Daily Archives: 2008/10/26

Já estão agendados 12 lançamentos do nº 2 da revista Nova Águia…

Lista completa de lançamentos: novaaguia.blogspot.com

ANTÓNIO VIEIRA & O FUTURO DA LUSOFONIA

ENSAIO, POESIA E OUTROS TEMAS
Começando com um texto de Adriano Moreira
Inclui O TERRITÓRIO E O MAPA, de João Teixeira da Motta
Com cartas de Agostinho da Silva, Cruzeiro Seixas, Dalila Pereira da Costa e António Quadros
Acabando com um inédito de Jean-Yves Leloup

Como é sabido, a revista A Águia foi uma das mais importantes do início do século XX em Portugal, em que colaboraram algumas das mais relevantes figuras da nossa Cultura, como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, Raul Proença, Leonardo Coimbra, António Carneiro, António Sérgio, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. A ideia de relançar a revista, agora sob o nome de NOVA ÁGUIA, pretende ser uma homenagem a essa tão importante revista da nossa História, procurando recriar o seu “espírito”, adaptado aos nossos tempos. Não se trata, nessa medida, de fazer uma revista voltada para o passado, meramente revivalista. Trata-se, antes, de fazer uma revista para os tempos de hoje, para o século XXI.

Tal como n’ A Águia, procuraremos o contributo das mais relevantes figuras da nossa Cultura, que serão chamadas a reflectir sobre determinados temas. O tema do segundo número, que agora lançamos, é “António Vieira e o Futuro da Lusofonia”. Orgulhamo-nos de ter conseguido o contributo de nomes tão ilustres como Adriano Moreira, Aníbal Pinto de Castro, António Paim, António Telmo, Arnaldo do Espírito Santo, Carlos H. do C. Silva, Jean-Yves Leloup, Manuel Ferreira Patrício e Pinharanda Gomes, a par de muitos outros.

Para além disso, neste primeiro número poderá ainda encontrar uma série de outros textos, sobre outras temáticas, conforme o nosso índice:

ÍNDICE DO 2º NÚMERO

EDITORIAL, p. 5

SOBRE ANTÓNIO VIEIRA E O FUTURO DA LUSOFONIA

Adriano Moreira, O CENTENÁRIO DE VIEIRA, p. 8

Aníbal Pinto de Castro, VIEIRA, UMA PERSONALIDADE E UM TEXTO DE PERENE MARCA BARROCA, p. 9

Arnaldo do Espírito Santo, O CORPO E A SOMBRA, p. 11

Carlos Dugos, METÁFORAS DO V IMPÉRIO E DE OUTRAS UTOPIAS, p. 14

Cátia Miriam Costa, O VERBO VIEIRINO, p. 16

Dione Barreto, O SERMÃO DO ESPÍRITO SANTO E A INDIVIDUAÇÃO: AS VOZES  DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA E C.G. JUNG, p. 18

Dirk Hennrich, AS LÁGRIMAS DE VIEIRA E A TRISTEZA TROPICAL, p. 22

J. Pinharanda Gomes, UMA «ARTE DE PREGAR» À SOMBRA DE VIEIRA, p. 24

Jorge Martins, O FILO-SEMITISMO DE ANTÓNIO VIEIRA, p. 28

José Eduardo Franco, O PADRE ANTÓNIO VIEIRA E A EUROPA, p. 33

Lélia Parreira Duarte, A ARTE IRÔNICA DE VIEIRA E O QUINTO IMPÉRIO DE PORTUGAL, p. 35

Luís Loia, O PADRE ANTÓNIO VIEIRA E O CONHECIMENTO DOS FUTUROS, p. 38

Maria Cecília Guirado, NOTÍCIAS DO BRASIL NO SÉCULO XVII: VIEIRA E A GLOBALIZAÇÃO, p. 42

Miguel Real, O CABALISMO DO ANO DE 1666 EM PADRE ANTÓNIO VIEIRA, p. 46

Nuno Rebocho, MEMÓRIA DE ANTÓNIO VIEIRA NA CIDADE VELHA, p. 49

Paulo Borges, PADRE ANTÓNIO VIEIRA: GÉNIO E LOUCURA, p. 50

Samuel Dimas, A HISTÓRIA ESCATOLÓGICA DO PE. ANTÓNIO VIEIRA: AS TRÊS VINDAS DE CRISTO, p. 52

Sérgio Franclim, A VIDA E O QUINTO IMPERIALISMO DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA, p. 56

António Saias, UM PAPO COM VIEIRA, p. 60

AA.VV., VALEU A PENA?, p. 61

Rui Martins, DO FUTURO DA LUSOFONIA, p. 63

Ana Margarida Esteves, PORTUGAL E A LUSOFONIA COMO PROPULSORES DA INOVAÇÃO SOCIAL: A NECESSIDADE FAZ O ENGENHO, p. 69

Maria Ana Silva, A LÍNGUA PORTUGUESA É O MAR QUE UNE A TERRA: A ALIANÇA ENTRE HOMEM E DEUS, p. 72

Artur Alonso Novelhe, UMA PERSPECTIVA GALEGA DO FUTURO DA LUSOFONIA, p. 75

Cristina Leonor Pereira, 2008: É NOVAMENTE HORA!, p. 77

Eurico Ribeiro, PORTUGAL, QUE MISSÃO?, p. 78

Flávio Gonçalves, A LUSOFONIA, O PAN-LATINISMO E A EURÁSIA COMO ALTERNATIVAS AO ATLANTISMO, p. 87

Joaquim M. Patrício, REALIDADES, DESAFIOS E FUTURO DA LUSOFONIA, p. 88

Paulo Feitais, DAS FLORES AOS FRUTOS: O FUTURO DO MUNDO LUSÓFONO, p. 91

Renato Epifânio, A LÍNGUA-FILOSOFIA PORTUGUESA COMO UMA VIA ABERTA, p. 93

Rita Dixo, DA LÍNGUA PORTUGUESA COMO IMAGEM DA NOSSA ALMA, p. 95

Carlos Magno, LUSOFOBIA, p. 96

Manuel Ferreira Patrício, O PADRE ANTÓNIO VIEIRA, A LUSOFONIA E O FUTURO DO MUNDO, p. 96

AINDA SOBRE A IDEIA DE PÁTRIA

Carlos H. do C. Silva, DO INTERMÉDIO DA PÁTRIA OU DO PERICLITANTE TEMPO NACIONAL, p. 100

DA ARCA

João Teixeira da Motta, O TERRITÓRIO E O MAPA (em anexo, cartas de Agostinho da Silva, Cruzeiro Seixas, Dalila Pereira da Costa e António Quadros), p. 120

POEMÁGUIO

Sérgio Franclim, PADRE DA LOUCURA, p. 128

José Eduardo Franco, VIEIRA, O OUSADO, p. 128

Samuel Dimas, INSTANTES DE PARAÍSO, p. 129

Maurícia Teles da Silva, DA MEMÓRIA EM FEVEREIRO: HOMENAGEM E GRATIDÃO, p. 129

Alexandre Vargas, A MORTE DE PORTUGAL / VITÓRIA, ABRIL/ O ÚLTIMO PORTUGUÊS / FUTEBULIMIA, p. 130

António José Borges, A CAMÕES, p. 132

Dirk Hennrich, UM NOVO ÍCARO, p. 132

Renato Epifânio, ALJUBARROTA, 133

Carlos Lopes Pires, COMO PODE A LUZ, p. 133

Francisco Soares, NOITE ACESA, p. 134

Casimiro Ceivães, QUE TEM GOA, QUE MAGOA, p. 134

Celeste Natário, UMA ALMA AZUL, p. 135

Fernando Botto Semedo, NUMA VEEMENTE SEARA PLENA, 135

Jesus Carlos, A CRIPTA I, II e III, p. 136

Fabrício Fortes, LEMBRANÇA DE ANTES DO TEMPO, p. 137

José Smith Vargas, BAILE NO CEMITÉRIO, p. 137

Luís Carlos dos Santos, A ILHA, p. 138

Ana Margarida Esteves, FADO EMBARCADIÇO, p. 138

Maria Almira Medina, CANTIGA PARA CANTAR NA PRAIA AO ENTARDECER, 139

Saudades do Futuro, DAS SAUDADES QUE HAVIA, p. 139

Amon Pinho Davi, DE SAGRES AO SUBLIME, EXPERIÊNCIA, INSPIRAÇÃO OU IMAGENS DO FEMININO, p. 140

Joana F. D., UMA SERPENTE NO TEJO, p. 142

Manuel da Silva Ramos, PROVÍNCIA MUITO PARADA OU MORTA, p. 142

Fernando Grade, MARÃO CEDO, p. 143

Adriana Costa, O RIO CORRE, p. 143

Paulo Borges, CANTO-TE, p. 144

Duarte Drumond Braga, DOIS POEMAS DO LIVRO OITO VOTOS, p. 144

António Quadros Ferro, SEM EPÍGRAFE/ SUBIR/ A PALAVRA, p. 145

OUTROS VOOS/ OUTRAS VOZES

António Telmo, COINCIDÊNCIAS, p. 146

Gilda Nunes Barata, ACÇÕES OU VENDAVAIS COM ESPUMA?, p. 147

Donis de Frol Guilhade, DA PHILOSOPHIA SITIADA, p. 148

Sam Cyrous, SOBRE O DIÁLOGO INTERCULTURAL, p. 150

Kit-Fai Naess, CARTA A ARNE NAESS, p. 152

José Maurício de Carvalho, CONSCIÊNCIA MORAL E DESAFIO ECOLÓGICO, p. 156
Jorge Neves, SAUDADES DO FUTURO, p. 160

RUBRICAS

COISAS E LOISAS, de J. Pinharanda Gomes, p. 162

DO ESPÍRITO DOS LUGARES, de Manuel J. Gandra, p. 163

AS IDEIAS PORTUGUESAS DE GEORGE TILL, de Jorge Telles de Menezes, p. 165

PÁGINAS TEMÁTICAS

LITERATURA ORAL E TRADICIONAL, de Ana Paula Guimarães, p. 166

ARTES PLÁSTICAS, de Cristina Pratas Cruzeiro e Rodrigo Vilhena, p. 168

TEATRO, de Jorge Telles de Menezes, p. 172

MÚSICA, de Pedro Miguel (com nota introdutória), p. 174

PROJECTOS, de Firmino Pascoal, p. 176

BIBLIÁGUIO

ANTÓNIO VIEIRA, HISTÓRIA DO FUTURO, por Renato Epifânio, p. 178

ANTÓNIO BRAZ TEIXEIRA, O ESSENCIAL SOBRE A FILOSOFIA PORTUGUESA (SECS. XIX E XX), por Joaquim Domingues, p. 179

ARIANO SUASSUNA, ROMANCE D’A PEDRA DO REINO, por Romana Valente Pinho, p. 180

JOÃO RÊGO, CONTOS DA COLUNA DO MEIO, por Joaquim Domingues, p. 181

JOSÉ MAURÍCIO DE CARVALHO, O HOMEM E A FILOSOFIA. PEQUENAS MEDITAÇÕES SOBRE EXISTÊNCIA E CULTURA, por António Paim, p. 183

HELENA BELMONTE, 7 MULHERES PARA D. SEBASTIÃO, João David Pinto Correia, p. 184 (a incluir)

ADOLFO CASAIS MONTEIRO: UM CENTENÁRIO, DESDE A ÁGUIA ATÉ À NOVA ÁGUIA, por Carlos Leone, p. 185

GOLPE D’ASA

Jean-Yves Leloup, TODOS OS CAMINHOS LEVAM À PRAIA: UM NOVO INÍCIO PARA A METAFÍSICA, p. 188

SOBRE A NOVA ÁGUIA

Miguel Real, TEXTO DE APRESENTAÇÃO DA NOVA ÁGUIA, p. 190

Pedro Teixeira da Mota, DO RENASCIMENTO DA NOVA ÁGUIA, p. 192

Renato Epifânio, OS PRIMEIROS NOVE MESES DA NOVA ÁGUIA, p. 194

COLECÇÃO NA, p. 201

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Categories: Brasil, Movimento Internacional Lusófono, Nova Águia, Padre António Vieira, Política Internacional, Política Nacional, Portugal, Sociedade, Sociedade Portuguesa | 1 Comentário

Da atualidade do pensamento de António vieira (cinco axiomas)

O Padre António Vieira deixou-nos alguns dos axiomas mais ricos e profundos de sempre. A partir da compilação dos mesmos organizada por José Eduardo Franco em (Padre António Vieira, Grandes Pensamentos) selecionamos alguns axiomas de entre aqueles que nos parecem mais atuais e plenos de ensinamentos e sabedoria para os problemas que Portugal e o mundo enfrentam na atualidade.

As ações de cada um são a sua essência.
Sermões, i, 212

Vieira referia-se aqui ao divórcio infelizmente tão comum na sua época, como na nossa, entre discurso e ação… Não deixa de haver alguma ironia – talvez não reconhecida pelo jesuíta – pelo facto de tal frase ter sido escrita num sermão e por um dos mais brilhantes oradores da sua época, por isso quando Vieira proferia tal frase, sabia por experiência e uso próprio, aquilo que dizia. E verdade que o jesuíta fora muito mais do que um orador, sendo bem conhecida a sua atividade missionária no Brasil e as sua missões diplomáticas e de espionagem na Europa. Nesta frase criticava aqueles que não seguiam o seu exemplo e que se deixavam ficar pelas estéreis palavras e não as passavam a ação.

A expressão do jesuíta e ainda hoje muito atual…. Não faltam aqueles que em cafés, nas suas habitações e em todo o lugar onde se reunam duas pessoas, opinam sobre tudo e todos. A Internet e neste contexto um caldo de cultura especialmente fértil para que o verbo se multiplique e reproduza em blogues e fóruns de discussão, um verbo multiplicante que sendo virtual, raramente transfere a sua ação para o mundo real e concreto. Na altura das eleições, os portugueses escapulem-se para as praias e recusam cumprir a derradeira e ínfima margem de ação que lhes deixa a democracia parlamentar.

De discursos estará cheio o inferno, e ainda mais cheio estarão as antecâmaras da política. Existe na sociedade portuguesa uma ânsia por políticos fazedores, e uma muito sensível ansiedade por quem renegue o pântano verbal de debates estéreis, de negociações infindáveis quem caracterizaram o consulado Guterres. Esta ansiedade explica a popularidade de Cavaco Silva, tido na época como um tecnocrata e, logo, como um fazedor e, eleito como presidente da republica com o mesmo discurso tecnocrático e operadora que o esvaziamento presente das funções do presidente impossibilitam cumprir e que foi provavelmente um dos maiores logros eleitorais da democracia portuguesa.

Precisamos hoje, tanto ou mais do que na perigosa época em que vivia Vieira, de uma elite política em que a população se consiga rever e que sendo eleita por números realmente significativos dos eleitores possa efetivamente transpor e efetivar as suas aspirações. Uma nova camada governante que saiba aproximar e revivificar a democracia, aproximando-a das populações, descentralizando profundamente e expandindo a amplitude de toda a governança democrática. E para isso precisamos menos de belas e ocas palavras, que se esquecem ou se remetem para o caixote dos “objetivos” e de acoes efetivas e concretas que refundem a portugalidade e possam criar os laços esquecidos entre os povos da Lusofonia que permitam realizar a verdadeira missão de Portugal no mundo: a União Lusófona, o “Quinto Império” sonhado por António Vieira na sua “História do Futuro”.

“As ações generosas, e não os pais ilustres, são as que fazem fidalgos”
Sermões, I, 213

As origens remotas do estatuto de “nobreza” radicam na velha divisão tripartida das sociedades indo-europeias entre guerreiros, mercadores e produtores. A nobreza recolhia os seus panos purpuras de um prestigio passado, consolidado pelos feitos de armas do passado recente e do presente. A nobreza portuguesa continua a existir, acolhida entre as paginas de revistas sociais e uma socialite decadente, mas social e economicamente já não tem qualquer relevância. Esta nobreza de antanho foi substituída nas arenas mediáticas por uma leve camada de novos ricos, alguns dos quais “bem casados”, com descendentes desta “nobreza antiga”, que se espalham por todas posições de liderança nos meios académicos, culturais, empresariais e políticos. Estimamos que um numero não muito superior a 400 famílias distribua assim entre si o Poder efetivo em Portugal. Os seus filhos – sempre com nomes sonantes e repetidos ate a exaustão – são os galvão telo, os bustorff, os cadilhe, os soares, os sousa tavares, etc. que encontramos em todo o lado, vivendo essencialmente do nome dos seus pais e ocupando o lugar que caberia por direito de mérito a outros provenientes de cataduras menos sonantes.

“As coisas não começam do principio como se cuida, senão do fim. O fim porque as empreendemos, começamos e prosseguimos, esse é o seu primeiro principio, por isso ainda que sejam indiferentes, o fim, segundo é bom ou mau, as faz boas ou más.”
Sermões, IX, 269

Em todas as ações ou pensamentos importa sumamente, o destino que lhe queremos dar. Ainda que o provérbio popular ensine que “de boas intenções está o Inferno cheio”, de facto, é na intenção motriz dos atos humanos que esta a essência do valor dos mesmos. Se provocamos a dor ou o sofrimento em alguém de forma involuntária, isso não tem o mesmo significado para o equilíbrio natural das coisas a que os hinduístas e budistas chamam de “karma” ou a que no Ocidente chamamos simplesmente de “destino”. A intenção é tudo.

Se encetamos uma determinada acao e se de permeio esta nos causa dor ou sofrimento mental, se tivermos uma noção clara e determinada do nosso objetivo é mais fácil suportar estas penas se soubermos que após estas tormentas vira a bonança. Esta simples lição já devia ter sido aprendida pelos nossos governantes, mas não o foi ainda, tamanha é a distancia entre as suas altas torres de marfim e as populações que deveriam saber governar. As grandes políticas não são já determinadas localmente, mas cada vez em paragens mais distantes, lá no gélido norte, e os seus termos são cada vez mais obscuros e técnicos, como se buscassem antes do mais estabelecer uma linguagem esotérica impossível de ser compreendida pelas massas, como aliás demonstra bem o que se passou com o “Tratado de Lisboa”. Os fins da política são cada vez menos compreensíveis e isso é a raiz para a compreensão do desinteresse popular sobre a “res publica”. Os meios são os impostos, o ermamento e a retirada do Estado central do interior, mas os fins não podem ser a “estabilidade orçamental” nem uma “construção europeia” desalmada que não diz nada ao coração de ninguém. Os fins que objetivam têm que ser mais altos, claros sem serem absolutamente precisos e na falta deles, surge o vazio – que o cérebro detesta tanto quanto a natureza – e a depressão coletiva. Faltam fins a este Portugal atual, fins que nos energizem e que imprimam a nossa vida individual e coletiva os propósitos que nos permitam vencer os meios presentes. E estes não os temos. Ainda. Busquemos na nossa Historia medieval, no processo dos Descobrimentos e na alma portuguesa o nosso fim, o nosso destino coletivo. Encontremos em Bandarra, no próprio Vieira, em Fernando Pessoa e Agostinho da Silva, o fim pelo qual empreendemos as coisas e descubramos em António Vieira a sabedoria de que precisamos para suster este mundo desumano e cruel do neoliberalismo globalizado das multinacionais e o vero rumo de Portugal: o Quinto Império, fraterno, universal e igualitário do Padre António Vieira.

“A vista dos bens alheios cresce o sentimento dos males próprios.”
Sermões, VII, 56

A inveja é a força motriz dos aspectos mais negros da alma humana. Mas, se por força da nossa vontade e engenho logramos alcançar o milagre se olharmos de fora as nossa próprias desgraças, e encararmos as misérias alheias como se fossem nossas, então, tudo nos parece bem menos grave e maleitoso. Não nos deixemos enredar na depressiva teia do nosso declínio nacional e contemplemos a situação que enfrentam tantos povos por este mundo fora: misérias diversas, catástrofes diversas e sucessivas, guerras civis e externas de estranha violência, causando todas sofrimentos terríveis e um desespero indescritível em varias paragens do mundo. Entre todos estes males, encontramos Portugal. Local de um clima raramente ameno, de níveis de criminalidade dos mais baixos do mundo, com níveis de desenvolvimento económico e social que não sendo os de um pais escandinavo, não são também tão baixos como os da maioria dos países do mundo e são até os mais elevados de todo o mundo lusófono. Portugal, pela mediania da sua situação económica não tem os níveis de riqueza económica que possuem outros países europeus ou do hemisfério norte. Apesar do afluxo e influxo de materialismo dos últimos anos, os portugueses continuam a manter dentro de si o espirito altruísta dos generosos praticantes do bodo dos pobres do Culto do Espirito Santo, e se reconhecermos enfim que o verdadeiro fim da vida não reside em artifícios tecnológicos, em viagens para gaiolas douradas algures nos mares solarengos do sul, então talvez sejamos – portugueses – capazes de encontrar dentro de nos próprios, na cultura, no engrandecimento e avolumando do nosso próprio saber e, sobretudo, no pleno desenvolvimento da nossa inteligência, sabedoria e poder criativo aquilo que é o primeiro passo para o cumprimento do Quinto Império: o cumprimento do mesmo no nosso próprio interior.

“armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória.”
Sermões, I, 24

Este axioma foi elaborado em plena guerra holandesa no Pernambuco e de independência em Portugal, e referia-se à desilusão sentida então em Portugal quanto aos aliados franceses e ingleses. Contudo, é também uma frase muito atual… Na Defesa, os países devem poder contar antes do mais com os seus próprios recursos e não com os alheios. No contexto atual, de uma forma de guerra de extrema exigência tecnológica e onde os preços unitários de aviões, navios e blindados são varias vezes superiores aqueles correntes há apenas dez anos, é praticamente impossível a um pequeno pais como Portugal suportar os números de equipamento militar suficientes para manter a sempre essencial Defesa e dissuasão credíveis. Assim, é imperativo que se construam alianças regionais, paritárias integradas e organizadas capazes – pela complementaridade de meios – suprir essa lacunas. Portugal não pode sustentar um porta-aviões, nem uma frota de superfície comparável à espanhola ou francesa, mas pode e deve integrar uma aliança regional que não despreze a exiguidade dos seus meios e a qualidade dos seus homens. O quadro atual, coloca-nos – por razões históricas ligadas à Guerra Fria –
na OTAN, mas agora que o Pacto de Varsóvia se esfumou nas brumas do passado não será este o momento de repensar o quadro dos nossos interesses estratégicos?

Categories: Brasil, História, Nova Águia, Padre António Vieira, Portugal | 1 Comentário

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