Morangos com Açúcar: Análise a um episódio dos ditos…


(WeHaveKaosInTheGarden!)

Ontem, tive oportunidade pela primeira vez de ver um episódio dos Morangos com Açúcar quase completo. Até hoje, tinha visto apenas segmentos isolados, em dias diferentes, mas nunca um episódio completo. Assim, posso fazer a minha análise, com mais conhecimento de causa… Em primeiro lugar, esta análise é necessária porque quer queiramos quer não, estamos perante um Fenómeno de Massas, iniludível e incontornável entre a juventude portuguesa de hoje, em segundo lugar, esta análise é também útil para compreender a forma como se faz “televisão de sucesso” em Portugal…

1. Os cenários imaculados

Todos os cenários dos MCA são demasiado limpos… Demasiado cirúrgicos… Demasiado arrumados e imaculados. Aquilo não são cozinhas ou salas onde vive gente. As paredes são tão limpinhas, os sofás tão arrumados e os pratos tão ordenados que é impossível a alguém humano viver naquelas “casas”… São cenários demasiado artificiais e irrealistas e neste aspecto, revelam a grande imaturidade da Ficção que se vai fazendo em Portugal. De facto, parecem mais aquários onde andam peixinhos vermelhos do que casas onde moram gente verdadeira…

2. O centro dos enredos: os namoros

Toda a trama foi construída em torno das relações interpessoais de dezenas de personagens que interagem fundamentalmente namorando, tentando roubar namorados ou namoradas alheias e ajudando ou prejudicando os amigos e familiares nos mesmos intentos. Aqui penso que a série até que é realista… Nas idades dos personagens o aspecto do relacionamento sexual é o aspecto predominante na psiqué de qualquer jovem emocionalmente saudável. Nada a dizer neste aspecto.

3. Os pais e o Estarola

No episódio que vi, aparecia uma cena em que uns pais colocavam de castigo um jovem que deixara de estudar, e optara por ficar em casa sem fazer nada… O dito cujo parasita aparentava ter uns bons 17 anos, boa idade para trabalhar, portanto. Os pais encaravam a situação com alguma bonomia, proibiam-no de ir a festas, mas pareciam limitar a sua resposta a este aspecto… Havia aqui uma nítida e devida crítica por parte do argumentista a este tipo de atitude, mas os pais pareciam-me mais Kool do que devia ser… Ou agora é suposto reagirmos assim (sou pai) perante energúmenos destes ou então os autores não ousaram afrontar o seu público-alvo com uma atitude crítica mais evidente. Bem merecida, neste caso… É certo que actualmente, 78% dos jovens até aos 39 anos ficam em casa dos pais, quer porque cada vez é mais difícil encontrar emprego (2/3 dos jovens estão empregados a Termo), quer porque o custo das habitações continua estupidamente alto, mas ficar em casa, sem fazer nada… Sem sequer desenvolver as suas capacidades e competências, estudando num curso técnico ou completando o ensino secundário… É garantir um futuro de falhado, e isso não ficou suficiente claro neste episódio dos MCA.

4. O “colégio”

Todo o enredo deste episódio foi desenvolvido num qualquer “colégio privado”. Parece (li algures) que noutros episódios também surgem cenas e personagens de uma “escola pública”, mas tal não sucedeu neste… E pergunto. Será que a maioria dos jovens deste país frequentem “colégios privados”? O que se pretende aqui? Criar um modelo que não pode ser alcançado pela maioria dos jovens e, consequentemente, favorecer a desilusão a impressão de “falha” porque não se alcançou o Modelo que a Televisão sugere e impõe como “normal”? Já sabemos que muitas famílias vivem muito acima das suas possibilidades para que os filhos possam levar roupas de marca para a Escola, mas agora também querem tornar “Cool” e mandatória a frequência de Colégios Privados?

5. A Festa

Neste episódio, todos os personagens, adultos e juvenis viviam obcecados com a realização eminente de uma qualquer “festa do colégio”. OK! Deve ser mesmo “cota, mas festas, na minha juventude eram mesmo só as de anos dos amigos e não as coisas semi-profissionais que tanto ocuparam do enredo deste episódio. Ou seja, não é uma coisa entre amigos, é uma coisa que mete DJs contratados, espaços reservados, etc, toda a parafernália profissional que se espera que os pais pagam (sob pena de serem rotulados de… Cotas!)

6. O Maniqueísmo das Relações Pessoais

A série parece recheada de personagens ora demasiado “boas” ora demasiado “más”. Ora sabemos que naquilo que alguns dizem que existe e que se chamaria “vida real”, personagens tão maniqueísticas, tão preto-branco, não existem… Todos nós somos “cinzentos”. Temos momentos bons, momentos maus, momento em somos demónios, momentos em que somos boddisatvas… Reduzir um personagem ao seu registo mais absoluto: “bom” / “mau” é reduzir a complexidade e riqueza da vida, é alimentar nos telespectadores a mesma dicotomia nós-outros que conduziu a extremos como os da Alemanha Nazi, em que havia um segmento da Sociedade que era considerado intrínsecamente “mau”: os Judeus. Ninguém, nenhuma etnia ou camada social, é intrínsecamente “má”. Poderá ser nosso inimigo ou inimiga se disputarmos com ele(s) certos interesses ou recursos, mas nunca o será sempre e, sobretudo, nunca o será jamais por natureza, já que todas as pessoas são intrinsecamente… Boas.

7. As duas grandes Ausências: a Cultura e as Preocupações Sociais e Políticas

Este sétimo e último aspecto que gostaria aqui de abordar foi o que mais chocou… Em nenhum ponto deste episódio observei que algum dos personagens presentes, adultos ou jovens, manifestassem qualquer tipo de consciência cívica, política, social ou religiosa. Todos parecem cumprir papéis absolutamente neutros e amorfos nestes campos do Pensamento e da Consciência humana. Ora a Juventude é precisamente a idade dos Homens em que mais brotam e frutificam as grandes Causas, que, frequentemente esmorecem mais tarde, mas é a época das Revoluções, dos Protestos, das Indignações. Nada aqui de semelhante surge no horizonte… Todos estão demasiado preocupados com o “jornal da escola”, com a próxima festa, com esta ou aquela roupagem, ou, sobretudo com o namoro ou namorico de fulano, próprio ou beltrano.

Que qualidade acha que tem a série Morangos com Açucar?
1) Genial
2) Excelente
3) Mediana
4) Medíocre
5)
6) Péssima
7) Telelixo

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Categories: A Escrita Cónia, Sociedade Portuguesa | 14 comentários

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14 thoughts on “Morangos com Açúcar: Análise a um episódio dos ditos…

  1. Estás preparado e consciencializado para receber mais telemóveis de adolescentes que querem participar na série? 😉
    A dos cenários é a mais pura verdade, o meu quarto de adolescente e de muitos amigos meus eram um verdadeiro: I Have Kaos in the Garden…que me desculpe o Kaos. A série é realisticamente irrealista, é feita para ter audiências de manipular e agarrar os adolescentes se nenhum conteúdo didáticoe formativo. vou-me repetir mais uma vez: RISCOS VOLTA, ESTÁS PERDOADO!!!

  2. Viva,

    Curioso que começas a tua dissertação com o aviso que é a primeira vez que vês a novela. E mesmo assim um rol de conclusões, hehe.

    Eu já vi mais do que uma vez e concordo absolutamente com quase tudo o que escreves. Os diálogos são péssimos, as representações piores, os enredos totalmente infantis, o mundo visto como um recreio de emoções puras e nobres, enfim, fico-me por aqui.

    Abraço,

  3. Só para acrescentar que concordo com o comentário anterior ao meu: RISCOS VOLTA, ESTÁS PERDOADO!!!

  4. dae: estou pois!… e também para os vociferantes que se avizinham! (isto é, os “nelos” dos MCA)
    ricardo: já vi várias vezes, mas sempre poucos minutos antes de zappar. Este foi o primeiro (e único) episódio que vi segui do princípio ao fim e por isso, meu caro, o título é “análise a UM episódio” e não “análise aos MCA”…

  5. sauridio

    Pois eu para tornar o ambiente familair mais saúdavel e menos poluido pelos muitos telelixos que por aí andam, tomei uma decisão democrática, democracia esclarecida, aqui em casa é proibido ver morangos com açucar assim como floribelas, a cidadania também passa por aqui…

    Sauridio

  6. super telelixo!

  7. Concordo com todos os aspectos que focou! Por isso, aconselho vivamente a passar no seginte blog, http://antimorangos.blogspot.com, para ver ao ponto a que chegaram os fanaticos da novela! Nao aceitam criticas e insultam os criticos! Tire as suas proprias conclusoes!

    Eu ja tirei as minhas…

    Bom Post!

  8. Mais um bom post. Nunca vi nenhum episódio e por isso não posso criticar conscientemente. Mas já nos poupaste a esse martírio e vieste confirmar o que eu já desconfiava. Telelixo!
    Um Abraço.

  9. Bem, agora só falta os fanáticos darem com este post para virem para aqui com disparates e coixas axim… 🙂

  10. Mas se calhar até já deram… è que já tens 17 votos no genial! Ehehehe!

  11. sá: não! ainda não… usei a mesma votação do último post (por vezes faço isto quando o tema em questão é o mesmo)

  12. Ó meu kido amigo Rui,
    felicito a tua paciência e falta de ocupacão 🙂

    Segundo a crítica dos meus (filhotes) adolescentes isso é tão mau, tão mau, que nem eles têm paciência para ver…

  13. é que depois de tanta celeuma e adoração parareligiosa pelos MCA acabei por ficar curioso com as razões do sucesso da coisa…

  14. Ricardo

    Realmente, a minha opinião em relação aos morangos é negativa. Caí num blogue onde os putos se tratavam abaixo de cab****, filhos da p***, insultavam as mães uns dos outros e etc…
    Acho que isso dos morangos é uma maquina de fazer dinheiro em massa. Eu achava muita piada aquilo quando foi estreia, em 2003… ora bem, tinha 11 anos… Perfeitamente normal gostar daquilo… actualmente acho uma autentica palhaçada… A mensagem que aquilo transmite é que a vida é feita de facilitismos e esta sempre tudo bem. A floribela era mais cor-de-rosa, mas até que era mais real! Em Portugal, já não há boas series como antigamente… Lembro-me do “Medico de Família”, por exemplo…

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