Sobre a retirada da Rússia do Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa de 1990 (FACE)


(MBTs T-84 in http://armor.kiev.ua

A retirada da Rússia do Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa de 1990 (FACE) é uma resposta evidente ao programa do escudo anti-mísseis dos EUA, mas também mais um sinal de que a Rússia de Putin já não é a Rússia dominada pelas mafias e militar e economicamente enfraquecida de Ieltsin… Mais do que um protesto contra o programa anti-mísseis ou que um regresso à “Guerra Fria”, a retirada é uma expressão da vontade russa de reassumir o seu estatuto de “grande potencia” ao lado das demais, propulsada agora pelos petrodoláres e por um presidencialismo cada vez mais autoritário e autista…

É certo que depois da assinatura do FACE foram retirados ao serviços mais de 60 mil tanques, blindados, peças de artiharia e aviões de combate, mas a maioria foi-o não porque a sua retirada seguia a letra do tratado, mas apenas porque alcançou o limite da sua obsolescência, o que é especialmente verdade em relação ao equipamento russo… E outra boa parte, deveu-se à retirada da Alemanha da maioria das divisões que os EUA ali mantinham desde o fim da Segunda Grande Guerra…

Por fim, eis os números actuais das forças militares russas:

395,000 soldados de infantaria

1,233 aviões de combate

23,381 carros de combate

489 mísseis baseados em terra

12 mísseis lançados por submarinos

57 submarinos

62 navios de guerra

Embora estes números ainda incluam algum material obsoleto e em armazém e dificilmente colocado em estado operacional (algo que é especialmente verdadeiro no caso dos 1233 aviões de combate, muitos dos quais são MiG-23 e MiG-27), a verdade é que a frota russa é hoje claramente superior à frota britânica, quase de dois para um, enquanto que na Guerra Fria esta lhe foi sempre claramente superior, com excepção no ramo estratégico e submarino… Estes números russos, são contudo, muito menores do que os absolutos se tivermos em consideração a imensa extensão geográfica que a Rússia tem que defender, desde Kaliningrado, o enclave balcânico, ao Mar Negro, ao turbulento Caucaso, à fronteira comum (e problemática) com o gigante chinês, ao extremo oriente com regiões autónomas onde o islamismo radical é uma força crescente… Estas regiões, mais a sempre rebelde chechénia absorvem uma fracção muito importante destas forças militares… Mas apesar desta extensão geográfica e da existência de tantos conflitos latentes, a Rússia é ainda hoje uma das grandes potencias militares do mundo e é normal e compreensível que se retire de um tratado que lhe era desfavorável e que foi assinado num momento em que se encontrava em especial fraqueza e liderada por um presidente bêbado e incapaz de ombrear com os grandes da Europa e tido frequentemente como demasiado dócil na própria Rússia…

Fonte: El Pais; 15 de Julho de 2007

Categories: DefenseNewsPt, O Código da Vinci, Política Internacional, Sociedade | 4 comentários

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4 thoughts on “Sobre a retirada da Rússia do Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa de 1990 (FACE)

  1. João

    Seria absolutamente incompreensível que a Rússia fosse a única a cumprir o tratado e a outra parte (Otan) sequer o ratificasse.

  2. sa morais

    “a frota russa é hoje claramente superior à frota britânica, quase de dois para um”

    A quantidade dificilmente será mais importante do que a qualidade…

    Mas as coisas mudam e talvez venhamos mesmo a precisar de uma Russia com alguma força, até por causa do gigante que tem a leste…

  3. João: Sim, a Rússia tem sido maltratada e considerada como um “parceiro menor”, quando e apesar de todos os tiques autoritários de Putin (numerosos e perigosos) devia ser levada a alinhar com o Ocidente contra um Islão cada vez mais militante e perigoso que ameaça todo o planete…

    Sá: Na verdade, acho que me enganei… Receio bem que a frota russa seja ainda mais numerosa do que disse… Se não mesmo na escala de 1 para 3… Qualidade? Hum… Ambas as marinhas operam navios vetustos… Provávelmente a RN ainda é superior à frota russa, mas devido ao seu superior treinamento…

  4. eu lembrei desse post quando eu li que ele teve uma relavancia consideravel na invasao russa da georgia

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