Os Invasores célticos e o colapso da Civilização Cónia

É por volta do século V a.C. que as regiões a Sul do Tejo assistem à chegada de vagas de invasores vindos do centro da Península ibérica que criam aquela civilização que nos é actualmente conhecida sob a designação de “II Idade do Ferro”. Seriam estas populações[1] que, mercê das suas repetidas investidas e através de um denso processo de assimilação cultural e linguística levariam ao termo da civilização cónia que elegemos como objecto de estudo. Os enterramentos tumulares, com estelas escritas, terminam, e passam a surgir nas estações arqueológicas rituais de incineração, com recolha de fragmentos ósseos dentro de urnas, reveladores da introdução de novos hábitos funerários. J. M. Arnaud e T. J. Gamito encontram cerâmicas decoradas de influência celtibérica que testemunham essas movimentações de povos em direcção ao Sul a partir da Meseta. Curiosamente, ou talvez não, todas estas transformações deste lado do Guadiana coincidem com a decadência do potentado “tutelar” de Tartessos e com o declínio da presença grega na Península após a vitória cartaginesa na Batalha de Alalia. Quebrado o poder do “protector” tartéssico estes aguerridos povos de matriz celta ter-se-iam sentido livres para avançar para Sul acabando eventualmente por chegar ao Cuneum Ager.

Perante esta invasão assistimos a uma multiplicidade de reacções. Temos por um lado, violações de túmulos e broches de bronze inacabados em vários povoados do Baixo Alentejo, juntamente com cerâmica quebrada e madeira queimada (Fernão Vaz); mas temos também estelas inscritas que foram reutilizadas o que indicia um repovoamento com novas populações. O facto de serem desta época de transição as últimas estelas revela uma descontinuidade cultural com os povos da Meseta, e o abandono de diversos povoados revela novas prioridades de povoamento, mais viradas para o litoral do que para os circuitos comerciais terrestres com tartessos que serviam de base à economia dos cónios. Revela também um grau de violência relativamente elevado nestas movimentações populacionais, um grau demasiado elevado para as pacíficas, não-fortificadas povoações cónias do Cuneum Ager.


[1] Desconhecedoras de qualquer sistema de escrita.

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Categories: A Escrita Cónia, História | 10 comentários

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10 thoughts on “Os Invasores célticos e o colapso da Civilização Cónia

  1. Gostaria de saber se têm conhecimento de alguma fonte (abecedário) para computador que reproduza os caracteres da escrita do Sudoeste (dos Cónios), ou até mesmo de Etrusco.
    A questão prende-se com os trabalhos de investigação do meu tio, Carlos Castelo, http://www.fcastelo.net/cemal/konii.html que o vosso blogue já referenciou. Tal fonte facilitaria em muito a tarefa de impressão de textos explicativos dos seus pontos de vista.
    Grato pela atenção
    F.Castelo

  2. Este tema é dos mais interessantes, para mim especialmente, como apaixonado acérrimo por tudo o que diga respeito aos antepassados cónios da cultura “LUSA” e neste caso, ao meu sonho de localizar CONISTORGIS, depois de já ter visto 9 máscaras funerárias em placas de ouro de aluvião, com teor máximo de 999 milésimas (equiv. a 24 quilates), encontradas em Portugal e nitidamente de profunda influencia grega, mas muito superiores às descobertas em Micenas no sec.XIX !

  3. Luís Teixeira Neves

    Há um relato antigo que nos dá uma explicação para a presença de celtas no extremo noroeste da Galiza. Tudo partiu não mais do que de uma expedição de rapazes à procura de raparigas e a violência descrita nesse relato é muito mitigada. Um desentendimento entre celtas e túrdulos (a expedição era conjunta) resolveu-se (quase) pacificamente através de um combate individual entre os chefes dos dois grupos. É de notar neste caso (que envolve também a fixação de túrdulos no litoral entre Vouga e Douro) o aporte genético não se traduziu aparentemente e de acordo com o registo arqueológico, num aporte cultural. É de notar ainda que estes celtas são já, na origem, mestiços. São descendentes de celtiberos, literalmente, de celtas e de iberos, deslocados para a Bética, para a vizinhança dos túrdulos, onde deram origem à Betúria Céltica com a qual os nossos célticos, cinetes celticizados do Baixo Alentejo, só podem ter conexão.

  4. Luís Teixeira Neves

    Estrabão (melhor do que ninguém), Pompónio Mela e Caio Plínio. Informação de Joel Cleto.

    • Os Itinerários de Antonino, certo? Tenho dois volumes algures por aqui.

    • LTN

      admira-me muito como é que esses geógrafos que viveram tantos séculos depois possam ser levados tão a sério.
      o mundo antigo era muito diferente na questão da conservação da memória e da História…

  5. Luís Teixeira Neves

    Estrabão. Decerto a (sua) Geografia. O livro dedicado à Península Ibérica. É capaz de haver uma versão on-line. Se a encontrar ponho aqui a ligação. Não sei o que pode haver a respeito no Itinerário de Antonino.

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