Sobre a declaração de voto do PCP a propósito do Tibete

Bernardino Soares
A declaração de voto do PCP na Assembleia da República é um verdadeiro primor de demagogia, inconsistências internas e deveria ser para todo o sempre afixada nos anais da infâmia de modo a servir de exemplo para as gerações futuras.

Intitulada:
“Tibete: Declaração de voto do PCP na AR”
Quinta, 27 Março 2008″

A peça é da autoria do deputado Bernardino Soares e pretende dar expressão à Teoria da Conspiração segundo a qual a revolta popular no Tibete não é espontânea, mas o fruto de uma elaborada conspiração elaborada por esse arqui-vilão maquiavélico e imensamente cerebral que é o Dalai Lama. Por estranha e rara coincidência a posição pública do PCP coincide com a do Politburo do Comité Central do Partido Comunista chinês. Coincidências.

No essencial, o PCP acredita que tudo não passa de “uma grande operação contra os Jogos Olímpicos de Pequim“. Ora, se o é, então é uma “operação” que começou em 1959 com a invasão do exército Vermelho…

Eis a dita declaração, comentada ponto a ponto:

“Senhor Presidente,
Senhores Deputados,”

“O voto apresentado sobre acontecimentos no Tibete, traz considerações das quais discordamos, assentando em pressupostos que, reproduzindo mensagens difundidas internacionalmente (incluindo imagens de acontecimentos de fora da China apresentadas como tendo aí ocorrido), não correspondem com rigor à realidade.”

Bernardino Soares (BS) refere-se às imagens de manifestações na Índia e no Nepal onde os exilados tibetanos têm sido severamente reprimidos (especialmente no Nepal). Temos seguido essas notícias e não me recordo de ter visto em nenhum canal de televisão essa confusão. É certo que como a China fechou a fronteira tibetana e não há agora jornalistas estrangeiros a trabalhar no Tibete ocupado, as imagens da revolta escasseiam e as agências internacionais apresentam aquilo que conseguem captar, que são imagens de manifestações fora do Tibete. Talvez se não houvesse Censura na China, BS se pudesse queixar menos de imagens de manifestações captadas apenas fora do Tibete… Mas as poucas imagens que conseguem passar o bloqueio da censura chinesa dão boa mostra da violência e intensidade da repressão chinesa. Imagens captadas por telemóveis com câmara, principalmente, uma razão que explica porque é que aliás, os paramilitares estão a revistar mosteiros budistas em busca de imagens do Dalai Lama e de… telemóveis para confiscar. Este é o modelo de sociedade que o PCP defende para Portugal? Um Estado que confisca telemóveis?

“Não está em causa a manifestação de pesar do PCP em relação às vítimas, o seu desejo de que os conflitos tenham uma resolução rápida e pacífica, bem como os seus princípios de defesa da democracia e dos direitos humanos.”

Efectivamente não está. Não há memória de o PCP ter alguma vez defendido a Democracia e os Direitos Humanos no Tibete ou na China. Bem, pelo contrário, sempre que a questão do Tibete se torna mais aguda, o PCP lá vem fazer o frete pelos seus amigos chineses e defender a “Causa” da ocupação imperial Han no Tibete. Ainda recentemente, aquando da visita a Portugal do Dalai Lama, Jerónimo de Sousa tornou a bater-se pela sua garbosa causa da Defesa de um dos regimes mais tirânicos e opressivos do mundo:As instituições devem respeitar, no quadro do direito internacional, as relações diplomáticas com outros países e, nesse sentido, não se pode ter relações económicas, políticas e diplomáticas com certos países e depois procurar contrariar essa perspectiva justa do prestígio das instituições com uma visita de circunstância“, ou seja, não importa que a China tenha invadido o Tibete em 1959 e que desde então tenha executado uma severa política de repressão e de genocídio étnico (pela via da colonização e da esterilização forçada). Ou será que esse “Direito Internacional” também inclui a ocupação militar de um país vizinho? E a repressão tirânica e violenta – até à extinção – de todo um povo? Então, em nome das sacrossantas “relações diplomáticas” com a Indonésia também devíamos ter deixado os timorenses entregues a si próprios? Ou… Espera. Esse caso era diferente. Não havia nenhum PC no poder na Indonésia na altura. A isto chamo eu dualidade de critérios…

O que está em causa de forma cada vez mais clara, é estar em curso uma grande operação contra os Jogos Olímpicos de Pequim, real mola por detrás de uma escalada de provocação e de muitas das falsas indignações a que vamos assistindo na cena política internacional.”

Pois claro. O próprio Dalai Lama tem-se esgotado em declarações públicas a favor da realização dos Jogos Olímpicos de Berlim (perdão, Pequim, não sei porque estou sempre a fazer esta confusão) e estas manifestações surgiram de uma forma espontânea, desorganizada e sem coordenação a partier do governo no exílio, que aliás tem mantido a linha oficial de as criticar e de repudiar tudo o que é expressão violenta contra o opressor chinês.

“É curioso aliás que continue a falar-se do Tibete como território ocupado pela China quando nem as potências que instigam e apoiam movimentos de orientação separatista que estão na origem das acções violentas, de que até o Dalai-Lama já se demarcou, põem em causa a integridade do território da República Popular da China, incluindo o Tibete como Região Autónoma.”

É curioso, pois, BS. É curioso que a China nem procure sequer o diálogo com o Dalai Lama e o insista em designar de “fantoche religioso”, o que é aliás uma atitude muito diplomática e nada arrogante para abrir negociações…. O Tibete foi um país independente durante a maior parte da sua história, até à invasão chinesa de 1950 (vivendo em relativa liberdade autonómica até à ocupação de 1959). E BS deve actualizar-se… O Dalai Lama e o governo tibetano no exílio não defende a “separação” da China, apenas um grau de autonomia que preserver a tradição, a cultura e a religião tibetanas numa região que tem muito pouco de “autónoma” e que é governada com mão-de-ferro por governadores enviados directamente de Berlim (perdão, Pequim).

“Isso vem aliás acompanhado em geral de uma sistemática deturpação dos acontecimentos históricos. Seria preciso lembrar, para reintroduzir algum rigor, que desde o século XIII que o Tibete está unido, com diversos graus de autonomia à China, e que no início do século XX a região foi invadida pela Grã-Bretanha a partir da Índia. Seria até preciso lembrar que, à época da revolução popular chinesa, em 1949, vigorava no Tibete um regime feudal onde a maioria da população era constituída por servos e escravos, com uma forte concentração da terra e dos meios de subsistência, ou que o actual Dalai-Lama, antes de se assumir como dirigente do chamado governo no exílio, integrou ele próprio a 1ª Assembleia Nacional Popular da China que elaborou a constituição chinesa.”

Falso. A menos que para o PCP os imperadores mongóis que conquistaram no século XIII a Ásia e entre ela a própria China e o Tibete, fossem chineses… E se depois houve vários graus de autonomia no Tibete, mas sempre mantendo a independência do governo local ainda que com tropas chinesas, após a invasão anglo-indiana de 1906, o Tratado sino-britânico de 1906 estipulava que “o Governo da Grã Bretanha compromete-se a não anexar o território tibetano nem interferir com a administração do Tibete. O governo da China também se compromete a não permitir que nenhum outros Estado estrangeiro possa interferir com o território ou com a administração interna do Tibete.” De qualquer forma, o tal “regime feudal” que efectivamente vigorava então não é hoje o defendido pelo governo tibetano no exílio e dizer tal coisa é a mesma coisa que dizer que a Rússia comunista também defendia um regime feudal porque este era o vigente ao tempo da queda do Czar…

“Neste processo invocam-se e inventam-se argumentos para justificar actuais e futuras linhas de confronto e de afronta ao direito internacional com origem nos mesmos de sempre, aqueles que já há cinco anos não se coibiram de também inventar a existência de armas de destruição em massa, como suporte de uma guerra que destruiu o Iraque e impôs incontáveis sacrifícios ao seu povo.

Portanto, segundo esta teses a presença de 8 milhões de chineses Han no Tibete (contra 7,5 milhões de tibetanos), a repressão cuja memória está ainda tão viva no contexto destes incidentes recentes e que têm resistido a todas as pressões e ao reforço massiço de contingentes militares, assim como o genocídio cultural e religioso de todo um povo são “maquinações dos EUA”?

“É por isso que assume especial importância neste caso o respeito pelo direito internacional, tantas vezes violado para dar lugar a acções de ingerência directa ou indirecta procurando impor interesses estratégicos e económicos.”

E porque não tem manifestado de forma tão veemente o PCP a propósito da repressão e aos massacres no Darfur e à repressão da revolta popular na Birmânia? Será porque esses dois países estão na esfera dos “interesses estratégicos e económicos” de Pequim?

“É por tudo isto que não votamos o voto apresentado.”

Por tudo isso e porque o PCP ainda continua a acreditar que o modelo de sociedade que defende tem sempre que ter um “exemplo prático” algures. Antes era a Rússia estalinista, depois a de Gorbachov… Agora a China comunista. Se ela caísse, onde encontraria o seu modelo de “paraíso na Terra”?

Fonte:
PCP

Categories: Budismo, China, Política Internacional | Etiquetas: | 8 comentários

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8 thoughts on “Sobre a declaração de voto do PCP a propósito do Tibete

  1. Anónimo

    Humm… interessante… Alguém pode dizer qual a opinião do BE ?
    Não deve ser assim tão diferente…

  2. “””Se ela caísse, onde encontraria o seu modelo de “paraíso na Terra”?”””

    Brandoa?
    Buraca?
    Damaia?

    (obviamente estou a brincar…)

    Quanto ao post a posição do PCP não merece qualquer tipo de apoio e só demonstra que estão completamente a leste de qualquer lógica normal de se pensar.
    Não saem dali e não sabem mais que aquilo.

    Mesmo que fosse uma arqui conspiração do Dalai Lama, nada justificaria a repressão da maneira como ela foi feita.

  3. Anónimo: Por acaso, acho que não… O BE esse sim, tem sido consistente e tem estado muito ao lado dos Direitos Humanos na China e no Tibete ocupado e não se tem coíbido de publictar essa sua posição:
    http://beparlamento.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=739&Itemid=34

    DissidenteX:
    E nem se percebe bem a lógica… Qual será? O PCP ainda não percebeu que o PCC nada tem de comunista? Parece que não?… Ou será que apenas pretendem demonstrar que ainda existem “países comunistas” no mundo e que os defendem, apenas porque o são? Não sei. É incompreensível e profundamente lesivo de uma história de defesa da Liberdade, da Dignidade Humana e de Luta contra a Ditadura. E depois admiram-se de estar em decadência…

  4. Clavis:

    “””O PCP ainda não percebeu que o PCC nada tem de comunista?”””

    Não!

    Tu dás a resposta a ti próprio. 🙂

    Realmente eles não perceberam.

    A única coisa que é incompreensível é o facto de ser incompreensível como é que este pessoal não percebeu nada.

    Mais: sei que existiram militantes que entregaram o cartão e saíram por causa disto.

    Solução do PCP: são hipotéticamente, revisionistas ou burgueses…

    Isto é absolutamente de bradar aos céus mas estas pessoas ainda não compreenderam que a China nem sequer é já actualmente um país comunista.

    É outra coisa qualquer indefinível , mas não é comunista.
    E no entanto…

    E a minha posição em relação ao JO é clara. Boicote aos mesmos.

    A China tem que levar um aviso e tem que ser já.

    Está-lhes a ser dada a impressão que podem fazer tudo o que querem e ninguém se irá opor e isso é muito perigoso.

    Já nem escrevo isto por questões ideológicas, ou outras, mas sim por puro bom senso.

    Nota lateral: o mesmo PCP que tanto fala em defesa dos “trabalhadores” nada diz acerca das condições de trabalho desses mesmos trabalhadores a China.

    Isto é o descrédito total.

  5. HSMW

    “”É outra coisa qualquer indefinível , mas não é comunista.””
    Hummm… Mais uma ideia interessante.
    Então qual a ideologia do regime de Pequim? Neo-Socialismo / Comunismo ?
    E esqueci-me de por o “nick” no primeiro tópico…

  6. DissidenteX:
    “A única coisa que é incompreensível é o facto de ser incompreensível como é que este pessoal não percebeu nada.”
    É impossível descrever melhor a posição do PCP sobre este assunto…
    E sim, esse é que o cerne da questão! Se a China aprender que depois de toda esta contestação e revoltas (que duram ainda hoje, apesar de toda a dura repressão!) nada mudar, então vai aprender que tem as mãos livres, que pode fazer o que bem entender ao seu povo e aos povos que anexou, porque o seu poder económico tal lhe permite!
    Essa lição não pode ser aprendida! Se o fôr, pagaremos todos o preço, mais cedo ou mais tarde!

    HSMW:
    Nem sei… Numa entrevista que vi recentemente a propósito da poluição na China (um problema tremendo, ali) um membro do PCC afirmava que “claro, somos ainda comunistas”. mas nos actos de repressão, censura e sobretudo no que concerne à redução dos direitos laborais (com progresso recentes, ainda assim), nada se assemelha a um regime “comunista”. Na antiga URSS também havia censura e repressão, mas na actualidade, tal já não devia existir, sobretudo num mund globalizado e onde tudo é – cedo ou tarde – conhecido.
    A China é um regime “pragmático”… deixam a Economia correr, desregulado, mantendo um Estado Minímo bem ao gosto da Escola de Chicago (na cobertura social e de saúde) desde que os privilégios e o poder da élite reinante… não sejam ameaçados.
    De ditadura do proletariado, tornou-se em… Ditadura de um Partido. Que apenas por mero acaso se diz ainda hoje “comunista”.

  7. Clavis: a China, e não só por causa do poder económico, necessita de levar um sério aviso.

    Fazendo a transposição para a situação dos dias de hoje, dando o desconto, mas comparando com os anos 20 a China está mais ou menos na situação da Rússia e Alemanha nessa época( mais Alemanha…

    é um embrião.

    HSMW

    É reconfortante para o espírito classificar a China como sendo comunista.

    Dá-nos conforto mental e tranquilidade, mas um país comunista nunca tem actividades de mercado como a China tem e a partir do momento em que existem 46 multinacionais chinesas a operar no mundo inteiro e na China isso desqualifica imediatamente a China de ser classificada como país comunista.

    Fora a organização económica interna. Que é um misto de feudalismo, comunismo capitalismo, anarquia, burocracia,etc…

    Portanto aquilo é qualquer indefinível.

    É melhor irmos para a lógica de classificação política e classificarmos aquilo como um regime totalitário.

    E com tendência atentar expandir-se, e não só pela questão do Tibete.

  8. E é precisamente isso que mais preocupa… essa apetência para a Expansão. Eu sei que enquanto forem uma economia exportadora, o mundo está seguro, mas não estamos mais em época de expansionismos puros. Só que podem alimentar regimes idênticos (com repressão, censura e escassos direitos humanhos) por todo o mundo nada interessa menos ao mundo do que ter uja superpotencia amoral.

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