“O director-geral do Consumidor, José Ribeiro, desvalorizou ontem o estudo que aponta para a existência de cerca de 100 mil famílias em grande dificuldade financeira”

(http://www.seattleu.edu)

“O director-geral do Consumidor, José Ribeiro, desvalorizou ontem o estudo que aponta para a existência de cerca de 100 mil famílias em grande dificuldade financeira. A divulgação da estimativa, feita pelo Diário Económico, provocou embaraço no Governo”

(…)

“José Ribeiro salientou ainda que “a taxa de esforço das famílias não está em níveis preocupantes comparada com outros países. O director-geral defendeu que os bancos também são “responsáveis pelo endividamento das famílias” e de serem pouco sensíveis “à iliteracia financeira”.

(…)

“os portugueses continuam a recorrer cada vez mais ao crédito, apesar da deterioração económica e da incerteza, porque querem manter o seu padrão de consumo, mas a situação não se pode prolongar por muito tempo, avisa o responsável do Gabinete de Endividamento.”

Público, 26 de Março de 2008

Deve estar escrito, algures no “manual do governante” que perante uma má notícia o governante envolvido deve sempre recusar a existência do problema. Essa foi a atitude seguida ainda recentemente pela Ministra da Educação a propósito do famoso caso do “telemóvel da Carolina Michaelis” e agora, desta feita, pelo director-geral do Consumidor, José Ribeiro, ao negar o sobrendividamento de muitas (100 mil!) famílias portuguesas! Apesar do discurso “diminuidor”, repare-se como não negou, nem contestou o número de 100 mil famílias em iminente incapacidade de cumprir com as suas obrigações financeiras, mas esgrimou com estatísticas globais que dão Portugal como “não sendo o mais endividado” da Europa. Mas e daí? Ainda que sejam verdadeiras, Portugal é também dos países europeus onde o rendimento médio é mais baixo, logo o seu nível de endividamento não pode ser comparado em bruto com o de uma Alemanha ou de uma Dinamarca. E, existe aqui algo muito importante, a que o director-geral não respondeu: 100 mil famílias implicam pelo menos 100 mil crianças, e perto de 400 mil portugueses! O número torna-se astronómico e dá uma boa medida da dimensão do problema social que este sobrendividamento poderá criar a muito curto prazo…

Mas num ponto, José Ribeiro tem razão. Este nível de endividamento resulta em primeiro grau da Banca que numa gestão de muito curto prazo, não acautelou a solvência dos seus clientes e procurou todos os meios – uns mais agressivos, outros menos – comercializar toda uma série de produtos financeiros. Os lucros podem ter aumentado no curto prazo, mas imaginemos que esta multiplicação dos empréstimos de habitação (antes de 2006) e dos empréstimos de consumo (a partir de 2007) começa a corresponder a uma multiplicação de insolventes e de famílias em falência financeira? Teremos em Portugal, então, uma reedição da crise americana do Subprime… Só que a Banca lusa não tem em caixa os mesmos valores que detinham os grandes bancos americanos, já que até para a concessão de empréstimos locais dependiam de empréstimos inter-bancários contraídos no exterior.

Urge impôr um regramento no sector financeiro: a corda está já demasiada esticada para continuarmos a assistir impávidos e serenos à multiplicação de empresas de empréstimos de consumo, cada vez mais agressivas. E a Banca tem que começar a criar provisões para sustentar o estouro deste massa crescente de insolventes. É que depois de décadas de lucros crescentes e fabulosos, agora, mercê da irracionalidade dos mesmos e dos erros de gestão (excessivamente focada no Curto Prazo) da Banca o encaixa, a correcção em baixa terá que ser feita. E não é ético que esta seja feita à custa do Estado e dos nossos impostos, sobretudo depois de tantos anos de lucros sucessivos que a Banca gostou de exibir despudoradamente em anos de estagnação e recessão… E espero que não consigam convencer o Banco Central Europeu a baixar a Taxa de Juro! Isso permitiria manter o forró, mas iria transferir para o consumidor (pela via da inflação) a absorção de parte significativa dos erros de gestão do sector, e isso não seria justo nem economicamente razoável.

Categories: Economia, Política Nacional, Portugal, Sociedade Portuguesa | Etiquetas: | 12 comentários

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12 thoughts on ““O director-geral do Consumidor, José Ribeiro, desvalorizou ontem o estudo que aponta para a existência de cerca de 100 mil famílias em grande dificuldade financeira”

  1. M4Jor

    be afraid, be very afraid!

    – Aumento da taxa de suicidio
    – Aumento da criminalidade
    – Aumento das depressões
    – Aumento da pobreza
    – Aumento do esforço da seg social já falida
    – Aumento do desemprego

    etc etc

  2. sim…
    e o Governo com o eterno discurso de desvalorização dos factos e de negação da verdade…

  3. cravo

    O governo pode ter alguma culpa, mas o governo é o reflexo do povo que temos. Houve tempo em que tinhamos um país pobre, em que metade da riqueza produzida ía para a alimentação, mas o povo era mais feliz, mais calejado, mais humilde, mais trabalhador e com mais valores morais. Havia o conceito de pobre e honrado. Uma pessoa podia ser pobre mas extremamente respeitada e com orgulho de o ser e de não dever nada a ninguém. Hoje um pobre é apenas um pelintra, um zé-ninguém sem o respeito de ninguém. E a maioria dos ricos são apenas exploradores e vigaristas bem sucedidos mas que se fazem respeitar pelo valor do dinheiro. Corre-se atrás de dinheiro e ele nunca chega, consome-se e consome-se, compra-se usaa-se e deita-se fora. Ainda me lembro de quando tinha 11 anos, quando os atacadores das botas se rompiam devido ao uso, fazia uns atacadores com folhas de uma árvore tipo palmeira. Duravam uns dias e eu ía-os substituindo enquanto as botas durassem. E as botas já tinham sido do meu irmão enquanto lhe couberam no pé. A minha mãe quando criança, antes de ir para a escola, ía com uma enxada e uma jiga apanhar bosta dos bois(que puxavam as carroças) pelos caminhos. E o meu pai andava descalço e tinha um boné que usava para por debaixo dos pés descalços e os aliviar entre cada corrida de 20 metros em cima da geada matinal a caminho da escola. E todos dizem que eram melhores tempos que agora.

  4. o Governo tem culpa na medida em que deixou que a Banca concedesse crédito sem sustentação. E o BP culpa porque (vê-se agora) não fiscalizou certa banca mais descabeçada…
    Mas é uma questão de mentalidade… estamos a mudar e os nossos padrões de exigiência mínimos são muito maiores do que os dos nossos pais. Isso é inevitavel, assim como o é os nossos filhos quererem ainda mais do que nós.
    Esta espiral tem que parar… temos que parar de “comprar” tanto e passar a “ser” mais… claro que essa mudança de paradigma (se ocorrer) vai destruir uma forma de Economia que está assente não na qualidade de vida e de consumo, mas… em elevados padrões cegos de consumo.

  5. cravo

    Sem dúvida…consumo não tem nada a ver com qualidade de vida ou felicidade. Aliás, é completamente insustentável para o planeta consumir a metade do ritmo a que se consome na nossa sociedade. Isto vai ter de acabar, mas infelizmente parece que só vai acabar quando estiver tudo esgotado e destruído. A solução talvez passasse por uma educação nas escolas e em casa muito diferente da que há hoje, mas ainda assim teriam de passar gerações e todo o mundo teria de seguir por esse caminho, o que é completamente utópico. Infelismente vai ter que ser a falta de recursos, a pobreza forçada, a miséria e a fome a dar essa lição ao mundo.

  6. Fred

    Isso só acontece com educação, quanto mais educação, menos necessidade de consumo.
    Porém como a base da economia está calcada no consumo, implica em políticas de incentivo ao consumo, que obviamente, devem ser modificadas.

    Mesmo assim com resultado práticos a longo prazo, pois deve-se visar nas crianças, modificando nelas a necessidade de consumo, o conceito de certo e de errado.

    Sabe, ensinar a fazer o certo por amor ao certo, o justo por amor a justiça, um diletantismo light. E não por um retorno financeiro ou de status como é hoje, pelo menos por aqui tem sido, assim, vale mais quem mais tem! Em vez de quem mais é!

    Digo light para nã ser tão forçado quanto um Carlos e Ega conversando! hehehehe! 🙂

  7. alguém disse que a este ritmo teria que haver 10 ou 12 terras…
    quando os recursos forem muito raros, então serão muito caros, e aí, certamente, começará a haver correções… a acreditar na economia de mercado, pelo menos.
    isso será contudo tarde demais para o meio ambiente, receio bem…
    gostava de acreditar que anets vamos abrir os olhos. mas duvido.
    a china já é o maior poluidor mundial e a sua crescente prosperidade está a elevar imenso os padrões de consumo do mundo.
    a Educação é a chave, sem dúvida.
    mas uma geração (supondo que começavamos agora e que não havia paragens) é já muito tarde… as mudanças que estão a ocorrer no clima tornar-se-ão irreversíveis dentro de menos de 10 anos (dizem alguns) e em dez anos… os padrões de consumo serão os mesmos de sempre.

    por isso, receio bem que tenhas razão:
    em vez da moral, será a razão dos factos que vai convencer os mais descrentes.

    o pior é que quem vai mesmo pagar o preço serão os nossos filhos mais pequenos que hohe têm 1-5 anos… que mundo será o deles? muito diferente do nosso, decerto.

  8. acabai de traduzir um livro que versa precisamente sobre esta temático da lógica de consumo e da necessidade imperativa de mudança do mesmo:
    http://www.smallisbeautiful.org/buddhist_economics.html
    do conhecido economista e.f.schumacher

    e sim, Fred.
    A Educação é a Chave.
    Por isso se há despesa pública que faz sentido, é esta.
    O que só dá razão também aqueles que defendem um sistema de avaliação dos professores que premeie os bons e incentive (ou afaste) os medíocres. Se é este da “sinistra ministra”, não sei… mas é pelo menos um passo na direcção certa.

  9. Fred

    Será Rui?

    Não acredito muito nisso, sabe. Acho que para variar daremos um jeito de sobreviver, sempre demos. Claro que os recursos naturais que usamos hoje vão acabar, mas arranjamos outros, como o sol, ou a água, sei lá! E ainda tem o fundo do mar! É só o preço e a tecnologia ficar viável e pronto estamos nos lá ocupando a área.
    Nesses últimos 10 000 anos, o mediterrâneo já secou e já encheu, o mundo congelou umas duas vezes, o mar já subiu seu nível e já desceu uma 4 vezes e nos, homo sapiens, por aqui, puxa o olho, branqueia a pele, muda o que precisa e boa. :).
    Já passamos por tanta coisa. Mas não estou falando que vai ser fácil, só que vai ser. 😉

  10. bem… em último grau temos a suprema das fugas…
    o Espaço

    para algumas centenas de nós, claro.

    os restantes biliões, esses, ficarão para trás, a arder no seu próprio Inferno…

  11. Fred

    a fronteira final!!! 🙂

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