Língua-hipótese: o Lígure

A par dos pelasgos, os lígures são a outra grande lenda da História europeia. Na verdade, ficamos com a sensação de que sempre que existe um grande mistério que resiste a interpretações – como sucedeu por exemplo com o Hitita e o Etrusco – alguém lança a hipótese pelásguica ou a lígure, e às vezes, ambas. O mesmo havia de suceder inevitavelmente com a Escrita Cónia… Thierry, Michelet e Lagneau foram provavelmente os primeiros a associar os lígures aos iberos. Dentro das nossas limitadas capacidades, encontrámos apenas uma única referência à presença de lígures na Península Ibérica, num extracto de Rufus Festus Avieno em que este escreve: “os Cempsos e os Sefes que possuíam colinas elevadas no campo de Ofiussa, e perto dessas situavam-se o ágil ligur e a descendência dos dráganos”. Avieno informa-nos igualmente de que os celtas teriam empurrado os lígures para fora das suas terras. Será esta uma alusão às incursões célticas que levaram à decadência da civilização cónia? Seriam os cónios, lígures? Seria aliás esta citação a fazer nascer em Mário Saa esta convicção do “ligurismo” dos cónios.

Mas os lígures não se reconheciam pelo nome de “lígures”. Segundo se lê em Plutarco, o seu nome nacional era Ambrones, um nome que efectivamente surge nos topónimos peninsulares de Hambrón (Salamanca), Ambroa (Corunha), Ambrães (Marco de Canaveses) e Ambrões (Porto), isto descobriu Menendez Pidal, o autor espanhol que tanto se esforçou por adivinhar os vestígios da presença lígure na Península Ibérica e por descobri-los por entre as outras camadas étnicas e civilizacionais que se sucederem na Ibéria.

Também de raiz lígure seria o sufixo –asco, presente em topónimos como Vipascum, Velasco e Vasco, Panasco, Rabasco, entre outros locais do actual território português. De origem lígure seria igualmente o sufixo -antia/-entia, utilizado na formação de nomes de rios e de cidades surge em Argança (*Argantia), Palença (*Pallentia) e ainda a terminação -ace/-ice/-oce de Queiraz, Queiriz, Queiris, Queiroz e Quirós.

Sobre os líures, adianta ainda Menendez Pidal: “La toponímia nos lleva a dar credito a los textos griegos que señalam ligures em España, pero esos ligures no poblaron toda España, no constituyeron ningun vasto imperio, no dieron unidad racial ni cultural al Occidente europeu; fueron solo un pueblo emigrante que llegó, no solo al Noroeste de Italia y costa mediterranea de Galia hasta los Pireneos, sino que extendió otras tribos por el valle del Rodano, por todo el Noroeste de España y por algunos puntos del Sur en territorio turdetano. No son los ligures en sentido estricto, estabelecidos en la Liguria y tierras vecinas; traen elementos toponímicos que rebasan mucho por el Este y el Norte los limites de la Liguria histórica y tierras liguricas contiguas: alguno de tales elementos no se halla en esa Liguria histórica y si en terraneo que precedió a los ilirios. En fin, ese pueblo inmigrante no era conocido comunmente con el nombre de ligures, sino con el equivalente de ambrones”.

Omisso quanto ao Sul da Península, Menendez Pidal defendia que o Norte de Portugal, a Galiza, as Astúrias e a ocidente de Leão teriam sido povoadas pelos ambroilírios, um povo de raça lígure. Tivessem ou não estado presentes a Norte, quanto à sua presença a sul graves objecções se colocam. Desde logo, Lopes Navarro aponta com exactidão a principal: para além de elementos puramente filológicos nada mais faz crer na presença de lígures na Península. Além do mais, praticamente não se conhece nada sobre a língua deste povo, pelo que esta hipótese não pode ser considerada seriamente para este estudo.

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Categories: A Escrita Cónia, História | 6 comentários

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6 thoughts on “Língua-hipótese: o Lígure

  1. Luís Teixeira Neves

    Na Orla Marítima não é da Península Ibérica que os lígures são expulsos pelos celtas, mas de algures, mais a norte, possivelmente da Grã Bretanha, a velha Albion,

  2. Luís Teixeira Neves

    É simples. Eram marinheiros. Ver Bronze Atlântico.

    • Mas ate às ilhas britânicas?… mesmo por cabotagem é muito longe… e onde estao os achados materiais desta presença? Viagens isoladas (como aquela que tera deixado moedas romanas na venezuelaz), ok. Mas migracoes?

  3. Luís Teixeira Neves

    Havia um Lago Ligustino no estuário do Guadalquivir, não havia? Os de Tartessos navegavam para as Ilhas Britânicas, não navegavam?

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