Em defesa do Acordo Ortográfico de 1990… Sim, alguém o tem que defender, algures…

Depois de décadas de hesitação, o Governo aprovou finalmente o chamado “segundo protocolo modificativo” ao Acordo Ortográfico de 1991. Desta feita, ao invés do dilatado e desleixado prazo de 10 anos proposto pela ministra de Má-Memória-Lima, lança-se um prazo realista e bem mais adequado, de seis anos (ver AQUI ), provavelmente numa das primeiras marcas que na política deixa o novo ministro da Cultura, António Ribeiro. A decisão governamental terá ainda que ser submetida ao Parlamento e à Presidência, mas num e noutro caso, tal não deverá impedir a sua aprovação.

Há efectivamente necessidade para um período de adaptação porque os editores portugueses – ao contrário dos brasileiros – ainda não fizeram o devido trabalho de adaptação dos seus livros e edições à nova grafia e porque é necessário reimprimir todos os manuais escolares e distribuí-los a todas as escolas… De qualquer modo, existe ainda muito trabalho de divulgação a fazer. O texto do acordo (que consta no final deste texto, retirado directamente do site da universidade canadiana da British Columbia…

Sabemos que na blogoesfera e na opinião pública portuguesa a opinião dominante quanto a este Acordo é predominantemente negativa. A nossa posição é diametralmente oposta, o que de resto, não deixa de ser um traço dominante das posições que por aqui vamos assumindo. O acordo vai facilitar o ensino da língua e da grafia do português onde os níveis de alfabetização são mais baixos, em África e em Timor.

Citações Pelo Acordo:

«Para um país como Angola é muito importante aplicar o acordo, porque este vai fazer aumentar a circulação do livro e facilitar a aprendizagem e a alfabetização, que é, neste momento, a coisa mais premente para Angola e Moçambique.»
José Eduardo Agualusa, escritor angolano

«A gente quer marchar com Portugal. Avançar sem ele não faria sentido. O acordo, que é para unificar, já nasceria desunido, se o acto de adopção fosse isolado.»
Godofredo Oliveira Neto, escritor brasileiro

«A indefinição de Portugal está a emperrar o processo. Não se percebe e não quero admitir que os adiamentos sejam motivados pelos receios de ‘brasileirização’ da língua.»
Emerson Inácio, professor brasileiro

«É verdade que os brasileiros se prepararam. Nós não tivemos nenhuma política de defesa da língua, não tivemos uma política de expansão da língua no estrangeiro, não fizemos o trabalho de casa. Não vale a pena ser conservador quando não há nada a conservar.»
Francisco José Viegas, escritor português

«Eu creio que há aqui um medo estúpido de que o Brasil, através da ortografia, reconquiste os países africanos de língua portuguesa e os leve para o seu lado.»
João Malaca Casteleiro, linguista português

«A mudança deve começar na sala de aula e quando a nova ortografia chegar às escolas, toda a sociedade se adequará.»
Lauro Moreira, representante brasileiro em Lisboa na CPLP

«Não faz sentido que nos eventos internacionais, seja preciso redigir dois documentos (…) com a grafia de Portugal e a do Brasil.»
Marcos Vilaça, presidente da Academia Brasileira de Letras

 

«Seria muito importante, do ponto de vista editorial, que Brasil e Portugal estivessem juntos quando se formalizar a adopção do Acordo Ortográfico.»
Celso Amorim, ministro brasileiro das Relações Exteriores
Citações Contra o Acordo:

«Não vai mudar a fundo as coisas. As implicações que isso tem do ponto de vista económico sempre sobram para os países mais pobres.»
Mia Couto, escritor moçambicano

«O Acordo abre a porta ao Brasil nos países africanos, onde até agora não conseguiram entrar (…). Isto serve para beneficiar a indústria editorial brasileira. Como eles já têm tudo adaptado ao acordo, assim que entrar em vigor avançam imediatamente.»
Vasco Graça Moura, escritor português

«Os brasileiros têm um problema, nós não. Isto é um favor que a diplomacia portuguesa está a fazer à brasileira, e é triste que a língua sirva de moeda de troca.»
Vasco Teixeira, editor português

«Não trará nenhum ganho claro e lógico.»
Maria Helena Novaes Rodriguez, professora brasileira

 

Fonte: ciberduvidas.sapo.pt

O que parece esquecido hoje é que este Acordo Ortográfico já foi assinado em 1990 (curiosamente sob a batuta reinante do nefando Pedro Santana Lopes). Na época, o texto exprimia que o Acordo só ficaria em vigor depois de ratificado por todos os países de língua oficial portuguesa, e só posteriormente, no seio da CPLP é que se alterou o grau de exigência, reduzindo-o para apenas 3 ratificações. A recente ratificação do dito pelo pequeno (mas assim tornado sumamente importante) São Tomé e Príncipe, juntando-se assim ao Brasil e a Cabo Verde, que já o haviam ratificado tornou o acordo de 1990 efectivo a todos os seus signatários, Portugal incluído! Ou fazemos letra morta dos compromissos assinados em 1990, com os custos de perda de influência na cena internacional lusófona que inevitavelmente decorreriam e com a retirada a favor do Brasil da nossa presença na lusofonia e no campo da cultura lusófona, ou honramos os compromissos, ratificamos também o acordo e passamos à fase seguinte que é a de nos adaptarmos ao dito e preparmos um novo protocolo modificativo que eventualmente possa limar as derradeiras arestas deixadas em 1990.

Saibam também aqueles que vêm este Acordo como uma cedência generalizada aos interesses do Brasil, que se neste momento o texto do Acordo não está já em vigor pleno e completo tal deve-se apenas a uma atitude de moderação e contenção por parte dos nossos irmãos de além Oceano que se têm abstido de o aplicar enquanto – pelo menos – Portugal não o aplicar também, numa atitude de deferência e respeito que dizem muito da relação muito especial que nos vai ainda unido, contra e a favor dos ventos da História.

É que esta anomalia que é a inexistência de uma única grafia do português, num mundo onde esta uniformidade existe no espanhol, francês, inglês e até no árabe tem que terminar… Por força da força e do vigor económico e demográfico do Brasil, com os seus 180 milhões de habitantes, uma proporção esmagadora entre o total da lusofonia e que dá uma boa medida da grandeza histórica que foi um pequeno e longínquo país como Portugal ter sido capaz de forjar uma realidade tão maior e longínqua. Este peso relativo do Brasil poderia fácilmente fazer com fosse sua a missão e o dever de estabelecer a norma ortográfica do português. É certo que a matriz é portuguesa (de Portugal), mas a língua portuguesa não é nossa (portuguesa) desde que a levamos para fora das nossas fronteiras e desde que o Brasil reclamou e obteve a sua independência. Portugal, não tem assim, nem a força moral, nem a força económica ou demográfica para fazer vergar o resto do mundo lusófono à sua vontade “imperial”. Portugal, como os demais sete pólos da lusofonia tem que saber negociar, comungar e partilhar essa coisa preciosa e única que é a nossa língua, saber respeitar, acarinhar e até promover as riquezas e diversidades regionais da mesma, mas promover uma grafia única e uniforme que facilite a Educação, o ensino do português e a chegada do Livro lusófono a um número cada vez mais crescente de gentes e países, colmatando as grandes e importantes barreiras ao desenvolvimento humano e económico dos países lusófonos (Portugal incluído) que são as deficientes estruturas educativas e formativas.

O estabelecimento de uma forma única de escrever o português iria facilitar o reconhecimento do português como uma das grandes língua da cena e da diplomacia internacional e até servir de argumento adicional para aqueles que defendem que o Brasil deve ocupar um lugar permanente no reformado Conselho de Segurança da ONU que se prepara para os próximos anos e que poderá dar a Portugal e à lusofonia um lugar de primeiro plano na diplomacia internacional.

Os receios que muitos portugueses sentem perante o Acordo prendem-se com a convicção de que com o Acordo, Portugal perderá (para o Brasil) ainda mais influência na cena internacional. Mas sejamos sinceros: Economicamente, demograficamente e até cientificamente, isso não acontece já? E tendo em conta o peso relativo dos dois países, isso não é perfeitamente natural? Não há agora como persistir em resistir ao Acordo. A eterna imobilidade que caracteriza os nossos governantes não tem mais sentido: o Acordo já está em vigor, e Portugal ou se afasta dos demais países lusófonos e alinha com eles, ou persiste num isolacionismo cultural que a prazo, e perante o gigantismo da população e da dinâmica da Economia e Cultura brasileira o acabará por extinguir e tornar num apêndice de uma Europa que tem tão pouco de “portuguesa” e tanto de “germânica”.

Um factor de está a criar resistência ao Acordo é a conhecida resistência à mudança que caracteriza a nossa matriz cultural… Se sempre escrevemos “assim” porque teremos que mudar? Apenas porque “eles” (os brasileiros) acham? Este conservadorismo cultural encontra-se em todos os sectores do espectro político luso, desde a Esquerda radical (onde militam os mais acérrimos detractores da Globalização) até à mais Extrema das Direitas (onde os “nacionalistas” temem a absorção da antiga metrópole pela ex-colónia). Outro ainda é aquele receio meio visceral de quem teme que cede a terceiros a “sua” língua, como se o português fosse coisa estritamente “portuguesa”… Na verdade, já deixou de o ser há muito, e ainda bem, porque tal cedência enriquece a língua e garante a sua perenitude e influência neste mundo globalizado tão rápido e dinâmico como o actual… Se o português fosse estritamente uma “coisa portuguesa” estaria hoje definhando a par com a nossa definhante economia e demografia, tão desorientado como está o Portugal “europeu” e lacaízado aos senhores do norte da Europa. Sendo coisa universal, e assente em grande força em terra brasílica, o português pode florescer e universalizar-se para além desta finisterra europeia onde Portugal se encontra encastrado. E que história é esta da moratória que os editores reclamavam ter que ser de uma década e que agora – de forma bem mais avisada – o novo ministro da Cultura entende ser de seis anos? É que tal moratória poderia dar aos editores tempo para alterarem todas as suas edições, mas no entretanto, o Brasil (que já tem edições alteradas) estaria a exportar livros para a restante lusofonia… neste contexto, cada ano “moratorizado” é um ano perdido, e os nossos editores deviam parar de clamar por tantas moratórias e começar já a trabalhar nesta aérea… sendo neste contexto reclamar por uma qualquer forma de subsídio…

Bem, talvez a conferência internacional que no Parlamento português vai reunir em 7 de Abril representantes da Academia de Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Letras, precisamente as duas instituições que organizaram o acordo de 1991. A conferência será animada… já que estará presente Graça Moura, um dos mais mediáticos adversários do Acordo e representantes dos editores portugueses que se têm manifestado contra o mesmo. José António Pinto Ribeiro, o novo ministro da Cultura já se exprimiu claramente a favor do Acordo: “O que se trata de assegurar – acrescentou o ministro – é que as vantagens da fixação ortográfica de uma língua não tenham consequências ao nível da liberdade criativa, da pluralidade de discursos. Penso que isso é relativamente fácil de assegurar“, mas não se prevê que participe na conferência (infelizmente, já que isso daria um peso institucional ao debate) (ver AQUI)

E afinal… Em que consiste mesmo este Acordo? (de uma forma muitíssimo sumária…)

1. As consoantes que não são articuladas vão desaparecer:
c em acção
p em óptimo

mas com excepções, quando a dita consoante num dado país é afinal pronunciada de forma mais ou menos comum. Será o caso de facto e convicto, por exemplo… Por isso que se calem os críticos que têm usado o “fato” / “facto” como argumento para a sua oposição a este acordo…

2. Os acentos gráficos – por regra – não sofrem alterações quase sem excepções, sendo estas a inexistência da actual obrigatoriedade para acentuação em:
pára, péla, pêro, dêmos, amámos, terminações verbais em -êem e para o ditongo ói (somente em paroxítonas). O conhecido e polémico caso dos António e Antônio não é um problema, já que ambas as grafias são aceitáveis e permitidas no novo Acordo…

3. Algumas – pequenas – alterações no emprego do hífen e das maiúsculas.

4. No Brasil – e para quem defende que aqui nada muda, e que Portugal se limitou a ceder aos seus interesses – há alterações específicas. O trema cai, caso de vôo -> voo.

E brevemente… Publicarei aqui o texto integral do Acordo Ortográfico, já que ele parece andar arredado da Internet lusitana…

Publicado também em Nova Águia

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Categories: Brasil, Educação, Movimento Internacional Lusófono, Política Internacional, Política Nacional, Portugal, Sociedade Portuguesa | Etiquetas: | 10 comentários

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10 thoughts on “Em defesa do Acordo Ortográfico de 1990… Sim, alguém o tem que defender, algures…

  1. André Porto, Aluno português

    Isto dá-me vontade de chorar eu estou completamente contra… De facto fica mais facil, mas nós não temos de olhar só para as facilidades temos de tentar preservar o que é nosso, cada vez temos menos. A lingua portuguesa já mais deveria ser alterada e também acho que o povo devia não só opinar acerca deste assunto, mas também poder votar alingua é nossa não são só os ministros que dicidem.

  2. André:
    A língua não é “nossa” no sentido de que não é só portuguesa de Portugal, é de todos os que a falam no mundo.
    E a língua não é alterada por este Acordo, apenas a sua grafia e mesmo essa, apenas em 1,6%…
    E povo opinou… votou em que assinou em 1990 e agora ratificou em 2008. Os políticos que assinaram, foram eleitos. Se a maioria desse povo se absteve ou desconhecia os programas partidários (o que é certo) então é outro problema…

  3. Anónimo

    Como professor desta área, acho que este acordo já devia ter entrado em vigor há 10 anos. Se queremos continuar a ser a 3ªlíngua ocidental mais falada no mundo, temos que nos ajustar em termos linguísticos.
    O ESPANHOL, fala-se de um modo diferente em todo o mundo mas escreve-se da mesma forma e é isso que tem que acontecer na nossa língua.
    O acordo só vai fazer com que coisas que já não deveriam existir, desapareçam de vez. Já houve 4 acordos ao todo. Sabem como se escrevia “lírios” antes do primeiro acordo? Era “Lyrios”. A minha avó escreve Pharmácia em vez de Farmácia.
    Não estamos a perder nada de mais, pois todos os anos as língua ganham e perdem vocábulos. A língua está em constante mudança.
    Deixem estas coisas para quem percebe e não mandem “bitaques” sem sentido.
    É assim, os velhos do Restelo sê-lo-ão até morrer.

  4. João

    Aliás, o Brasil (200.000milhões da habitantes) estão a recuar mais do que nós.
    Sabem o que aconteceu entre o holandês e o africaanse? (línguas iguais) Separaram-se por não haver acordo nenhum. Se não houver acordo o português de Portugal e o português do Brasil, no futuro ir-se-ão separar.
    Pensem nisto.

  5. já pensamos (no MIL) e por isso mesmo lançámos a :
    http://www.gopetition.com/online/17740/signatures.html

    que o convido a assinar, caro João…

  6. rafael oliveira

    eu acho uma idiotice opor-se ao acordo ortográfico vigente. acabei de ler o texto e vi que as novas regras são um meio termo entre o português brasileiro e o lusitano. as novas regras irão alterar 0,5 % do vocabulário brasileiro e 1,6 % do vocabulário lusitano.haverá dupla grafia, como facto/fato, sector/setor, sumptuoso/suntoso, etc. a unificação ficará em torno de 98% do vocabulário. união que traz benefícios e maior integração entre os países lusófonos. algo semelhante ocorre com a língua espanhola, que apesar das inúmeras variedades e dialetos, existe uma única regra ortográfica. essa oposição ao acordo é puro orgulho e conservadorismo de algumas pessoas mal informadas.

  7. de acordo (obviamente).
    neste questão,k como em tantas outras, a falta de informação e a desinformação reinante é ponto fundamental.
    por isso dediquei tantos artigos a este tema, por aqui…
    já assinou esta petição?
    http://www.gopetition.com/online/17740.html

  8. Felipe Oliva

    O problema não é de palavras mas sim de números:

    Português falado no mundo:

    Brasil 79% 190 mi de pessoas
    Moçambique 8% 20 mi
    Angola 7% 16.9 mi
    Portugal 4% 10.6 mi
    Guiné Bissau 1% 1.4 mi
    Timor Leste .5% 0.5 mi
    Outros .5% 0.5 mi

    A língua só serve para uma coisa: Se comunicar.

    Portugal pode sim decidir que não adotará a padronização e ficar falando sozinho até o dia em que por força da economia e da globalização as pessoas cada vez mais tenham que utilizar linguas estrangeras como o Inglês, Alemão e Espanhol e o Português simplesmente se tornará uma lingua em extinção como ocorreu com o Galês e o Pomerânio.

    A conta de que Portugal precisará alterar 1.6% enquanto o Brasil precisará alterar 5% também esta errada.
    O correto é verificar a alteração sob a ótica da de quem fala o idioma, a população.

    Mudanças x Pessoas

    Brasil = 0.5% de mudanças x 190 milhões de pessoas = Necessidade de alteração de 95 milhões de palavras/pessoas

    Portugal = 1.6% x 10.6 (pop menor que a cidade de São Paulo) = Necessidade de alteração de 16 milhões de palavras/pessoas.

    Portanto não se trata de doação da diplomacia portuguesa Pelo editor “Vasco Teixeira” pois os custos para alteração serão 5.9 vezes maiores no Brasil do que em Portugal…

    Sem falar dos ganhos que as empresas terão de podendo exportar e importar sem custos de alteração no produto, ganhos decorrentes de sinergias informação incalculáveis, se estiver em dúvida se vale a pena ou não busque no Google e veja a quantifique as informações disponíveis.

    Mas é claro que tem gente que vai preferir ficar falando sozinha, fazer o que…. So sorry…

  9. Sr.Clavis..q resistência a cumprir um acordo,é q só trará beneficios a toda a comunidade lusòfona.Q droga.

  10. muita mesmo, por cá…
    a ideia dominante é que os negociadores portugueses cederam demais à grafia brasileira.
    É uma ideia errada , mas poderia ter sido na altura anulada se tivesse havido mais cuidado com o número de palavras alteradas em Portugal. Não houve e este é o Acordo possível.
    Continua a ser um instrumento de aproximação da Lusofonia, causa suprema nesta casa, razão pela qual me bato pelo Acordo de 1990, numa voz que tantas vezes soa a eco, como se estivesse clamando num deserto..

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