Os Dois “Quinto Império” de António Vieira e Agostinho da Silva

Embora estes dois grandes pensadores e profetas da alma portuguesa estejam no cerne da nossa doutrina política e social, não é certo que tenham tido a mesma visão, concreta e matemática certa daquela realidade a um tempo virtual e sonhada que se pode chamar de “Quinto Império”. Bem pelo contrário… Enquanto que Vieira antevia o Quinto Império como uma hegemonia temporal, mas também religiosa e política, centrada em Lisboa, sob a tutela espiritual da Roma católica, Agostinho buscava o Quinto Império em primeiro lugar dentro do Si pessoano e indivual, só para depois o buscar na realidade social exterior e abrangente, mas desprovida de centros de poder social, político ou temporal, nem mantendo aquela espécie tolerante, mas exigente da conversão dos judeus, gentios e protestantes almejada por Vieira.

Onde António Veira se preocupava com uma hegemonia que via crescente do protestantismo holandês e inglês e com as longas, mas contemporâneas ambições anexantes de Castela, correspondia em Agostinho da Silva uma preocupação com a tendência crescente da Civilização Ocidental para um reforço dos mecanismos de alienação individual, de semiescravatura industrial disfarçada de assalariamento e mecanização intensiva, de desumanização das Sociedades, enfim…

Aquilo que Agostinho efectivamente (e afectivamente) procurava era mais do que “Quinto Império” (termo verdadeiramente cunhado por António Vieira), um “Império do Espírito Santo”, desclassado (sem classes económicas ou sociais), mas diverso, no sentido em que não massificante nem desinvidualizante como os comunismos de Estado Estalinistas… Buscava em Joaquim de Flora a inspiração para essa interpretação do curso do tempo que via as idades como divididas em três, sendo a do Espírito Santo, a derradeira de todas e a que que desprovida da Lei que fora a essência da Idade do Pai, nem a Igreja que marcara a Idade do Filho, poderia impôr o império universal da fraternidade, do amor e da compreensão sem pobreza nem riqueza, sem crime nem prisão que se comemorava em Portugal no reinado de Dom Dinis e ainda hoje nos Açores e no Brasil como… Império do Espírito Santo. Uma outra forma de chamar a mesma coisa a que Vieira chamava de “Quinto Império”, embora com um teor e uma interpretação menos psicológica e individual do que a de Agostinho.

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