Daily Archives: 2008/08/05

António Vieira e a Inquisição

Um dos aspetos mais radicais do pensamento de Vieira e a sua posição perante a Inquisição e a reforma do Santo Oficio. Ao tomá-las e ao as assumir nos mais públicos fóruns do Reino, Vieira sabia certamente que caminhava sobre gelo muito fino.

António Vieira colocava em risco os próprios fundamentos da poderosa instituição, recomendando o fim das denúncias anónimas e até do confisco dos bens. Sem a primeira forma de recolha de informações, perderia grande parte dos seus informadores, e logo da sua eficácia e decorrentes vitimas. Sem a segunda, perderia o sustento dos seus sequazes e da sua densa e numerosa máquina administrativa, e consequentemente, não poderia mais conseguir suportar tantas condenações e execuções e, logo, perderia a parte de leão da sua influência na sociedade que resultava em grande medida da ameaça latente que pendia sobre todos, até sobre os mais ricos e poderosos.

Mas este ataque contra os fundamentos financeiros e contra as fontes de rendimento da Inquisição não satisfez o ímpeto reformador de Vieira… A sua defesa dos judeus e dos cristãos novos é um dos pontos mais conhecidos do seu pensamento, mas também um dos mais centrais. Era sua íntima e profunda convição de que fora a sua perseguição e subsequente expulsão, no século XVI, que estivera na fonte do declínio português a partir dessa época e da consequente perda da independência nacional, após o desaparecimento de Dom Sebastião. Sem o capital, nem o dinâmico espírito empreendedor dos judeus, a Expansão perdera a parte mais ativa da sua energia, e os inimigos do Reino haviam tomado gratuitamente aqueles mesmos refugiados que os haveriam de beneficiar, algo especialmente verdadeiro quanto a Inglaterra e aos Países Baixos onde os judeus ibéricos se tornaram rapidamente no cerne da expansão marítima desses países do norte da Europa. Reconhecendo estes erros que tanto prejudicavam um pais que muito dificilmente tinha reconquistado a sua independência e que travava uma guerra em quatro continentes com as três maiores potencias da sua época (Espanha, Países Baixos e Inglaterra), Vieira defendia que aqueles judeus que não tinham sido expulsos e que convertidos mais ou menos superficialmente ao cristianismo, se designavam agora de CristãosNovos deviam retomar a plenitude dos seus direitos cívicos, algo que contradizia vivamente o pensamento e a ação da Inquisição.

Obviamente, uma tão frontal oposição aos interesses do Santo Oficio haveria inevitavelmente de atrair a atenção do Tribunal sobre o próprio Vieira… A morte do seu protetor, o rei Dom João IV, deixaria solta a sanha inquisitorial contra o jesuíta e esta lograria prender e condenar Vieira. Só no final da década de sessenta do século XVII, após uma visita a Roma e ao próprio Papa e que António Vieira conseguiria anular esta condenação. A mesma extraordinária capacidade oratória que seduzira o governo geral do Brasil, primeiro, e depois, a corte de Dom João VI, iria convencer o Papa e garantir assim a anulação das suas penas e condenações. Mas Vieira conseguiria ainda mais. Entre 1675 e 1681, a atividade da Inquisição esteve suspensa por determinação papal, uma determinação que encontrou o seu maior fundamento nos relatórios sobre os múltiplos abusos de poder que o jesuíta deixou em Roma, nas maos do Sumo Pontifice. Desta forma conseguia dois feitos raros e históricos, por um lado conseguia parar pela primeira vez durante sete anos a atividade do Santo Oficio em Portugal e, feito não menor, lograva escapulir da perigosa malha que inquisidores derramavam sobre si.

Fontes:

Padre António Vieira: Grandes pensamentos

José Eduardo franco. Coordenação

Gradiva

Categories: História, Padre António Vieira, Portugal | 3 comentários

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