Daily Archives: 2007/06/30

O Trabalho, O Culto do Trabalho dos Protestantes e dos Eslavos e a Visão do “Trabalho” de Agostinho da Silva


(O campo de extermínio de Auchwithz in http://oncampus.richmond.edu)

Quem conhece algum emigrante do leste europeu trabalhando em Portugal reconhece nele – muito provavelmente – uma capacidade para o Trabalho e uma dedicação para o mesmo que frequentemente não tem correspondência directa no vencimento ou mesmo no reconhecimento que dele advém… Apesar disso, a justamente lendária fama dos emigrantes de leste como trabalhadores esforçados e dedicados persiste e, aparemente, de forma merecida. E isto leva-nos à pergunta: Porquê?

Porque é que os portugueses – na sua maioria – encaram o Trabalho como algo de negativo (“Se o Trabalho fosse uma coisa boa, não nos pagavam para o fazer”, diz-se) e estes emigrantes de Leste têm esta atitude, aliás, algo semelhante aquela que exigem geralmente os habitantes dos países do norte da Europa. O que têm estes de comum, e o que têm em relação a estes dois grupos populacionais tão distintos os portugueses de diferente? Bem… Os eslavos e os nórdicos pertencem a matrizes culturais, étnicas e religiosas diferentes. Mas ambas estas matrizes têm em comum a existência de um “Culto ao Trabalho”. O Leste foi mentalmente formatado durante 50 anos para um “Culto ao Trabalho” que fazia parte do dogma comunista, que premiava os trabalhadores de ultrapassavam as quotas de produção, que lhes atribuía medalhas e colocava na porta das fábricas as suas fotografias. Os povos de crença protestante têm um base diferente, mais religiosa e assente na visão calvinista do mundo, mas que conduz ao mesmo destino: “O Trabalho Liberta” (“Arbeit Macht Frei”), lema muito abusado pelos nazis… (ver AQUI).

De forma contrária, os portugueses e os católicos em geral, encaram o Trabalho como uma “Pena”, como um Castigo pela Queda Adâmica do Homem no mundo e pela sua expulsão do Paraíso, já que aqui não era necessário trabalhar para comer e que bastava recolher os alimentos, sem trabalhar… Assim, o Trabalho de procurar alimentos, necessário apenas porque o Primeiro Homem foi tentado pela serpente, castigado e expulso do Éden… Ou seja, a primeira consequência do Pecado Original foi precisamente o Trabalho… A matriz cultural cristã assenta sobre esta base e formou a mentalidade Ocidental católico-cristã que determinou este tipo de atitude perante o Trabalho e enforma naquilo que ainda está na base desta atitude portuguesa perante o Trabalho… Mas… Será que esta atitude é… Má? Agostinho da Silva dizia “(…) Já reparou naquilo a que chamo a agonia do trabalho? Toda a nossa vida gira em função do trabalho. Quando se pergunta a alguém o que é, nunca temos a resposta: sou homem ou sou mulher. Diz-se: sou engenheiro, electricista, médico. Só se é gente em referência ao trabalho. Um desempregado sente-se um pária e, todavia, ele é gente, a coisa mais extraordinária que se pode ser(…)”. Ora, de facto, o Trabalho não deve, não pode, ser a base sobre a qual assenta toda a nossa vida, sob a pena de quando nos juntarmos ao batalhão crescente de desempregados (já quase em meio milhão) ou quando nos reformarmos entrarmos em Depressão devido ao sentimento de “inutilidade” para a Sociedade.

Agostinho acreditava que era possível criar uma sociedade onde o Homem fosse superior à Economia, precisamente o inverso daquilo que acontece no mundo moderno, dominado pelas corporações multinacionais, pela Economia Virtual dos Mercados Financeiros e pela Globalização desregrada e selvática, sem fronteiras políticas, morais ou legais. O filósofo defendia que “o homem possa passar à sua verdadeira vida, que é a de contemplar o mundo, ser poeta do mundo e o mundo poeta para ele, de tal modo que nunca mais ninguém se preocupe por fazer tal ou tal obra“. O Homem devia assim deixar para as “máquinas” as tarefas repetitivas, não-criativas e alienantes da produção e do trabalho, libertando-se novamente do Pecado Original e reingressando no Éden, tido agora não como uma figura mítica, mas como uma sociedade futura onde o Homem se poderia verdadeiramente exprimir e onde poderia exercer o seu fantástico poder criador de forma livre e autónoma.

Mas que não se pense que Agostinho da Silva defendia o Ócio… Ou seja, a ausência de Trabalho… “O tempo livre, quando não se enche com coisa nenhuma, torna-se absolutamente insuportável, destruindo o indivíduo por completo. É a razão por que morre tanto reformado já que, deixando de ter o seu emprego, se não encontrar novos objectivos na vida, a morte seguir-se-á rapidamente“. Ou seja, o Ócio é assassino e está é certamente a causa pela qual tantos homens se reformam e acabam por morrer nos meses subsequentes… Simplesmente, porque perdendo a carreira e o motor das suas vidas, e não sendo capazes de recentrar as suas novas vidas numa família que sempre colocaram em segundo ou terceiro plano, desprovidos de interesses pessoais ou de vida própria, se extinguem e se deixam consumir pelo Ócio…

Anúncios
Categories: Movimento Internacional Lusófono, Sociedade | 3 comentários

Considerando particularmente o Brasil, nele encontra o “povo” que pode trazer ao mundo o re-centramento da vida na santidade e na criatividade

“Considerando particularmente o Brasil, nele encontra o “povo” que pode trazer ao mundo o re-centramento da vida na santidade e na criatividade, por uma renúncia à riqueza e ao bem-estar materiais como fins em si que permita fruí-los sem neles se aprisionar e torná-los um bem comum, libertando o espírito para a “fantasia” do possível.”

Paulo Borges na Introdução a

“Agostinho da Silva: “Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I; Âncora Editora.”

Categories: Movimento Internacional Lusófono | 5 comentários

Site no WordPress.com.

Eleitores de Portugal (Associação Cívica)

Associação dedicada à divulgação e promoção da participação eleitoral e política dos cidadãos

Vizinhos em Lisboa

A Vizinhos em Lisboa tem em vista a representação e defesa dos interesses dos moradores residentes nas áreas, freguesias, bairros do concelho de Lisboa nas áreas de planeamento, urbanismo, valorização do património edificado, mobilidade, equipamentos, bem-estar, educação, defesa do património, ambiente e qualidade de vida.

Vizinhos do Areeiro

Núcleo do Areeiro da associação Vizinhos em Lisboa: Movimento de Vizinhos de causas locais e cidadania activa

Vizinhos do Bairro de São Miguel

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos

TRAVÃO ao Alojamento Local

O Alojamento Local, o Uniplaces e a Gentrificação de Lisboa e Porto estão a destruir as cidades

Não aos Serviços de Valor Acrescentado nas Facturas de Comunicações !

Movimento informal de cidadãos contra os abusos dos SVA em facturas de operadores de comunicações

Vizinhos de Alvalade

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos de Alvalade

anExplica

aprender e aprendendo

Subscrição Pública

Plataforma independente de participação cívica

Rede Vida

Just another WordPress.com weblog

Vizinhos do Areeiro

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos do Areeiro

MDP: Movimento pela Democratização dos Partidos Políticos

Movimento apartidário e transpartidário de reforma da democracia interna nos partidos políticos portugueses

Operadores Marítimo-Turísticos de Cascais

Actividade dos Operadores Marítimo Turísticos de Cascais

MaisLisboa

Núcleo MaisDemocracia.org na Área Metropolitana de Lisboa

THE UNIVERSAL LANGUAGE UNITES AND CREATES EQUALITY

A new world with universal laws to own and to govern all with a universal language, a common civilsation and e-democratic culture.

looking beyond borders

foreign policy and global economy

O Futuro é a Liberdade

Discussões sobre Software Livre e Sociedade