A Kyrgyzia, o Cultivo do Ópio, o Fracasso Afegão e da Ineficácia dos Grandes Estados

O líder do maior partido de Oposição da Kyrgyzia anunciou que se fosse eleito iria permitir o cultivo de Ópio como forma de o país pagar a sua dívida externa, apontando o sucesso que o método está a ter no Afeganistão como exemplo de uma forma de obter concessões do Ocidente através desta forma de chantagem.

Segundo este líder Kyrgyz, “este ano o Afeganistão anunciou de uma forma quase oficial que iria aumentar o número de plantações de ópio. Temos que fazer o mesmo e permitir que o nosso povo plante ópio por um ano ou dois. Depois disso, todas as organizações internacionais ficarão alarmadas e irão oferecer-se para pagar as dívidas do país.

E o pior é que… Beknazarov tem razão… O cultivo do ópio hoje no Afeganistão é o principal recurso económico de um país onde a reconstrução praticamente não existiu ou onde foi limitada a alguns bairros da capital e onde o governo central tem cada vez menos dois… De Governo e de Central e que vive cada vez mais na dependência das forças estrangeita para manter uma fachada de autoridade e representação… Os campos e as cidades do interior estão novamente nas mãos de Senhores da Guerra, desta feita, com papéis de “governadores” reconhecidos pelo Governo Central e guardados por corpos pretorianos que só a eles são fieéirs, deixando o grosso das operações anti-taliban para as forças que a NATO colocou no território (e entre as quais se contam os 156 soldados portugueses, estacionados na perigosa região da Kandahar).

Não é certo que Beknazarov consiga ganhar as próximas eleições, mas o apoio das poderosas e ricas mafias do narco-tráfico locais é praticamente certo e isso coloca-lhe nas mãos os recursos necessários para vencer qualquer eleição num país esmagado pelo peso de uma dívida externa de 2 biliões de dólares, o equivalente a 72% do PIB. Uma dívida que os banqueiros do mundo já receberam várias vezes, em juros, mas que continuam a reclamar desprezando a vida dos naturais dos países que escravizaram e a própria sustentabilidade económica dos países endividados, arriscando-se assim, numa política cega e funesta, a matar a sua própria galinha dos ovos de ouro…

De permeio, ganham as imensamente ricas e cada vez mais poderosas Mafias da Droga, que já encontraram no Afeganistão um Santuário seguro para as suas operações e que agora se preparam para tomar sob controlo mais um país da região, perante a passividade das forças da NATO ocupadas em combater os cada vez mais activos Talibans e a negociar “neutralidades cooperantes” com os Senhores da Guerra locais e ignorando que é a Droga que financia uns e outros, e que no seu fim radicaria desde logo a força e o financiamento destes radicais islâmicos…

Sem dúvida que estes empréstimos concedidos pelo FMI e pelo Banco Mundial nas últimas décadas pouco contribuiram para melhorar a situação na maioria dos países que os receberam, desaparecendo na maioria nas mãos de poderosas élites corruptadas e em formas subreptícias de aquisição de armamento. E agora, a maioria destes países estão sobrecarregados de Serviço da Dívida, imoral em tantos casos, porque a dívida inicial já foi paga e agora, restam os juros que continuam a ser pagos a favor de uma Banca internacional crescentemente ávida de lucros e ignorante do sofrimento que estes acarretam.

Urge quebrar este ciclo, definir um mecanismo generalizado de “Perdão da Dívida” quando estiver alcançado um certo nível de remuneração à Banca e – sobretudo – criar condições para que empréstimos futuros não sejam desperdiçados como foram estes dos últimos quarenta anos. Se isso implicar, cedências de soberania por parte das nações receptoras, seja, mas que se encontrem mecanismos que impeçam o escandaloso enriquecimento de alguns à custa da miséria dos demais.

E que se repense a geografia política de países que não têm recursos para serem algum dia auto-suficientes… Que se subdividam estas nações em unidades federadas de menores dimensões e mais eficazmente geríveis e monitorizáveis e se dissolvam os grandes Estados ingovernáveis como o Sudão, a Argélia, a Índia, a Nigéria, Angola, países demasiado extensos para poderem ser governados em condições de eficácia e que apenas existem enquanto herança de um passado colonial que urge ultrapassar e actualizar encontrando nas tradições locais e regionais a energia renovadora que tem faltado.

Fonte: Al Jazeera

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Categories: Economia, Política Internacional, Sociedade, Websites | 8 comentários

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8 thoughts on “A Kyrgyzia, o Cultivo do Ópio, o Fracasso Afegão e da Ineficácia dos Grandes Estados

  1. É realmente um assunto sério. Vi em tempos, uma reportagem sobre as plantações de opio no Afeganistão e, na altura, falavam no pagamento aos agricultores para destruirem as plantações e sua substituição por outras culturas. Claro que esse dinheiro acabou só nas mãos de alguns que agora voltam à carga na esperança de virem a receber mais. Não sei qual a solução para estes problemas, mas duvido que muitos dos paises (os actuais governos sobretudo) de que falas aceitem ser divididos. Assim é mais fácil de perpectuara a cultura de corrupção e de enriquecimento pessoal.
    abraço

  2. também vi recentemente um documentário sobre o tema que tentava etabelecer porquê a heroina ficou tão mais barata desde a invasão do afeganistão. Como mote nesse doc vim a apurar que os talibã realmente combatiam com grande força a plantação e consumo de droga, com pena capital para ambos os “crimes”. Na realidade os “senhores da guerra” aliados dos ocidentais são cartéis (versão persa) de droga demasiado poderosos para serem eliminados pelos fundamentalistas islâmicos pré invasão.

    O próprio Irão tem combatido uma guerra sem quartel nos seus postos fronteiriços. Centenas de soldados e milhares de traficantes morrem todos os anos no combate contra o tráfico de heroina para a Europa , o que creio que não è alheio ao crescente desprezo contra os ocidentais por parte da sociedade iraniana.

    Já está estabelecido que mexer no Iraque foi mexer num num ninho de vespas, creio que futuramente se vai estabelecer o mesmo em relação ao afeganistão.

    Quanto à ideia de mudar os sistemas políticos dos paises corruptos: deixem-nos em paz. Qual quer ingerência, por muito bem intencionada que seja, vai sempre ser contraproducente. O desejo de mudança deve vir de dentro e não deve sequer ser “apoiado” sob pena de se transformar numa farça, Como os governos do Iraque e afeganistão agora são, ou como os governos e rebeldes das ex-colonias por muito tempo foram/ainda são.

  3. Golani

    “Já está estabelecido que mexer no Iraque foi mexer num num ninho de vespas, creio que futuramente se vai estabelecer o mesmo em relação ao afeganistão.”

    No Afeganistão tinha que ser, não ?

    eu querias manter um governo que apoiava uma organização terrorista internacional, que atacou na Europa e nos US, e que permitia que usasse o Afeganistão como campo de treino e recrutamento para terroristas internacionais ?

  4. Goliani,
    Sim, infelizmente às vezes temos que bater no ninho de vespas para evitar mais picadas no futuro.

    O que queria dizer è que se tem demonstrado que a NATO foi ineficaz a cauterizar a ferida e agora surgem problemas que não eram previstos pera maioria dos observadores.
    È claro que admito que è fácil ficar de fora a apontar os defeitos da obra quando não se tem soluções próprias.

  5. Kaos: O grande problema é de facto duplo: de um lado os preços das matérias primas agrícolas que não param de cair nos mercados internacionais, submetidos cada vez à pressão das grandes multinacionais do ramo, como a Monsanto que tudo fazem (incluindo dumping) para anularem os agricultores independentes e baixarem os preços… do outro lado, temos a pressão crescente dos consumidores de drogas que exigem cada vez mais produtos e a força também ela crescente das mafias da droga, ricas ao ponto de comprarem alguns governos… como o narcogoverno afegão…

    “para estes problemas, mas duvido que muitos dos paises (os actuais governos sobretudo) de que falas aceitem ser divididos. Assim é mais fácil de perpectuara a cultura de corrupção e de enriquecimento pessoal.”
    e por isso é que essa decisão devia ser dada directamente às pessoas, afectadas, sob referendo vigiado e implementado internacionalmente…

  6. JG:

    “também vi recentemente um documentário sobre o tema que tentava etabelecer porquê a heroina ficou tão mais barata desde a invasão do afeganistão.”
    pois… desceu porque aumentou a oferta… é a velha Lei da Oferta e Procura em aplicação…

    “Como mote nesse doc vim a apurar que os talibã realmente combatiam com grande força a plantação e consumo de droga, com pena capital para ambos os “crimes”.”
    mas nem sempre, e nem sempre com muito entusiasmo! durante algum tempo tolelaram o consumo, muitos “senhores da guerra” que alinharam com os talibans e que agora se passaram para o lado do “governo” nunca deixaram de plantas as suas papoilas, os talibans e agora o governo não tiveram nunca a força bastante para impôr a sua vontade a todos estes senhores da guerra, nas provincias e foram tolerando e toleram as suas actividades ainda hoje…

    “O próprio Irão tem combatido uma guerra sem quartel nos seus postos fronteiriços. Centenas de soldados e milhares de traficantes morrem todos os anos no combate contra o tráfico de heroina para a Europa , o que creio que não è alheio ao crescente desprezo contra os ocidentais por parte da sociedade iraniana.”
    bem, mas o Irão tb tem muito interesse neste combate ao narcotráfico… é que a sociedade iraniana é daquelas que no Médio Oriente mais sofre com o flagelo da droga, tendo um número estimado entre 140 a 200 viciados no pais do Ayatollash…

    “Já está estabelecido que mexer no Iraque foi mexer num num ninho de vespas, creio que futuramente se vai estabelecer o mesmo em relação ao afeganistão.”
    A guerra no Afeganistão foi uma guerra travada com bases morais e com apoio internacional, e é aqui que reside a grande diferença com o que se passou no Iraque onde esse apoio foi fraco e onde essas bases colapsaram com os chorrilho de mentiras que nos tentaram impingir… Os EUA ganharam todas as guerras que travam do lado da Razão e da Moral, e perderam todas as outras. Por isso, acho que tb deverão vencer aqui… O problema está em que o iraque concentra actualmenta tantas forças e atenções dos EUA que estes estão a descurar o importante teatro afegão… e um regresso dos Talibans aqui seria dramático… especialmente pq os EUA já não poderiam contar com a “liga do norte” e pq as suas forças estão empenhadas no Iraque…

  7. Golani:

    “No Afeganistão tinha que ser, não ? eu querias manter um governo que apoiava uma organização terrorista internacional, que atacou na Europa e nos US, e que permitia que usasse o Afeganistão como campo de treino e recrutamento para terroristas internacionais ?”

    não… a guerra no Afeganistão foi e é, como já escrevi acima, uma “guerra justa”. E se os talibans regressarem devem ser novamente depostos. Mas o Afeganistão é um desses países que acho ingovernáveis e que deviam ser divididos… Nunca houve um ano de paz na história recente do Afeganistão (desde a Bactriana de Alexandre?), e isso diz muito sobre a governabiliadade do “país”, penso eu…

  8. Este é um problema muito grave que não terá uma solução fácil. Seria necessário uma enorme vontade política e monetária, para os bancos abdicarem dos seus lucros monstruosos. Do outro lado estarão a máfias e os senhores que lucram com este sujo negócio, que também não deixarão facilmente cair este seu negócio tão rentável…
    Um Abraço.

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