Língua-hipótese: o Fenício e as Origens da Escrita Cónia

Desde o começo do Bronze Final que se regista a presença de navegadores do Mediterrâneo Oriental na Península Ibérica. Os fenícios – senhores absolutos do Mediterrâneo nessa época – chegam a estas paragens por volta do século VIII a.C ou mesmo no século X a.C. e impedem a partir de então a chegada de embarcações de outras nacionalidades, cretenses, etruscas e micénicas, nomeadamente. A Península torna-se então território comercial exclusivo das cidades-estado da Fenícia, um papel que só perderiam para o grande império semita do Mediterrâneo: a temível e empreendedora Cartago.

Não são raras as provas da presença de mercadores fenícios no actual território português, as pérolas de vidro, os escaravelhos egípcios de marfim do Tesouro de Gaio e a recente descoberta de um entreposto comercial fenício em Almada são algumas dessas provas. Destes intensos contactos resultarão diversas influências nas populações locais. Elementos religiosos, tais como imagens divinas, amuletos e animais divinizados de tipo oriental são frequentes e já foram bastante bem analisados Mello Beirão e Augusto Tavares, entre outros historiadores que se debruçaram sobre o tema das influências orientalizantes em Portugal.

A própria morfologia dos caracteres cónios também nos indicia a forte influência que estes mercadores fenícios tiveram nas populações indígenas e a intensidade e constância destes contactos torna muito provável a adopção por parte dos cónios de palavras fenícias. Moisés Espírito Santo leva ainda mais longe esta abordagem, ao defender que os cónios eram basicamente colonos fenícios ou hebraicos e propondo a tese segundo a qual a sua escrita seria simplesmente uma variação do alfabeto fenício.

Coloca-se assim a questão: a escrita cónia resultou de um processo de génese e desenvolvimento local ou foi essencialmente o resultado da influência fenícia? Os petroglifos descobertos em Alvão, os seixos ilustrados de Mas d´Azil (Sul de França) e muitos outros sinais geométricos descobertos em Espanha e Itália indicam que as populações neolíticas eram capazes de representar geometricamente conceitos e ideias. Mas não existem indícios suficientes para acreditar (como Lopes Navarro) na existência de um processo de maturação que a partir destes exemplos conduziu à aparição de uma escrita no Sul de Portugal. O nascimento de uma escrita como a Cónia implicaria necessariamente a existência de testemunhos das várias fases intermédias, testemunhos que, contudo, não existem. Aliás, todas as estelas são tão semelhantes que devem pertencer a um lapso de tempo muito concentrado. Não foi encontrado até agora nenhum exemplo semelhante às primeiras inscrições maias, nem à escrita do Sinai (matriz do alfabeto fenício), ganha assim força a tese de A. Augusto Tavares que defendia que a Escrita Sud-lusitânica nascera da adaptação local do alfabeto fenício. António Lopes Navarro defende igualmente que a Escrita Cónio foi o primeiro sistema alfabético do mundo, anterior mesmo ao próprio fenício, mas ao propô-lo ignora a escrita sinaítica, que apresenta em forma embrionário a maioria dos signos fenícios e foi já claramente identificada como a origem do próprio alfabeto fenício.

A importação do sistema de escrita alfabético fenício teve lugar na região meridional da Península, onde a influência fenícia era mais intensa, nomeadamente no reino de Tartessos e sofreu uma adaptação por parte destes turdetanos. A intensidade dos contactos comerciais, culturais e a própria comunhão étnica entre as duas margens do Guadiana influenciou certamente – se não determinou – o próprio processo de adaptação em que os cónios depois se viriam a empenhar. Podemos assim afirmar com alguma segurança que na gestação da Escrita Cónia, tartéssicos e fenícios tiveram um papel igualmente importante, uns como fonte remota os outros como mediadores da transmissão dessa mesma fonte.

Parece fora de dúvida que a Escrita Cónia resultou de um processo de importação e adaptação a partir dos caracteres utilizados pelos mercadores fenícios que frequentavam as cidades cónias. É portanto praticamente certo que a maioria dos signos mantêm o mesmo valor fonético que no fenício. Mas as escritas afro-asiáticas apresentam um traço comum que parece ausente na Escrita Cónia: a não representação de vogais. Com efeito, as escritas hamito-semitas votam as vogais a um papel mais secundário do que as da família indo-europeia. Este papel subsidiário das consoantes não significa que um leitor de uma inscrição semítica não as interpretasse no texto, apesar da sua omissão, como se demonstra: n scrvr vgs (não escrever vogais). Consideramos assim que a Escrita Fenícia esteve na origem da Cónia, mas fica ainda por aclarar a antiguidade desta importação. A fundação lendária da colónia de Gades recua até ao ano 1000 a.C., será então possível que tenha sido nessa data que o alfabeto Caananita ou mesmo Proto-canaanita. Essa é a tese de David Diringer e de Joseph Naveh.

Esta influência seria posteriormente reforçada pelos cartagineses. A Península Ibérica era pelas suas riquezas e densidade populacional a possessão mais importante de Cartago. Para conservar esse império era necessário manter no território uma forte presença militar. Mas a cidade africana estava fortemente condicionada pela sua fraca população… Pelo contrário, as suas colónias eram ricas em recursos e em população e, com efeito, foi da Península que os cartagineses retiraram a maioria das tropas mercenárias que durante três séculos defenderam o seu império marítimo e territorial. Estes mercenários, finda a sua vida militar regressavam às suas terras de origem trazendo consigo a cultura e a língua dos seus comandantes e companheiros de armas. Uma língua derivada directamente do fenício e um sistema de escrita que reforçariam a influência fenícia no “Cuneum Ager”. Mas não devemos confundir este reforço de influência semita/afro-asiático com uma transformação étnico-linguística das populações indígenas que manteriam o seu carácter até à chegada da República Romana, para só então começarem a perder a sua identidade.

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Categories: A Escrita Cónia, História | 2 comentários

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2 thoughts on “Língua-hipótese: o Fenício e as Origens da Escrita Cónia

  1. Carlos A. B. Castelo

    O Alfabeto Konii foi organizado dos signos iconográficos da Arte Rupestre que estão representados e gravados em cerca de 160 grutas do Sul da Península Ibérica na chamada Arte Sureño desde o Paleolítico Superior ! Pode-se ver nas moedas da numismática da Ibéria ainda gravavam-se caracteres de estilo ramiformes e outros mais, que são tão remotos que os feníncios não usava em sua escrita! E nessa época não existiam esse dito povo !Costuma.se dizer que as Trevas mais Densas do ser Humano são as da Ignorância !

  2. Carlos A. B. Castelo

    Ainda em resposta aos artefactos aegypcios encontrados nas sepulturas do povo konii, quero dizer que foi este mesmo povo que trouxe do Aegyptus esses artefactos quando das viagens faziam ás cidades konii construídas no Aegyptus, ainda não existia a cidade Neukratis mandada edificar pelo Pharaon Ahmosis II, que a cedeu aos gregos! Já os konii tinham lá suas cidades tais como EL-Koni a Konaisse e outras. O nome da provincia de Saitic (Saitis) de cujo a famosa cidade abrevida desse mesmo nome que é Sais, foram os konii que deram esse nome ! O primeiro povo da Europa Ocidental a ter sua presença no Aegyptus foram os Konii !
    Por agora vou parar com a narrativa histórica do povo Konii no Aegyptus !

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