Jerónimo de Sousa e a Revolta no Tibete: Contradições e Interrogações


(http://wehavekaosinthegarden.blogspot.com)

Dizem-me que existe tamanha anomalia como ser budista e comunista e eu pasmo. Pasmo porque ouvindo as declarações do secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, tal monstruosidade não parece possível. Como pode um militante do PCP, doutrinado e seguindo sempre fiel e fervorosamente a bitola compassada emanada a partir do Comité Central divergir do pensamento de grupo e acreditar que os presentes acontecimentos no Tibete não emanam directamente de ordens elaboradas, de um plano maquiavélico e calculista definido em Dharamsala, pelo governo tibetano no exílio?

Não que este tipo de declarações sejam uma novidade por parte do PCP ou dos seus dirigentes… Durante décadas os partidos comunistas mais ou menos estalinistas elegeram países “comunistas” como sociedades-modelo, e quando estes tombaram um após outro, depois do colapso da URSS, partidos mais ortodoxos como o “nosso” PCP ficaram reduzidos a admirar os dúbios modelos sociais das autocracias norte-coreanas e do imperialismo chinês. Agora, confrontados com uma revolta popular generalizada no Tibete contra a ocupação chinesa (Han) e contra uma colonização demográfica, cultural e religiosa galopante, nada mais resta aos dirigentes do PCP (e aos seus fiéis e acefalizados militantes) do que repetir o Dogma sagrado da defesa dos interesses do regime “comunista” chinês e alegar que a revolta dos tibetanos nada mais é do que uma tentativa de “comprometer” a realização dos Jogos Olímpicos em Pequim.

Para o ortodoxo Jerónimo de Sousa, a revolta tibetana (mais uma entre centenas, raramente noticiadas, desde 1959) é uma “tentativa política de comprometer os Jogos”. Como “política” refere-se a que a revolta não brota dos sentimentos e frustações de um povo tornado em minoria étnica dentro do seu próprio país, mas como uma orquestração calculada “politicamente” para alcançar determinados fins que seriam os de abalar o prestígio internacional desse autêntico portento dos direitos humanos, da democracia, da liberdade de imprensa e de expressão, esse país que não auxilia economicamente nem militarmente nenhuma ditadura ou regime tirânico como o de Burma ou do Sudão, que é a… China.

O mais curioso é que Jerónimo de Sousa emitiu estas declarações precisamente na inauguração de uma exposição sobre a invasão americana do Iraque. Estupidamente, anulou com elas, qualquer efeito que a mesma pudesse ter, já que a absurdidade e acefalia das mesmas fez esquecer qualquer efeito da exposição. E expondo algumas das numerosas contradições comunistas, segundo as quais há “invasões boas” e “iinvasões más”. Ou seja, a invasão chinesa do Tibete foi “boa” (para o PCP) e a invasão americana do Iraque foi “má” (para o PCP), quando de facto, qualquer invasão é má, porque viola o Direito Internacional (que contraditoriamente o PCP também defende no Kosovo) e os direitos nacionais dos povos invadidos.

Jerónimo afirmou ainda que era preciso “não haver precipitação no julgamento dos factos”, não sem antes se ter precipitado a concluir que “se tratava de uma manobra política para prejudicar os Jogos”. Ou seja, para além de “invasões boas” e de “invasões más”, também há “precipitações boas” e “precipitações más”, no entender do Secretágio-Geral…

Não satisfeito, Jerónimo continuo o voo a pique nas suas declarações… Falou de “notícias contraditórias” aludindo provavelmente aquelas oriundas dos media estatais e censurados chineses (entre os quais os “jornais tibetanos” e as “televisões tibetanas” da RTP e da SIC que de facto não passam de instrumentos do ocupante chinês no Tibete) e referindo ainda o hipotético “respeito pelo Direito Internacional”, comparando o incomparável, ou seja a declaração de indepêndencia do narco-estado kosovariano com um Estado que era independente quando a China o invadiu em 1959. Aqui, de novo, há o “respeito bom” e o “respeito mau” ao Direito Internacional, aparentemente…

E prosseguindo a estratégia de voo picado a-la-Stuka, Jerónimo concluiu declarando que o “Dalai Lama já não defende os protestos”, como se alguma vez SS o Dalai Lama, tivesse defendido protestos violentos nalgum lado ou Tibete, em particular e como se… Jerónimo de Sousa fosse agora o porta-voz do governo tibetano no exílio.

Fonte:
Público

Categories: Budismo, China, Política Internacional, Política Nacional, Portugal | Etiquetas: , | 6 comentários

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6 thoughts on “Jerónimo de Sousa e a Revolta no Tibete: Contradições e Interrogações

  1. sa morais

    Também estive para usar essa imagem e também me veio à ideia esse estupida contradição de Jerónimo: só alguns merecem a liberdade… Que moral tem Jerónimo para falar do Bush e da invasão do Iraque? Nenhuma! Estes tiques ficam-lhe muito mal e retiram-lhe credebilidade.

  2. Não diria melhor.
    Agora, a cassete vem com não se devem confundir DESPORTO com POLÍTICA
    mas são os mesmos que aplaudiram a exclusão da república da África do Sul
    de competir (justamente) nos J.O. devido ao Apartheid.
    O direito à Autodeterminação e Independência para os Estalinistas depende
    do REGIME OPRESSOR: se for Comunista esse direito não é concedido.

  3. “De todas as teorias econômicas modernas, o sistema econômico do Marxismo é fundado em princípios morais, enquanto o capitalismo só está relacionado a ganho e rentabilidade. O Marxismo está preocupado com a distribuição de riqueza em uma base igual e na utilização eqüitativa dos meios de produção. Também está relacionado ao destino das classes de trabalhadores – quer dizer, a maioria— como também ao destino dos que são desprivilegiados e em necessidade, e o Marxismo se preocupa com as vítimas da exploração imposta pela minoria. Essas são as razões das atrações do sistema para mim, e parece justo.”
    Dalai Lama

    • Mas pode o capitalismo incluir em si mesmo uma logica redistributiva?… O modelo social-democrata, o estado-providencia e as democracias nordicas, indicam que sim.
      Mas as suas presentes dificuldades mostram tambem que estes modelos sao incompativeis com a globalizacao neoliberal e a desregulamentacao que hoje carateriza o comercio internacional…
      ‘E aqui que o marxismo e o capitalismo se devem cruzar: na social-democracia e pela correcao no sistema financeiro e da globalizacao.

      • O neoliberalismo e a desregulamentação financeira só produziram porcarias. São o avesso, o extremo oposto ao comunismo – e nada que é extremo leva a alguma coisa. Ainda há muito espaço para a social-democracia.

        • Sao o capitalismo selvagem mascarado de “civilizado”.
          E que apesar do “estouro” de 2008 ainda nao foi domado! E isso ‘e o meu maior espanto!

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