Daily Archives: 2006/12/24

Porque acho que Dom João III foi o mais nefasto dos monarcas portugueses


Imagem: http://upload.wikimedia.org

Já tive ocasião de por estas bandas da Blogoesfera criticar severamente e por várias vezes o reinado de Dom João III… Mas nunca tive ocasião para aprofundar a razão destas críticas, mas agora, aproveitando um comentário da Kaótica tentarei dedicar algum tempo ao assunto…

1. Dom João III embora tenha tido como professores algumas das figuras intelectuais mais importantes da sua época, nunca manifestou interesse pelos estudos, a acreditar nos seus cronistas… Francisco de Andrade, o seu cronista, escreveria “porque escazamente se exergaua nelle a sombra de língua latina”. Isto é, Dom João III, embora tivesse um dos reinados portugueses mais activos do ponto de vista diplomático e das relações internacionais não conhecia a língua franca da época, o Latim… Nem teria manisfestado interesse em o aprender, ao que parece… E não sabendo latim, não poderia ser um homem culto, já que na época quase todos os livros eram escritos nessa língua…

2. Em 1529, no âmbito do Tratado de Saragoça, reconheceu à Espanha a posse das ilhas Molucas, que, de facto, estavam na zona portuguesa delimitada pelo Tratado de Tordesilhas. Assim, e para recuperar a posse de algo que de facto já era português desembolçou 350 mil ducados, uma imensa fortuna para comprar algo que já era seu e um desvio de recursos essenciais para ocorrer a outras numerosas urgências do seu reinado.

3. Embora as Praças de África se revelassem no seu reinado de forma especialmente evidente aquilo que efectivamente sempre tinha sido: um sorvedouro inglório e inútil de homens e dinheiro, manteve a política indecisa dos seus antecessores: Quando se impunha uma expedição em força para conquistar de vez todo o reino de Fez e aniquilar definitivamente o inimigo que desgastava as praças marroquinas ou abandonar totalmente o Marrocos, Dom João decidiu abandonar apenas umas praças, mas manter a maioria… Assim manteve o impasse e o sorvedouro da Fazenda Pública… E quanta falta faziam estes recursos militares no Oriente… E quanta falta faziam estes recursos financeiros na metrópole…

4. Só em 1525 é que convocou as primeiras Cortes (subira ao trono em 1521), e, quando o fez, foi para financiar a grande despesa que o seu casamento com a rainha Dona Catarina provocou e o de sua irmã, Dona Isabel com o imperador Carlos V. Apesar da grave crise económica que Portugal então atravessava as Cortes aceitaram estes novos impostos, no valor de 150 mil cruzados.

5. Durante o seu reinado foram frequentes os abusos na administração da Justiça e a multiplicação dos dependentes ociosos do Alto Clero e da Nobreza levou os Povos a queixarem-se disso várias vezes, sempre sem conseguirem que o monarca se compadecesse e alterasse a situação.

6. Durante o seu reinado a crise agrícola do reinado anterior intensificou-se com o esvaziamento de braços que partiam para o Oriente.

7. Introduziu em Portugal, a nefastíssima Inquisição. Embora a própria Curia Romana na época defendesse uma política de contenção frente aos Cristão Novos, Dom João III, insistiu numa abordagem mais violenta exigindo a capacidade de confisco dos bens dos réus e que não ficasse dependente das regras canónicas referentes ao segredo das testemunhas. Com a instauração da Inquisição, e com a sua acção ao Oriente, criaram raízes para infindos problemas que haveriam de minar a nossa autoridade na Índia Portuguesa, sobretudo em Goa. A introdução do Santo Ofício incentivou o já de si intenso ódio religioso e étnico, contribuindo para uma sucessão de pogroms que incendiaram as judiarias e mourarias portuguesas e que provocou o êxodo de milhares de judeus para o Norte da Europa, retirando a Portugal essa classe de empreendedores e fazendo com que estes – ressabiados – financiassem as expedições que holandeses, flamengos e ingleses conduziam para saquear o Império Português…

8. Embora em 1525 tivesse aceite várias recomendações dos Povos para que fosse resolvida ou diminuída a gravidade da Crise Económica, só passou essas recomendações para Leis em 1939, revelando assim o diminuto valor que dava às Cortes enquanto forma de assistência de governo, isto ao contrário dos seus antecessores, e sobretudo, de Dom João II, sendo provavelmente o monarca português mais centralista da sua época.

9. Nas cortes de 1535, os Povos tornaram a apresentar-lhe as mesmas queixas de 1525, sem excepção, sinal de que não fora capaz de resolver nenhum dos problemas apresentados, e isto apesar de ter um Poder nunca antes detido em Portugal num só par de mãos..

10. No seu reinado a carestia de massa monetária foi constante… Faltava moeda por todo o lado, mas especialmente de metais nobres que eram desviados para o Estrangeiro. Como escrevia João Pedro Ribeiro: “de modo que se não acha hum cruzado nem Portuguez nem moeda de ouro nos ditos reinos”.

11. Nas Cortes de 1535, Dom João III conseguiu dos Povos, mais 100 mil cruzados em impostos extraordinários e isto apesar de graves fomes que assolavam então as maiores cidades do país…

12. Nas Cortes de 1544, novamente convocadas apenas para aprovar a aplicação de impostos extraordinários, repetiram-se todas as queixas dos Povos, mas foi aprovado um novo imposto de 200 mil cruzados, para financiar a “compra” das Molucas, casamentos reais e o esvaziamento dos cofres reais com o perpetuamento das guerras e guerrilhas no norte de África.

13. É no reinado de Dom João III que reside a origem do problema dinástico que haveria de levar à perda da independência após a morte de Dom Sebastião em Alcácer Quibir… O casamento da sua irmã com Carlos V foi a causa primeira da legitimidade castelhana em suceder a Dom Sebastião.

Conhecia estes aspectos do reinado de Dom João III?
1) Sim
2) NãoView Results

Make your own poll

Anúncios
Categories: Economia, História, Movimento Internacional Lusófono | 12 comentários

Site no WordPress.com.

Eleitores de Portugal (Associação Cívica)

Associação dedicada à divulgação e promoção da participação eleitoral e política dos cidadãos

Vizinhos em Lisboa

A Vizinhos em Lisboa tem em vista a representação e defesa dos interesses dos moradores residentes nas áreas, freguesias, bairros do concelho de Lisboa nas áreas de planeamento, urbanismo, valorização do património edificado, mobilidade, equipamentos, bem-estar, educação, defesa do património, ambiente e qualidade de vida.

Vizinhos do Areeiro

Núcleo do Areeiro da associação Vizinhos em Lisboa: Movimento de Vizinhos de causas locais e cidadania activa

Vizinhos do Bairro de São Miguel

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos

TRAVÃO ao Alojamento Local

O Alojamento Local, o Uniplaces e a Gentrificação de Lisboa e Porto estão a destruir as cidades

Não aos Serviços de Valor Acrescentado nas Facturas de Comunicações !

Movimento informal de cidadãos contra os abusos dos SVA em facturas de operadores de comunicações

Vizinhos de Alvalade

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos de Alvalade

anExplica

aprender e aprendendo

Subscrição Pública

Plataforma independente de participação cívica

Rede Vida

Just another WordPress.com weblog

Vizinhos do Areeiro

Movimento informal, inorgânico e não-partidário (nem autárquico independente) de Vizinhos do Areeiro

MDP: Movimento pela Democratização dos Partidos Políticos

Movimento apartidário e transpartidário de reforma da democracia interna nos partidos políticos portugueses

Operadores Marítimo-Turísticos de Cascais

Actividade dos Operadores Marítimo Turísticos de Cascais

MaisLisboa

Núcleo MaisDemocracia.org na Área Metropolitana de Lisboa

THE UNIVERSAL LANGUAGE UNITES AND CREATES EQUALITY

A new world with universal laws to own and to govern all with a universal language, a common civilsation and e-democratic culture.

looking beyond borders

foreign policy and global economy

O Futuro é a Liberdade

Discussões sobre Software Livre e Sociedade