Língua-hipótese: o Basco

Sobrevivendo ainda no norte de Espanha e no Sul de França, o Basco é hoje utilizado por cerca de 1,3 milhões de indivíduos (900.000 em Espanha, 130.000 em França e aproximadamente 250.000 na América Latina).

Os testemunhos históricos apresentam-nos exemplos de utilização da língua basca numa área muito mais alargada do que aquela em que actualmente a observamos. Com efeito, na Aquitânia francesa, assim como no Aude e no Gard são conhecidos cerca de três centenas de antropónimos, divindades e nomes de povos registados nas inscrições latinas e que revelam semelhanças com palavras da actual língua basca. Aliás, a própria língua Aquitana, conhecida no Sul de França desde o III século a.C. até ao século III d.C. é associada ao Basco e ocupava uma zona que se estenderia em tempos históricos também à Catalunha e às margens mediterrâneas do actual território espanhol.

Embora surja isolada no seio das línguas europeias – todas elas pertencentes ao universo indo-europeu – o basco pertence à família Dene-caucasiana que a associa às línguas caucasianas, para além da burushaski, sino-tibetana, ienisseica e até a família na-dené registada ainda hoje na América do Norte e Novo México. A extensa área ocupada por esta família revela vestígios de uma época em que as suas populações estavam implantadas numa região muito extensa. Bengtson sugeriu também que o Sumério poderia ser incluído neste grupo, mas linguistas como Merritt Ruhlen discordam devido à falta de um número suficiente de provas. A possibilidade de se tratar de uma longa migração que tivesse percorrido praticamente todo o globo também não deve ser descartada, embora deva ser considerada extremamente improvável.

Aqueles que defendem que a actual língua basca está na origem das línguas registadas nas escritas ibéricas meridionais encontraram uma forte oposição no trabalho que Javier de Hoz que distingue entre a nortenha Escrita Ibérica e a Meridional consoantes sonoras e surdas, um fenómeno que não se encontra nas línguas do Sul da Península. Ora, se a língua grafada fosse a mesma, não fariam sentido estas diferenças… Menendez Pidal escreveu também que as línguas originais das populações bascas e Astures pertenciam a uma família diferente das do Sul e R. Lafon concluiu no seu “Current Trends in Linguistics”, que é impossível defender que o basco é um derivado do ibero. Existem contudo alguns vestígios que permitem assumir que a língua deste povo recebeu algumas influências mediterrâneas, como aquelas palavras bascas que J. Hubschmid, “Mediterrane Substrate” descobriu no servo-croata e nas línguas berberes do Norte de África, uma tese semelhante à que defendia aliás Oliveira Martins.

É hoje tido por certa a filiação do basco com as línguas do Sul do Caúcaso, nomeadamente com as do grupo Kartveliano, e efectivamente, nos dias de hoje os gregos ainda chamam aos georgianos: “iberos”. Existem também alguns linguistas que as relacionam com o Etrusco, sendo este por sua vez relacionado com o Hurrita, este com o Hatti e este último com o georgiano. Tratar-se-ia assim de um grupo de línguas pertencente a um substrato anterior ao próprio Substrato Mediterrâneo (por sua vez anterior às invasões indo-europeias). De qualquer modo, desde os trabalhos de Cavalli-Sforza, publicados em 1994, indicam claramente que os genes bascos revelam uma grande dissemelhança com os dos outros povos europeus, nomeadamente pela abundância de genes RH negativos. A genética vem assim comprovar o carácter exógeno dos bascos na Península e a grande diferença que apresentam em relação às restantes populações peninsulares permitem-nos conjecturar de que se tratava de uma população completamente diversa das restantes e nomeadamente das que habitavam no “Cuneus Ager”.

Se os bascos conseguiram salvar a sua língua das várias invasões que assolaram a Península desde tempos Pré-históricos isso deveu-se essencialmente ao aspecto agreste do relevo do Norte da Península e ao seu carácter aguerrido. Apesar dessa combatividade, Javier de Hoz defendeu que os bascos, embora tivessem originalmente uma língua de raiz diversa, acabaram por adoptar uma variação do Ibero, pelo que hoje encontraríamos no basco moderno uma variação da antiga língua dos Iberos. Fosse como fosse, parece-nos certo que a língua cónia embora possa apresentar alguns paralelismos com o basco, não o tem na sua substância como principal sobrevivente moderno. A existência de palavras semelhantes, resultante das próprias penetrações do Substrato Mediterrâneo e do Ibero no Basco e até à resistência de algumas palavras bascas pertencentes a um substrato étnico pré-norte-africano na língua dos cónias não deve ser contudo descartada, embora remetendo-a para o papel de influência e não de língua-mãe ou de língua-filha.

Categories: A Escrita Cónia, História | 1 Comentário

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One thought on “Língua-hipótese: o Basco

  1. Lingüista

    Creio que não deveria ser atribuído o termo “exógeno” ao povo Basco, na península, pois conforme diz o próprio texto, eles seriam aparentemente descendentes de europeus autóctones.

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