Agostinho da Silva: “Portugal, que é tão característicamente medieval, pelo voluntarismo de seu surgir”

“Ora Portugal, que é tão característicamente medieval, pelo voluntarismo de seu surgir; pela “invenção de país novo” com que se apresenta e ingressa na História; pela vigilante defesa de seus particularismo, levantando em frente das fatais tendências centralistas do rei a muralha dos seus forais; e pela sua confiança no universal valor de uma fé universal.”

página 42

Agostinho da Silva: “Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I; Âncora Editora

1. Esta é ainda hoje a verdadeira essência do carácter que define aquilo a que alguns já chamara a “Alma Portuguesa”: Um Homem Medieval. Não no sentido negativo forjado pelo invejosos Renascentistas italianos, mas no seu sentido original, de Homem Completo porque enquadrava em si o Aspecto Religioso, Moral, Ético e Prático, Operativo e Técnico. E Completo ainda porque vivia de Si e a Si se bastava, vivendo da Terra e das pequenas alegrias que a vida familiar no seio de uma família alargada e estável lhe conferia. Foi só depois da quebra deste forte e coeso núcleo familiar, herdado em linha directa do Império Romano que o Estado teve que ocupar a posição de “protector social” que hoje ocupa em praticamente todas as Sociedades, menos nas ditas “primitivas” onde a Família ainda é hoje o esteio social fundamental.

2. As regiões portuguesas, apoiadas nos concelhos fortes, autónomos e semi-independentes foram a força por detrás das hostes reais que as levaram a consquistar o Sul até Silves e a vencer várias vezes as numerosas e bem preparadas hordas que de Castela afrontavam a juvenil formação portuguesa. Este fervor independentista está ainda hoje particularmente vivo no interior nortenho – muito habituado a bastar-se a si próprio – e no Alentejo. Regiões periféricas por excelência e onde o Poder Central do Paço sempre se manifestou ou desinteressado ou incapaz de agir… Estado Centralista, Portugal de ontem e de hoje, formou-se contra e sobre as autonomias e liberdades municipais, mas sempre sem as conseguir anular ou extinguir… Aliás, a sanha de caciques locais como Pinto da Costa, no Porto e João Jardim, na Madeira muito deve a este forte espírito autonomista das regiões portuguesas, e que deveria ser a maior força da portugalidade e não coisa enjeitada e abafada pelas tendências imperialistas e centralistas de Lisboa.

Categories: Movimento Internacional Lusófono | 2 comentários

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2 thoughts on “Agostinho da Silva: “Portugal, que é tão característicamente medieval, pelo voluntarismo de seu surgir”

  1. Aplaudo para já e assim como não querendo a coisa este post.
    Depois, já ambientado e com a certeza que li O Mestre, deixo um viva bem alto ao Quintanismo.

    De saída, mas sabendo-te grande apreciador de José Gil, aqui deixo duma achega em duas passagens, que certamente te irão deliciar:

    […] A leviandade suscitada pela não-inscrição permite que a lei não se cumpra ou que dela se escape, que os programas não se realizem, que não se pense nunca a longo prazo, que as fiscalizações não se façam, que a administração não se transforme realmente, que os projectos de reforma não se executem, que os governos não governem. Nada tem realmente existência. A não-inscrição induz um tempo social particular, só o presente pontual existe; à sua frente está o futuro que se fará sentir apenas com o surgimento-repetição do presente. O futuro, sobretudo o futuro longínquo, não existe, não tem consistência, não se prevê. Porquê? Porque nada há para se inscrever, nem uma ideia para o país, nem um destino individual.

    (mais à frente e num outro capítulo)

    […] Por isso o país não se desenvolveu realmente, durante estes anos de riqueza que nos foi oferecida de bandeja (claro, com contrapartidas destrutivas, se nada fosse feito). Não operámos nem revoluções radicais na educação (condição primeira do desenvolvimento), nem criámos planos de reorganização da economia, da administração, de reforma fiscal, de investigação científica ou da saúde. Perdemos – estamos a perder – uma oportunidade única. E o nosso frágil tecido económico esboroa-se dia após dia. Portugal arrisca-se a desaparecer.

    Nota minha: para os menos familiarizados com José Gil e que, tiveram a pachorra de ler este comentário, entendam a não inscrição como o nada acontece que marque o real, que o transforme e o abra.

    Abraço.

  2. pires: por cá, o Quintanismo, anda de vento em popa! ou não fosse este um momento de “fim de mundo” e de Crise estrutural… Tempos sempre muito propícios a várias formas de profetismo… e quando mais Portugal se arriscar a desaparecer (nas palavras de José Gil), mas espaço haverá para retornar a si mesmo e a refundar-se naquilo que mais tem de seu: a Alma Portuguesa.

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