para o equilíbrio natural das coisas a que os hinduístas e budistas chamam de “karma” ou a que no Ocidente chamamos simplesmente de “destino”. A intenção é tudo.

Se encetamos uma determinada acao e se de permeio esta nos causa dor ou sofrimento mental, se tivermos uma noção clara e determinada do nosso objetivo é mais fácil suportar estas penas se soubermos que após estas tormentas vira a bonança. Esta simples lição já devia ter sido aprendida pelos nossos governantes, mas não o foi ainda, tamanha é a distancia entre as suas altas torres de marfim e as populações que deveriam saber governar. As grandes políticas não são já determinadas localmente, mas cada vez em paragens mais distantes, lá no gélido norte, e os seus termos são cada vez mais obscuros e técnicos, como se buscassem antes do mais estabelecer uma linguagem esotérica impossível de ser compreendida pelas massas, como aliás demonstra bem o que se passou com o “Tratado de Lisboa”. Os fins da política são cada vez menos compreensíveis e isso é a raiz para a compreensão do desinteresse popular sobre a “res publica”. Os meios são os impostos, o ermamento e a retirada do Estado central do interior, mas os fins não podem ser a “estabilidade orçamental” nem uma “construção europeia” desalmada que não diz nada ao coração de ninguém. Os fins que objetivam têm que ser mais altos, claros sem serem absolutamente precisos e na falta deles, surge o vazio – que o cérebro detesta tanto quanto a natureza – e a depressão coletiva. Faltam fins a este Portugal atual, fins que nos energizem e que imprimam a nossa vida individual e coletiva os propósitos que nos permitam vencer os meios presentes. E estes não os temos. Ainda. Busquemos na nossa Historia medieval, no processo dos Descobrimentos e na alma portuguesa o nosso fim, o nosso destino coletivo. Encontremos em Bandarra, no próprio Vieira, em Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, o fim pelo qual empreendemos as coisas e descubramos em António Vieira a sabedoria de que precisamos para suster este mundo desumano e cruel do neoliberalismo globalizado das multinacionais e o vero rumo de Portugal: o Quinto Império, fraterno, universal e igualitário do Padre António Vieira.

“A vista dos bens alheios cresce o sentimento dos males próprios.”
Sermões, VII, 56

A inveja é a força motriz dos aspectos mais negros da alma humana. Mas, se por força da nossa vontade e engenho logramos alcançar o milagre se olharmos de fora as nossa próprias desgraças, e encararmos as misérias alheias como se fossem nossas, então, tudo nos parece bem menos grave e maleitoso. Não nos deixemos enredar na depressiva teia do nosso declínio nacional e contemplemos a situação que enfrentam tantos povos por este mundo fora: misérias diversas, catástrofes diversas e sucessivas, guerras civis e externas de estranha violência, causando todas sofrimentos terríveis e um desespero indescritível em varias paragens do mundo. Entre todos estes males, encontramos Portugal. Local de um clima raramente ameno, de níveis de criminalidade dos mais baixos do mundo, com níveis de desenvolvimento económico e social que não sendo os de um pais escandinavo, não são também tão baixos como os da maioria dos países do mundo e são até os mais elevados de todo o mundo lusófono. Portugal, pela mediania da sua situação económica não tem os níveis de riqueza económica que possuem outros países europeus ou do hemisfério norte. Apesar do afluxo e influxo de materialismo dos últimos anos, os portugueses continuam a manter dentro de si o espirito altruísta dos generosos praticantes do bodo dos pobres do Culto do Espirito Santo, e se reconhecermos enfim que o verdadeiro fim da vida não reside em artifícios tecnológicos, em viagens para gaiolas douradas algures nos mares solarengos do sul, então talvez sejamos – portugueses – capazes de encontrar dentro de nos próprios, na cultura, no engrandecimento e avolumando do nosso próprio saber e, sobretudo, no pleno desenvolvimento da nossa inteligência, sabedoria e poder criativo aquilo que é o primeiro passo para o cumprimento do Quinto Império: o cumprimento do mesmo no nosso próprio interior.

“armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória.”
Sermões, I, 24

Este axioma foi elaborado em plena guerra holandesa no Pernambuco e de independência em Portugal, e referia-se à desilusão sentida então em Portugal quanto aos aliados franceses e ingleses. Contudo, é também uma frase muito atual… Na Defesa, os países devem poder contar antes do mais com os seus próprios recursos e não com os alheios. No contexto atual, de uma forma de guerra de extrema exigência tecnológica e onde os preços unitários de aviões, navios e blindados são varias vezes superiores aqueles correntes há apenas dez anos, é praticamente impossível a um pequeno pais como Portugal suportar os números de equipamento militar suficientes para manter a sempre essencial Defesa e dissuasão credíveis. Assim, é imperativo que se construam alianças regionais, paritárias integradas e organizadas capazes – pela complementaridade de meios – suprir essa lacunas. Portugal não pode sustentar um porta-aviões, nem uma frota de superfície comparável à espanhola ou francesa, mas pode e deve integrar uma aliança regional que não despreze a exiguidade dos seus meios e a qualidade dos seus homens. O quadro atual, coloca-nos – por razões históricas ligadas à Guerra Fria –
na OTAN, mas agora que o Pacto de Varsóvia se esfumou nas brumas do passado não será este o momento de repensar o quadro dos nossos interesses estratégicos?

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Categories: Brasil, História, Nova Águia, Padre António Vieira, Portugal | 1 Comentário

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One thought on “Da atualidade do pensamento de António vieira (cinco axiomas)

  1. Pegaso

    Concordo plenamente.Nunca como agora a politica portuguesa teve tantos tecnocratas.Os partidos portugueses não tem ideis são distantes e castrados pelo ideal europeu.Vai se dar uma retura entre a politica pro europeia e a sociédade.O povo portugues não é parvo e pode demorar mas un dia vai virar a mesa. E nessa altura que se vai dar renascimentos politico cultural sociologico e humanos e religioso com culto do espirito santo pois o vaticano vai ser destroido por uma pedra.A união lusofona ou C.D.C. será real e não uma utopia.

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