Ainda sobre os biocombustíveis… e a Cimeira de Roma

Na recente cimeira de Roma, a questão do biocombustível tornou a estar na mesa… Muitos países acreditam que a massificação da produção de biocombustíveis é a verdadeira fonte da presente alta do preço dos alimentos. Contudo, como afirma Alexander Müller, da FAO “não há um acordo entre os especialistas quanto ao impacto nos biocombustíveis à base de grãos nos preços finais dos alimentos”. Existem estudos que apontam para um impacto de 10%, outros que indicam 60%, como um da OCDE que afirma que os biocombustíveis de grãos (milho e trigo) foram responsáveis por um aumento de 60% nos preços dos alimentos. Outro estudo, desta feita um produzido pelo “Food Policy Research Institute” (IFPRI) refere um peso de 30 por cento nesta inflação de preços. No extremo, esta a Administração Bush, cujo Secretario para a Agricultura, Ed Schafer admitiu recentemente que esta percentagem era de apenas três por cento… E claro que os EUA são o pais que mais subsidia biocombustiveis (milho, sobretudo) pelo que a imparcialidade desta crença terá que ser altamente questionável

O Brasil não tem cessado de levar a esta discussão nos mais variados fóruns internacionais a questão do “bom etanol” (de cana do açúcar) e do “mau etanol” (milho e cereais). Lula da Silva declarou a este propósito: “O etanol de cana do açúcar do Brasil não é uma ameaça à Bacia do Amazonas, não retira terra arável à produção alimentar, nem tira comida das nossas mesas… Há o bom etanol e há o mau etanol. O etanol de milho pode competir com o etanol de cana do açúcar quando lhe injetam subsídios e o protegem com barreiras alfandegárias“. A declaração foi proferida em Roma, frente ao Secretario norte-americano, que contestou afirmando que o Brasil subsidia a sua cana do açúcardécadas, enquanto que os EUA agora começavam a trilhar esse caminho… O que não deixa de ser verdade, mas requer a contextualização de que os subsídios brasileiros datam do primeiro Choque Petrolífero da década de setenta e que na época o Brasil não tinha a produção petrolífera atual…

Por fim, será que os biocombustiveis são realmente um “combustível verde”, isto é, ecológico? O já citado estudo do IFPRI alega que o etanol de milho reduz as emissões de gases de efeito de estufa entre 10 e 30 por cento, mas que o etanol de cana pode reduzir em ate 90 por cento essas emissões… O que explica porque defendemos desde há longo tempo o etanol de cana como um biocombustível viável e não somente por um qualquer sentimento de “nacionalismo lusófono” os biocombustiveis na versão etanol de milho ou de celulose.

Mas a médio prazo devemos esperar uma revolução tecnológica nesta área, que deve fazer cessar todas estas polemicas… Trata-se dos biocombustiveis de segunda geração, que resultam do processamento de partes não-alimentares da produção agrícola de colheitas de trigo, milho, etc, assim como do aproveitamento de folhas, troncos enfim, de qualquer resíduo vegetal da agricultura industrial contemporânea. O uso destas matérias-primas não iria criar qualquer tipo de pressão sobre os preços dos alimentos e aumentaria significativamente os rendimentos dos agricultores, para alem de ser ainda uma solução para a presente alta dos combustíveis fosseis. Contudo, a produção de biocombustiveis de segunda geração não seria tão elevada como a produção dedicada de toda uma colheita de milho ou trigo. Mas seria uma solução complementar, uma parte da resposta para o problema da alta de preços de combustíveis ao lado das importações de etanol de cana, de reduções de consumo pela via de veículos mais eficientes, do aumento do uso veículos elétricos, e de políticas concertadas e sistemáticas de apoio aos transportes públicos.

Fonte:
http://www.alertnet.org/thenews/newsdesk/IRIN/6a190e4cd9f2bd3ef66556f77221045b.htm

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Categories: Economia | Etiquetas: | 18 comentários

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18 thoughts on “Ainda sobre os biocombustíveis… e a Cimeira de Roma

  1. Fred

    Sobre a segunda geração de biocombustíveis acredito que você se refira a algo como isso:
    http://www.aneel.gov.br/aplicacoes/capacidadebrasil/OperacaoGeracaoTipo.asp?tipo=5&ger=Combustivel&principal=Biomassa

    O Brasil já está a algum tempo na segunda geração de produção energia elétrica a partir de biomassas.
    Nessas termoelétricas o combustível varia de bagaço de cana, casca de arroz, restos de madeira e recentemente, uns 8 anos a queima de licor negro em turbinas, (resíduo da produção de papel). E mais recente ainda a utilização de biogás oriundo dos aterros sanitários (o usina são João, em São Paulo, começou a funcionar ano passado gerando 21 000 kW)

  2. a biomassa nunca poderá ser uma solução de fundo para o problema dos combustíveis, mas nessas aplicações (quinta agricolas, pequenas explorações e tratamento de lixo) é muitíssimo interessante e rentável!

  3. “À semelhança do projeto já em operação no Aterro Bandeirantes, na região Norte da Capital, no Aterro São João também será instalada uma usina de geração de energia elétrica (termoelétrica) com capacidade para gerar 170.000.000 KWh por ano. Suas operações deverão ser iniciadas em janeiro de 2008. Com isso pode-se dizer que, a partir de 2008, 7% da energia elétrica consumida nas residências da Cidade de São Paulo estará sendo indiretamente suprida pela energia gerada a partir do lixo urbano acumulado nos dois aterros sanitários da Cidade.”
    http://www.prefeitura.sp.gov.br/portal/a_cidade/noticias/index.php?p=16566

    o que é mesmo muito! 7% é um valor notável!

  4. gaitero

    Lembrando que estamos falando da 4 maior cidade do mundo, se fosse aqui em curitiba ou ai em lsiboa este numero poderia chegar a 40 % do total.

    Poderia ser até 2 %. Como o combustivel é o lixo, qualquer valor já é rentável além de resolver um pouco o problema dos lixões.

  5. Fred

    Sim e esse biogás era simplesmente queimado nos aterros!
    Clavis, não resolve eu sei, mas sempre é melhor que queimar petróleo!

    E a biomassa é exatamente complementar tanto na produção de energia como no rendimento financeiro das propriedades agricola, pois são só 4.403.996 kW.
    Não chega nem em 5% da energia gerada no Brasil que hoje está por volta dos 101 000 000 kW

  6. gaitero

    Maaaaaaas, seria uma boa solução para curitiba? temos um grave problema, super lotamento do aterro da caximba, eles estão planejando onde costruir um novo aterro, poderia ser viável contruir uma uzina junto?

  7. Fred

    Ai já não sei se é economicamente viavel, em qualquer aterro sanitário cheio dá pra fazer, agora se vai compensar o custo!

    O pioneiro foi o aterro bandeirantes que o Unibanco bancou para bancar uma de compromisso ambiental (desculpe o trocadilho)
    O Aterro São João veio na esteira do aterro bandeirantes, mas ainda é uma geração muito cara de implantar, a parte de processamento do gás (filtragem e pressurzação) ainda é complicada e onerosa.

  8. seria sempre viável, ao que sei.
    quanto maior a escala da fábrica, mais rápido seria o retorno do investimento, mas aqui em Portugal há já várias instalações em pequenas agropecuárias que são muito rentáveis na produção de metano, pelo menos desde a década de 80.

  9. gaitero

    Bom aqui tambem, mas eu sempre as vi ultilizando fezes de animal.

    Aqui no Parana, tem até um programa que permite ao agricultor vender seu escedente de produção para a Copel (companhia paranaense de energia elétrica), mas eu me refiro, será que só serve para grandes cidades onde há grande quantidade de lixo, existe uma medida para que ela se torne viável??

  10. gaitero

    Vai que eu resolva ser prefeito em 2012. Tenho que estar por dentro xD

  11. Fred

    Então, povo, o viável economicamente a que me refiro é que o dito lixão tem que ter uma quantidade de lixo orgânico, que permita a produção de energia por tempo suficiente para pagar o investimento e obviamente gerar algum lucro para o investidor. O Aterro bandeirantes por exemplo praticamente empata.
    A Produção de metano a partir de estrume animal, os chamados biodigestores é outra coisa!

    Nos aterros sanitários são cravados vários tubos perfurados até as camadas inferiores do aterro a dezenas de metros de profundidade, com a pressão das camadas superiores o gás flui por esses tubos e são processados e pressurizados para a utilização.

    Vejam fotos dos dois aterros em questão.
    http://www2.prefeitura.sp.gov.br/secretarias/servicoseobras/servicos/0011

  12. bem, acho essas opções muito interessantes.
    em Portugal, também se trabalha nisso:
    http://www.oestediario.com/oestediario/artigos_oh.asp?cod_artigo=178827
    mas receio que ainda não esteja nada concretizado…

  13. Fred

    Essa ai de Lisboa, Clavis, já é outra modalidade, é utilizar a energia térmica gerada na incineração do lixo.
    O lixo durante a incineração vira parte da combustível. Obviamente o rendimento energético é menor, mas o impacto financeiro é menor também e racionaliza os aterros sanitários, prolongando sua via útil.
    Por incrível que pareça, lixo é uma assunto muito interessante!
    Que digam os moradores de Nápoles! 🙂

  14. gaitero

    Pois é, saimos do caus e entramos no céu do lixão. Acho que vou comprar um terreno em nápolis e pegar o maximo de lixo que eu conseguir kkkkkkkk.

  15. fred:
    sim, e os mafiosos de lá também… imagina-se então o que pensarão da reciclagem. ou tb controlam as empresas de reciclagem 😉

    gaitero:
    mas para isso terias que receber o beneplácito de um Padrinho local, tipo beijo da morte do Padrinho do filme!

  16. Fred

    Sim, controla todo o ciclo do lixo, do recolhimento ao processamento!

    Mas fica tranqüilo que essa máfia é outra, as dos filmes são da Siciila e da Calábria! 🙂

  17. gaitero

    Bom tenho direitos, 50% do meu sangue são de Genova ( significa, cidade dos guaresi) meu sobrenome XD.

  18. fred:
    olha que não!
    é a mesma mafia de sempre, só que com um negócio novo…

    gaitero:
    não tens não… em Génova não há mafia (pois sim…)
    conheço a cidade, que visitei em 1989… magnífica e belíssima cidade, comparável apenas a Veneza…

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