Sobre os empréstimos a estudantes, do envidamento das famílias e das desvantagens de um investimento “cego”


(http://newsimg.bbc.co.uk)

(…) “Com o endividamente desproporcionado por referência aos proventos da sociedade portuguesa, com o desemprego que atinge os jovens e continua a crescer particularmente no grupo dos licenciados, como poderão ser pagos os empréstimos em análise? O sistema prevê um ano de carência, após a conclusão dos estudos. Feitas as contas genéricas para o montante máximo possível, chegaremos a valores de reembelso próximos dos 500 euros mensais. Será isto exequível com as negras prespectivas do desemprego jovem?”
(…)
“Sócrates e Gago garantiram que não baixarão os apoios sociais aos mais carenciados e que este modelo de empréstimos se somará às bolsas de estudo existentes. Mas por que hei-de eu acreditar em já fez hoje o contrário do que prometei ontem?”

Santana Castilho

“Apesar de constituir um compromisso político do Governo, a surpresa veio com o novo regime de empréstimos bancários para a frequência do ensino superior. Era uma lacuna importante na promoção do acesso ao ensino superior, para além do apoio social escolar. Com ele, novas pessoas poderão sustentar o investimento na sua educação superior. Trata.-se de um regime geral e universal, aberto a todos os interessados, estudantes e investigadores, e para todos os graus de ensino terciário, incluindo os planos de mobilidade internacional (programa Erasmus)”.
(…)
“Nem todos os aspectos são isentos de reserva, como sucede com o prazo de carência reduzido a um ano para o início do reembolso, depois da conclusão do curso, o que pode constituir um factor de constragimento nos casos em que o início da actividade profissional remunerada demora mais do que isso, como acontece nas profissões sujeitas a estágio profissional longo, muitas vezes sem pagamento digno desse nome”.
Vital Moreira

Público, de 28 de Agosto de 2007

Bem sei que este tema já deixou as agendas mediáticas… Mas como já escrevi aqui, algures, este espaço não é um jornal de actualidades… Mas sim um espaço de debate e de opinião, para além de uma plataforma de divulgação dos projectos do Movimento Quintano. Assim, não poderíamos fugir a este curioso tema dos “empréstimos para estudantes”, ainda que tenha passado já mais de um mês sobre este anúncio governamental…

O modelo é importado, e apesar de alguns problemas tem funcionado mais ou menos bem nos EUA, por isso é natural que se tente agora importá-lo para a realidade portuguesa… E de facto, quem estiver atento às séries e aos filmes Made in USA que as televisões nos apresentam pode antever aqui e acolá referências a jovens trabalhadores que aludem a estes pagamentos… Ainda há pouco vi duas dessas referências, uma no CSI, e outra na Anatomia de Grey… É que o problema do endividamento dos jovens é muito sensível… E se as famílias portuguesas já apresentam hoje um elevado nível de endividamente, o mesmo não deixa de ser verdade para as famílias americanas. Pessoalmente, repudio qualquer sistema de financiamento que se baseia no modelo de empréstimo. Os Bancos – que estão neste negócio óbviamente para fazer dinheiro – não emprestam a juro zero… E a carga de dívida recai assim naturalmente sobre os ombros de quem tem a acima dita dificuldade em entrar no mercado de trabalho e que – quando finalmente o faz – é sujeito a salários baixos. Será que a solução para facilitar a entrada no mundo universitário de jovens terá mesmo que passar pela subsidiação indirecta a universidades privadas e pela criação de novos patamares de endividamento para os portugueses?

Será que a solução para os problemas educativos e na formação dos jovens passa pelo financiamento cego a todos os cursos, ou pela criação de mecanismos que favoreçam a frequência universitária em determinados cursos onde o País precisa de mais quadros? Precisaremos mesmo de financiar com o Orçamento Público novas fornadas de legiões de Advogados ou de Sociólogos desempregados ou eternamente frustados porque nunca encontrarão emprego nas suas áreas de formação? E, sobretudo… Precisaremos mesmo de mais uma forma de endividamento e de enriquecimento bancário?

Categories: Educação, Política Nacional, Portugal | 6 comentários

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6 thoughts on “Sobre os empréstimos a estudantes, do envidamento das famílias e das desvantagens de um investimento “cego”

  1. Dum ensino tendencialmente gratuito para um ensino tendencialmente hipotecado!
    Frequentei o ensino superior, entre 79 e 85, sem a ajuda da família e uma bolsa que dava para o quarto – nunca arriscaria um presente destes. Hoje, quase três décadas depois, julgo que não seria possível tirar um curso superior nas condições económicas que tive. Qual novas oportunidades qual carapuça!

  2. novas oportunidades para criar uma nova fornada de gente endividada e refém de empréstimos bancários, é o que é… e contudo o mecanismo em si, não me repugna, desde que usado em cursos em universidades privadas, para cursos de interesse nacional (não me refiro a certas “engenharias” que agora há por aí) e onde não houvesse equivalência no Ensino Público.
    Assim como a coisa está, vão dar-se mais oportunidades de enriquecimento seguro (o Estado cobre a insolvência) à Banca, criam-se mais devedores e vai-se financiar universidades privadas com fundos públicos….
    O modelo que defendo (aliás, uma variante do modelo na Saúde) é a entrega por parte do Estado ao Estudante de uma verba mensal fixa, correspondente aos custos actuais de um estudante no ensino privado. Depois, ele faria com esta verba o que melhor entende-se: ou a usava para pagar propinas no Público, ou no Privado. Assim, se manteria o Ensino tendencialmente gratuito e financiado pelo Estado, se promoveria a sã competição entre Privados e Públicos, competindo pela melhor proposta e pela melhor qualidade.

  3. Clavis: li um USA today de Novembro do ano passado em que vinha lá uma reportagem sobre empréstimos a estudantes e a descrição da situação era negra, do pior que podia existir.

    Pessoas que mesmo a trabalhar durante o curso,chegavam ao fim do mesmo, com dividas de 40 e 50 mil dólares por pagar.

    Quanto ao modelo que defendes no teu comentário, já o defendi. Antes de frequentar uma universidade privada. Actualmente sou completamente contra a teoria de que se deve dar o dinheiro ao estudante e este decidir ir para publico ou privado ou o que seja.
    Isso não funciona.
    A solução é muito simples: deflacionar custos no ensino superior. Especialmente por parte do Estado que deve terminantemente proibir que qualquer professor contratado pelo Estado dê aulas em mais algum lado.
    Os professores do ensino superior devem ter horários de 40 horas semanais e serviço de tutoria, serem avaliados por alunos e por entidades externas sobre todos os parâmetros que existam e caso falhem irem automaticamente fora e devem existir controlos financeiros rígidos sobre os custos de funcionamento das universidades aos nivel do papel, computadores, impressão, etc.

    É absurdo pagar-se 250 euros no privado por propinas. É absurdo o preço dos livros e restante material. É absurdo que não existam quaisquer think tanks ou iniciativas do mesmo tipo com qualidade na generalidade das universidades portuguesas,quer públicas e privadas.
    É absurdo que se pague 200 euros a professores por Hora para darem aulas, é absurdo existir ensino superior cooperativo, é absurdo uma série de coisas.

    O sistema está encharcado de esquemas para o tornar caro e tornar impossível a frequência do mesmo.

    Com todo o respeito mas não acredito nada nada nessa treta da competição entre público e privado apenas é só porque existe escolha de faculdades pelos alunos.
    O privado não quer qualidade, mas sim lucros e mecanismos de criação artificial de lucro. Daí os chumbos em massa no ensino privado. Chumba-se e depois paga-se a inscrição ou em Setembro ou Outubro ou no ano a seguir, porque isso gera dinheiro.
    Não existe qualquer interesse contrariamente ao senso comum, da parte dos privados em melhorarem ou piorarem ou assim ou assim assado.
    Ali o que interessa são números.
    Os privados são o maior fracasso que apareceu no ensino superior e a maior causa para a constante subida de custos no ensino superior.

    E esrta brincadeira dos empréstimos apenas serve para tentar dar mais um brinquedo à banca comercial para sacar dinheiro ilegitimamente.
    Nunca por nunca eu alguma vez iria pedir um empréstimo para fazer um curso, mais ainda num sistema em que o mercado de emprego não me garante emprego para depois pagar esse mesmo curso.

  4. Pedro: bem, então aqui estamos mesmo em campos diferentes… Acredito sinceramente que quando se dão livres rédeas à competição, os privados e os consumidores (pq é disto que tb se trata aqui) ficarão melhor servidos, pq assim se cria uma dinâmica em que as várias instituições competirão pelo melhor Ensino. E este sistema é “Público” e garantiria o livre acesso de todos ao ensino, independentemente da sua classe social ou económica, pq seria financiado pelo Estado.
    O Lucro não é imcompatível com a Qualidade, nem tem que o ser. Infelizmente esta tua opinião (válida) resulta da associação que existe em Portugal entre Ensino Privado e má qualidade, com professores catedráticos ausentes (em 4 anos de curso, só numa única aula vi um dos catedráticos que davam nome às cadeiras), más salas de aulas, precaridade dos assistentes, secretarias subdimensionadas, etc. Tudo isto resulta de má gestão e não do facto de estarmos perante uma instituição privada.
    Sou contra estes Empréstimos, como já reparaste, mas defendo a existência de um sistema público, em que o modelo do dito “cheque-educação” poderia ser viável e estimular até o pp ensino público…
    Agora é claro que um sistema assim deveria estar coberto por ferozes, activos e preparadas redes de fiscalização… O que não acontece. E sei do que falo, em primeira pessoa…

  5. Clavis: sim eu percebi que sabias bem do que falavas. O que eu quero dizer- queria dizer é que – nesta área – haver mais ou menos competição tem pouco a ver com melhorar-se ou não o ensino. Também acho que o lucro não é incompatível com a qualidade mas não nesta área. Penso que o objectivo nesta área deve sr outro e o lucro deve estar claramente em segundo plano. isto não é o mesmo que fabricar salsichas.

    Não acredito que se se consiga criar uma dinâmica em que pondo privados ou públicos a competir uns com os outros isso crie melhor ensino. Aquilo está absolutamente minado por dentro e é algo de impossível de acontecer.
    Mais ainda duvido que isso garantisse o livre acesso. Além disso garantir o livre acesso a cursos que parecem bons não o sendo pode-se sempre fazer, agora garantir um ensino global de qualidade isso é que não se quer fazer.
    Eu percebo o teu ponto de vista no sentido em que achas que existirá uma solução fazendo as coisas com esse método.
    Eu próprio já achei isso; depois curei-me. Este “sistema” é impraticável.
    Pura e simplesmente os professores universitários tem um poder exorbitante, e os alunos …… nenhum poder.

    Toda a estrutura é completamente pesada e obsoleta e se-lo-á sempre enquanto não se mudar uma série de coisas. Quanto a tua descrição do ambiente de U privadas conheço-a perfeitamente. É precisamente por isso que defendo o fecho imediato de uma série delas, o fim do ensino superior cooperativo, e preços controlados no ensino superior privado e nem sequer me interessa que me chamem comunista ou estatista.
    É absolutamente vergonhoso pagar-se montantes absurdos a pessoas que pura e simplesmente não sabem dar aulas e além disso uma série deles deviam era ser proibidos de dar aulas.

    Além disso o Estado no sistema que propões financiaria tudo mas depois criaria “restrições” aos chumbos dos alunos e a partir daí qualquer independência de um aluno desapareceria perante um professor que o chumbaria à vontade apenas por o aluno “discordar dele”. O sistema estaria imediatamente “contaminado” pela iniquidade.
    Enquanto não existir um sistema em que o aluno é perfeitamente livre e só é avaliado justamente e com equidade por aquilo que fez e possa avaliar o trabalho do professor, não haverá hipóteses de mudar nada.

    Isto vai a uma coisa tão simples quanto isto: os testes que se fazem TEM QUE SER obrigatoriamente e gratuitamente entregues ao aluno depois de feitos e passíveis de avaliação externa , se for caso disso e gratuita.

    A opacidade só nesse aspecto mostra bem o que aquilo é. Tem que existir critérios definidos de avaliação. Nada disso se fala.

    Só se fala é em todos chegarem ao ensino superior e a ele terem acesso. Para mim isso não é nada. Lá dentro é que as coisas são manipuladas e pessoas são prejudicadas.
    Mais: qualquer pessoa deveria poder fazer mestrado, sem ter que ter médias de aprovação prévias.
    O que interessa é o que a pessoa faz, o valor do trabalho que faz naquele trabalho e não o “pedigree” muitas vezes martelado que vem de trás.
    Só para dar uns exemplos.

    A história de todos acederem assim diz-me pouco sinceramente.
    Mas gostei deste post e que o tivesses feito. É um tema muito interessante.

  6. ANA REHINBO

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