Daily Archives: 2007/10/30

Sobre o Excedente registado no Serviço Nacional de Saúde… Britânico


(Flickr: box-head*)

Nos últimos tempos têm subido de tom os protestos contra os cortes orçamentais no sistema público de saúde britânico, especialmente depois do anunciado… excedente de quase 1 bilião de libras (1,4 biliões de euros)! Com efeito, este excendente vem colocar em causa os cortes draconianos recentes, com o encerramento de vários serviços de urgências, bem ao modo socrático de “conter o Orçamento”, mas aparentemente, sem a mesma sustentação financeira.

Os números são espantosos, especialmente tendo em conta que em 2005/2006 havia um déficit de 547 milhões de libras. De facto, então 80 dos “local trusts” responsáveis pela administração financeira dos serviços de saúde britânicos apresentavam déficits, e agora, essa situação só ocorre em 22. Contudo, destes 22, têm um déficit ainda maior do que em 2005/2006, pelo que nem tudo são rosas… Mas é claro que agora que o sistema público de Saúde britânico é estável e financeiramente sustentável, o que contraria as loas pessimistas de alguns ultraliberais, sempre ansiosos em demonstrarem a falência a longo prazo dos sistemas públicos de Saúde e a “absoluta” necessidade da sua total substituição por um sistema de “seguros de saúde” como aquele que tantos mais resultados (em termos de custos e eficiência) tem dado nos EUA… Sobretudo, este excedente ocorre ainda antes de se terem reflectido no sistema os cortes de urgências ocorridos neste ano, cuja motivação parece agora ser bastante… frágil, para não dizer suspeita.

De uma forma ou de outra, estes resultados indicam que é possível manter um sistema de saúde pública financeiramente equilibrado e prestando um nível razoável de serviços. Por muito que esta conclusão possa desagradar aqueles que defendem a pura e simples supressão do mesmo e a entrega dos mesmos a seguros privados de Saúde…

Fonte: Telegraph

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Quid S3-23: Como se chama este animal?

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Dificuldade: 4

Categories: QuidSZ S3 | 14 comentários

Os Robin Hood do Marrocos e a Tecnologia ao serviço do combate à corrupção

“Um grupo de jovens marroquinos armados de câmaras digitais, está a agitar o país, pondo em causa a poderosa Gendarmerie real: filmaram 4 videos que mostram polícias a receberam subornos, como se fosse um passou-bem, numa estrada com berreiras policiais, e puseram-nos no sítio de partilha de videos na Internet YouTube em Julho.”
(…)
“«Alguém tinha que reagir», disse um dos snipers, entrevistado pela revista Marrquina TelQuel. E porquê colocar os vídeos no YouTube» «Não nos íamos voltar para a Justiça. que não é um modelo de independência. A Internet é muito mais eficaz.”
“(..) mas depois foram publicadas várias notícias dando conta da detenção de vários jovens em Targuist, noticiou a AFP.”

Fonte: Público de 17 Outubro de 2007

Esta história – curiosa porque é uma retoma sobre aquilo que escrevemos aqui acerca da competência da polícia marroquina – é reveladora de que as autoridades aqui e em todo o lado ainda não conseguem lidar com os desafios que lhes são impostos pela Tecnologia… No Irão, os Ayatollhas proibem as antenas parabólicas e os telemóveis com câmaras digitais, na Birmânia, a ditadura militar apoiada pela China, corta as linhas de acesso à Internet… No Marrocos os polícias corruptos que aqui abundam são apanhados por telemóveis do alto de colinas, na China, a multiplicação de foruns e sites ameaça o regime monolítico chinês que responde com novas e vigorsas formas de censura e perseguição política… De facto, a Tecnologia parece estar a vencer o Autoritarismo, mantendo-se adiante dele, e mesmo das suas intervenções mais “tecnológicas”, como as caixas negras que a China instalou nos seus ISPs, nos filtros de palavras de email na China e na Birmânia, etc…

Será que assim a Tecnologia servirá de libertador para os biliões de seres humanos ainda vivem hoje esmagados por regime opressivos e ditatorias? Será que a Tecnologia vai também libertar os Povos de autoridades corruptas e ineficientes como as do presente exemplo marroquino? Tudo indica que sim… É que uma vez aberta a tampa do caldeirão, este não tarda a transbordar, sobretudo quando há grande pressão…

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Divindades Indígenas sob o Domínio Romano

Embora se desconheçam as designações exactas que os cónios davam às suas divindades, o trabalho precioso de José d´Encarnação[1] permite-nos esboçar qual era o panorama religioso no Sul de Portugal à época da presença romana. É razoável acreditar que tenha havido uma continuidade quanto às divindades cultuadas, uma continuidade entre o período pré-romano e o romano. É por esta razão que passamos a listar as divindades indígenas que este historiador encontrou nas estelas votivas romanas. Devido ao âmbito deste estudo, descreveremos apenas aqueles de que temos testemunhos na zona de acção da civilização cónia: os territórios situados a Sul do Tejo e na imediatamente colocada a norte: o centro de Portugal.

10.9.1.1. Abna

Ara encontrada na freguesia de São Martinho do Campo (Santo Tirso).

10.9.1.2. Aernus

Duas lápides descobertas em Castro de Avelãs (Bragança) e uma terceira em Macedo de Cavaleiros.

Segundo Florentino López Cuevillas (em 1934), Aernus seria um dos deuses da civitate dos Zoelas. Para Blásquez Martinez tratar-se-ia de uma divindade protectora da vegetação mas estreitamente ligada ao castro onde foi achada a ara, dada a referência a uma ordo.

10.9.1.3. Albocelus

Este teónimo surge numa inscrição achada em Vilar de Maçada, no concelho de Vila Real.

Segundo A. Tovar o teónimo estaria ligado ao topónimo Albocela, uma cidade mencionada por Políbio (III, 14, 1) que seria habitada pelos Vaccei.

10.9.1.4. Ameipicer

Presente numa ara descoberta na Quinta de Orjais, a sul da cidade de Braga.

Blásquez Martinez acredita tratar-se de uma ninfa, como uma das Nimphae fontis Ameucni, chamando também a atenção para a semelhança do teónimo com Ameucn, uma divindade aquática.

10.9.1.5. Antiscreus

A ara que menciona esta divindade foi descoberta no Castro de Monte Redondo, no concelho de Braga.

Esta divindade dos Bracari é segundo Leite de Vasconcelos de características salutíferas.

10.9.1.6. Aponianicus Poliscinius

O nome desta divindade indígena está presente numa ara achada na cidade de Lisboa.

Para José d´Encarnação, tratar-se-ia de uma divindade tópica em que Aponianicus seria um epíteto do deus Poliscinius. O ilustre autor acredita ainda que se trataria de uma divindade relacionada com o culto das águas, dado mencionar uma nascente Aponus nos arredores de Pádua.

10.9.1.7. Aracus Aranius Niceus

A ara onde está grafado o nome deste deus foi descoberta em Manique de Baixo, freguesia de Alcabideche, concelho de Cascais.

10.9.1.8. Arantius Tanginiciaecus

Presente numa inscrição da ara descoberta no Rosmaninhal no concelho de Idanha-a-Nova.

F. Alves Pereira crê que Arantius seria a divindade territorial dos Igetani.

10.9.1.9. Arentia e Arentius

Os nomes destas divindades surgiram numa ara encontrada nos arredores de Tinalhas, no concelho de Castelo Branco. Arentius também aparece numa ara de Chão do Touro no Concelho de Idanha-a-Nova.

O culto a esta divindade estava bem marcado territorialmente pelo território dos Igetani, como nos recorda F. Alves Pereira. O autor refere igualmente a possibilidade de se tratar apenas de uma divindade pessoal, exclusiva de um determinado crente.

Aras dedicadas a este par divino foram também encontradas em território espanhol, mas em Portugal todas as quatro aras que referem estes dois deuses foram encontradas nas cercanias de Idanha. A estrita delimitação geográfica indica tratarem-se de divindades tutelares, hipótese além do mais reforçada – como nota José d´Encarnação – pelas ligações étnicas dos sufixos -NT e -ENSIS.

10.9.1.10. Arentius Cronisensis

A ara que apresenta o nome desta divindade foi encontrada na freguesia de Zebras no concelho do Fundão.

10.9.1.11. Arus

Existe uma única referência a esta divindade pré-romana numa ara encontrada numa ponte sobre o rio Paiva, no Concelho de Castro Daire, Distrito de Viseu.

Blázques Martinez acredita tratar-se de uma divindade guerreira, possivelmente assimilável a Marte. O nome, aliás bastante semelhante ao grego Aries, faz acreditar nisso mesmo.

10.9.1.12. Ataegina

Embora no território espanhol tenhamos vários exemplos de dedicatórias a esta deusa, em Portugal temos apenas um único exemplo deste culto numa ara descoberta algures no Distrito de Beja.

Para Leite de Vasconcelos, Ataegina era a deusa da terra e dos seus frutos, comparando os seus atributos com os de Proserpina e com os de Libera, deusa da fertilidade dos campos e da procriação. Esta ligação com o renascimento da natureza na Primavera pode resultar numa ligação com o mundo do Além, tanto mais porque existe pelo menos uma ara em que se lhe faz uma “devotio”. Ataegina teria também algumas características salutíferas dada a existência do epíteto “servatix” observado numa ara espanhola, que significa precisamente “conservadora da saúde”.

O número de aras e a extensão do seu culto mostram que Ataegina era[2] uma das divindades indígenas mais cultuadas ao tempo da dominação romana. Alias, Lambrino acredita que estas duas divindades constituíam um par divino embora não existam aras que reunam os dois teónimos.

10.9.1.13. Aturrus

Este teónimo está presente numa ara descoberta na Avenida da República, em Lisboa.

É T. Scarlat Lambrino que observou que o nome desta divindade correspondia exactamente ao do rio Ador, na Aquitânia francesa. Também surgem aqui vários topónimos com este elemento (por exemplo, Vicus Atora) e o povo Aturenses. Em Portugal temos pelo menos um exemplo da presença deste elemento, no nome Aturo Viriati presente numa ara indígena. Para Scarlat Lambrino e Blázquez Martinez tratar-se-ia de uma divindade ctónica, ligada ao culto infernal.

10.9.1.14. Auga

A referência a Auga foi descoberta numa ara achada em Fontes, Santa Marta de Penaguião. Existe um certo consenso nos autores ao a apontarem como uma divindade de origem grega.

10.9.1.15. Banda-

São numerosas as divindades cujos teónimos começam pelo tema band-. As várias divindades que compartilham este tema parecem exclusivas a regiões onde os celtas estiveram presentes. Para Adolfo Coelho, a raiz estaria ligada ao antigo irlandês bandea, feminino de dia (deus), embora para Leite de Vasconcelos o tema, embora céltico, signifique não “deusa”, mas a ideia de ordenar ou proibir, o que confere com a hipótese de Blázques Martinez que as identifica como divindades tutelares dos castros e cidades indígenas.

O tema é bastante frequente na toponímia galega[3] e em Portugal conforme observa Arlindo de Sousa, no artigo “Langóbriga”: “No pequeno quadrilátero com vértices na vila da Feira, Estarreja, Vouzela e São Pedro do Sul temos as três povoações de Bandavizes (concelho de Vouzela), Bandulha (concelho de Estarreja e São Pedro do Sul) e os deuses Bandavelugus e Bandoga. Entendemos que há relação filológica e histórica entre os três topónimos e o nome do deus Band. Próximo à linha São Pedro do Sul-Vouzela, em Castelo de Penalva, consagrou-se a Bandaioilienaicus ou Bandius Ilienaicus. No quadrilátero um pouco maior, com vértices nos concelhos de Paços de Ferreira, Ribeira da Pena, Santa Marta de Penaguião e Mesão Frio, temos as povoações de Bande e Banduja, o hidrónimo Banduje e o deus Bandaraeicus. Na Galiza os topónimos Bande e Baños de Bande devem estar relacionados com os mitónimos Bandua da inscrição brigantina e da igreja moçárabe de Mixós, em Verin, e de Banduaetobrigus, de Santa Maria de Codesás. Na região dos Igaetani, onde se conservam muitos vestígios da civilização céltica temos Ba…dia e Bandiarbariaicus“.

José d´Encarnação[4] acredita tratar-se de uma divindade masculina, dado os epítetos que geralmente o acompanharam se revelarem do género masculino, embora exista de facto a excepção de Isibraia. De qualquer modo, Banda era sem dúvida ao lado de Endovélico e Ataegina uma das divindades mais cultuadas no nosso território.

10.9.1.16. Banda Brialeacus

Presente numa ara descoberta no concelho da Covilhã, em Orjais

10.9.1.17. Banda Raeicus

Embora a ara em que surgia este teónimo se tenha perdido, sabe-se que foi achada em Ribeira da Pena, no concelho de Vila Real.

10.9.1.18. Banda Velugus Toiraecus

A inscrição solitária que contempla este teónimo foi descoberta numa lápide do Castelo de vila da Feira.

10.9.1.19. Banda Arbariaicus

A lápide revelando esta divindade indígena foi encontrada em Capinha, concelho da Guarda.

10.9.1.20. Bandis Isibraia

Duas aras mencionando o nome desta divindade foram achadas na Bemposta, concelho de Penamacor.

10.9.1.21. Bandis Oilienaicus

Registado numa lápide descoberta em Esmolfe, no concelho de Penalva do Castelo.

10.9.1.22. Bandis Tatibeaicus

A lápide que mostra este teónimo foi achada em Queiriz, em Fornos de Algodres. Para Russel Cortez, esta divindade estaria associada ao culto lunar, profusamente registado na Península. Blázques Martinez julga reconhecer na terminação do teónimo um dativo pré-céltico.

10.9.1.23. Bandis Vorteaeceus

A ara onde esta divindade está registada foi descoberta no Salgueiro, concelho do Fundão.

10.9.1.24. Bandoga

Este teónimo foi registado numa lápide votiva descoberta no castro de Mau Vizinho, situado no concelho de São Pedro do Sul. Tratar-se-ia de uma divindade feminina.

10.9.1.25. Bandua

Esta divindade foi descoberta numa ara em Nossa Senhora de Hedra, em Bragança.

10.9.1.26. Bormanicus

São duas as aras que apresentam gravada esta divindade, tendo sido descobertas em Caldas de Vizela, no recentemente criado concelho de Vizela. Cabe a Francisco Sarmento a melhor descrição desta divindade: “Borvo ou Bormânico era um deus céltico, cujos benefícios se manifestaram nos bolhões de água”. Édouard Philibon defende semelhante opinião ao acreditar que o tema Bormo- está próximo do indo-europeu guhormo-, que significaria “quente”. Contudo, F. Russel Cortez defende uma corrente diversa colocando-se ao lado daqueles que acreditam na grande disseminação dos povos lígures pelo sul da Europa, nomeadamente ao ver em Bormânico uma divindade lígure.

10.9.1.27. Brigus

A referência a esta divindade indígena foi descoberta numa ara achada em Delães, no concelho de Vila Nova de Famalicão. O teónimo pode estar relacionado com a palavra celta briga que entra na formação de tantos topónimos peninsulares.

10.9.1.28. Cabar

Embora se tenha perdido à muito o rasto da inscrição que estaria numa parede da igreja de Pinho, no concelho de São Pedro do Sul, o teónimo Cabar que aqui estaria registado parece – segundo Blázquez Martinez – estar ligado ao indo-europeu “kapro” que para o ilustre linguista J. Pokorny teria como significado “cabra”. Poderá assim tratar-se de uma divindade totémica, possivelmente tutelar.

10.9.1.29. Caepus

Este teónimo pode ser encontrado numa ara descoberta na Quinta de São Domingos, no concelho de Sabugal. Leite de Vasconcelos acredita que o vernáculo caepus (cebola) pode estar na origem do teónimo, arriscando afirmar que seria um “deus das cebolas, protector das hortas”.

10.9.1.30. Carneus/Ptarneus

Presente numa ara encastrada nas paredes da Igreja Matriz de Sant´Ana, em Arraiolos, esta divindade segundo José d´Encarnação pode estar ligada a Karneios, a divindade nacional dos Dórios. Tratava-se de um protector dos rebanhos, identificado com Apolo, o que não deverá ser estranho ao indo-europeu kar, kára, karnos associadas precisamente a carneiros e ovelhas.

10.9.1.31. Carus

O teónimo Carus encontra-se num cipo achado em Santa Vaia de Rio de Moinhos no concelho de Arcos de Valdevez. Para Holder a existência de um rio Carus poderia indicar o carácter aquático desta divindade.

10.9.1.32. Castaecae/Castaeci

A ara mencionando esta divindade foi encontrada (e entretanto perdida) em Santa Eulália de Barrosas, em Caldas de Vizela. Se Hübner acreditava tratar-se de uma ninfa, no que era secundado por Leite de Vasconcelos. De qualquer modo, Blázques Martinez salienta que na Gália existia um topónimo Castae, o que parece indicar uma origem céltica para esta divindade.

10.9.1.33. Coronus

A ara mencionando esta divindade pré-romana foi encontrada em Serzedelo, no concelho de Guimarães. Tratava-se provavelmente de um deus da guerra, conforme defende Blázques Martinez, dado ter sido registada a sua aparição conjuntamente com Corotiacus, uma divindade associada a Marte.

10.9.1.34. Cosus

Descoberta em Vale de Ervosa, Santo Tirso, a ara que incluía o nome desta divindade, pode referir-se a um deus ligado à água, dado o potamónimo Cosa, ter sido registado por Dauzat.

10.9.1.35. Cosunae

Presente numa inscrição achada na Citânia de Roriz, este teónimo parece indicar uma ninfa ou ninfas que aí eram adoradas. Essa é a opinião da maioria dos autores (como Leite de Vasconcelos e Blázques Martinez).

10.9.1.36. Dafa

Este teónimo está presente numa inscrição achada no Castro de São Lourenço, no concelho de Esposende.

10.9.1.37. Densus

A ara com este teónimo foi descoberta em Felgar, Moncorvo.

10.9.1.38. Dii Deaeque Coniumbricensium

A ara mencionando este interessante teónimo para o assunto desta obra foi encontrada no concelho de Vila Nova de Foz Côa. Dizemos interessante porque a presença do elemento “conium” já levou alguns investigadores a levantarem a hipótese de os Cónios terem descido do Centro de Portugal para o Sul. Alias, o topónimo Conimbriga seria precisamente um traço de migração.

10.9.1.39. Durbedicus

Encontrada em Ronfe, Guimarães, a ara com este teónimo, segundo Adolfo Coelho podia basear-se no antigo irlandês derb (certo, verdadeiro ou ilustre).

10.9.1.40. Durius

Descoberta na cidade do Porto, a ara em que se achava o nome desta divindade achava-se certamente na origem do nome do rio que banha a Invicta.

10.9.1.41. Endovelicus

Existem mais de sete dezenas de aras e inscrições incluindo este teónimo, todas elas oriundas do mesmo local, o monte de São Miguel da Mota, em Terena, no concelho do Alandroal. O número registado mostra bem a importância deste culto, especialmente se comparado com a média das inscrições com outros teónimos que não excede os 1,2.

O teónimo é grafado em pelo menos três formas: endovellico, endovollico e endovolico.

Este santuário de Endovelicus era muito concorrido, segundo Leite de Vasconcelos, aqui se adivinhava o futuro, o mesmo autor refere que a presença da palavra deus, indicia tratar-se de uma divindade tópica e adianta também tratar-se de uma divindade com carácter naturalístico e um dos génios tutelares da medicina. Mas Lambrino discorda deste carácter medicinal. Para o autor, não se justificaria a sua coexistência com Esculápio, cujo culto foi registado na mesma região, nota igualmente a falta de qualquer nascente medicinal nas redondezas do santuário. Conjuntamente com A. Tovar, defende tratar-se de uma divindade infernal lendo Endo-beles, como “muito negro”. O javali, animal associado a este teónimo, a palma e a coroa de louros levam a acreditar que se trate de um deus dos mortos, representado nas aras pela figura de um génio alado erguendo uma tocha ardente.

10.9.1.42. Frovida

O culto a esta divindade foi registado no concelho de Braga. Leite de Vasconcelos supõe que Frovida seria uma divindade aquática, um risco que aliás corre para muitas divindades sem provas muito substanciais.

10.9.1.43. Genius Civitatis Baniensium

A lápide onde estava registado este teónimo foi encontrada em Mesquita, Moncorvo.

10.9.1.44. Genius Conimbricae

A ara foi descoberta no Fórum de Conimbriga.

10.9.1.45. Genius Cor

A lápide com o nome desta divindade foi encontrada em Soutinho, no concelho de Aguiar da Beira.

10.9.1.46. Genius Depenoris

Esta divindade era adorada no Castro do Mau Vizinho, no concelho de São Pedro do Sul.

10.9.1.47. Genius Laquiniensis

A ara foi descoberta em São Miguel das Caldas de Vizela, no concelho de Vizela.

10.9.1.48. Genius Tiauranceaicus

Este Genius foi descoberto numa ara presente no concelho de Ponte de Lima. Tiauranceaicus é uma palavra claramente ibérica, pelo menos no seu radical. Leite de Vasconcelos afirma a propósito deste teónimo que -aicus é uma terminação presente em genis loci.

10.9.1.49. Genius Toncobricensium

Descoberta em 1882 em Freixo, Marco de Canavezes, esta inscrição do século I apresenta o tema longo-, como a vários nomes peninsulares.

10.9.1.50. Hermes Devorix

A lápide apresentando esta divindade foi descoberta e acha-se ainda na Capela de Nossa Senhora do Rosário, em Outeiro Seco, no concelho de Chaves. Devorix pode encontrar as suas origens no celta deiuos ou no indígena devorus, segundo Maria de Lourdes Albertos.

10.9.1.51. Igaedus

O teónimo foi descoberto em Idanha-a-Nova. D. Fernando de Almeida acredita que esta era a divindade adorada pelos igaeditani. A presença de uma ara com este nome grafado junto de uma fonte medicinal pode indicar que se trata de um deus com personalidade Salutífera.

10.9.1.52. Ilurbeda

Duas aras encontradas em Covas dos Ladrões, Góis, testemunham o culto a esta divindade. O coronel Mário Cardozo escreveu a propósito: “Que Ilurbeda é um nome de ressonância tipicamente ibérica parece não haver dúvida. As raízes i-, ili-, ilur-, são frequentes no onomástico ibérico (…) Há numerosos exemplos de nomes étnicos e geográficos ibéricos com essas raízes: Ilerda (Lérida) e os Ilergetes, os Ileates, do Bétis (Guadalquivir), vizinhos dos Cempsos; Ilucia, a noroeste de Cástulo, Ilici (Elche); Iliturgis, perto de Córdova; Iliberris, etc. Com a raiz ilur-, é citado (…) o nome da divindade (?) ibérica Ilurberrixo, bom como os nomes geográficos Iluro e Ilurco. Shulten cita a tribo dos Ilurgavones.”

10.9.1.53. Issibaeus

Registado numa ara descoberta em Miranda do Corvo, Issibaeus seria para José d´Encarnação mais uma divindade indígena cultuada no actual território português.

10.9.1.54. Iuno Meirurnarum

A estela mencionando este teónimo foi achada em São Veríssimo, no concelho de Felgueiras.

10.9.1.55. Iuno Veamuaearum

A ara mencionando esta divindade foi achada em Freixo de Numão, Meda. Infelizmente, foi dada como perdida e sobre ela nada mais se sabe.

10.9.1.56. Iupiter Assaecus

Descoberta em Lisboa, a divindade presente nesta estela de Belém possui o elemento assa- presente em vários nomes hispânicos. Por outro lado, a terminação -ecus é também frequente nesta onomástica, o que reforça o seu carácter indígena.

10.9.1.57. Lares Caireieses

A ara com este teónimo foi descoberta em Zebreira, no concelho de Idanha-a-Nova.

10.9.1.58. Lares Cerenaeci

Os Cerenecos eram um povo que vivia no concelho de Marco de Canavezes, e o nome desta divindade não é certamente alheia a este nome.

10.9.1.59. Lares Cusicelenses

Esta inscrição dedicada a este teónimo encontra-se no número daquelas que foram perdidas. Foi achada em Couto de Algeriz, Chaves.

10.9.1.60. Lares Findenetici

Descoberto em Chaves, a inscrição que incluí este teónimo apresenta como oferente um nome frequente em inscrições hispânicas, conforme nos recorda Blázques Martinez.

10.9.1.61. Lares Erredici

A ara foi encontrada em São Pedro de Agostém, em Chaves.

10.9.1.62. Lares Lubanc

Esta divindade está presente numa ara descoberta em Conimbriga e em que surge o antropónimo indígena CAMAL.

10.9.1.63. Mandiceus

A árula votiva que apresenta esta divindade foi descoberta em Madre de Deus (Sintra) em 1956 e apresenta aquela que Mário Cardozo considera ser “uma divindade indiscutivelmente ibérica”.


[1] “Divindades Indígenas sob o Domínio Romano em Portugal”.

[2] No que se assemelhava a Endovelico.

[3] Como notou Lopez Cuevillas.

[4] O autor que seguimos mais de perto no que respeita às divindades indígenas.

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A Religião dos Cónios

A reconstrução do sistema religioso cónio é, sem dúvida, um exercício particularmente difícil. Desde logo escasseiam os vestígios arqueológicos, os testemunhos monumentais estão completamente ausentes e as fontes escritas ou estão por traduzir, ou escasseiam entre os autores clássicos. Existem contudo alguns elementos disponíveis que podem ser utilizados para tentar uma reconstrução parcial do sistema de crenças dessas populações do Sul do actual território português.

O Cão

No começo do período neolítico as populações Magdelenenses da zona do Mar Báltico introduziram a domesticação do cão. Esta domesticação foi importante para o aumento do sucesso do caçador, o qual podia agora contar com um aliado que possuía um olfacto muito desenvolvido e um elevado grau de mobilidade, para além da fidelidade que lhe é proverbial. Donald Mackenzie acreditava que a este papel deveria corresponder um forte papel religioso, se não entre os Magdalenenses, pelo menos entre os Crô-Magnons.

E, efectivamente, são comuns os exemplos de adoração do Cão nas religiões humanas. No Antigo Egipto, temos Anubis, o protector e guia das almas dos Mortos no Além; assim como Apuatua, outra divindade egípcia que também era um deus-cão. Entre os hindus, Yama, deus dos mortos e Dharma, deus da Justiça, eram deuses com aspecto canídeo. Na complexa mitologia grega, o cão era o guardião do Inferno que Hércules devia vencer. Na mitologia celta, Cuchulin, mata o cão que guarda as portas do Inferno e toma o seu lugar, aliás daqui deriva o seu próprio nome Cu (cão) de Culann. Na Escócia o povo venera ainda hoje as “pedras cão”.

Todos estes vestígios representam uma sobrevivência neolítica do culto do Cão, o facto de terem em comum o seu carácter infernal não deve ser ignorado. A sua presença nas estelas descobertas em território nacional e datadas da Idade do Bronze indica que manteve entre os nossos antepassados o mesmo sentido.

Deusa Salutífera

A confirmada presença fenícia não pode ter deixado de influência a religião das populações indígenas. O arqueólogo Mário Varela Gomes pode ter encontrado vestígios dessas influências em Garvão: “enorme depósito votivo secundário indica ter existido em Garvão (Ourique). Neste local prestava-se culto a uma divindade feminina do tipo da Tanit cartaginesa, senhora da luz, da felicidade, mas também da morte e da regeneração a quem se ofereciam ex-votos, alguns anatómicos, em ouro e prata, além de peças coroplásticas e grande quantidade de recipientes com diversas formas e funções.” Mas aquilo que pode indicar essa influência semítica é negado por se tratar de um santuário “céltico” e pelas características demasiado genéricas da divindade cultuada.

Divindades Guerreiras

Seguindo ainda atentamente o trabalho de Varela Gomes, citamos mais uma passagem do seu artigo “Testemunhos iconográficos na Proto-história do Sul de Portugal: smiting gods ou deuses ameaçadores”: “Foi possível atribuirmos, através da observação da sequência estratigráfica, técnica e estilística, à Idade do Bronze Final, uma cena pintada existente no Abrigo Pinho Monteiro. Este, situa-se nos contrafortes da serra de São Mamede, perto da Aldeia da Esperança, no concelho de Arronches (Portalegre)”.

“A cena que nos propomos agora tratar, e para a qual não detectamos nenhum contexto material, é constituída por dois antropomorfos. Um oferece corpo quase bitriangular, braços caídos e pernas dispostas em V invertido, encontra-se sobre o dorso de um quadrúpede esquemático e tem na cabeça um gorro ou tiara cónica. A parte inferior do corpo e metade das pernas parecem cobertas por um saiote. A identificação do quadrúpede é dado o seu grau de esquematismo, difícil de concretizar. Pois poder-se-á tratar de um equídeo controlado pelo antropomorfo através de uma rédea que este quase agarraria na mão esquerda, ou, antes, de um touro, cuja armação seria representada com certo grau de perspectiva, interpretação para a qual mais nos inclinamos. À esquerda, e pintado da mesma cor mas um pouco mais acima, encontra-se o segundo antropomorfo, ostenta na cabeça o que julgamos ser a representação de um capacete de cornos e, na mão esquerda, segura um bastão. Encontramo-nos, por certo, perante uma figuração de carácter guerreiro.”

Apesar do carácter pacífico dos povoamentos cónios, um aspecto que podemos deduzir a partir da ausência de muralhas ou de qualquer outra estrutura defensiva, o certo é que são frequentes a referências a guerreiros entre os vestígios cónios, como aquelas que Varela Gomes descobriu. Não se tratando de uma sociedade guerreira, quem serão então essas personagens? Líderes tribais? Heróis míticos? Divindades Guerreiras? É difícil saber. Podem ser vestígios de uma época de transição, de uma época em que a ameaça dos invasores célticos vindos da Meseta se começava a fazer sentir, o que explicaria a aparição de homens armados no seio de uma sociedade que não protegia suficientemente as suas povoações. À parte esta questão, a presença do touro, aliás muito comum noutros locais arqueológicos do Sul de Portugal, indica a existência de um culto contínuo desde o Neolítico.

O Culto do Touro

São frequentes as representações de personagens com capacetes de cornos, de cabeças de touro, ou de outros elementos directamente relacionáveis com o touro. Temos provas físicas deste culto entre os cónios na necrópole de Fonte Santa (Ourique) onde não longe do Túmulo VIII, Caetano Beirão encontrou uma máscara de cerâmica em forma de uma cabeça de touro, que se destinava obviamente a ser utilizada num ritual hoje desconhecido. Também no Túmulo IX de uma outra necrópole, desta feita a de Keition (Alcácer do Sal) Vergílio Correia descobriu associados a alguns enterramentos da II Idade do Ferro pequenos bovinos em argila. Não é impossível estarmos aqui perante uma influência oriental, trazida até à Península através de contactos comerciais. De facto, este elemento é comum na civilização micénica, na Idade do Bronze cipriota. Também os soldados do Império Hitita são representados com estes capacetes no alto relevo de Ramsés II que comemora a sua vitória na batalha de Kadesh. Aliás, já Diodoro Sículo mencionava que o Culto dos Touros era comum entre os Iberos, algo a que Estrabão alude indirectamente na sua descrição do mito do roubo dos touros de Geryon por Herakles. Na Irlanda e em Inglaterra, a cabeça de touro era utilizada como um símbolo de adoração divina.

O Mundo dos Mortos

Nas estelas de São Martinho II e Ategua surgem ainda três covas colocadas sob as duas figuras humanas. Varela Gomes julga que estas covas são uma representação do “mundo dos mortos”. Estas mesmas covas estão igualmente presentes na mais conhecida estela cónia e podem ser bastante significativas para a leitura da inscrição que esta apresenta.

O Culto Solar

Os escudos redondos seriam[1] uma representação do disco solar. O escudo seria uma imagem solar que o guerreiro transportaria consigo no combate e de cuja protecção dependeria. Esta interpretação do arqueólogo português concorda com a interpretação que J. Déchelette já tinha proposto em 1909.

O culto solar estava directamente ligado com a aplicação do Poder político, como se depreende da associação do guerreiro com o Sol e com a continuação desta ligação com a administração local durante o período romano, conforme nos testemunham os restos epigráficos desse período.

O Culto Lunar

A Serra de Sintra é identificada por Ptolomeu (século I-II) como “A Serra da Lua”, um tipo de culto astral que deve recuar ao próprio Calcolítico como testemunham as lúnulas descobertas na região. Não existem contudo vestígios deste culto entre os testemunhos arqueológicos que os cónios nos legaram.

Divindades adoradas pelos Cónios: Influências Exteriores

A adopção do culto de divindades salutíferas romanas pode ser um indicador de que já preexistia nas populações a predisposição a este tipo de deuses, ou que cultos semelhantes haviam sido “latinizados” pelo ocupante romano. Testemunho deste processo pode ser o tempo de Esculápio de Miróbriga[2] e a estátua descoberta em Serpa representando ao mesmo semideus.

Não existem sinais suficientes para nos permitir a continuação de um da Deusa-Mãe desde a época neolítica e do megalistismo. É certo que alguns vestígios arqueológicos[3] indiciam a sobrevivência de cultos femininos na Idade do Ferro do Sul, como se depreende dos “dois brincos de orelha, lunulares e terminados com duas pequenas esferas de ouro, na lúnula estão soldadas 14 pequenas cabeças femininas representando talvez Hathor, Astarté ou Aphrodite” que o citado arqueólogo descobriu no Tesouro do Gaio, em Sines.


[1] Ainda segundo Varela Gomes, cujo meritório trabalho seguimos de perto.

[2] Actual Santiago do Cacém, Baixo Alentejo.

[3] Trazidos à luz da nossa era mais uma vez por Caetano Beirão.

Categories: A Escrita Cónia, História | 1 Comentário

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