Documentação sobre a “Cruzada Nacional”

Carta de 5 de Fevereiro de 1330

Letras Dilecti Filis, do papa João XXII, dirigidas ao rei de Castela a declarar insólita, grave e insuportável a súplica na qual lhe solicitaram, para prossecução da guerra contra os Agarenos e exaltação do nome de Cristo a dizima de todos os rendimentos eclesiásticos de seus países por dez anos, a começar em 1335.

Carta de 31 de Maio de 1335

Resumo:
Carta de el-rei Dom Afonso IV, a mandar suster a execução de letras pontíficias em que se ordenara ao clero e Ordens do País dessem as dízimas do que houvessem por seis anos para serem levadas para fora da terra e dadas a alguns que queriam ir sobre os mouros, por se tratar de deservico e dano do reino, o que significara ao papa e espera ser atendido, visto comarcar com eles e guerreá-los constantemente com dispêndio grande de seu haver.

 

Comentário:
Esta carta real de Dom Afonso IV mostra a prossecução de uma “Cruzada Nacional” por parte da monarquia portuguesa. A carta papal que motiva esta reacção pretendia reunir apoios para uma nova Cruzada para a libertação da Terra Santa. Esta Cruzada vinha a ser preparada desde os tempos de Bento XII, sem grande sucesso, e acabaria por ser completamente abandonada devido à disputa existente entre a Inglaterra e a França a propósito da Escócia (aliada da França). O único resultado palpável limitar-se-ia a uma pequena expedição que levaria alguns víveres até ao reino cristão da Arménia.

Carl Erdman resume assim a Carta de Dom Afonso IV ao rei castelhano: “os muçulmanos em Espanha são exactamente os mesmos inimigos que nós queremos ir combater na Palestina. O lucro para a cristandade e, em ambos os casos, igual; os bens que esperamos alcançar para as nossas almas, os bens que esperamos alcançar para as nossas almas, os mesmos. por conseguinte, a resposta a dar aos emissários e que espanhóis e portugueses pensam decerto em tomar a santa cruz, mas em seus próprios territórios e que, em vista disso, pedem, por seu turno, aos franceses e alemães que venham primeiro ajudá-los nesta guerra, para que, depois de terem vencido os muçulmanos vizinhos, se lhes associem na cruzada geral.

E o carácter pragmático do monarca é bem reflectido na citação: “por ganharmos maior
agora e mais nosso proveito”, ou seja, a “cruzada nacional” não era já uma questão de pura sobrevivência nacional, mas também já uma questão económica, ou não tivesse sido o produto do saque às ricas cidades muçulmanas uma das maiores fontes de rendimento durante o período da Reconquista.

Súplica de 30 de Abril de 1341

Resumo:
A Súplica da Bula de Cruzada Gaudemis Et Exultamus perdeu-se. Nesta, datada de 30 de Abril de 1341, o papa Bento XII incentivava à guerra contra o muçulmano de Granada e do Benamarim (Marrocos).

Bula de 10 de Janeiro de 1345

Resumo:
Nesta bula de Clemente VI, passada a Dom Afonso IV, após um seu pedido, são-lhe concedidos pela Santa Sé a dízima de todos os rendimentos eclesiásticos de Portugal durante dois anos para que este monarca empregue estes fundos na continuação da guerra de Cruzada contra o Benamarim, com o qual os demais reinos peninsulares tinham então assinado tréguas.

Bula de 10 de Janeiro de 1345

Resumo:
Clemente VI, dirigindo-se aos bispos de Viseu e Évora, insta-os a colherem a dízima de todos os rendimentos eclesiásticos do reino conforme fôra determinado noutra bula com a mesma data e que imediatamente acima apresentámos.

Bula de 13 de Janeiro de 1345

Resumo:
Trata-se de uma Bula de Clemente VI para Luís de Espanha ou Luís de la Cerda, a conceder indulgência plenária, em artigo de morte.

Bula de 14 de Março de 1319

Resumo:
Esta bula de João XXII, institui em Portugal, após pedido de Dom Dinis, a Ordem de Cavalaria de Jesus Cristo. Esta ordem deveria combater os sarracenos obedecendo à regra de Calatrava, mas estando sujeita no que respeita a correição e visitação, aos abades do mosteiro de Alcobaça. A dita ordem estabeleceria a sua sede na igreja de Santa Maria do Castelo de Castro Marim, cujos direitos e pertenças receberia, assim como todos os bens da extinta ordem dos cavaleiros templários.

Comentário:
Esta bula vem quebrar um interregno que já vinha desde 8 de Abril de 1245 com a bula Cum Zelo Fidei, a propósito da guerra contra o inimigo muçulmano. Desde essa data até à presente bula que cessam as referência aos muçulmanos, o que é inteiramente justificado dado o fim da guerra de Reconquista em 1249. A súbita e quase extemporânea aparição desta bula reflecte uma nova estratégia da coroa portuguesa, que visava retomar a guerra contra o muçulmano, desta vez no mar e até mais longe, até ao Marrocos, numa nova e revigorada “Cruzada Nacional” marítima que justificaria as primeiras expedições às praças marroquinas e a primeira fase da nossa expansão na costa ocidental africana.

Carta de 24 de Março de 1414

Resumo:
Trata-se aqui de uma carta de Dom João I passada ao corregedor da cidade de Lisboa em que a pedida da câmara da dita cidade se proíbe de levar às terras dos mouros pão, castanhas, avelãs. nozes e outros mantimentos, isto para além de ferro e armas, sob pena de morte e confiscação de navios e de todos os bens dos infractores, que reverterão metade para a Coroa, metade para que denuncie a infracção.

Citação:
“Sabede que o concelho e homens bons dessa cidade [Lisboa] nos enviaram dizer que (…)”
Comentário:
A carta parece ter tido origem num pedido expresso feito pelos burgueses da cidade de Lisboa, o que não deixa de ser estranho, pois eles seriam precisamente a classe mais prejudicada pela proibição desse tráfico, o que só por si revela o peso dos argumentos de índole religiosa durante a época e até onde estes prevaleciam sobre os argumentos económicos tão valorizados desde António Sérgio.

Citação:
“por a grande valia do pão que ora vale em terra de mouros”.
Comentário:
Também neste ponto se dá nova ferida à tese económica de António Sérgio. A carência de pão em Marrocos no século XIV explica o seu alto valor.

Citação:
“que forem daqui em diante à Flandres e à Bretanha e a Inglaterra os mestres deles fretam os ditos navios a mercadores estrangeiros e a outros mercadores da terra”.
Comentários:
1) A Flandres, a Bretanha e a Inglaterra eram precisamente as nações que mais alimentos exportavam para Portugal.
2) Este extracto comprova indirectamente a existência de uma numerosa marinha mercante nacional, visto que os seus navios até bastavam para serem fretados ao estrangeiro.

Citação:
“que isto não é serviço de Deus nem honra da santa igreja levarem os navios dos nossos reinos pão e mantimentos aos mouros”
Comentário:
Temos aqui mais uma referência à existência de um “espírito de Cruzada”.

Citação:
“nem castanhas, nem ovelhas nem nozes”

Comentário:
As castanhas, avelas e nozes eram os nossos principais produtos de exportação, ora estes produtos nao vinham da Flandres, Bretanha e Inglaterra, mas de Portugal. Não houve assim um desbio de mantimentos de Portugal.

“nem levem outrosy armas, assim lancas como dardos”
Significa que mercadores portugueses exportavam armas para o Marrocos e que a guerra interna no Marrocos as exigia. Fica por saber se essas armas eram feitas em Portugal ou não.

“e mandamos que a metade dos dictos bens hajam aqueles que os acusarem”.
Quem os acusa são outros mercadores, invejosos do sucesso dos primeiros,
isso significa que: os burgueses estavam divididos…

“percam outrosy os ditos navios que assim fretarem”
Mostra que eram portugueses os navios desse comércio e o número da nossa frota.

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Categories: Economia, História, Os Descobrimentos Portugueses, Sexo Tântrico e Budismo | Deixe um comentário

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