A Produção do V2 (A4)


(http://www.hrw.com)

Após a construção da fábrica de misseis de Peenemunde, o Reich esperava obter uma produção anual de 500 A-10s ou 1500 A-4. Estas estimativas, de 1939, revelaram-se afinal pouco optimistas. A produção de 6.000 A-4 em condições mais dificeis do que aquelas então previstas nos últimos 15 meses de guerra mostra-o bem. Como se explica assim um número tão baixo? Em primeiro lugar o Exército da década de Trinta preferia a qualidade à quantidade, e esta caracteristica seria ainda reforçada pelo próprio carácter inovador e revolucionário da fábrica de Peenemunde.

Um ano depois, em 20 de Junho de 1940, a guerra mundial parecia aproximar-se do seu fim, mas apesar disso Emil Leeb, que se sucedera a Becker na chefia do Arsenal ainda defendia que grandes números de A-4 deviam ser produzidos “de modo a ter a possibilidade de manter a Inglaterra sob pressão mesmo depois da conclusão da paz.” Mas esse argumento não prevaleceria e no final de Setembro de 1940 o programa de foguetes seria reduzido para o nível “Ib”, que correspondia à terceira prioridade. Mas o Arsenal não ficou de braços cruzados. Os protestos de Dornberger fizeram com que duas semanas depois o programa subisse à segunda prioridade “Ia” pelo OKW, não era o nível máximo “S” mas pelo menos os projectos em curso não sofreriam atrasos significativos.

Os problemas com níveis de prioridade regressaram nos começos de 1941 quando foi criado um novo nível superior a todos os outros, o “nível especial SS” (nada a ver com as SS). Consequentemente, os níveis anteriormente existentes viram perder a sua importância e em reconhecimento deste facto em Fevereiro de 1941 os níveis inferiores a “SS” e “S” seriam classificados como desprovidos de sentido. Peenemunde conseguiu uma vitória ao conseguir que o desenvolvimento do A-4 recebesse a classe “SS”, contudo a fábrica de misseis de Peenemunde só obteve a “S”, o que concorda com a falta de entusiasmo de Hitler. Razoávelmente, o ditador preferia esperar que a investigação produzisse resultados antes de atribuir máxima prioridade à fabricação do engenho, conforme pretendia o grupo de Peenemunde.

Durante seis meses, a investigação do projecto A-4 mantivera-se em prioridade inferior, mas se a situação estava agora reestabelecida, na fábrica os problemas mantinham-se. As máquinas-ferramentas e os operários especializados ainda escasseavam mas Dornberger ainda acreditava ser possível produzir o míssil em pequena escala nos começos de 1942. Os planos originais para a fábrica previam a entrega de 500 A-4 por ano, um número irreal, mesmo antes da descida de classe de prioridade da fábrica, visto que concluir o desenvolvimento e iniciar a produção em menos de um ano era impossível, aliás, a decisão de Hitler de cortar as cotas de aço ainda viria a aumentar mais as dificuldades da fábrica de misseis de Peenemunde.

A batalha de Peenemunde para transformar o A-4 numa prioridade nacional teve um novo episódio a 20 de Agosto de 1941. Nesse dia Dornberger, von Braun e Steinhoff tiveram uma reunião com Hitler no seu quartel general na Prússia Oriental em Wolfsschanze. Dornberger começou com a projecção de um filme sobre o A-2, o A-3, A-5, a construção de Peenemunde e imagens diversas sobre aviões-foguetes e descolagens assistidas por foguete. Pela primeira vez, o Fuhrer parece ter ficado realmente impressionado: “este desenvolvimento de revolucionária importância para a condução da guerra em todo o mundo. A utilização de algumas centenas de aparelhos por ano é portanto pouco sábia. Se fôr usado, centenas de milhares de aparelhos por ano devem ser fabricados e lançados”. A citação permite constatar que o ditador nazi não estava tão iludido quanto à amplitude dos efeitos psicológicos do A-4 como estava o grupo do Arsenal. Hitler parecia saber que o uso de algumas centenas de misseis seria irrelevante e que somente a construção de milhares poderia ter algum peso no conflito. Mas se neste aspecto Hitler parece ter estado à frente de Dornberger, no que respeita à possibilidade práctica de construir centenas de milhares de A-4 o ditador estava completamente equivocado quanto á capacidade da industria alemã e revela-se neste ponto que encarava o A-4 como uma espécie de ogiva de artilharia, o que nos recorda a afirmação de Speer de “o Fuhrer só estava confortável com a tecnologia da Primeira Guerra”.

O número mais tarde sugerido apontava para a produção de 150.000 misseis anualmente, valor cedo dado como impossível por Peenemunde e pelo Gabinete Económico do OKW (Alto Comando Alemão): Para o cumprir seria necessário empenhar toda a capacidade industrial alemã e, em consequência, essa ordem acabou por cair no esquecimento. A fábrica de Peenemunde, encarada nesse plano como mais uma unidade de produção, regressou ao seu papel original de principal unidade de montagem e recebeu o encargo de construir os primeiros 585 misseis (enquanto as oficinas de Peenemunde montavam mais 15). O delirante valor proposto, após um cálculo de Dornberger produzido a partir no suprimento limitado de oxigénio líquido, desceu para 5.000 misseis por ano.

Entretanto ocorrera a nomeação de Albert Speer para o Ministério do Armamento. Esta nomeação veio insuflar novo entusiasmo no grupo de Peenemunde visto que o novo ministro sempre se assumira como um entusiasta do programa de misseis, e manteve-se nessa linha até quase ao momento da Rendição, altura em que afirma ter mudado de opinião. Talvez após sugestão de Speer, Hitler pedia-lhe a 6 de Março para investigar a quantidade de matérias-primas necessária para produzir 3.000 A-4s por mês. Aparentemente o ditador já não se recordava da sua ordem para a produção de 150.000 unidades mensais visto que mencionava agora a produção de 36.000 unidades sem a referir. Dornberger em Abril de 1942 diria a membros do ministério de Speer que 1.000 unidades mensais era um número razoável, se fossem construídas mais fábricas de oxigénio e se se optasse pelo etanol como combustível, uma opção que implicava uma ligeira quebra de performance. Um memorando datado de Setembro de 1942 mostra bem qual era então a situação da produção do A-4/V-2:

“After presentations to the Reich Minister for Armaments and Munitions [Speer], the Chief of Army Armaments and the Commander of the Replacement Army [Fromm], and the Chief of Ordnance [Leeb], the situation for HAP [Peenemunde-Este] is, at the moment, the following:

1) the Fuhrer does not believe in the sucess of the guidance system and therefore in its ability to achieve the desired accuracy,

2) the Reich Minister… doubts our sucess. He is supported in his opinion by Hauptamtsleiter Sauer [Karl Otto Saur, um membro da equipa de Speer] and Field Marshal Milch,

3) [General Fromm] has lost trust in our ability to meet our deadlines because, at the end of 1942, we still have not achieve a long range shot, [e]

4) the Chief of Army Ordnance is beginning to doubt our word.”

Dornberger delineou uma série de passos para acelerar a produção do A-4. O seu objectivo era de lançar os primeiros vinte misseis até 31 de Dezembro de 1942, para o que seria necessário que Peenemunde trabalhasse a turno e que todos os outros projectos fossem quase congelados. Esses esforços seriam coroados de sucesso quando a 3 de Outubro de 1942 um A-4 caiu a mais de 190 km de distância do ponto de lançamento. Todos os recordes mundias de altitude e velocidade tinham sido pulverizados, mas os lançamentos seguintes foram fracassos rotundos, o que levaria Dornberger a escrever a von Braun:

“Lately there have been many remarks from government offices, firms, etc., that the A-4 program no longer possesses the importance ascribed to it by the people who work on it. In that connection, confidential hints have been made that “Cherry Stone”… is far more valuable and has every chance of catching up and passing the A-4 program, if not making it altogether illusory.”

Mas estes problemas não parecem ter chegado ao conhecimento do ditador, que segundo a minuta de uma reunião que teve lugar a 22 de Novembro de 1942 tinha a seguinte opinião: “the Fuhrer takes a great interest in A-4 production planning and believes that, if the necessary numbers can be produced promptly, one can make a very strong impression on England with this weapon.” Aparentemente, Hitler tinha mudado a sua opinião contra a V-2 e achava que o efeito moral do lançamento impune de um pequeno número de mísseis podia produzir resultados na condução da guerra, como escreveria Himmler a 3 de Fevereiro de 1943 sobre o interesse de Hitler na arma: seria “a very decisive weapon for the future.” Mas essa mudança de opinião não era ainda suficientemente clara para que o programa de mísseis recebesse a classificação de prioridade “DE”. De qualquer modo Hitler não compreendia ainda a complexidade técnica da arma, porque em Janeiro de 1943 ele ordenaria ao Ministério do Armamento que estudasse a possibilidade de se lançar a V-2 do morteiro de 80 cm Dora.

Só no Verão de 1943 é que o A-4 recebia a mais alta classificação de segurança, consumada a 11 de Junho de 1943 pelo Ministério do Armamento: “O Fuhrer ordenou que o programa A-4 fosse classificado em prioridade mais alta que qualquer outra produção de armamento”. Dada a degradação da situação militar a Leste e perante a eminência de um desembarque aliado a Ocidente, o Reich depositava nas armas secretas as suas maiores esperanças. Em Fevereiro de 1943 a “Comissão Para o Bombardeamento a Longa Distância”, dirigida por Speer aprovava em simultâneo o A-4 (V-2) e o Fieseler Fi 103 (V-1). Esta aparente contradição em aprovar dois misseis tão dissemelhantes justificava-se porque a V-1 era bastante mais barata, mas vulnerável no solo (as suas rampas eram claramente visíveis do ar) e o ar. A V-2 era bastante mais dispendiosa, mas bastante mais precisa e impossível de abater. As suas características tornavam-nas armas complementares para a guerra psicológica contra o Reino Unido. Mas uma razão política deverá ter pesado mais do que qualquer argumento técnico ou militar. Já escrevemos que o III Reich era o conglomerado de uma série e impérios burocráticos autónomos e que só respondiam perante o ditador. A V-1, era claramente uma aposta forte da Luftwaffe, enquanto a V-2 era fruto do ambicioso programa de misseis do Arsenal da Werhmacht. Em 1943 nenhum dos dois tinha força suficiente para fazer impôr a sua escolha ao adversário, assim a Speer só restava manter os dois programas em paralelo.

Até 18 de Março de 1945 os números de A-4 construídas eram os seguintes: Mittelwerke, 5789 e Peenemunde, 150 a 200 modelos de teste. Numeros assombrosas, dadas as condições que a Alemanha enfrentou a partir de finais de 1944. Estes valores podem ser explicados pelo crescente acumular de experiência na fabricação dos engenhos, mas principalmente pela alta prioridade que a V-2 manteve até ao final da guerra. Mas nos finais de Março de 1945, a frente Ocidental colapsou. O Reno foi ultrapassado e instalou-se um sentimento de derrota inevitável nas forças armadas alemãs.

O balanço final da V-2 (A-4) aponta para um fenómeno tristemente irónico: estima-se que morreram menos de 2.000 pessoas com os impactos desses misseis, mas em contrapartida quase 6.000 alemães, prisioneiros de guerra e internados judeus e eslavos terão morrido durante os bombardeamentos aliados e devido às duras condições das fábricas de Mittelwerke. Ou seja, a V-2 produziu mais baixas em casa do que no alvo, e isto à custa de um impacto psicológico que os britânicos puderam suprir facilmente com a imposição de uma severa censura aos números das baixas civis provocadas pelo míssil.

Categories: As "Armas Secretas" da Alemanha Nazi | Deixe um comentário

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